O Manuscrito de Palavras Abstratas
1 Capítulo 1 - Sexta-feira 13
Notas iniciais
Vincent é um personagem que começa apagado no começo mas que evolui ao longo do enredo, e é essa a sensação que quero passar ao leitor com uma escrita e narração que fica cada vez mais harmoniosa a cada capitulo.
Mais uma vez, espero que gostem e que possam aproveitar o máximo da experiência, obrigada por ler.
AAH, MAIS UMA COISINHA!Eu vou estar sempre deixando uma música escolhida especialmente para cada capítulo. É opcional, mas eu recomendo que ouçam e deem uma lida nas letras, posso garantir que são músicas ótimas e que a letra fala muito sobre a história e os sentimentos dos personagens.
MÚSICA DO CAPITULO: Vancouver Sleep Clinic - Flaws
https://www.youtube.com/watch?v=NlZlcnUW1hc
Abri a porta da locadora tentando fazer menos barulho possível com o sininho lá em cima, mas fiz o suficiente pra o cara do balcão tirar os fones de ouvido e largar a revista destinada à virgens com mais de trinta anos. Fui acompanhado pelos olhos dele até me esconder atrás das prateleiras da sessão de filmes de terror, e, com o Massacre da Serra Elétrica em mãos, ergui os olhos por cima dos DVD's alfabeticamente organizados e encarei o rapaz de volta.
Sorrindo de canto, ele se levantou sem desviar a vista enquanto vinha até mim, sempre com seu jeito desleixado de se mover. Peguei Sexta Feira 13 para me distrair com a sinopse e disfarçar a ansiedade, mas não pude ler mais do que três palavras e o filme foi tirado das minhas mãos, caindo no chão por ter sido posto de mal jeito na prateleira. Não me preocupei com Jason enquanto Spencer me segurava forte pela cintura e me empurrava até os fundos do corredor. Me deixei ser levado pelo seu beijo descomedido sem me importar com as capas de suspense que nos cercava ou com o sininho da porta de vidro lá na frente que poderia tocar a qualquer momento.
Spencer puxou meu corpo para si enquanto eu bagunçava seus cabelos coloridos de verde escuro, nossos lábios sem sincronia alguma diziam sem palavras tudo o que não era dito quando estavam separados e eu, inevitavelmente, me drogava com aquele cheiro bom de perfume barato.
— Decidiu tirar umas férias de mim, Vincent? — Ele disse ofegante, com as mãos nos bolsos de trás do meu jeans. — Duas semanas.
— Ando ocupado com o curso.
Seus olhos quase sem cor me encararam de perto, sem piscar. Imaginei com quantas pessoas ele havia ficado nesse tempo que estive ocupado.
— Mais um pouco e eu iria atrás de você, nem seu pai seria suficiente pra me fazer mudar de ideia.
Abaixei a cabeça e encostei a testa em seu peito, senti o coração batendo acelerado e desacelerando aos poucos e isso me fez sorrir involuntariamente. Eu queria dizer tanta coisa mas ao mesmo tempo não queria dizer nada, e nessa inconsistência eu ia me confundindo cada vez mais à medida que pensava a respeito.
Desenhei com o dedo indicador a caveira em chamas estampada na camiseta abaixo da minha testa, e lembrei o que eu estava carregando dentro do meu moletom.
— Ei, é errado pegar alguma coisa que não é sua? Mesmo que essa coisa não tenha valor? — perguntei passando o dedo pelos olhos da caveira. Spencer sorriu e me fez erguer a cabeça para ver sua expressão relaxada.
— Você quer dizer roubar? É claro que é errado, cara. O que você fez?
Ele não estava me julgando, mas ainda assim me senti culpado enquanto abria o zíper do moletom e tirei a pilha de papéis do abrigo do meu peito.
— Eu...encontrei isso no cemitério.
Spencer pegou os papéis da minha mão e leu por alguns segundos, quando terminou estava se segurando pra não rir daquilo, ou da minha cara.
