O Mistério da torre de cristal
2 Um improvável milagre
Dias depois, lá estava eu de volta ao imponente prédio da Rahner engenharia Ltda, morrendo de medo que houvesse algum engano, que tivessem trocado o meu nome com o de alguma outra garota, que quando chegasse lá, alguém me pediria desculpas pelo erro e me mandaria embora.
Ainda bastante tensa, parei diante da mesma recepcionista, que me atendeu no outro dia.
— Bom dia, preciso ir ao RH, fui chamada para a vaga de recepcionista – contei a ela, pois, apesar dos meus receios, não pude conter a minha animação.
— Parabéns! Você vai gostar muito de trabalhar aqui, conosco. Eu sou Aline – ela me respondeu, com um sorriso verdadeiro, entregando-me um cartão de identificação provisório.
— Obrigada, Aline. Eu me chamo Lívia.
— Eu sei. Está escrito aí – ela me disse com simpatia.
Agora, no 5º andar, diante da mulher de rosto angelical e um jeito diabólico de nome Alice, chegou a hora da verdade.
— Senhorita Lívia Rivera foi, realmente, uma imensa surpresa revê-la aqui, selecionada para esse cargo – disse-me com a voz suave e falsamente simpática. – Mas o que há de fazer? Só espero que possa começar o mais breve possível, já que estamos desfalcados de pessoal.
— Claro, já avisei no meu atual emprego, eles não criarão nenhum empecilho.
— Sendo assim, vamos providenciar tudo para a sua mais rápida admissão.
Depois de preencher um monte de questionários e com uma lista de documentos para ser apresentados, sai de lá, nas nuvens. Era verdade, eu iria trabalhar naquele lugar incrível, com um salário maior do que o meu atual, daria para respirar um pouco, talvez, com o tempo, poderia até voltar a estudar.
Quando retornei para casa, estava tão feliz, que parecia que ia explodir, ainda não podia acreditar. Minha amiga Monique abriu a porta do apartamento dela, assim que me ouviu chegar.
— E então? – perguntou, segurando a respiração.
— Eu fui contrata! – gritei de felicidade.
— Ah, meu Deus! – ela berrou e me abraçou, ficamos pulando de alegria, juntas, no meio do corredor, igual a duas loucas.
— O que está acontecendo aqui? – Eduardo surgiu através da porta, seguido pela mãe, pararam próximos a nós, com ar de espanto.
— Conheçam a mais nova funcionária da Rahner engenharia Ltda, a senhorita Lívia Rivera! – Monique anunciou de um modo teatralmente formal.
— Que bom, Lívia! Precisamos comemorar – Amélia me abraçou, animada, mas, Eduardo só apertou minha mão de um jeito educado, pois, mesmo nós nos conhecendo desde pequenos, ele sempre me mantinha em uma certa distância.
— Parabéns – disse, em um tom sério.
— Obrigada.
— Venha jantar com a gente, Lívia! – Amélia me convidou.
Assim, passamos uma agradável e divertida noite juntos, eu não sabia, mas seria a minha última noite igual àquela.
Alguns dias depois, comecei a trabalhar na recepção da empresa. Nada muito empolgante ou complicado, pegava dados dos visitantes, tirava fotos, fazia registros e ligações, distribuindo cartões de identificação provisórios e sorrisos. A qualquer problema mais sério, o pessoal da segurança estava sempre atento para intervir.
A única exigência era manter o uniforme impecável: saltos altos, meias finas, maquiagem leve, cabelos presos e arrumados, sem um fio fora do lugar.
— Vocês são a primeira impressão da nossa empresa, então, precisam estar perfeitas, por que é isso que temos que passar para os nossos visitantes: Perfeição e eficiência – nossa supervisora, Lucinda, repetia essas palavras como um mandra.
Até aí tudo bem, mesmo que precisasse me policiar o tempo todo, para manter cada fio de cabelo no lugar, a saia reta e alisada, o batom sempre retocado, pois, queria muito manter uma boa impressão e, principalmente, o meu emprego.
Já estava trabalhando um pouco mais de um mês e havia recebido o meu primeiro salário, estava no final de mais um dia de trabalho quando aconteceu. Eu andava para chegar ao vestiário no subsolo, carinhosamente apelidado de calabouço pelos funcionários, a fim de trocar minha roupa e ir embora, afinal, precisava pegar duas conduções até chegar na minha casa, no momento que ele surgiu, de repente, não sei de onde, andando apressado, enquanto esbravejava com alguém ao telefone, sem prestar atenção por ia, me deu um encontrão, me fazendo, literalmente, levantar voo, caindo de joelhos no chão, no meio do corredor, completamente atordoada e dolorida. Ele se despediu, rapidamente, da pessoa com quem conversava ao telefone e correu para me ajudar.
— Desculpe-me! Eu não a vi – disse, preocupado, ao me ajudar a levantar – Você está bem?
— Sim, estou – respondi, sem tanta certeza.
