O Milagre de Sunshadow

3 O Milagre de Sunshadow


Notas iniciais
Um conto original da saga Oitarrna. Ilustração de capa de Gustave Doré.

O palácio de Vila Miles havia tornado-se frio e silencioso como um cemitério. Os salões, que antes eram palco de jantares luxuosos, transformaram-se em locais quase inóspitos. Nobres reuniam-se em pequenos grupos e teciam teias que visavam prender o futuro de Vila Miles, incertos. As paredes tornaram-se finas e as diversas vozes que antes gritavam sobre a honra e glória humana transformaram-se em sussurros.

Aldo Krestel foi afastado de seu cargo como mestre de armas e foi impedido de deixar o Palácio de Pedra. Não estava oficialmente preso, embora, na prática, estivesse prestes a encarar um julgamento.

Se Aldo fosse outro tipo de homem, sua vida poderia ter tomado rumos bastante inesperados, pois, por mais incrível que parecesse, o povo passou a gostar bastante dele, ainda mais por não saber de um terço da verdade sobre o que havia acontecido durante a justa de Bradden e Egbert Miles.

O povo fofocava sobre aquele dia. Uns falavam que o príncipe mileano lutou contra uma besta demoníaca e que foi salvo pelo corajoso mestre de armas da família Miles, um homem excepcionalmente capaz que tinha a vida desperdiçada por sua função. Outros diziam que o próprio rei tentou tirar a vida do filho e que, num ato improvável, Aldo o desafiou e Eddard não tivera coragem de enfrentá-lo. Em todas as versões da história, Aldo Krestel era um herói e Eddard Miles um monstro. Os nobres e burgueses sabiam bem que o legado da família Miles estava por um fio, e Aldo parecia ser uma peça ideal para um possível golpe no poder real.

A bem da verdade, o mestre de armas havia recebido diversas ofertas para ser um protagonista de um movimento que retiraria Eddard Miles do poder; contudo, nunca teve desejo de ser rei. Aldo havia dedicado sua vida a espada e há muito tempo antes disso soube que morreria com uma em punhos. Não teria mais prazer em governar do que teve treinando o príncipe mileano. Seu desejo sempre foi estar na guerra, matando elfos e propagando a superioridade humana. Recusou cada um dos nobres que o prometeram riquezas e poder, mesmo com todos eles explicitando que essa seria a única maneira de evitar sua morte pelas mãos do monarca humano.

E para seu crédito, isso não era bem verdade. A realidade é que Eddard Miles não fazia ideia do que fazer com Aldo. O odiava profundamente, mas seria isso motivo o bastante para mandar cortar sua cabeça? Pensando no povo que venerava o mestre de armas e o enxergava como um louco, não. Aquilo seria um ato estúpido que poderia gerar uma revolta popular ainda maior do que a que já ocorria. O que faria então? Recompensá-lo ou dar atrás em sua própria palavra seria um desrespeito a honra do nome Miles, e exilá-lo, assim como havia feito a Bradwyn, também não parecia adequado.

Eddard não recebeu nenhum conselho verdadeiramente sábio de sua corte, que diminuía e se omitia em todos os assuntos reais a cada dia que se passava. A verdade é que consideravam o rei um homem instável. Alguns previam que o fim da dinastia Miles chegaria em meio a uma guerra civil; outros conseguiam ver um golpe a coroa, enquanto alguns acreditavam que as forças do exército humano não seriam mais capazes de deter os elfos. E, na verdade, todos eles tinham razão, visto que todas essas possibilidades nunca foram mais reais em quase quinze mil anos de guerra.

No entanto, Eddard ainda era rei de Vila Miles, e, enquanto sua coroa repousasse em sua cabeça, ainda que de forma bambeante, ele agiria como monarca que sempre foi. E, em um dia que parecia ser só mais um como todos os outros, Aldo Krestel foi convocado para se apresentar diante do rei.

Escoltado por dois cavaleiros trajados com pesadas armaduras, Aldo caminhou pelo corredor real sendo observado por olhos atentos, que, em sua maioria, eram de nobres que genuinamente sentiam pena do mestre de armas.

Ele então se reencontrou com Eddard, que, sentado em seu trono de pedra, flanqueado por seus nobres e conselheiros, o fitou de cima a baixo. Aldo fez um cumprimento digno ao rei, que nada falou. Um silêncio sepulcral tomou conta de todo castelo. Todos os fantasmas humanos pareciam vigiar aquela conversa.

— Aldo Krestel segundo, filho de Aldo e Derby Krestel; mestre de armas da família real mileana… — Ao lembrar-se deste último título, Eddard também se recordou do dia em que Aldo o conquistou, matando sua amada Hellewy. Ele então se entristeceu e falhou levemente a voz, o que foi suficiente para Aldo atacar.

— Vossa Majestade… — O mestre de armas falou e se ajoelhou. — Antes de mais nada, eu gostaria de dizer algumas palavras, se tal honra me puder ser concedida.

Os nobres se entreolharam e fitaram o rei, que, assim como eles, sabia que tal pedido não poderia ser negado sem que grande desgraça caísse sobre si, fosse despejada pelos deuses ou o povo, que certamente ouviria falar sobre o que estava sendo discutido naquele salão. Eddard então consentiu com a cabeça.

— Eu gostaria de tomar este momento para agradecer. Posso dizer com certo orgulho que cresci durante seu reinado. Reinado de um homem forte que soube lidar com cada trapaça élfica que foi jogada diante de nós. Eu obtive a honra de ser nomeado como mestre de armas depois de matar aquela maldita espiã que espreitava nosso castelo, e sinto que, de diversas maneiras, não me mostrei grato o suficiente a Vossa Majestade. Por tal razão, gostaria de propor um acordo. Gostaria que a recompensa que entregaria a mim por ter salvo a vida do príncipe Egbert não seja entregue; pelo contrário. Eu gostaria de retribuir a bondade que teve comigo durante todos esses anos, me voluntariando a uma jornada para matar Elaavil Wolfhard. — Os nobres, que cochichavam, de repente pasmaram com a ousadia de Aldo, que, subitamente, sacou uma adaga, o que quase fez com que os cavaleiros o retaliassem. — Faço este acordo de sangue contigo hoje, Eddard. Eu só voltarei a pisar em Vila Miles, meu lar que tanto amo, quando tiver a cabeça daquele maldito elfo entregue a ti em uma bandeja. Faço essa promessa a ti.

Aquele era um golpe duro para o rei, mas que poderia ser articulado por um homem como Aldo, que, além de ser um forte soldado, também possuía uma inteligência acima da média. Ao não definir a condição do mestre de armas como encarcerado, Eddard havia aberto uma brecha da qual Aldo se aproveitou muito bem.

Aldo acreditava ter posto o rei em um xeque-mate depois daquilo, mas a grande verdade é que Eddard nunca esteve disposto a jogar aquele jogo. Até o momento em que o mestre de armas falou, seu destino estava completamente incerto. No fim, Vossa Majestade se viu extremamente satisfeito com aquele acordo. De qualquer forma, sabia que jamais veria aquele maldito homem novamente.

Eddard levantou-se e foi de encontro ao mestre de armas, na mesma medida em que ambos eram observados com afinco pelos presentes na sala, que não sabiam o que aconteceria. Eddard tomou a adaga das mãos de Aldo e muitos acreditavam que seria com o objetivo de cortar sua garganta, mas não foi o que ocorreu. O rei fez um corte razoavelmente profundo na palma da mão do mestre de armas, que não reagiu, e sangue caiu por suas vestes. Em seguida, o rei tratou de fazer um corte igual na palma de sua mão direita.

— Que os Deuses sejam testemunhas de cada palavra que me disse hoje, Krestel. — Eddard falou e cumprimentou Aldo, e seus sangues se misturaram na medida que o juramento foi concluído. — Pois eu farei a justiça Deles se não cumprir com esta promessa. — Os nobres passaram a se levantar ao perceberem que nenhum assassinato ocorreria, ao menos não naquele momento, e de repente o salão real parecia tão cheio e caloroso como era nos antigos dias da glória humana. — Todos saúdem Aldo Krestel. Não mais soldado, não mais mestre de armas. Saúdem Aldo Krestel segundo, Regicida!

Sonoros berros tomaram conta dos ouvidos de todos os presentes do salão, na mesma medida em que o sangue do rei e de Aldo caíam no chão, enquanto Eddard erguia o braço do “regicida”.

Apesar de nunca ter admitido a ideia nem em pensamento, Aldo realmente achava que ia morrer. Pensou que colocaria Eddard em maus lençóis com sua proposta; jamais imaginou que ela realmente seria aceita. Não conseguia nem fingir que havia incomodado o rei e o fizera mudar de ideia no último segundo. No fundo sabia que, se Eddard o quisesse morto, sua cabeça já estaria enfeitando as muralhas de Vila Miles.

