O Mistério da torre de cristal
6 Seremos muito felizes
Quando voltei para o trabalho na segunda-feira, estava angustiada, pois não tinha ideia do que iria acontecer. A minha primeira providência foi deixar o meu anel de noivado bem escondidinho em casa, não podia andar de ônibus com aquilo, fora as perguntas que teria que responder na empresa, pensaria nisso depois.
Já no calabouço, quer dizer, no vestiário no subsolo, fui pega de surpresa, quando uma das garotas entrou com um exuberante buquê de rosas vermelhas.
— Isso aqui é para você, Lívia.
— Para mim! – Banquei a inocente, apesar de já imaginava de quem poderia ser, tirei as flores da mão dela e olhei o cartão.
“ Para a futura senhora Rahner, seja bem-vinda. Victor”
Mesmo com todos os olhos sobre mim, não disse quem era o remetente,
— Alice, pediu para você ir ao RH. – Marta, a portadora do buquê, me comunicou.
— Para quem você está dando, Lívia? – Cintia, uma da assistente da assistente brincou.
— Acho que é para o diretor de negócios – alguém palpitou.
— Aquele coroa barrigudo, não – minha colega Aline interveio. – Acho que para o diretor financeiro. Ele é mais gatinho.
— Pare com isso, garotas! – Eu pedi, mas elas não me ouviram.
— Hummm! Talvez, esteja dando para o próprio Victor Rahner – Verônica, uma das assistentes do financeiro, cogitou. – Mas, não pode ser porque ...
— Por que não? – perguntei, sem pensar.
— Porque... bem, só são boatos, mas ...
— Lívia, Alice está esperando por você, agora – Marta me apressou, impaciente. Tentaria continuar aquela conversa depois.
Levantei depressa e fui para o 5º andar, onde fica o RH, sem saber a resposta, provavelmente, apenas uma fofoca. Alice já estava me esperando, sentada à sua mesa com o seu ar impassível.
— Entre e sente-se, Lívia – ela me convidou, com aquele ar superior, não entendia porque aquela mulher me deixava intimidada. Definitivamente, essa mulher não gostava de mim.
— Você mandou me chamar, Alice?
— Sim, Lívia. Infelizmente, não tenho boas notícias para você. – E ela me encarou com uma expressão de falso pesar, segurei o ar no peito. – Lamento em comunicar que não precisaremos mais dos seus serviços nessa empresa. – Percebi um certo brilho de contentamento nos olhos dela, ao me aquelas terríveis palavras.
Eu não entendi, fiquei olhando para ela, como se tivesse falando outro idioma, então, caiu a ficha.
— Eu estou demitida – minha voz saiu baixa e vacilante.
— Infelizmente, sim, Lívia, sem mesmo aviso prévio.
— Mas, por quê?
— Eu não sei, só recebi ordens da diretoria, para que sua demissão fosse sumária e imediata. Você deve ter feito algo que desagradou muito a alguém importante.
Estava tonta, como podia ser? Havia acabado de voltar de uma viagem romântica e ficado noiva do CEO da empresa. Ou seria só uma jogada de Victor? O anel seria uma espécie de cala-boca, para evitar um processo de assédio. Precisava falar com ele, imediatamente, tirar aquela história a limpo.
— Tudo bem com você, Lívia. Quer um pouco de água?
— Não, só preciso sair um pouco daqui.
— Eu entendo, se quiser ficar um pouco sozinha. Tome isso – Ela me entregou uma caixa de lenço de papel. – Leve o tempo que precisar, eu espero por você.
Deixei a caixa de lenço de papel em cima da mesa, Alice para trás e corri para o elevador, apertei o botão do último andar. Estava ansiosa, com raiva e muita confusa, sem entender o que estava acontecendo, enquanto, o elevador subia depressa. Quando a porta abriu, sai cautelosa, nunca estivera ali antes, naquele andar de decoração requintada e pessoas poderosas. Parei diante da mesa de uma das elegantes secretárias, eu já a conhecia de vista, mas nunca nos falamos.
