O Meu Juiz
7 "Em teus braços é o meu descanso"
Depois daquele súbito acontecimento e a reviravolta que somente um dia havia causado, voltei para o meu apartamento com um único intuito: dormir.
Sábado. Sete e quarenta e cinco da manhã.
Amanheci com Rodrigo me telefonando, avisando que Maria Eduarda teve outra crise de tolerância à lactose, assim ele pensava. Aquilo estava preocupando a todos. Pediu que eu ficasse com ele no hospital, já que Denise tinha que trabalhar e, mesmo querendo faltar, não poderia, pois ela iria cobrir uma colega de trabalho que passou mal.
É... Esse sábado veio ironicamente turbulento numa manhã ensolarada.
Quando cheguei ao hospital, perguntei como estava a Duda e a pequena já havia sido medicada, só estava sendo submetida a mais alguns exames. Rodrigo contou que ela acordou reclamando de dor, a médica dissera que eram refluxos. Mas Duda não havia ingerido nada que fosse relacionado a leite. E sentir novamente as dores intensivas num período de um dia foi assustador para os pais.
Com o passar do tempo, Duda estava no meu colo e Rodrigo foi chamado para conversar com a médica. Ver meu irmão entrando naquele consultório me deu um frio na barriga. Senti um arrepio que não parecia ser de boas notícias.
Interagi com Maria Eduarda para fazê-la esquecer do que estava passando. Brinquei com ela e mais algumas crianças que estavam numa área reservada para as mesmas.
— Tio Dan...
Olhei para Maria Eduarda, ela estava de cabeça baixa montando um quebra-cabeça numa mesinha minúscula como ela. Estava sentada e fixando nas pecinhas.
— Fala, meu amor.
— Mamãe saiu chorando de casa hoje.
— Por quê?
— Porque eu estava chorando também. – Ela respondeu como se fosse óbvio.
— E por que você estava chorando?
— Porque minha barriguinha – Ela passou a mão com cuidado na região da dor — estava doendo muito, muito e muito!
— E ainda dói?
— Agora não... — Maria Eduarda deu uma pausa e se ajeitou na cadeirinha – Tio Dan... – Ela me chamou constrangida — O meu número dois saiu com sangue.
Ela não me olhou. E eu não quis que ela me olhasse. Passei a mão no rosto desesperado. Senti algo dentro de mim, como um alerta do que estava por vir.
— Eu vou ficar boa, não vou, tio Dan?
Acheguei-me a ela e a peguei no colo, deixando cair algumas pecinhas do quebra-cabeça no chão.
Ela chorou em meu colo. E eu queria o colo de alguém para chorar junto. Aquela frágil criança estava no colo da pessoa errada... Eu nunca fui forte a ponto de suportar a dor de outra pessoa. Até hoje fico remoendo a dor da Gabi... Às vezes acho que meu pai tem razão... Deveria ter sido eu no lugar dela. Gabi saberia o que fazer nessas horas, ela era forte e determinada. Ela foi assim comigo... Seus abraços pareciam ter a resposta e o consolo de que tudo ficaria bem.
— Vai ficar tudo bem... – Disse, afagando minha mão no cabelo solto e bagunçado de Duda.
Rodrigo saiu do consultório com o semblante derrotado. Temi perguntar.
Ele pegou Maria Eduarda no colo e a abraçou como se fosse a última vez que fizesse isso. Meu corpo estremeceu. Ele sorriu para sua filha demonstrando segurança. Acho que todo pai tem esse dom. Mas dava para ver nos olhos do meu irmão a vontade de chorar. De desmoronar. Mas pai é pai... Na dor do filho, ele suporta para mostrar à sua criança que pode confiar nele.
Será que um dia saberei o que é isso?
O pensamento ligeiro passou em minha mente, mas logo me afastei dele quando ouvi Rodrigo me chamar.
Espero que não.
No carro, permaneci em silêncio. Já era a hora do almoço. Ficamos bastante tempo no hospital.
Fui para a casa de Rodrigo. Dessa vez meus pais não estavam. Na verdade, não deu nem tempo de avisar a ninguém.
— Sinto-me honrado de ter me chamado para estar contigo nessa hora difícil...
Rodrigo me olhou e deu um suspiro. Estávamos à mesa e Maria Eduarda não quis comer nada. Meu irmão a levou para o quarto e ela logo pegou no sono.
— Conte comigo sempre. – Estiquei meu braço sobre a mesa e deixei a palma da mão para cima. Rodrigo apertou minha mão.
— Precisarei de todo apoio.
— É grave? – Ele ainda não tinha comentado nada no carro, pois Maria Eduarda estava junto e, ali na mesa, permanecíamos em silêncio quanto ao que tinha sido conversado no consultório junto da médica.
— Depois eu converso contigo, pode ser? Preciso falar com Denise primeiro.