E por mais que tantos nobres tivessem comemorado a missão de Aldo, nenhum deles foi capaz de ajudá-lo a concluí-la. Isso porque Eddard foi esperto o bastante para afastar o mestre de armas de cada um deles e rapidamente enviá-lo a sua jornada. Aldo também não encontraria ajuda pública, afinal, uma missão com objetivo de matar o rei não poderia ser confessada ao povo. Ele estava sozinho, condenado por si a cometer um assassinato quase impossível.

Por consequência de suas próprias palavras, Aldo tinha como companhia para Vila Wolfhard apenas seu próprio equipamento; que incluíam uma armadura e sua espada bastarda, uma égua velha e incapaz de correr por longos períodos de tempo, quatro soldados mileanos e um sub-tenente. Era esse o grupo e equipamentos que supostamente terminariam com a guerra de Wolfhard contra Miles.

Era mais que natural que tantos soldados fossem despachados para aquela tarefa, mas a presença de um sub-tenente surpreendia Aldo, que não esperava que o reino despusesse de um oficial para uma missão que provavelmente seria um gigantesco e longo fracasso. Contudo, o mestre de armas sabia muito bem que nenhum daqueles homens havia sido enviado para auxiliá-lo. Pelo contrário. Eles estavam ali para garantir que ele cumprisse sua missão, ou morresse tentando.

Seria mais do que suicídio procurar o reino élfico pela estrada convencional, onde o conflito era maior — assim como também seria inviável seguir pelas montanhas que quase dividiam os reinos — portanto, foi decidido que o caminho mais adequado para chegar a Vila Wolfhard seria percorrendo a mata que separava Megiro do Mar Denso, se atentando ao possível posicionamento do inimigo e viajando de forma contínua.

Quem também procurou formas alternativas de se viajar foi Bradden. O jovem perdeu completamente o rumo depois da luta contra o próprio irmão. Com o escudo em mãos e a espada repousando na bainha, fugiu correndo de Vila Miles após ser visto vagueando ensanguentado pela cidade. Ele foi perseguido e praticamente expulso.

Diferente de Aldo Krestel e seu grupo, Bradden não tinha um mapa para indicar seu caminho, e, na realidade, nem sabia se realmente tinha um caminho para chamar de seu.

Vila Wolfhard parecia ser um destino natural. Afinal, se sua metade humana havia-o rejeitado, poderia ser mais feliz com a metade élfica. Entretanto, seu primeiro desafio seria chegar lá, já que não fazia ideia de onde ficava o reino élfico.

Sem saber se ia para norte, sul, leste ou oeste, Bradden fugiu de Vila Miles mais rápido do que conseguia raciocinar. Só parou de sentir-se seguido ao chegar nas favelas humanas, que, naquela época, estavam super povoadas e chegavam a rodear Vila Miles por quase todos os lados.

Bradden pensou em mendigar ali, mas temeu que o local ainda fosse Vila Miles o bastante para não o considerarem exilado. Então seguiu seu caminho até não haver mais civilização, seja ela qual fosse. Deparou-se com pinheiros gigantes e lá adentrou, finalmente sozinho.

Estava na Floresta da Madeira Apodrecida, que tinha tal nome por consequência de uma magia necromante realizada lá há milhares de anos. Para Bradwyn, que desconhecia tal história, o único incômodo real do local era o cheiro da madeira, que condizia com o nome da floresta. Ou assim pensava, antes de enfrentar lobos pela primeira vez.

Descobriu rápido demais que estava no território deles. A primeira batalha que travou com os animais foi razoavelmente bem sucedida pois, apesar de assustado, Bradden era habilidoso o bastante e tinha equipamento com eficiência suficiente para matar esses animais e manter a maioria afastada, ao menos por algum tempo. Ele estava no território das criaturas e percebeu que elas queriam vingança pela morte de seus companheiros.

Ainda assim, não havia apenas podridão e trevas na Floresta da Madeira Apodrecida, longe disso. Também havia muita beleza e encantos, que Bradden enxergou traduzidos em uma égua.

A égua era de uma linda pelagem dourada clara, que em alguns momentos confundia-se com branco. Era bastante robusta, o corpo era musculoso, retangular, mas também esbelto e alto, embora não tão alto como Bradwyn, que se aproximou dela e viu o cavalo observar o fundo de seus olhos amarelos, como se os entendesse e se conectasse com eles. Bradden domou o animal com a mão direita sob sua testa, que retribuiu o gesto aproximando-se dele.

O meio-elfo perguntou-se então se aquela era sua metade élfica agindo. Era raro ouvir humanos elogiando elfos em qualquer contexto que fosse, mas era senso comum saber que eles tinham grande conexões com os animais, o que Bradden terminou julgando como correto.

Verdade ou não, a viagem seguia difícil. Isso porque o exilado príncipe humano nunca foi cavaleiro, e a égua, apesar de domada, ainda era selvagem, o que dificultava a locomoção de ambos. Além disso, o meio-elfo também tinha dificuldade com o dia a dia da vida de exilado. Bradwyn demorou duas semanas até conseguir fazer sua primeira fogueira, e mais outras duas para aprender a fazer fogo com o mínimo de consistência.

Contudo, o bastardo mileano conectava-se mais e mais com a natureza a medida que perpassava a floresta, por mais lúgubre que ela fosse, e aos poucos passou a apreciá-la; ainda mais quando conseguiu comer carne de veado e lobo cozida com mais frequência e aprendeu quais temperos da terra melhor iriam com cada proteína.

Na solidão, foi feliz. Descobriu que não precisava de muito mais do que aquela égua para sentir-se bem. Estava finalmente longe dos hematomas, insultos e fofocas que foram seus companheiros durante os dezesseis anos que passou naquele maldito castelo. O mesmo castelo que também havia tirado a vida de sua mãe.

Pensar nisso entristecia Bradden. Julgava que sua existência poderia ser totalmente diferente se a mãe estivesse viva. Imaginava-a colocando o pai nos eixos e obrigando-o a reconhecê-lo como seu filho, também fazendo todos os nobres do castelo respeitarem-no por quem ele realmente era.

Incerto sobre a eficácia dos próprios pensamentos, Bradwyn assustou-se ao perceber o que estava a sua frente.

Chegando pelo lado leste do reino, o meio-elfo de repente deparou-se com Vila Wolfhard em todo o seu esplendor. Uma grande e extensa muralha amarelada protegia a cidade por todos os lados, tendo soldados elfos a patrulhando continuamente, assemelhando-se a formigas trabalhadoras. Bradden não conseguia ter dimensão do tamanho total do reino de onde estava, mas julgava ser bastante grande, ainda mais por ter visão do palácio Wolfhardiano lá dentro, projetando-se acima de tudo que estava dentro daqueles muros.Imponente, o castelo demonstrava seu tamanho ao tocar as nuvens, muito acima do povo élfico e suas muralhas. Conseguia ver torres de vigias projetadas por todo corpo do palácio, que, constituído de mármore, madeira e pedra, refletia o sol nos pontudos telhados de cada torre.

Bradden, montado em sua égua, seguiu o muro, procurando a entrada. Reparou que os guardas da muralha o vigiavam, mas nada disseram, tampouco se opuseram a sua aproximação.

Chegando a entrada do reino, Bradden olhou para trás e descobriu que já estava em território Wolfhardiano há algum tempo. Isso porque vilas numerosas e populosas se estendiam atrás dele, incluindo casas, fazendas, comércios menores, mas também pequenas fortalezas, provavelmente militares, terminando onde a estrada convencional seguia.

A frente, Bradden podia ver algo um tanto mais parecido com o que lhe era descrito sobre Vila Miles. Depois da entrada, guardada por dois soldados trajados com armaduras pesadas, via comércios e um grande movimento, que variava de grupos de viajantes, vendedores de poções e pergaminhos, todos eles cercados por lojas, tavernas e hotelarias. Diferente de Vila Miles, onde a maioria das construções era de pedra e decoradas por madeira nobre, as instalações élficas eram quase todas de uma madeira vibrante e cheirosa, o que deixava o reino inteiro com um aroma intenso de árvore. O meio-elfo, maravilhado por aquela vista, deu carinho a sua égua e fez menção de entrar no reino, mas apenas menção, pois foi impedido pelos guardas, que opuseram o ato colocando suas lanças frente a ele.

— A cidade não está aceitando novos visitantes no momento. — Um dos guardas falou, num tom surpreendentemente suave.

—Senhor… — Bradwyn falou com temperança. — Viajei de bastante longe para chegar até aqui…

— Consigo imaginar isso. — O homem interrompeu o meio-elfo e falou olhando para suas vestimentas, que refletiam o tempo que Bradden passou largado em terra e lama. — Mas são ordens do rei, rapaz.

