Quando a porta do elevador se abriu, Victor surgiu na minha frente, para a minha surpresa total, com uma expressão aborrecida. Precisava pensar rápido, inventar uma boa desculpa para minha presença ali, ele deu um passo e parou bem diante de mim, olhando nos meus olhos, tive que me concentrar para não desviar olhar, pois, ele saberia que estava mentido.

— O que está fazendo aqui, Lívia?

— Como soube que eu estava na empresa?

— Eu sou o dono desse lugar, as pessoas gostam de puxar o meu saco, sendo assim, alguém me informou que você estava aqui.

— Eu já ia procurar por você – dei-lhe um sorrisinho confiante, mas ele não retribuiu.

— E o que você está fazendo nesse andar?

— Nada – banquei a dissimulada.

— Como nada? – Ele estava cada vez mais aborrecido com minhas evasivas.

— Por favor, Victor, você vai estragar a surpresa!

— Que surpresa?

— Está bem! Você não vai desistir mesmo! Pois bem, se quer mesmo estragar a surpresa. Eu estava planejando algo especial para o nosso aniversário de casamento. Uma festa – respondi em tom falsamente animado, ele me encarou desconfiado.

— E o que uma visita ao RH da minha empresa tem a ver com isso?

— Queria saber quem foi o responsável pela minha contração e, consequentemente, pelo nosso casamento, mas, Alice não sabe, disse-me que as fichas das candidatas foram para a diretoria.

— Para diretoria? Estranho, normalmente, lá não se envolvem com a contratação de uma mera recepcionista. Desculpe-me, querida, não quis ofendê-la.

— Tudo bem.

— Mas, eu desconhecia esse fato – Victor demonstrava real surpresa com aquela revelação, apesar disso, ainda estava em dúvida se podia acreditar nele.

— Deixa para lá. Era só uma ideia boba. Vamos almoçar?

— Claro.

Após um agradável almoço com meu marido, onde falamos amenidades e sobre a nossa festa de aniversário, voltei para casa mais aturdida do que antes, alguém da diretoria havia me escolhido para aquela empresa, mas, pela cara de espanto de Victor não havia sido ele. O carro me deixou na frente da portaria, caminhei em direção ao elevador, através do hall de entrada, lá agora, existia um lugar vazio onde antes estava a estátua, que foi retirada às pressas, afinal, ninguém queria um túmulo no hall do seu prédio, ela foi emprestada a um museu. Esperava o elevador quando ganhei uma companhia.

— Como vai, senhora Rahner? – Olhei para o lado e deparei com a secretária da senhora Valdez. Qual era mesmo o nome dela? – Lembra-se de mim? Vanessa.

— Sim, claro que eu me lembro.

— História surpreendente aquela da estátua, não é mesmo? A pobre moça ficou ali por décadas e passávamos por ela todos os dias, sem saber.

— Sim, realmente, uma história surpreendente.

Entramos no elevador, que iniciou sua rápida ascensão.

— Senhora Rahner, seria muito petulância da minha parte ir visitá-la, à tarde? A senhora Valdez dorme, por várias horas seguidas, e não tenho mais nada para fazer, sendo assim, seria bom poder conversar com alguém da minha idade.

— Evidente que pode me visitar, Vanessa. Eu, também, fico muito entediada sozinha, à tarde.

— Então, posso ir depois das três, já que o horário da sesta de madame é das 3 às 5?

— Eu estarei esperando por você.

— Obrigada e até mais tarde, senhora Rahner – Ela se despediu ao sair do elevador.

Considerei que seria bom ter alguém para conversar, já que, atualmente, mal conseguia falar com Monique, envolvida com um novo namorado, e Eduardo só conversava comigo através ne monossílabos. Algumas vezes, era convidada para enfadonhos chás e festas beneficentes com senhoras da sociedade, onde era vista como uma estranha entre elas devido à minha classe social, uma usurpadora, só sendo aceita por meu afortunado casamento. Sabia que precisava retomar a minha vida, não podia continuar assim, para isso já havia pesquisado a volta a faculdade, pretendia terminar o meu curso e me formar, mas teria que esperar o começo de um novo semestre.

