Alessandro foi até Karoline, tirou o corpo de sua tia de cima dela e a desamarrou. A garota parecia estar em choque. Seu pai então começou a falar: "- Olhe garota, você foi a escolhida pelo nosso senhor, você deverá fazer a vontade dele. Assim deve ser." Karoline então retrucou: "- Seria mais fácil me matar! Não irei fazer isto." A garota deu um chute no saco do velho e quando ia correr, seu pai a puxou pelo tornozelo a derrubando: "- Nunca sua piranha. Todos acreditaram na minha versão de que sua mãe havia tentado me matar e depois se suicidou. Mas no caso, quem a matou fui eu. Ela tirou você de mim! Logo você, que era a promessa de Baruatã! Ele me disse que minha segunda filha seria a minha principal herdeira e que Anelize deveria ser sacrificada quando crescesse. Se você não vai servi-lo por bem, irá servi-lo por mal." O velho então se levantou e arrancou uma pistola, atirando contra as duas pernas de Karoline: "- Implore pela sua vida, sua alma pertence a ele, implore sua vadiazinha." Atrás do velho, estava a sombra de Anelize, ela segurava algo grande nas mãos. Alessandro rapidamente se virou para atirar, mas não havia ninguém ali. Quando Anelize falou bem perto de seu ouvido: "- Adeus papai." Um facão perfurou o pulmão do velho, a arma caiu de sua mão. E ele caiu de joelhos. Sem tirar o facão do lugar Anelize surgiu de frente a ele: "- Mande lembranças para mamãe e para o seu senhor no inferno. Eu sou a nova deusa desse local." Sem piedade alguma a mulher pegou um canivete e começou a cortar o pescoço do próprio pai. O sangue jorrava num ritmo frenético, a vida do homem desapareceu de seus olhos em alguns segundos, até cair em meio ao seu próprio rio de sangue.

Anelize foi até sua irmã e a colocou na cadeira. Karoline estava pálida, assustada, não sabia o que fazer. Anelize foi até o corpo do pai e pegou o revólver, entregando nas mãos de sua irmã e moldando as mesmas para mirar contra Anelize: "- Vamos Karoline! Acabe com tudo isto! Você é a escolhida. Por isso mamãe te poupou! Você deveria acabar com esta doença de nossa família que se chamava Baruatã. Nunca acreditei na existência dele, essa lenda maldita. Se ele for algum deus, eu sou uma espécie de herege. Eu acreditava no poder de papai, mas vejo que eu era bem mais capaz que ele. Não acredito nisso! Isto é o fim. Afinal eu era uma assassina sedenta por sangue e não uma adoradora patética de um deus sem poder algum. E agora, estou prestes a receber a tal justiça divina em que o papai acreditava. Você é a escolhida dessa entidade patética que nunca teve poder algum sobre mim. Vamos Karoline! Dê um fim a esta traidora. Devo lhe contar algo. Papai matou mamãe, pois mamãe queria me tirar daqui, ela assim como eu percebeu que aquele deus era uma farsa, que servia aos caprichos canibais de papai, por isso ele a matou. Eu nunca fui uma canibal, nunca gostei de carne humana. Ela tem um gosto horrível! Meu prazer estava apenas em observar a vida das pessoas indo embora. Vidas insignificantes e dolorosas que se libertavam de maneira magnífica. É fantástico observar a vida abandonar as pessoas. Eu acredito em mundos felizes fora daqui, mas não creio numa felicidade real para quem acreditasse nessa entidade inútil. Espero que eles paguem por tudo o que fizeram e assim que eu sair desta vida irei satisfeita e feliz, pois fiz bem meu papel de anjo da morte."

Karoline ouviu tudo atentamente. Estava comovida com a história da irmã. Anelize então começou a soltar uma gargalhada e a gritar com força para a garota atirar. Karoline então apertou o gatilho. Naquele momento o mundo pareceu ter paralisado. Anelize permaneceu sorrindo na frente da irmã. Desesperadamente Karoline apertou o gatilho mais algumas vezes sem sucesso algum. Anelize então falou: "-Você e o patético Baruatã falharam novamente. Aquele senhor patético, só lhe resta o esquecimento, pois ele nunca existiu. Já você, irá fazer uma visitinha aos nossos avós." E rindo, começou a enforcar sua irmã. Uma cena angustiante. Anelize observava os olhos de Karoline perderem o brilho da vida, brilho este que sumiu sem direito a um último suspiro.

Anelize estava satisfeita com o resultado de tudo. Ela finalmente havia se libertado da escravidão. Ela agora poderia aproveitar sua vida, poderia ser feliz até o fim. A mulher caminhou em direção a um espelho e olhou fixamente para si mesma. Ela gostava do que via! Seus olhos não possuíam a essência da vida! Seu olhar era frio e vazio como o de um cadáver. Foi assim que ela se convenceu de que ela era O ANJO DA MORTE. Foi assim que ela descobriu que tinha um poder maior do que a da entidade criada por seu pai.

Anelize colocou fogo no Circo 9 e o abandonou.

Caminhou sem rumo pela estrada repetindo a si mesma: — “A principal mentira é a que contamos a nós mesmos”. Sim, Nietzsche tinha razão, pelo menos em partes, ele tinha razão”.

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