— Será que posso falar com alguém? Queria muito entrar na cidade, eu nunca estive aqui, eu… na verdade, minha mãe…

— Meio-elfos não são bem vindos. — As palavras cortaram Bradwyn como uma faca. — Eu sinto muito, garoto, mas são tempos de guerra e há muito a se perder. Pode explorar todos os comércios perto do porto, mas não está autorizado a entrar. Novamente, eu lamento.

Bradden teve de se controlar muito para não chorar. De repente, toda dor do abandono o atingiu como um raio, pois percebeu que não pertencia a lugar algum. Estava condenado a viver como uma pessoa elfa demais para ser humana e humana demais para ser elfa.

Bradwyn escoiceou o cavalo e zarpou, rápido como um vento amarelo. Sua égua se conectou ao coração dele e não titubeou. Desviava de árvores, pulava obstáculos e corria, como se a vida de ambos dependesse disso. Vendo árvores mais esverdeadas e também menores do que aquelas que estava acostumado a enxergar na Floresta da Madeira Apodrecida, deixou-se chorar, se lembrando de todos aqueles que o abandonaram. O pai, os irmãos, e até mesmo a mãe. Sua égua dourada era tudo o que ele tinha agora.

E foi ela a responsável por levá-lo ao que ele acreditava ser lugar nenhum, mas não era. Não soube quanto tempo se passou. Podiam ser horas, dias, semanas ou até mesmo meses em que ele passou em cima de seu cavalo. Só saiu de cima da égua quando caiu, exausto e faminto, diante do velho condado de Sunshadow.

Para sua sorte,uma boa alma recolheu-o do chão árido da vila e o levou para casa, afim de não deixá-lo morrer como um indigente. A égua o seguiu até onde conseguiu.

Quando acordou, sentiu-se num sonho. As costas não doíam mais. Estava aquecido e teve alívio até nos lábios, que, outrora rachados pela viagem, agora estavam úmidos como os de um bebê. Naquele momento, parecia que tudo que faltava para sua vida estar completa era o amor de sua mãe. Pensar nela o fez lembrar da égua, que, por sua vez, o fez lembrar da realidade.

Abriu os olhos de súbito e ergueu o tronco de cima da confortável cama em que dormia. Viu que estava em uma casa de madeira, em um salão grande, bem decorado com móveis rústicos e tapeçarias no chão. Sua cama estava rente a uma lareira. Ao seu lado, conseguia ver um elfo sentado em uma poltrona bem próxima da cama;ele era negro, de cabelos crespos longos e barba por fazer. Por ele ser um elfo, Bradden não soube dizer ao certo quantos anos tinha, mas parecia certo dizer que havia acabado de entrar na vida adulta. O elfo tomou um pequeno susto ao notar a confusão de Bradwyn.

— Acalme-se, rapaz. Está tudo bem! — O elfo falou.

— Quem é você?! O que está acontecendo?

— Meu nome é Johnatan. Nós te encontramos caído de sua égua bem na frente do condado. Você está em Sunshadow. Andrei, nosso clérigo, tratou de você. Estava bem desnutrido e tinha uma febre que não queria passar. Aqui é minha casa.

— Clérigo? — Bradden só tinha tido o privilégio de ser curado por um clérigo quando era criança, depois de um dos golpes de Egbert ter sido mais profundo do que parecia. — Eu… não tenho dinheiro.

— Rapaz… — Johnatan falou, percebendo o nervosismo de Bradwyn. — Eu… não deve ser nada fácil ser meio-elfo, não é? — Bradden não soube o que responder. — Não queremos seu dinheiro, garoto. Estava necessitado e, felizmente, você deu sorte.

— Sorte?

— Sim. Mais uma semana e provavelmente nosso clérigo não estaria mais aqui para te auxiliar. Nosso condado foi escolhido para ser um posto avançado na guerra, e Andrei será enviado para auxiliar em certos pontos do conflito.

— Eu realmente… realmente não vou precisar pagar? — Bradden não estava acostumado com gentilezas.

— Nenhuma moeda, rapaz! — Johnatan deixou escapar uma sonora gargalhada. — Pelos Deuses, esses dias estão cada vez mais estranhos.

— Por que diz isso? — O meio-elfo falou, finalmente baixando a guarda.

— Bom, primeiro você chega aqui desmaiado de cima de um cavalo… — A fala o fez acender um alerta.

— Minha égua! — Gritou. — Ela está bem?

— Está, claro que está, bem guardada e alimentada num estábulo não muito longe daqui. — O homem falou e tranquilizou o rapaz. — É um baita animal que você possui. Dá para ver que ela gosta muito de ti. Ela até quis entrar aqui dentro para não perder os olhos de você. Qual o nome dela?

— Eu… não pensei nisso.

— Dá azar não dar nome para nossas montarias, rapaz! — Ele falou e Bradden o fitou com desconfiança. — Enfim. Como eu ia dizendo… — Retomou o assunto. — Primeiro, você aparece desmaiado aqui sem mais nem menos, e agora…

A porta da casa onde estavam foi abruptamente aberta com violência quando um soldado a empurrou com o ombro. De repente, mais de dez soldados wolfhardianos invadiram o lugar e começaram a olhar ao redor, vasculhando. Johnatan mal conseguiu falar, tamanho o susto. Bradden tinha o coração na boca.

— O que diabos está acontecendo aqui? — Johnatan se levantou e falou, mas nenhum dos soldados prestou atenção nele.

— Limpo! — Quem falou foi o principal soldado que vasculhou a casa. Seu rosto estava coberto por um elmo estreito prateado, da mesma cor que o restante da armadura pesada. Bradden podia ver que cabelos vermelhos desciam das laterais do elmo, caindo até os ombros do soldado.

De repente, mais dez ou quinze guardas adentraram o recinto, escoltando um elfo. Bradden nunca tinha visto alguém tão velho quanto aquele elfo. Era, definitivamente, muito mais impressionante que um homem de cem anos. Talvez tivesse sido um homem alto na vida adulta, mas sua postura havia se tornado deveras encurvada, quase corcunda, e seu tórax era grosseiro, destoante do restante do corpo, que era esguio e coberto por um gibão esverdeado, ornamentado em suas bordas com roxo escuro. Seus cabelos, completamente brancos, eram longos, apesar de terem uma enorme falha bem no centro da cabeça do elfo, onde estava também uma coroa dourada, de pontas afiadas na parte superior de corpo, que, apesar de simples, não deixava de impressionar por ser uma coroa. Bradden demorou um tempo para raciocinar.

— Vossa Majestade! — Johnatan falou e se ajoelhou perante o rei, que sorriu, mostrando como a face estava flácida, quase como borracha, ainda que tivesse uma visível feição de preocupação no rosto.

— Forças mileanas invadiram o local. Não sabemos quantos são ainda. Aquele grupinho de aventureiros está prestes a entrar também… — O soldado ruivo falou enquanto passou os olhos mais uma vez pelo salão e viu Bradden. Dessa vez encarou o garoto, reparando então em suas orelhas. No entanto, era um soldado experiente, e não reparou apenas nisso, como também na espada e armadura que estavam no canto da sala, ao lado da cama de Bradden. Armadura com brasão e leão mileano estampados.

De repente, o soldado sacou a espada.

Todos estavam exaustos pela viagem. As provisões acabaram bem antes de chegarem ao seu destino, e estavam incertos sobre o caminho. Podiam ter mapas, mas havia grande risco de terem se perdido enquanto passaram perto do epicentro do conflito. Tiveram de se esgueirar para não serem avistados por nenhuma tropa élfica, e ainda faltava muito para estarem seguros.

Aldo odiava aquela viagem. Não só por toda complicação inerente a ela, como também por não ter outra escolha. Sua outra opção era a morte. Ainda assim, era frustrante pensar em como Eddard o havia vencido.

Enquanto viajava ao lado daqueles homens que no fim haviam tornado-o um prisioneiro, Aldo arregalou os olhos ao notar que tinham sido vistos por outros soldados.

Estavam numa floresta de carvalhos wolfhardianos, densa e fechada. Conseguia ver dez ou mais cavaleiros montados circularmente a ele e seus homens. Todos tinham desembainhado suas armas, e haviam também arqueiros com flechas apontadas na direção de suas cabeças. Ninguém disse absolutamente nada.

O sub-tenente fitou Aldo, como se quisesse ler os olhos do antigo mestre de armas e decidir se ele estava prestes a tentar fugir, se render ou morrer com uma arma em mãos. Mal sabia ele que Aldo não via nenhuma opção além da última. Um dos adversários se aproximou.

Colocando-se a frente dos membros do grupo, o rosto do soldado foi visto, ao que um raio de luz —escapando de nuvens pesadas de uma chuva que ainda viria — revelou um rosto jovem, de alguém talvez recém chegado aos trinta anos de idade, e, mais importante do que isso, humano.

