O Metamorfo

2 Sonho Lúcido


Notas iniciais
Reescrevi este capítulo pelo menos duas vezes. Não está perfeito mas está próximo do rumo que eu tinha em mente, mas ainda estou em dúvida se é por este rumo que realmente vou tocar a trama.

Bjorn estava caminhando em meio à névoa, no que parecia ser uma floresta. Ele tomou consciência de que aquilo era um sonho, e andou até a margem de um rio. Já tinha lido sobre isso num livro de psicologia, era um sonho lúcido, daqueles em que você sabe que está sonhando e toma controle das coisas. Ele se imaginou atravessando o rio sob a água, e assim o fez. Começou então a correr sob o rio, na direção oposta da correnteza até se deparar com uma cachoeira, e desafiando os limites da sua própria imaginação e quaisquer leis da física, correu verticalmente, cachoeira acima, sentindo a brisa no rosto e a adrenalina tomar conta de seu corpo. “Isso é legal pra caralho”, pensou. Quando finalmente atingiu o topo, foi pego de surpresa ao dar de cara com uma figura enorme — com pelo menos um metro e setenta de altura, cujas pernas musculosas, quatro delas, afundavam na água; possuía uma densa e escura camada de pelos castanho-avermelhados, um focinho comprido, e dois olhos negros – encarando-o, a poucos centímetros, com um olhar enigmático e estranhamente familiar, que apesar de tudo não a tornava nem um pouco menos ameaçadora – sentiu um frio enorme lhe subir à espinha, como quando lhe colocam a mão gelada nas costas por debaixo da blusa em um dia de inverno. Neste mesmo instante, sentiu toda a água que ali havia, quase que instantaneamente congelar sob seus pés e os do urso, quase como se estivesse biologicamente respondendo à toda a adrenalina que pulsava em seu corpo. Sentiu seu coração parar por um instante, junto de seu fôlego, que havia se perdido. Engoliu em seco a saliva que lhe faltava na boca, e compilando todos aqueles sentimentos reunidos, teve a reação mais sensata possível e a soltou em forma de um grito desesperado e um tanto desafinado. Seu grito ecoou pelo bosque, fez surgir um bando de pássaros do meio das árvores, que levantaram vôo para longe dali. Mais uma vez, como se estivesse neurologicamente conectada a Bjorn – o que fazia muito sentido, afinal era fruto de seu subconsciente – a água que há pouco havia se transformado em gelo, tão rapidamente quanto, começou a rachar, até finalmente ceder e o derrubar cachoeira-congelada abaixo. Ele apertou os olhos e sentiu um frio crescente no estômago enquanto tentava inutilmente se agarrar em algo conforme caía, até finalmente atingir o chão. “É isso? Morri?” pensou. Mas, para sua surpresa, não houve impacto, nem som. Demorou para se mexer e quando finalmente resolveu abrir os olhos, felizmente reconheceu o familiar papel de parede desbotado de seu quarto, uma mesa de cabeceira com um celular, dois ou três livros empilhados e um abajur desligado.

— Que diabos? Foi só um sonho? Aquele urso... parecia tudo tão... real.

Estendeu o braço tateando no escuro pelo celular. 03h53AM. Largou o celular ao lado do travesseiro e suspirou, o coração ainda acelerado. Se remexeu na cama entre as cobertas, na tentativa de virar para o outro lado para dormir novamente, seus olhos já fechados. Quando finalmente se acomodou, sentiu um bafo quente no rosto, como uma respiração, e ouviu um grunhido. Abriu novamente os olhos e imediatamente os arregalou. Lá estava novamente, para sua surpresa, a enorme figura de um urso pardo timidamente lhe observando com um par de olhos brilhando ao reflexo da lua em meio à escuridão do quarto.

— AAAAAAAAAAAAH!

Bjorn se contorceu em desespero, jogando o corpo para trás, na tentativa de se afastar do urso, até atingir o limite da cama. Seu corpo perdeu o equilíbrio, ele tentou se agarrar em algo, puxou o fio do abajur, mas caiu para trás, batendo a cabeça com força no chão. O abajur caiu em cima dele.

— AI! Porra!

O abajur rolou para o lado por cima de seu peito até finalmente tocar o chão. Cambaleando, ele se pôs de pé, tão rápido quanto pode, a cabeça latejando e a visão turva. Estava ensopado de suor. Estreitou os olhos, tentando ajustar a visão em meio ao escuro, procurando por algo que não estava mais lá, ou que nunca sequer esteve.

— Mas que merda... eu podia jurar... – suspirou. — Urso idiota.

...

Toc toc toc. Houve uma pausa na batida.

—Tudo bem aí, irmãozinho? – disse Sophie, sua pentelha irmã mais nova — Caiu da cama de novo?

— Não, hãn... Só derrubei o abajur. Ta tudo bem, vai se arrumar pra escola.

Sophie deu de ombros.

— Já to pronta. Falando nisso, você ta atrasado, não ta?

— Ta louca? Lógico que não. Que horas são?

— 07h30.

— QUE? Merda!

Ele tirou a camiseta ensopada, correu tomar um banho rápido. Calçou um tênis e juntou a mochila do chão.

— A mãe já saiu?

— Ela saiu faz tempo.

— Por que não me acordou antes?

— Você já é grandinho. E além do mais eu não sou sua babá.

Ele bufou. Finalmente saiu do quarto, passou por ela em direção às escadas e bagunçou seu cabelo no caminho.

— Melhor correr mesmo. — disse Sophie, esboçando algo próximo de um sorriso.

Bjorn desceu a escada às pressas

—Também te amo, irmãzinha!

Ele tirou sua bicicleta debaixo da escada, roubou uma torrada de cima da mesa da cozinha (provavelmente da Sophie), foi até a sala e destrancou a porta.

— A MAMÃE PEDIU PRA VOCÊ COMPRAR FLORES! – Sophie gritou do andar de cima.

— Por que eu compraria flo- ele parou subitamente.

— ESQUECEU QUE DIA É HOJE? – A voz distante, ainda no andar de cima.

13 de agosto. Aniversário do vovô. Não era uma data pra comemorar, pelo menos não desde o ano passado.

Sophie veio descendo as escadas. Usava um vestido preto com bolinhas brancas e uma faixa igualmente preta, que prendia seus cabelos loiros pra trás. Ela tentava manter a expressão animada, mas seus olhos estavam tristes.

— Vamos ao cemitério depois da aula, não se atrase na volta.

— Vou tentar.

Ele saiu pedalando às pressas, rumo à escola. Sem jamais imaginar que não voltaria para casa novamente tão cedo.

Notas finais
Sugestões e críticas construtivas sempre muito bem-vindas.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.