— Claro, claro... Mas vai ficar tudo bem, não vai? – Antecipei-me antes de Rodrigo falar — Tem que ficar bem, porque eu disse para a Duda que ficaria bem. E, se não ficar, ela vai achar que o tio dela é um mentiroso, então... É bom que aquela doutora faça a Maria Eduarda ficar bem!
Disse num tom humorado e Rodrigo riu.
— Obrigado... – O sorriso dele foi se desfazendo do rosto.
— Não te vejo assim desde o acidente de Gabi...
— É difícil ver uma criança... A sua filha, a coisa mais preciosa da sua vida, tão frágil... – Ele abaixou a cabeça, colocou os cotovelos sobre a mesa e as mãos na testa para servir de apoio — Submetida a vários exames para detectar uma possível doença que arrancará dela qualquer possibilidade de ter uma vida normal. Isso machuca muito.
— Mas você é forte. Vai ajuda-la no que for preciso nesse momento. – Minhas palavras pareciam não ter efeito.
— Nenhuma fortaleza humana consegue ficar cem por cento de pé quando alguém que você ama sofre e você não pode fazer nada! É como tentar manter de pé um castelo de areia diante de um mar forte e agitado.
Não tinha o que falar. Pela segunda vez vi Rodrigo deixando suas "psicanálises" e frases "de autoestima" de lado e sendo apenas um pai, um homem.
Ficamos em silêncio. Aquilo foi avassalador. Peguei as louças e levei para a cozinha. A trilha sonora orquestrada pelos copos de vidro se rebatendo dentro do prato e os talheres também, era a melodia dentro daquele lar. Quando voltei para a mesa, Rodrigo não estava mais. Provavelmente tinha ido ver Maria Eduarda.
Ouvi a porta se abrir e Denise chegando já aos gritos pelo nome do meu irmão. Apareci na sala.
— Oi! — Ela disse surpresa.
— Oi... – Não fui muito categórico.
— A Duda e o Rodrigo... Onde estão? – Aquela mãe balançava a cabeça freneticamente como se tentasse encontrar seu esposo e sua filha.
Apontei com o queixo para a escada.
Ela largou a bolsa e as chaves e subiu correndo as escadas.
— É... Acho que deu a minha hora... – Disse para aquela solidão que ficou na sala. O clima estava bem tristonho.
Deixei um bilhete na mesa e fui embora. Eles precisavam conversar.
Voltei para casa.
Deparei-me com Sarah saindo às pressas de casa.
— Oi...
Ela não me respondeu. Pelo contrário, mandou o filho mais velho ficar em casa cuidando do irmão mais novo. O menino estava na porta segurando um casaco.
Sarah desceu as escadas e eu parecia um ser invisível.
Isso não foi nada crente..., pensei em forma de zombaria.
Fui para frente da minha porta e o menino ficou imóvel, olhando para o corredor vazio a sua frente. Eu não queria, mas foi automático a minha pergunta.
— Você está bem?
— Minha avó acabou de morrer. – Ele deu uma pausa breve e piscou algumas vezes rapidamente, sem olhar para mim – Estávamos saindo para ir a casa dela, pois hoje haveria um culto de ação de graças lá, pela cura do tumor que vovó Elise tinha.
— Ah... Eu sinto muito...
— Por que Jesus curou a vovó Elise e depois a levou? – Ele me perguntou atônito e sem olhar para mim, como se a pergunta não fosse diretamente para mim.
Aquilo me pegou de surpresa. Foi quando o silêncio se instalou que o menino deixou as primeiras lágrimas caírem.
Eu senti que meus braços queriam envolve-los, mas eu relutei. Já tinha responsabilidade demais neles. Segurar Maria Eduarda no colo e depois apertar a mão de Rodrigo... Já eram o suficiente para minhas forças aguentarem. Não queria mais a dor de ninguém sobre mim.
Mas aquela força maior me impulsionava a abraça-lo.
Ele soluçou.
— Moisés...
— Davi. Meu nome é Davi. – Disse ele, passando as costas da mão no rosto.
— Desculpa...
Ele me olhou.
— Vovó dizia que meu pai era o único capaz de fazer da genealogia um Davi nascer primeiro que Moisés. – Ele sorriu com a lembrança, mas depois seu rosto se entristeceu novamente.
— Sua avó parecia ser alguém... Comicamente espiritual. – Foi o que consegui pensar.
Ele uniu as sobrancelhas como se não tivesse entendido o que eu dissera. Resolvi não aprofundar o assunto.
Meus braços arderam em encontrar aquele corpinho magrinho num abraço aconchegante que eu sabia que não era meu.
— Eu não posso chorar! – Ele gritou determinado e me tirou dos pensamentos.
Novamente e com mais brutalidade, ele passou a mão no rosto e largou o casaco no chão, com raiva.
— Hey, hey... Pode sim. – Meus pés me conduziram até ele e, quando me dei conta, já estava agachado a sua frente.
— Não!
— Sim!