Todos se entreolharam por um breve momento, logo desembainhado todas as armas. Um dos soldados riu de alívio, o que levou a mais e mais riso.

— Pelos Deuses… — O jovem falou, tão aliviado quanto qualquer outro soldado. — O que é que vocês estão fazendo em território inimigo? — O soldado falou olhando para o sub-tenente, mas foi Aldo quem respondeu.

— Poderia estar perguntando a mesma coisa. Como se chama? E por que não há nenhuma insignia em sua armadura?

— Sou Dalton Whigmar terceiro, senhor. — Falou passeando os olhos pela armadura de Aldo, que também não tinha insignias. — Pelo bem da hierarquia, posso dizer minha posição, se disser a sua.

— Sou Henry Rolton, sub-tenente deste humilde esquadrão. — Aldo foi cortado pelo superior que pareava o cavalo ao lado dele.

— São reforços? — Depois da falta de resposta, Dalton continuou. — Como prometido, sou capitão deste esquadrão, senhor. Se não estão aqui para nos ajudar, o que fazem aqui?

— Nós… — O sub-tenente pensou por um determinado momento, parou, encarou Aldo e então proferiu. — Somos uma força especial enviada para… para matar Elaavil Wolfhard. — Dalton demorou um tempo para perceber que Henry não estava brincando.

— Do que diabos está falando?

— É verdade, capitão. São ordens do rei, proferidas após… um pacto entre ele e este aqui. — Falou enquanto apontava a cabeça na direção de Aldo.

— Ordens do rei? Eu deveria saber se ordens tão especificas a algo tão próximo ao que fazemos… — Parou a fala, percebendo que estava revelando demais.

— Pode continuar o raciocínio, soldado. — Aldo instou.

— É capitão. — Dalton falou com autoridade. — E é bom que haja um bom motivo para não ter revelado seu nome e posição, soldado.

— Eu sou Aldo Krestel segundo, anterior mestre de armas da família real mileana, servidor do exército e da coroa de Vila Miles há dezesseis anos, juramentado de sangue à Eddard Miles com a promessa de regicídio contra seu inimigo. — Dalton não respondeu. — E eu ordeno, pela promessa de sangue que fiz com Vossa Graça, que revele seus objetivos e os objetivos de seu esquadrão.

— Se o que diz é verdade…

— Estes homens são servidores do exército mileano e não me permitiriam mentir. Nem eles nem esta mão. — Falou apontando o palmo cicatrizado na direção do capitão. — Negar-me de cumprir minha promessa é negá-la ao próprio rei e aos Deuses.

A facilidade com que deuses e reis se interviam a resolver os problemas de Aldo apenas com suas palavras era de invejar até mesmo os maiores paladinos e clérigos. Ou bardos. A contragosto, o jovem capitão foi convencido de ceder os segredos de seu batalhão.

— Nós estamos infiltrados nessas árvores há anos, senhor Krestel. Somos uma força de inteligência e concluímos a vontade de Vossa Graça, que era de encontrar uma falha, uma brecha nas defesas élficas, qualquer coisa, algo que pudesse fazer com que a guerra acabasse da forma mais inesperada possível… — Aldo já tinha ouvido falar do batalhão pelos corredores do castelo, mas acreditava ser um mito. — Por anos, esse trabalho ingrato rendeu pouquíssimos frutos. Alguns, até mesmo dentro de nosso próprio esquadrão, acreditavam que a nossa existência era uma inutilidade para a guerra que assola nosso povo. Pelo menos até hoje. Pois estamos correndo de volta para o posto avançado mais próximo para avisar que encontramos uma brecha. Elaavil Wolfhard está em Sunshadow, com proteção mínima. — Os olhos de Aldo brilharam.

— Sunshadow? E porque diabos vocês não invadiram o lugar imediatamente?

— A proteção é mínima, mas não é nula. Acreditamos que ainda seria suficiente para se opor aos nossos números. Como eu disse, somos um batalhão de inteligência, não de combate. As ordens primárias são para aconselharmos o reino, não tomarmos decisões próprias. Além disso, nossas tropas diminuíram ao longo dos anos. Generais específicos, sem ciência do rei… realocaram uma grande parte da nossa tropa para pontos mais “úteis”. — O capitão parecia envergonhado.

— Não importa… — Aldo falou, ainda impressionado com a informação. — Os Deuses escutaram as nossas preces, garoto. Especialmente as minhas. Pois hoje, mataremos o maldito elfo e acabaremos com a guerra.

— Antes de sair, ordenei que nossos arcanistas colocassem um cristal que impedisse o uso de magia na área, assim, teremos certeza de que o rei não vai se teleportar. Também pedi para que enviassem uma mensagem ao reino informando de nossa situação. Ainda assim, nossos números são reduzidos.

— Você fez tudo certo, rapaz. — Falou, sem o antigo ódio no coração que guiava a maior parte das suas ações. — Você tem os homens, você destruiu a chance do covarde escapar com seus magos, e agora você tem a mim! Cavalgaremos juntos não na direção do conflito, da batalha ou da morte, mas sim da vitória! A vitória e a morte de Elaavil Wolfhard!

De repente, todos gritaram, até mesmo os soldados que escoltaram Aldo pela viagem e mal falaram com ele durante esse período. Subitamente tornaram-se um só, um homem forte, poderoso e orgulhoso, um retrato da antiga Vila Miles que um dia já foi comum a eles. Não só acreditavam, como agora sabiam que seriam eles a matar o elfo e pôr fim a rixa que destruía suas famílias. Seriam heróis incontestáveis por toda eternidade.

Ao chegarem na cidade, não se enrolaram. Reuniram todos os homens e traçaram um plano rápido, para que não houvesse chance dos elfos perceberem a surpresa. Só haviam tropas armadas, pois os magos foram encarregados de proteger silenciosamente o cristal que impedia que magia fosse usada no local.

Então, com os planos bem acordados e cientes que fariam história, fitaram o condado uma última vez, e todos sacaram as espadas.


— Não! Por favor! — Até mesmo Bradden havia se assustado com a velocidade que pulou da cama e correu na direção da espada e o escudo, ainda que não tivesse coragem de bradá-los. Descobriu que tinha amor pela própria vida.

— Quem é você, meio-elfo?! Identifique-se imediatamente! É um espião?

— O quê? Não! Eu sou… sou…

— Senhor, por favor! — Johnatan interviu. — Se minha palavra serve de qualquer coisa, este jovem não é uma ameaça! Chegou até nosso condado praticamente desnutrido, não é um espião!

— Então porque é que este maldito meio-elfo tem um leão mileano no escudo?! Diga-me! — Johnatan se assustou com a fala do soldado. Preocupado com o estado de Bradden quando o mesmo chegou, não havia olhado para o equipamento do meio-elfo por mais de meio segundo.

— Silêncio! — Por mais velho que parecesse, Elaavil Wolfhard demonstrava ainda ter bastante vida no corpo, com uma voz grossa que não aceitava o contrário de sua vontade. — Você, garoto, afaste-se da espada imediatamente. — Bradden obedeceu. — Agora você, capitão, guarde sua lâmina.

— Majestade…

Não me faça repetir!— O capitão então obedeceu. — Agora, responda-me calmamente. Qual é o seu nome?

— Meu nome… — O meio-elfo então percebeu que nenhum nome pertencia a si. Bradden podia ser seu, mas ainda não parecia certo, ainda mais quando deveria ser acompanhado pelo sobrenome Miles. Então, a mentira que contou genuinamente não se pareceu como uma. — Não tenho nome, senh… Majestade. Sou um bastardo, rejeitado por meu pai e minha mãe. Os equipamentos que trouxe comigo roubei de um soldado errante enquanto vinha para cá, assim como sua égua. Não sou ninguém, Majestade.

Elaavil não suavizou suas expressões com as palavras do rapaz. O capitão ruivo continuava desconfiado. Johnatan pareceu estranhamente magoado pelas palavras de Bradden.

— É um ladrão de cadáveres, então. — Decidiu o rei. — Podem até ser cadáveres humanos, mas continua sendo um ladrão.

— Deveríamos matá-lo, Vossa Majestade. Estamos em uma situação muito ruim. Se os mileanos entram aqui e ainda temos um infiltrado deles…

De repente, um dos soldados que guardava a porta a abriu e se afastou, permitindo passagem de três rapazes.

Por serem elfos, deviam ser bem mais velhos que Bradden, ainda que não parecessem. Usavam roupas exóticas. O mais normal do grupo era um elfo de cabelos loiros que trajava uma armadura com peitoral reforçado e insignias de espadas cruzadas, símbolos de Eibar, a deusa da guerra. O colega imediatamente ao lado estava melhor armadurado, pois até mesmo a cabeça estava coberta por um elmo estreito. O último colega, mais atrás, não usava armadura, e sim um capuz que lhe cobria quase todo rosto. Claramente não eram soldados, mas certamente também não eram civis.