Na hora combinada, Vanessa apareceu, havia café e sucos, em vez de chá, acompanhados por alguns petiscos, na aprazível varanda do apartamento. A tarde estava agradável, não fazia muito calor, havia uma leve brisa e podíamos contemplar a cidade iluminada pelo sol, lá embaixo, em uma vista privilegiada. Sentamo-nos nas cadeiras, em servi suco em um copo longo cheio de gelo para nós duas.

— Não sei como agradecer a sua gentileza em me receber na sua casa, senhora Rahner. Muitas vezes, convivência com a senhora Valdez é bastante difícil, poderia dizer até enervante.

— Por favor, me chame apenas de Lívia. São manias da idade, eu sei disso, porque fui criada pela minha avó, apesar de ser uma pessoa bastante afável, ela também tinha pequenas manias.

— Mas, essas pequenas manias ficam muito mais acentuadas com a idade.

Pela primeira vez reparei em Vanessa, ela era jovem e bonita, bem-educada, com certeza, poderia ser uma boa companhia, quem sabe, até uma amiga.

— Você trabalha para a senhora Valdez, há muito tempo?

— Sim, há uns dois anos, ajudou a pagar minha faculdade, mas não é algo que queira fazer para sempre.

— Deve ser bem tedioso?

— Sim, principalmente nesse lugar, onde nada acontece.

— É um prédio onde as pessoas prezam pela privacidade.

— Sim, com certeza. No entanto, devo confessar que era sempre interessante encontrar com o senhor Rahner e o amigo dele nas áreas comuns do prédio – ela deu uma risadinha nervosa.

— Amigo de Victor? Alex?

— Acho que sim. Ele ficava muito por aqui, antes de vocês se casarem. Os dois parecem ser bem amigos. Várias vezes, encontrava os dois descendo do elevador, pela manhã.

— E a mulher, irmã de Alex, Verônica, ela vinha muito aqui?

— Eu a vi poucas vezes.

Essa informação me incomodou bastante, não sabia o que pensar, ou melhor, não queria acreditar o que veio na minha cabeça, no mesmo instante, não podia haver algo além disso. Eles eram apenas amigos, companheiros de farra, o que que tinha de mais, Alex passar várias noites no apartamento de Victor?

Como uma estranha coincidência, recebo uma mensagem do meu marido, avisando que Alex e Verônica virão jantar conosco naquela noite.

Não falo nada, contudo, Vanessa deve ter decifrado minha expressão contrariada, espera algum comentário.

— Teremos convidados para o jantar – satisfaço sua curiosidade.

— Posso ajudar em algo?

— Você sabe que não será necessário. É só ligar para governança e tudo será providenciado.

— Sendo assim, eu a deixarei agora. A senhora Valdez já deve estar quase acordando e ela não gosta de ficar sozinha. Obrigada pela tarde agradável, Lívia.

— Obrigada, você, pela companhia, Vanessa.

Assim, que minha convidada saiu, telefonei para providenciar o jantar, logo em seguida, senti um sono absurdo, dormiria em pé se demorasse muito a me deitar, fui para o quarto e me joguei na cama com roupa e tudo, mergulhei em um torpor profundo, sem sonhos.

Despertei com as luzes do quarto sendo acesas, abri meus olhos e coloquei a mão na frente para protegê-los da claridade, a imagem de Victor entrou em foco, olhando para mim com uma expressão surpreendida, bem na minha frente.

— O que houve, Lívia? Você está bem?

— Sim, só estava com muito sono. Que horas são?

— Já passa das sete horas. Nossos convidados já devem estar chegando.

— Dormir demais. Vou tomar um banho e verificar o jantar – disse, levantando-me bem devagar, com vontade de continuar dormindo

— Só se preocupe em ficar pronta, eu verifico o jantar – Ele se voltou e saiu, enquanto eu me arrastei até o banheiro.