— Deixe-me ajuda-la – Gentilmente, ele me pôs de pé, me apoiando. – Você está realmente bem?
— Sim – respondi, olhando para as minhas roupas, com medo de tê-las estragado, quando vi minhas pernas e o enorme buraco na minha meia bem na altura do joelho. – Meu Deus! Meu único par de meias destruído!
Aí, tive vontade de chorar, pois não tinha outra e nem dinheiro para substitui-la.
— Eu lamento muito mesmo. Como posso ajudá-la? – Ele estava penalizado, olhei para o seu rosto, é essa foi a primeira vez que prestei atenção nele. Era alto, bonito, queixo quadrado, nariz reto e cabelos escuros ondulados, tinha certeza, que nunca o vi por ali antes. O seu terno caro era mais um sinal que ele deveria ser um dos altos executivos da empresa, um daqueles que passam diretos por nós, sem nos ver.
— Não se preocupe, eu darei um jeito.
— Tem certeza que não posso fazer nada por você? – ele insistiu.
— Nada mesmo, vai ficar tudo bem, mesmo assim, obrigada – respondi, sem certeza.
Ele me deu um sorriso simpático.
— Então, até a próxima, Lívia. – Como ele sabia o meu nome? Eu o interroguei com o olhar. – A plaquinha. – E apontou para a placa com o meu nome na minha roupa.
— Até a próxima – Ele se afastou e não me disse o seu nome.
Sai apressada, antes que alguém me visse assim e fui direto ao vestiário, verificar de perto o estrago, era bem pior do que eu imaginava. Rezei para que Monique tivesse um par de meia finas para me emprestar, o que achava bastante improvável, então, só me restaria dar uma explicação a minha supervisora e esperar que ela entendesse.
Como eu previa, Monique não tinha meias finas para me emprestar, teria que trabalhar sem elas. Assim, no dia seguinte pela manhã, já no vestiário, estava aflita, tentando imaginar qual seria o melhor momento para falar com Lucinda e não tinha ideia de como ela reagiria, talvez, me desse até uma advertência. Estava sentada no banco do vestiário, quem sabe, à espera de um improvável milagre, quando aconteceu.
— Lívia, mandaram entregar isso para você – Aline estava na minha frente, segurando um pacote de uma dessas lojas bem chiques.
— Para mim? Quem mandou? – Fiquei surpresa.
— Não sei. Um entregador do Céu trouxe e pediu para dar a você – explicou, dando de ombros.
O Céu era como chamávamos o andar da diretoria, o mais alto do prédio, praticamente, inacessível aos meros mortais.
Olhei para o pacote, um tanto ressabiada, imaginando que fosse algum tipo de brincadeira dos meus colegas de trabalho e o tirei das mãos de Aline.
— Abre logo! – ela ordenou, impaciente.
Percebi outros olhares curiosos sobre mim, então comecei a abrir o pacote, com muito cuidado, pois, nem imaginava o que estaria lá dentro, provavelmente, alguma piada de mau gosto, uma espécie de trote para a novata.
— Meias! – eu falei alto, quando vi cerca de uns dez pacotes de meias finas, delicadas e muito caras, entre elas, encontrei um bilhete que dizia:
“Desculpe-me mais uma vez”.
Não tinha assinatura, não saberia o nome do gentil homem que trombou comigo, fiquei muito curiosa, gostaria de agradecê-lo, pessoalmente, mas como?
— Quem mandou isso para você? – Aline ficou abismada.
— Eu não sei o nome dele. Ontem, nós nos esbarramos e eu cai e minhas meias rasgaram.
— Queria que fosse comigo. – Aline olhou para o relógio. – Já estava ficando tarde.
Escolhi um dos pares e vesti, elas deslizaram suaves pela minha pele, se assentando muito bem, o meu tamanho exato, estiquei as pernas para apreciá-las melhor, ficaram lindas e perfeitas, mesmo que ninguém as visse por de trás do balcão, fiquei toda vaidosa.
No meio de uma manhã normal, estava terminando um registro de entrada de um visitante, quando...
— Então, elas serviram bem? – Ouvi aquela voz, levantei a cabeça e deparei com aquele sorriso brilhante e perfeito.
— Ah! Você? Sim, e ficaram maravilhosas, eu adorei, mas não precisava todo esse incomodo. Muito obrigada.
— Era o mínimo que poderia fazer, afinal, a culpa foi toda minha por suas meias terem rasgados. Tenha um bom dia, Lívia.
— Bom dia e obrigada – Dei-lhe o meu melhor sorriso, quando ele se afastava, então, eu me lembrei que me esqueci de perguntar o nome dele mais uma vez. Ao olhar para o lado, imaginado que, talvez, Aline soubesse, eu a encontrei, literalmente, de queixo caído, interroguei-a com o olhar.
— Você não tem ideia de quem é ele, não é? – sussurrou, sacudi a cabeça em negativa – Ele é Vitor Rahner, CEO da empresa e neto dos fundadores.
— Você quer dizer que ele...
— Sim, ele é o dono da Rahner.
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