— Quase todos os guardas da cidade foram derrotados em combate. — O elfo com os símbolos da guerra falou. — Um deles nos pediu para que comunicássemos essa mensagem, afim do rei escapar.

— O rei não pode sair daqui. Já o teríamos teleportado se fosse possível. Vocês deviam ter procurado os malditos magos que estão sabotando nosso feitiço! — O soldado ruivo proferiu com bastante raiva.

— Fizemos o que nossa guarda ordenou. No entanto, de bom grado voltaremos ao campo de batalha, seja para proteger o rei ou procurar os tais magos.

— Está ficando tarde demais… quantos são?

— Devem ser dez, talvez quinze a mais do que os elfos que estão aqui presentes.

— Não são tantos assim. — Observou Elaavil.

— Não, não são. — Concordou o capitão. — Vocês ficarão aqui. A guarda real ficará encarregada de matar os homens que invadem esse condado. Vocês irão proteger o rei com suas próprias vidas. Sua entrada no exército wolfhardiano depende disso. Compreendido, Andrei?

— Sim, senhor! Vou rezar pela intervenção de Eibar. — O elfo falou com obstinação.

— Eu quero ir também! — Bradden falou e, de repente, todos olharam para ele.

— Eu quase tinha me esquecido que você estava aí. — O ruivo falou, colocando a mão na bainha da espada, mas sendo impedido pelo rei.

Não. — A fala e o olhar de Elaavil deixavam claro que ele não seria desafiado pelos próprios homens. O monarca então fitou os olhos amarelos de Bradwyn. — Rapaz… porque quer se colocar na batalha por mim?

— Como disse ao senhor… — O meio-elfo suava frio. — Sou um bastardo. No lugar do amor de minha mãe ou da consideração de meu pai, recebi castigos e surras. Aonde quer que eu fosse, eu era lembrado que eu não era um deles. Se, durante toda minha vida não fui humano, poderia, de alguma forma, este ato me transformar em elfo?

— Palhaçada…

Silêncio! Falará quando eu lhe der permissão para falar! — O rei repreendeu seu capitão. — Estes são tempos confusos. Talvez você já tenha se perguntado, ou esteja se perguntando neste exato momento, o que você é. Com sinceridade, não poderá achar em mim, sua família, ou qualquer um além de ti, uma resposta adequada. As vezes, também me pergunto se sou elfo o bastante. — Bradden não conseguiu esconder a surpresa no rosto depois da fala do rei. — Podemos não admitir, mas não somos mais os mesmos elfos conectados com a natureza que éramos logo após o expurgo dos dragões. Até mesmo antes dessa guerra, nós mudamos como povo por influência dos humanos. Conheço elfos que tem nome e sobrenome mileanos. Algumas crianças de hoje em dia amadurecem como humanos. E se não houvesse nenhuma conexão entre nossos povos, nenhum amor, ainda que mínimo, tipos como você não existiriam! Pelos Deuses, nossa espécie mudou biologicamente! Se tudo é assim tão incerto, quem sou eu, ou qualquer pessoa, para lhe dizer que não é um elfo? Ou um humano?

O mundo havia parado para Bradwyn. Ainda sentia os olhares pesados que corriam por si e também por trás do rei, que sabiam que estavam demorando demais naquela conversa, com risco da casa de Johnatan ser invadida e todos eles terem uma morte terrível. No entanto, nada daquilo parecia importante. Por uma vez na vida, o meio-elfo se sentia acolhido.

— Eu lhe prometo que, caso negue minha oferta, nenhum mal cairá sobre ti. Nenhum de meus homens levantará a espada contra ti, e também estará livre para ficar conosco e correr risco de morrer, ou fugir pela floresta em busca de viver. — Respirou fundo, como se o falatório o tivesse cansado. — Mas se é um real desejo do seu coração e está em par com os Deuses, eu lhe prometo, lhe prometo pelo sangue de minha família, que será um verdadeiro elfo, e que lhe daremos o nome de um. Tem minha palavra.

— Eu aceito. — Bradwyn falou com firmeza, ainda que se controlasse para não chorar.

— Capitão! — Exclamou em voz alta. — Não precisa mais se preocupar com o rapaz nos trair e me matar aqui neste casarão. A partir de agora ele é um dos nossos. Ou, melhor dizendo, um dos seus.

O plano estava correndo maravilhosamente bem. Os guardas mal armadurados e mal treinados que protegiam o condado cederam com facilidade. Contudo, Aldo sabia que eles não se comparariam a guarda real wolfhardiana, uma das forças mais temidas da guerra, conhecidos por lutarem usando lâminas e magia com quase o mesmo nível de expertise. Contudo, Dalton e seu esquadrão haviam retirado o arcanismo de cena ao terem desfeito da magia do local por meio de cristais mágicos. Entretanto, Aldo se certificou de que teria mais uma camada de proteção contra a guarda real.

Marchando como deuses em Sunshadow, o “batalhão” de Aldo e Dalton não parecia ser grande o suficiente para terminar uma guerra, mas era de número igual aos soldados que saíam de um grande casarão de madeira.

Há uma distância de duas ou mais pequenas casas do condado, os elfos formaram uma linha horizontal rente a mansão que Aldo imaginava estar guardando o rei. Cada um dos elfos usava armadura pesada dos pés a cabeça, com grandes reforços de ferro em seu peitoral e ombreiras, prateada em todo seu corpo; intimidante, mesmo de longe.

Contudo, Aldo estranhou uma figura destoante do restante dos soldados. Este não usava armadura pesada, e sim uma cota de malha bicolor, guardas de aço no joelho, e um elmo azul com algo entalhado no corpo. Até mesmo as armas portadas eram estranhas: uma espada longa e fina de aço azulado e guarda bem trabalhada, além de um escudo circular com uma espécie de espigão que Aldo não conseguia identificar com clareza de onde estava. Antes que convencesse a si de que era realmente ele, Dalton gritou.

— Disparar! — Flechas voaram dos telhados das casas de Sunshadow. A maioria dos lares daquele condado eram humildes e baixos, contudo, em uma batalha, os homens dificilmente olham para cima.

Apesar da ideia dos arqueiros ter sido dele, afim de surpreender os inimigos, ainda que diminuísse as tropas que enfrentariam os elfos frente a frente, Aldo se irritou por ter sido Dalton quem os convocou para disparar; mas não por ineficiência dos arqueiros, claro. Mesmo com a chuva que de repente banhava todo o condado,o antigo mestre de armas havia visto com clareza que pelo menos quatro elfos haviam sido atingidos em cheio pelas flechas, na mesma medida que a formação deles foi desfeita por completo.

A formação de Aldo e Dalton parou por um instante, ouvindo gritos de elfos, que, apesar de terem ido se esconder por trás de muros e proteções, ainda deviam estar sendo castigados pelos arqueiros. Depois de um tempo em que não ouviram mais as lamúrias de seus inimigos, finalmente se sentiram livres para avançar.

Não faltava muito para chegar ao casarão que separava os humanos de sua paz. Se corressem, chegariam lá em instantes, contudo, nenhum deles o fez, e todos sabiam que isso ia além de simples disciplina militar. Ao mesmo tempo em que estavam diante da mais avassaladora vitória humana em todos os milhares anos de guerra, todos também temiam algo, por mais que não soubessem o quê ou porquê.

Uma grande parte das casas de Sunshadow eram germinadas, e, onde estavam, os lares em que os arqueiros disparavam formaram praticamente um corredor até a mansão em que Elaavil finalmente poderia ser morto.

E, então, de repente, mais gritos puderam ser escutados. Menores, mais abafados, mas gritos ainda assim. Os soldados caminhavam em passos curtos, precavidos, rezando para que os gritos fossem de quaisquer elfos que ainda remanescessem contra os arqueiros. Um dos soldados berrou, e um vulto pareceu voar de uma casa para outra, logo acima da cabeça dos soldados. Aquilo havia irritado Dalton.

— Nós vamos matar o seu rei, elfos nojentos! Vamos matar ele e cortar sua cabeça! — A fala fez Aldo se lembrar de seu antigo general, quando ainda era um jovem soldado, que sempre obrigava os homens a cortarem as cabeças dos inimigos. Uma tática útil para não ver um adversário ser ressuscitado.

De uma das vielas entre uma casa e outra, um soldado alto de cabelos ruivos gritou e jogou sua espada contra a garganta de Dalton. A espada era de aço grosso, mas curta, e o elfo a bradava rente ao antebraço, como se fosse uma adaga. A lâmina atravessou o aço, cota de malha e carne do capitão humano, e seu sangue quase respingou nos olhos de Aldo.