— Gostaria de falar com o senhor Victor Rahner — Pedi e ela me olhou com estranheza, diria até com soberba, devia estar imaginando que uma relé recepcionista queria com o CEO da empresa.
— Tem alguma entrevista agendada, senhorita.
— Não, mas...
— Lamento, mas, infelizmente, o senhor Rahner só recebe com agendamento prévio.
— Você não entende, é urgente!
— Como eu disse...
No entanto, não esperei ela acabar de falar, passei direto por sua mesa e entrei, com passos firmes e determinados, no iluminado Céu, ou melhor, no andar da diretoria. A moça saiu apressada, atrás de mim, tentando me alcançar.
— Pare, imediatamente, senão vou chamar a segurança!
Porém, eu não dei ouvidos, apenas continuava indo em frente, sem saber a direção, as outras pessoas me olhavam, espantadas, até que um dos seguranças, com cara de mal, se interpor no meu caminho, aí eu parei. Contudo, para minha sorte, uma porta se abriu e Victor apareceu através dela, me fitou com espanto.
— Lívia, o que está fazendo aqui?
— Eu tentei impedi-la, senhor Rahner – a secretária se justificou, com subserviência.
— Victor, preciso falar com você – disse, sem esconder a minha irritação.
— Podem deixar. Obrigado, Jeniffer. Venha, Lívia – Ele me deu passagem para o interior da sua sala, enquanto todos nos observavam.
— O que foi isso, Lívia? – Ele tinha um ar divertido, ao mesmo tempo, que meu queixo caía ao admirar a sua sala lindamente decorada, bem maior do que o apartamento onde eu vivia.
— Você mandou me demitir? – Voltei a realidade.
— Sim, mandei.
— Por quê? Como eu vou viver?
— Sente-se e acalme-se, Lívia – Ele puxou uma cadeira para mim. – Quer um pouco de água? – Assenti com a cabeça e ele me serviu em um copo de cristal, que bebi com sofreguidão. – Está mais calma?
— Não. Como vou pagar minhas contas sem esse emprego?
— Eu já pensei em tudo, você receberá uma mesada, direto na sua conta. Afinal, não posso deixar a minha futura esposa trabalhar como recepcionista da minha empresa.
— Eu não posso aceitar isso!
— Claro que pode, será o melhor para todos nós. A propósito, onde está o seu anel?
— Eu deixei em casa, não posso usá-lo no ônibus.
— Está vendo? É disso que estou falando! Querida, você, agora, é minha noiva e, em muito breve, será a minha esposa. Sou um homem rico e importante, minha noiva não pode andar de ônibus, providenciarei um motorista para você. E mandarei minha secretária, lhe entregar uma lista de documentos para que podermos providenciar seu passaporte.
— Passaporte?
— Sim, para nossa viagem de lua de mel.
—Lua de mel?
— Sim, estou pensando em um lugar bem romântico, talvez, exótico, mas deixarei a sua escolha, pois se você concordar, poderíamos no casar antes do fim do ano.
— Mas, será daqui há três meses?
— Teremos tempo suficiente para os preparativos. Preferiria uma cerimônia simples, pela manhã, com poucos convidados, o que você acha?
— Eu não sei, tudo está acontecendo tão rápido.
— Não vamos nos preocupar com isso, por enquanto. Vou mandar um carro levá-la em casa. E mais tarde, irão buscá-la para um jantar íntimo na minha casa, só nós e alguns amigos.
— Na sua casa? – Eu nunca havia estado lá.
— Sim, já é hora de você conhecer o seu futuro lar. O carro a apanhará às 7 em ponto. — Ele pegou o telefone. – Bianca, peça um carro para levar a minha noiva até a sua casa. – Desligou e olhou para mim de um jeito cândido. — Querida, fique tranquila, pois tudo dará certo. – Ele alcançou a minha mão e a segurou entre as suas. – Seremos muito felizes, juntos.
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