Ele me olhou desesperadamente pedindo por um abraço que meus braços rangiam com os ossos para eu mover um centímetro até o menino. Mas resisti.
— Homens também choram. Isso não é fraqueza, Davi. É só algo que está doendo, mas vai passar.
— Não vai... – Ele soluçou – Jesus levou a vovó Elise embora. E eu não posso ficar chorando, pois preciso ser forte e ajudar Moisés a superar essa perda.
— Sim, você tem razão, como irmão mais velho, você precisa... – Meus olhos arderam... Gabi... – Proteger seu irmão. Abraçá-lo quando ele precisar de apoio. É uma perda muito grande.
— É... – Ele abaixou o rosto – Moisés precisa de mim.
— Sim, ele precisa. Mas isso não o impede de chorar, tá bom?
— Os meninos da escola dizem que chorar é coisa de marica.
— Não. Chorar é coisa de quem quer pôr para fora aquilo que está machucando aqui – Coloquei a palma da minha mão no peito de Davi – dentro. – Eu o olhei nos olhos e senti-me atraído por aquela dor de uma perda. Olhar nos olhos dele foi como me olhar no espelho.
Eu não o abracei. E senti-me envergonhado quando Davi me abraçou.
— Então coloque para fora aquilo que te machuca. – Foi o que ele disse para mim, talvez, sem pensar na força de suas palavras contra o meu coração que estava, realmente, abarrotado de mágoas e, como uma represa, empurrando cada vez mais o grande muro que prendia toda a água acumulada.
Minha vontade era mesmo de chorar. Mas não aconteceu. Afastei-me daquele abraço dócil e aconchegante de um menino e levantei-me, pegando o casaco do chão e entregando a ele.
— Obrigado. – Eu disse.
Ele assentiu.
— Obrigado também. – Davi deu uma pausa um pouco longa, que resultou em dois suspiros: o dele e o meu – Mamãe disse que você tem palavras sábias.
— Disse? Sobre mim?
— Aham...
Fiquei novamente surpreso comigo e com Sarah.
— Por que ela disse isso?
Ele deu de ombros.
— Ela só disse isso.
Eu deixei escapar um riso. Não demorou muito e um silêncio de alguns segundos pairou.
— Pode fazer uma coisa para mim?
— Diga. – Davi me olhou como se soubesse que estávamos encerrando um assunto.
— Quando sentir vontade de abraçar, não hesite.
— Hesitar? – Ele me encarou, com uma das sobrancelhas erguidas.
— Quando sentir vontade de curar alguém com um abraço, vai na pessoa e a abrace, okay?
— Okay! – E Davi sorriu e eu sorri também.
Ele ia entrar, quando algo veio em minha cabeça.
— Hey, Davi!
O pequeno olhou para mim.
— Acho que Jesus curou sua avó, para que ela não sofresse com a doença antes de partir.
Davi assentiu. E eu arregalei os olhos sem saber como tais palavras saíram da minha boca. Sarah tem uma voz profética, pensei.
— Deus sabe o que faz. – Davi me olhou penetrantemente nos olhos – Deus disse: “Esforça-te, e tende bom ânimo, porque eu estou contigo”. E eu me esforçarei para cuidar de Moisés nessa hora difícil de uma perda. – Ele riu – Deus disse isso a Josué, depois da morte de Moisés antes de eles chegarem à Terra Prometida. – Sua última informação foi irrelevante para mim, mas Davi não percebeu.
— É isso aí menino... – Respondi no automático para o nada no corredor, pois ele já havia entrado para seu apartamento.
Voltei para meu ponto inicial: minha porta.
Adentrei o apartamento e respirei fundo.
Tudo estava acontecendo ao mesmo tempo, que me deu arrepios. A tarde já estava caindo e resolvi verificar minhas papeladas para a entrevista.
Liguei o computador e, para a minha sorte, a internet estava indo. Revisei o endereço da escola com algumas pesquisas no Google Maps.
Só tinha um simples problema: Eu nunca tinha feito uma entrevista de emprego naquele nível.
Aquilo me paralisou.
Olhei para a tela do computador querendo fazer várias pesquisas de como se comportar numa entrevista pedagógica.
Abri algumas abas e dei inicio as pesquisas. Olhei para a hora e depois para a janela. O céu já estava mesclando entre o entardecer e o anoitecer. Fui até a janela e deixei uma brecha aberta e senti uma brisa suave e gélida entrar em meu apartamento e me envolver pelos braços. Num abraço que tanto menosprezei relutei para dar hoje...
Olhei para a cozinha.
— É melhor eu comer algo para energizar as ideias. – Falei isso para mim mesmo para me afastar dos pensamentos, que eram em turbilhão.
Ao entrar na cozinha, uma voz na minha cabeça recordou-me da frase que Davi me disse minutos atrás.
“Deus disse: ‘Esforça-te, e tende bom ânimo, porque eu estou contigo’.”
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