Ele vinha acompanhado do resto das tropas élficas, que ainda eram de um número considerável. Atacavam os mileanos pelo flanco direito, matando mais três outros além de Dalton.

Aldo conhecia as táticas da guarda real wolfhardiana. Lutavam com armas menores que o padrão e deixavam uma das mãos livres, geralmente para o uso de alguma magia, ofensiva ou defensiva. Eram um dos poucos esquadrões reais que lutavam com lâminas e magia. Pelo contra feitiço realizado pelo batalhão de Dalton, não teriam o arcano como seu aliado naquela batalha. Aldo percebeu que, naquela situação, seria isso o que definiria o fim da batalha.

— Não recuem! Atacar!

O homem que estava tão perto de ser reconhecido como regicida gritou, na mesma medida que correu para frente e lançou sua espada contra o soldado ruivo, que berrou ao que a espada bastarda decepou uma parte de seu braço esquerdo. Aquele grupo não estava acostumado a travar as batalhas tão de perto. Eram um batalhão que castigava os inimigos de longe e só ia para perto para finalizar os adversários. Tinham tido o ímpeto de marchar tão violentamente por estarem sem magia, imaginando que surpreenderiam o inimigo, o que teria dado certo se Aldo não tivesse lido tão bem a situação.

Houve morte, sangue e tripas dos dois lados, mas o mestre de armas estava certo. Aquele grupo não estava acostumado a lutar sem seus feitiços. Travavam a batalha como se tivessem magias de proteção em sua disposição, mas não tinham. Perdiam membros do corpo e as próprias vidas ao contarem tanto com a magia.

Apesar de ter sido atingido significativamente no ombro, Aldo ainda tinha a cabeça no lugar, assim como seus homens, embora não a maioria.

Dalton havia sido o primeiro a perder a vida, assim como grande parte de seus homens. Curiosamente, nenhum dos soldados que acompanharam o mestre de armas durante a viagem tinham morrido. Ao lado do próprio Aldo, formavam um grupo de nove soldados restantes contra apenas um rei. Parecia mais do que suficiente.

Acreditavam já ter vencido. Viam os sorrisos no rosto de Aldo enquanto o mesmo passava a espada em um elfo que estava caído no chão. Contudo, ele não era o último. Pois Bradwyn estava fadado a tornar-se elfo, e já se considerava um, pois sabia que, não importava o que acontecesse, não se deixaria morrer nas mãos daqueles homens.

A chuva havia engrossado, e muito. O chão de terra de Sunshadow já havia há muito virado lama. Bradwyn sentia geladas gotas d’água caírem em seu elmo enquanto ele apontava a espada na direção dos homens, que ainda não tinham-no visto. Aldo foi o primeiro. Custou a acreditar.

— Me diga que não é você. — Aldo falou, e o restante dos soldados estranhou. Só então viram que ainda havia um último inimigo, mas o mestre de armas fez sinal para que não atacassem. — Moleque de merda. Viu só? No fim, eu sempre estive certo sobre você. Assim como a cachorra da sua mãe, você é um elfo que não tem nada de humano! — Aldo cuspiu no chão, e ficou surpreso ao perceber que Bradwyn não havia respondido a nenhuma de suas provocações, como da última vez. — Mas eu não sou assim tão cruel. Não importa como você chegou aqui, não importa, eu te deixo ir. Está livre e, da minha parte, perdoado. Vá procurar algum outro lugar para se exilar, pois em breve Vila Wolfhard será Vila Miles também!

Aldo falou e deixou uma gargalhada escapar, mas nenhum de seus homens o acompanhou. Estavam nervosos com a obstinação daquele gigante meio-elfo, corpulento, bem equipado e parado como uma estátua de pedra, imóvel mesmo contra as palavras do homem que o havia atormentado durante a maior parte de sua vida, imutável contra o assassino de sua mãe, obstinado como um predestinado defensor élfico que não se deixou abalar por palavras vazias ou a tempestade que jorrava dos céus. Um dos soldados perdeu a paciência.

Vendo o homem vir em sua direção, Bradwyn lembrou-se das palavras de Aldhar, o soldado ruivo, que, durante a chuva de flechas, finalmente o tratou como um igual.

Não confio em você, não gosto de você e não gostaria de morrer ao seu lado. Contudo, Vossa Graça o deu um voto de confiança, e ele é um homem bem mais sábio do que eu. Você é quem menos está usando armadura, portanto, é quem tem chances de ser mais rápido. Suba as casas do condado em silêncio e mate os arqueiros, cada um deles, ou todas as nossas ações serão em vão. Faça isso e então eu prometo lhe chamar de irmão, nessa vida ou na próxima. Bradwyn havia cumprido a ordem de Aldhar, e esperaria uma vida para se reencontrar com o irmão. Estava decidido a chegar até ele contando boas notícias.

Afastando-se da formação horizontal que ocupava o centro do condado, um dos homens de Dalton aproximou-se do meio-elfo. Aldo até fez menção de impedi-lo, mas percebeu que isso desmotivaria muito seus homens e faria o oposto com o meio-elfo. Contudo, Aldo sabia que Bradwyn não era um adversário a se subestimar.

Era um dos homens de Dalton. Não conhecia Bradwyn nem por histórias, evidentemente. Não sabia que o garoto era bem mais que apenas tamanho e músculos.

O soldado levantou a espada acima da cabeça, grunhindo, e grunhiu uma vez mais quando o meio-elfo encurtou a distância entre eles em um passo curto e rodopiou sua lâmina contra seu braço de espada. Foi um corte limpo, preciso, que separou o braço do humano em dois. Ele gritou e, pouco tempo depois, desmaiou.

O sangue do coto misturou-se com lama e água. Os soldados se entreolharam. Achavam idiota estarem apreensivos diante de um único oponente, mas aquela era a realidade.

Bradwyn, por outro lado, sentia-se vivo. Achava errado de ter tido tanto prazer ao decepar aquele homem, mas, pelos deuses, havia gostado da sensação. A espada parecia ter vida própria, mas uma vida boa, parecida com a dele, destinada a, acima de tudo, concluir o objetivo de proteger o rei élfico.

— Vocês precisam ter cuidado. — Aldo falou num cochicho. — Ele é grande, mas é muito mais rápido do que parece. Nossa melhor alternativa é cobrirmos todos os flancos e atacá-lo ao mesmo tempo.

— Como você sabe de tudo isso? — Um dos homens de Dalton perguntou.

— Porque eu o treinei.

Mestre e aprendiz encontravam-se mais uma vez. Bradwyn havia decidido que não se deixaria levar pelas emoções, como da última vez. Venceria Aldo física e mentalmente.

Os humanos se aproximavam em passos curtos. A chuva entrava em seus elmos, ensopava seus cabelos e dificultava a visão. O meio-elfo continuava parado como uma estátua, estudando seus movimentos. Não escutava o balançar das armaduras ou o esparramar da lama; apenas o contínuo som de queda da chuva.

Todos tinham os olhos colados em Bradwyn, ainda assim, ninguém viu quando aconteceu.

Quando um raio arranhou o escuro céu de Sunshadow, ele agiu. Em um pulo, ficou frente a frente com um soldado e o atacou, girando a espada por seu peito, deslizando-a por aço e músculo como se fosse papel.

O inimigo nem teve tempo de gritar. O soldado imediatamente ao lado dele jogou o machado contra o meio-elfo em um movimento assustado, mas foi parado pelo escudo de Bradwyn, seguido por um deslize da arma do meio-elfo contra o gorjal do soldado, o que cortou sua garganta e naturalmente o matou.

De súbito, três soldados já haviam sido perdidos. Bradwyn queria muito mais.

— Não tenham medo dele! Ao mesmo tempo! — Aldo falou e motivou seus homens, que seguiram as ordens.

Correndo, alcançaram o meio-elfo em segundos, que defletiu mais de um terço dos ataques girando o escudo contra as armas; rolando para trás ao perceber que seria atingido por um golpe em seu flanco esquerdo.

Uma das armas estava presa na boca do leão do escudo de Bradwyn, e um soldado foi brutalmente puxado na direção do meio-elfo depois do rolamento. Desarmado, o soldado não conseguiu se defender quando seu inimigo varou sua armadura em um golpe bem executado.

Aquele rolamento seria impossível de ser realizado se o meio-elfo estivesse com uma armadura pesada, como as nossas, Aldo pensou. Não precisava de muito para matar o rapaz. Um único golpe superficial seria suficiente para sangrá-lo e torná-lo um alvo fácil, e qualquer golpe mais substancial seria o bastante para matar aquele alvo sem armadura.