— É sério? — Os piercings nos cantos da sua boca tremiam — Você está se sentindo culpado por pegar uma pilha de papéis?
— Não é só uma pilha de papéis, tem algo escrito aí. — Os piercings continuavam tremendo.
— Vincent, isso ia sair voando de qualquer jeito. — Agora ele ainda sorria, mas com menos motivação enquanto fazia um bom trabalho em me deixar sem saída contra a parede. — Pense que você fez um favor pro cara que varre o cemitério.
— Isso não é confortante. Vou voltar lá e devolver.
Puxei o manuscrito dele e tentei me livrar do seu braço. O fato de que ele não parecia se importar nem um pouco era frustante, me fazia sentir fútil.
— Fala sério, eu só não quero que você vá embora de novo por causa de um papel idiota.
Spencer era como um ventríloquo, e eu sua marionete preferida. Tinha o dom de determinar o meu humor com um simples movimento dos dedos, e eu não sei dizer até que ponto eu gostava disso, mas aceitava sem reclamar das cordas em meus braços contanto que eu ainda fosse a estrela do seu show.
— Tudo bem...só deixa isso pra lá então.
Fechei o zíper do moletom e guardei os papéis lá dentro novamente, com culpa, mas os guardei. Spencer me observou fazer isso com um sorriso de canto, e suspirou depois de alguns segundos me encarando.
— Vamos lá, não fica puto comigo.
— Eu não estou.
— Mesmo?
Puxei-o pela gola da camiseta e beijei o canto da sua boca, sentindo a discrepância entre o calor da sua pele e o metal frio do piercing. Torci internamente para que ele não percebesse meus joelhos trêmulos, mas seus olhos me sorriram de uma forma terna, e meu nervosismo de repente se converteu em uma vontade enorme de ter Spencer só pra mim. Seria pedir de mais?
— Mesmo.
Não demorou para que estivéssemos nos entregando novamente, línguas ignorando qualquer privacidade entre si e corpos sem nenhuma vergonha.
Uma das suas mãos deslizou até o bolso da minha calça, e pude sentir todos os seus cinco dedo me apertando. Um calor repentino subiu dos pés para o corpo inteiro, tive que separar nossas bocas por um instante para recuperar o ar, seu hálito quente soprando em mim cheirava às balas de menta do balcão, e antes que eu pudesse voltar à sentir seu gosto, o sininho da porta tocou.
Enquanto eu ainda estava voltando à realidade, Spencer já havia se afastado e fingia estar organizando as prateleiras com um sorriso travesso. Puxei mais ar para oxigenar o cérebro, ajeitei o cabelo e caminhei normalmente de volta para a sessão de terror, como qualquer cliente interessado num passatempo à moda antiga.
Me abaixei para apanhar Sexta Feira 13 que estava abandonado no chão, analisei a capa e acenei para Spencer.
— Hoje, às oito, na sua casa. — ergui o DVD — Pode ser?
— Às suas ordens — ele respondeu depois de uma reverência ridícula.
Spencer tinha trabalho a fazer, e eu não iria atrapalhar mais do que já tinha feito. Andei alguns passos de costas sem querer tirar os olhos dele, agachado em frente à prateleira de suspense, o cabelo verde do jeito que eu havia deixado. Nos veríamos mais tarde, e foi só isso que me impulsionou a virar as costas e sair pela porta do sino com o filme em mãos, mais tarde eu o pagaria pelo aluguel.
Apesar de já ser maior de idade, morar na casa do meu pai me privava de coisas simples como chamar alguém para passar a noite, ainda mais se esse alguém fosse Spencer. Por conta disso, a alternativa era me convidar pro apartamento dele, um lugar pequeno e bagunçado em cima da locadora.
Enquanto eu caminhava pela rua um tanto agitada pelas crianças aproveitando o fim de semana ensolarado, senti o manuscrito crepitando dentro do meu moletom, o que me fazia sentir extremamente culpado por ter perdido qualquer intuito de voltar ao cemitério e devolver essas folhas onde achei. Só espero que não puxem meu pé de madrugada.
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