Notas iniciais
Este capítulo fala brevemente sobre suicídio. Não há descrição detalhada, porém deixo o aviso caso seja gatilho para algum leitor.

Estava muito, muito frio. A neve cortava nossos pés descalços, envolvi meus braços ao redor do meu irmão para deixá-lo chorar no meu ombro e tentar aquecê-lo, mas a neve continuava a cair e cobrir nossos cabelos e nossas roupas. Estávamos incapazes de nos mexer por frio e por medo. Me vi imaginando uma rota de fuga, algum lugar longe dali, qualquer lugar que eu pudesse fingir que isso não estava acontecendo. Meu irmão tinha a expressão de pavor no seu rosto infantil, suas bochechas sempre coradas estavam pálidas e seus olhos pareciam mortos.

Nós encontramos eles pendurados em uma árvore. A nossa árvore, onde costumávamos brincar na nossa infância. Nada explicava, apenas uma carta no bolso que foi endereçado somente a mim. As manchas das suas lágrimas na página em branco rasgada, era a evidência de uma grande dor que, até então, desconhecíamos. As últimas lágrimas que ele derramaria, a última angústia que ela sentiria. Desdobrei o pedaço de papel. Rabiscado, um rabisco apressado.

“O demônio está em vocês”

Eu caí de joelhos no chão frio. Agarrei a carta perto do meu rosto, tentando sentir um último cheiro do meu pai e da minha mãe. Se soubéssemos, não teríamos insistido. Nós nunca pedimos para sermos quem éramos. Se eu soubéssemos, nunca teríamos pisado em Hogwarts. Nós havíamos destruído nossa família e agora éramos só nós dois.

Mais uma vez, no meio da noite, esse pesadelo recorrente. Plot twist: não adiantava acordar. A cena que se repetia no mundo onírico era apenas uma lembrança nefasta de um ano atrás que seguia viva em minha mente, mesmo enquanto dormia. Sei que esta mesma memória obsediava também meu irmão e se antes tendo um ao outro era extremamente difícil e doloroso viver, agora separados essa missão parecia quase que impossível.

Mas havia um motivo para estarmos separados nesse momento, muito maior do que a saudade que nos consumia. Desde o dia nevado em que nossos pais nos deixaram para trás com aquela terrível carta de despedida havíamos buscado nos livros, feitiços e poções uma forma para que pudéssemos, nem que por um breve momento, nos comunicar com eles. A pergunta que nos rondava a cabeça era “por quê?” isso ter acontecido. Sabíamos muito bem das resistências de ambos sobre nossa educação na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, mas cinco anos atrás havíamos feito um acordo que nos permitiria estudar. Este trato, quase que secreto e nunca mencionado, nos impediria de usar qualquer tipo de magia que pudesse machucar alguma pessoa.

A cada página lida, a cada feitiço realizado em masmorras abandonadas, a cada poção testada rapidamente nos banheiros escondidos de Hogwarts a escuridão dos nossos corações se dissipava e era substituído por luz. A cada passo mais próximo de revê-los, mais certeza de que em algum momento seríamos capazes de estar em família novamente e era isso que nos mantinha acordado durante longas madrugadas.

Foi naquela noite que aconteceu. Era mais uma das noites frias em que conseguimos fugir dos nossos dormitórios e entrar sorrateiramente na biblioteca, pegar alguns livros e nos escondermos numa masmorra úmida e gélida. Quando Edgar descobriu, a xícara de chá que segurava em suas mãos se quebrou. Pedaços espalhados pelo chão brilhavam como pequenos diamantes. Sua boca se abriu num misto de surpresa e alegria, seus olhos azuis encheram-se de lágrimas e num instante eu estava em seus braços rodopiando.

— É isso, mana! — Ele falou baixinho no meu ouvido enquanto me abraçava tão forte que eu não sabia como respirar — Nós vamos conseguir.

Ainda abraçados, chorei em seus ombros. Chorei de alívio, de felicidade, de esperança. Edgar então me puxou pela mão e voltamos para os nossos dormitórios, o sorriso nos seus lábios não desapareciam e seus passos eram quase que saltos felizes no ar. A sua confiança me contagiou e por mais quietos que estivéssemos, havia uma grande troca acontecendo naquele momento. Antes de cada um subir para seu quarto, meu gêmeo me abraçou novamente e disse:

— Amanhã a noite vou lhe explicar tudo.

Ele sorriu mais uma vez. Havia receio em seus olhos. Foi a última vez que eu o vi.

Na manhã seguinte o sol me acordou entrando sem cerimônias pela janela aberta, no criado mudo ao lado da minha cama, a xícara que havia sido quebrada estava novamente intacta e um aroma de chá verde preenchia o quarto. Nas minhas mãos estava o livro que meu irmão havia lido na noite anterior. Na capa um bilhete escrito com a sua caligrafia.

“Fui encontrar nossos pais, logo estarei de volta.

O livro irá explicar”

Sedenta por explicações, abri o livro em uma página aleatória: Total escuridão. Atordoada, escolhi outra página: nada. Folheei o livro com os dedos e todas as páginas estavam pretas como se pintadas com nanquim. Meu coração deu um pulo. Não havia explicações. Mas eu sabia onde ele iria: onde enterramos nossos pais.



Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.