Os homens continuaram avançando e, quando Bradwyn percebeu que, mesmo defendendo um golpe, seria atingido por outro, correu para trás, usando o escudo mais uma vez como proteção, o que foi efetivo. Aldo frustrava-se cada vez mais.

Os humanos continuavam perseguindo o meio-elfo como um gato atrás de um rato, mas então, de súbito, Bradwyn parou, surpreendendo seus inimigos, e jogou o leão do escudo contra a cabeça de um soldado. O impacto ressonou dentro do cérebro do homem e precedeu um desmaio.

Percebendo que seria atacado por outro soldado, Bradwyn continuou o movimento do escudo, o que foi feliz, pois a boca do leão segurou a lâmina que queria beijá-lo, e a jogou para longe, pela inércia do movimento. O soldado, lembrando-se do companheiro que enfrentou Bradwyn desarmado, deu as costas ao meio-elfo, para recuperar a arma. Foi imediatamente punido pela espada de seu inimigo, que atingiu as costas de sua armadura e o perfurou por dentro.

De nove, tornaram-se apenas três homens. Aldo, o sub-tenente mileano e um soldado de Dalton. Não fazia sentido. Para ser sincero, Aldo nunca havia realmente treinado Bradwyn. Havia usado o garoto como saco de pancadas várias vezes, mas o treinamento real era para o irmão. Aldo se recusava a crer que tinha participação na criação daquele monstro. Não podia acreditar que ele era tão forte. Não parecia natural.

— Mais alguma ideia brilhante? — O sub tenente perguntou com ironia.

— Você tem alguma? Tem? — Aldo respondeu, impaciente.

— Vocês são dois imbecis. Ele é um! — Falou o último homem de Dalton.

— Ele é só um que matou a merda do seu esquadrão inteiro! — Aldo falou, e viu os olhos do soldado desanimarem. — Esperem. Eu tenho uma ideia.

Bradwyn viu o mestre de armas cochichar algo aos colegas. Não fazia ideia do que estava sendo dito, mas sabia que não devia ser coisa boa. De repente, eles fizeram uma formação. Aldo vinha com um homem a sua esquerda, enquanto o último estava posicionado logo atrás deles, todos eles vindo de forma estreita até ele. Bradwyn se preparou para o pior.

De repente, todos eles correram em sua direção, e o meio-elfo sabia que defenderia facilmente os ataques, um com a espada e o outro com o escudo. Mas tinha um problema: o terceiro homem.

Este correu para longe de Bradwyn assim que os companheiros se aproximaram, indo na direção do casarão de Johnatan.

O local estava protegido pelo grupo de aventureiros da cidade, mas isso seria suficiente? Bradwyn não sabia dizer. Não gostaria de correr esse risco.

O meio-elfo defendeu o golpe de sua ala direita com sucesso, mas surpreendeu-se com uma atitude de Aldo, que não atingiu o escudo de Bradwyn; ao invés disso, deslizou o joelho pela lama de Sunhadow e atingiu o meio-elfo no pé, surpreendendo-o e o fazendo gritar.

Com sangue quente e com medo de sua promessa não ser cumprida, Bradwyn certificou-se de agir rápido, ainda que tivesse sido ferido. Com o escudo, ele atingiu Aldo no rosto, o que afastou o mestre de armas e sua espada. Aproveitando-se do movimento, também lançou o leão contra o outro homem, que afastou-se.

De súbito, deu as costas aos inimigos e viu o soldado corredor quase alcançar a porta do casarão. Bradwyn não viu muitas alternativas. Só tinha uma chance para o que queria fazer.

Ergueu a espada acima dos ombros e a atirou contra o soldado. Ela girou pelo ar, cortando a chuva que não parava de cair, sem se decidir se atingiria o inimigo com a ponta ou não;sem sequer se decidir se acertaria aquele homem.

Mas Bradwyn bem sabia que aquela era uma boa lâmina, e, mesmo longe dele, continuava fazendo sua vontade. A espada perfurou o elmo e o crânio do soldado, quase a arrancando no processo. Atravessou também a porta da casa de Johnatan, pela proximidade que o humano estava, sendo fincada lá, juntamente com o inimigo.

Aproveitando-se do momento em que viu o meio-elfo sem uma arma, o sub tenente mileano correu com a espada em punhos. Bradwyn havia acabado de se virar, e, por instinto, lançou o escudo contra o inimigo, que outra vez engoliu a espada adversária. Porém, dessa vez, Bradwyn tomou a lâmina capturada e a usou.

Apesar de não ter um terço da efetividade da lâmina de Nogothrim, a espada cumpriu seu papel depois de alguns golpes; deixando Bradwyn e Aldo sós.

Não completamente a sós, claro. A chuva ainda era uma companheira, forte e persistente, inabalável, mesmo perante a dureza dos dois homens.

— Tenho que admitir… Você é meu melhor aprendiz. — Aldo brincou, mas não tinha forças para rir. O ferimento de seu ombro havia começado a incomodá-lo.

— Gostaria de poder dizer que não foi meu melhor mestre, mas foi o único que tive.

— Haha… — Dessa vez deixou a risada escapar, e o ombro realmente doeu. — Devia ser um pouco mais grato. Fui o único que teve a decência de ficar ao lado de uma coisa tão monstruosa como você. Devia ser grato a mim e ter aceitado minha oferta de te deixar ir.

— Você matou minha mãe.

— Matei. E mataria ela de novo se estivesse aqui. Assim como vou fazer com você, e Elaavil depois. Pelos Deuses, é até bom que tenha feito seu showzinho, me deixando sozinho aqui. Vai ser bem melhor para as histórias e canções.

— Venha até mim, e eu juro que colocarei um ponto final em nossa canção.

— Que os Deuses sejam testemunhas. — Aldo falou, e finalmente avançou.

Correu na direção de Bradwyn, que leu com facilidade seus movimentos. O escudo beijou a espada que atacava por cima, e Aldo rodopiou para trás quando o meio-elfo contra-atacou.

Aldo seguiu na mesma linha de ataque por um tempo. Atacava um flanco de Bradwyn, que defletia e contra atacava. Percebeu a tempo o que o garoto tentava fazer.

Apesar de estar carregando mais equipamento, Bradwyn era bem mais leve, e sabia disso. Em algum momento, Aldo se cansaria de rodopiar para trás naquela armadura, falharia e o meio-elfo obteria seu êxito. Não podia deixar isso acontecer.

— Eddard caprichou nesse escudo. — Disse enquanto atacava. — É uma pena. — Desviou de um contra ataque do meio-elfo. — Bem quando você estava quase conseguindo o amor daquele tonto… — Atacou novamente. — Você vai e destrói o filho favorito dele!

Bradwyn urrou com o comentário, bem quando estava prestes a defender, mas Aldo segurou o ataque por meio segundo, o que foi o bastante para surpreender o meio-elfo; a espada de Aldo passou por cima da guarda de Bradwyn e beijou um de seus ombros.

Contudo, Aldo havia subestimado a leveza daquele escudo, que ainda foi capaz de erguer-se e afastar aquela espada, que estava suja de sangue apenas na ponta. Aproveitando da proximidade com o inimigo, o meio-elfo jogou-se contra ele, juntando a força do corpo juntamente com a espada do soldado caído e o escudo mileano.

Aldo conseguiu movimentar a espada lateralmente antes que o garoto caísse em cima dele. Bradwyn o atingia bestialmente com a mão de espada. Se sua armadura fosse minimamente inferior, sabia que já estaria morto. Sentia que havia sido atingido por um dos ataques, embora não soubesse dizer onde. Não teria muito tempo de vida contra aquele gigante.

Bradwyn via o rosto do pai, dos irmãos, da mãe, da rainha, dos soldados que o castigaram, das aias que o maltrataram, de todos aqueles que passaram diante sua vida estampados na cara do assassino de sua genitora. Havia tanta tristeza em seu ser que podia ter chorado. Sentia que a chuva já fazia isso por ele.

Sentindo os membros do corpo cedendo, Aldo escorregou um dos pés encharcados pela água da chuva, vítima da lama; porém, teve uma ideia antes de cair.

Sempre foi um soldado apaixonado pela arte da guerra e seus mínimos funcionamentos. Eddard Miles havia acertado quando castigou Aldo deixando-o longe da batalha, mas, mesmo enfurnado nos pátios do castelo, ainda tinha notícias de batalhas e de homens que trabalhavam para elas. Como ferreiros, por exemplo.

Aldo sabia como o escudo tinha sido feito. Sabia que itens como aquele costumavam ser customizados para cavalheiros galantes em justas e competições, mas não eram comumente usados em guerra. Mais importante do que isso, Aldo sabia o porquê.

Logo antes de cair, Aldo afastou sua espada de Bradwyn e ganhou o máximo de movimento que pode. Enquanto o corpo caía, a espada ascendia, indo de encontro ao leão mileano do escudo do meio-elfo. Ao passo que ambos se encontraram, o escudo cedeu. Era comum que escudos com espigões tivessem falhas no ponto de fixação do espigo com a madeira, e, ainda que o carvalho wolfhardiano fosse de uma dureza implacável, o golpe de Aldo atingiu o ponto focal de tensão do item.

Ao passar pela boca do leão, a espada estraçalhou o centro do item de defesa mais significativo de Bradwyn, ainda avançando mesmo após isso, arrancando um pedaço de carne dos braços do meio-elfo e, pior, perfurando-o na barriga até atravessar o corpo.

O garoto também continuou o movimento e também atravessou Aldo com um golpe, ainda que o impacto tivesse diminuído graças a armadura. Bradwyn ficou em choque quando notou que seu escudo havia sido partido no meio, e o choque só aumentou quando percebeu a gravidade do próprio ferimento. Ele ainda não sentia dor. Estava incrédulo.

Aldo empurrou-o para longe e se arrastou para trás. Rapidamente tocou o ponto em que a espada de Bradwyn o havia beijado, e sorriu quando notou que ela só havia tirado um pedaço pequeno de sua própria carne. Certamente não teria sido assim com a lâmina de Nogothrim.

Aldo sorriu, olhando para si e vendo que estava bem, que estava vivo. Então pôs os olhos em Bradwyn e reparou que o rapaz continuava lá, ajoelhado, incrédulo, com a espada ainda pendurada em sua barriga. Por um ferimento como aqueles, podia ser considerado um homem morto. Ou melhor, um meio-elfo morto.

— Esse é o ponto final que você queria? — Aldo falou, risonho.

Não era. Não era justo. Não era justo consigo ou com o sofrimento que passou. Contudo, Bradwyn não conseguiu dizer nada, nem tampouco sair de sua posição ou tirar a espada do inimigo de dentro do seu próprio corpo. Viu Aldo aproximar-se dele e colocar uma das mãos no cabo da espada que estava penetrada em sua barriga. Tentou levantar a própria espada, mas não havia muito sangue sendo circulado nas mãos, então a mesma caiu. Aldo parecia se divertir.

— Porque definitivamente era o que eu queria. Porra, eu sempre te odiei. — Torceu a espada. Bradwyn gemeu de dor. — Você não imagina o prazer que eu tive matando a sua mãe, e o prazer que eu tenho te matando agora. Eu só espero ter um prazer maior matando esse rei filho da puta!

JÁ CHEGA!

Uma voz alta e imponente interrompeu a tortura. Aldo pareceu se desconectar do mundo. Olhou ao redor, mas não viu ninguém. Quase se desesperou, quando se lembrou da própria tática de guerra. A maioria das pessoas não olha para cima.

De primeira, pensou que fosse o próprio sol, mas estava enganado. A chuva não tinha parado em nenhum momento, e o verdadeiro sol estava escondido por trás de pesadas nuvens escuras.

O que os olhos de Aldo estavam se acostumando a ver era outra coisa, mas talvez igualmente imponente, brilhante e dourada. Descendo dos céus vinha uma mulher, de armadura pesada e amarela, ornamentada com insignias de duas espadas cruzadas. Sua pele era igualmente dourada, assim como os cabelos e as asas.

Aquela era Erine, conhecida como a Anja Dourada de Eibar, a deusa élfica da guerra, chamada até ali pelo clamor de um certo clérigo. A respiração de Aldo falhou por um breve momento.

— O… quê… ?

— Me desafie, e se juntará aos corpos deste condado. — Ela disse calmamente.

— Não… não, não pode ser… — A respiração de Aldo tornou-se pesada. — Isso não tá acontecendo, não tá…

— Vá embora, humano. É meu último aviso.

Hahahahaha… — Bradwyn tentava entender a risada do mestre de armas, mas mal conseguia manter-se acordado. — O inferno que eu passei… toda merda que eu tive que aturar… para no final, uma porra de anja vindo dos céus vir tomar o que é meu? ISSO É SÉRIO? — Erine nada respondeu. — Onde estão os MEUS DEUSES? EU NÃO VOU PERDER ASSIM!

A Anja dourada então tocou a lama de Sunshadow com os pés, na mesma medida que sacou sua espada, brilhante, dourada e até flamejante em seu corpo.

Aldo compreendeu que nunca fora um homem de sorte. Foi um bom soldado, teve boas atitudes, mas, ainda assim, foi punido por isso. E agora, mesmo depois de tanto sofrimento, sua recompensa estava mais uma vez sendo tirada dele. Não havia porquê lutar. Essa era uma batalha impossível de se vencer. Movimentou-se para ir embora, e Erine relaxou.

Hellewy… — Bradwyn finalmente teve forças para falar, o que chegou a assustar Aldo. Havia angariado forças por ver a Anja Dourada protegendo Sunshadow, sabendo que o rei não poderia mais ser ferido, percebendo que Aldo não teria aquela vitória, tendo certeza que, finalmente, finalmente poderia ser reconhecido como algo. Poderia ser chamado de elfo. — Minha égua… diga a eles… diga a eles que o nome dela é Hellewy…

NÃO!

As palavras da Anja Dourada vieram tarde demais. Em um movimento rápido, Aldo tirou a espada da barriga de Bradwyn e a lançou contra seu pescoço. É o único jeito de garantir que clérigos, magos e paladinos não vão ressuscitar esses elfos desgraçados, dissera o comandante de Aldo uma vez. Infelizmente, a regra também se aplicava aos poderes de Erine.

A lâmina deslizou pelo pescoço do meio-elfo. Sua cabeça caiu na lama com os olhos apontados para o céu, a chuva sendo suas lágrimas.

Erine segurou a espada um pouco mais forte, e Aldo permaneceu na mesma posição por um momento, esperando, vendo se a Anja Dourada o mataria por isso, ou não. Na ausência dela, ele teve sua resposta.

Encarando a anja nos olhos, Aldo cuspiu no chão e deu meia volta, deixando Sunshadow para todo o sempre. Erine fitou os olhos amarelos de Bradwyn, à medida que os aventureiros saíram do casarão e souberam que estavam seguros.

Johnatan foi o primeiro a reparar. Correu na direção do meio-elfo e ajoelhou-se diante o corpo. Chamou pelo colega clérigo, que atendeu seu chamado enquanto encarava a Anja Dourada, totalmente impressionado. Ela também o olhou.

Elaavil, que havia conquistado o título de “O Milagre” depois de seu nascimento ser literalmente considerado uma intervenção divina, passou a acreditar mais no próprio título depois de ver Erine. Praticamente sozinho naquele condado que logo seria assombrado pelas vidas perdidas ali, ele aproximou-se da Anja Dourada enquanto também fitava o corpo de Bradwyn.

— Morreu, e eu nem soube qual era o nome dele. Pobre, pobre rapaz… — Ele falou, pensando em quantas vidas como a do meio-elfo haviam sido perdidas desde o início da guerra. — Mas eu ainda posso manter minha promessa, ainda posso transformá-lo em elfo. Ele revelou algo para você? Ele disse alguma coisa, qualquer coisa, antes de morrer?

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Hellewy. — Erine sussurou e, antes que o rei pudesse questionar, ela completou. — O nome da égua é Hellewy.

Notas finais
Por mais que não aja grandes indicativos de que muitas pessoas leem meus contos até o final, busco ser um autor, e um autor sempre deve falar com seus leitores, sejam eles um ou um milhão. Gostaria de pedir desculpa pelo tempo que demorei escrevendo este conto em específico. Passei a escrever contos depois de um desafio de escrita, e a ideia sempre foi que eles fossem curtos; contudo, O Milagre de Sunshadow ganhava mais corpo conforme eu o escrevia, o que levou ao tamanho de todo esse texto e o que o precedeu. A ideia dessa história em específica nasceu quando eu vi alguns jovens brincando de espadas em um parque, usando escudos, espadas, lanças, machados e roupas medievais. A maioria de papelão e análogos, claro. Enquanto eu observava, um dos times havia eliminado quase todos os membros do outro time, com exceção de um: um garoto grande, corpulento, e que usava uma machadinha e um escudo grande circular. A luta ficava mais e mais intensa conforme o garoto resistia aos ataques do time inimigo e "eliminava" os outros meninos. Você pode ter certeza de que nada do que eu escrevi nesses contos transparece quão incrível foi ver aquele rapaz lutar, ainda que não fosse de verdade. Infelizmente, assim como o Bradwyn destes contos, o garoto acabou sendo "eliminado" enquanto restava apenas ele e outros dois adversários. Por mais que fosse uma brincadeira, me tocou profundamente e me levou a escrever essa história. Por não me disponibilizarem mais palavras nessas notas: Obrigado!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!