Abri os olhos com o grito de Laura. Sentei-me rapidamente na cama e encarei o grande buraco azul que contrastava com o piso branco. Olhei em volta confusa. Michael observava o mesmo buraco com seus olhos arregalhados "O que está-"

"Laura... A Laura..." Michael sussurrou sem tirar os olhos do fundo do buraco.

"O quê?!"

"O livro apareceu e-" Ele mesmo se interrompeu. Seu tom de voz estava calmo, mas suas mãos tremiam e seus olhos olhando fixamente para um ponto fixo da salinha deixavam óbvia sua preocupação.

Tentei levantar da cama, mas minha perna não se mexia, estava quebrada. Mike ficou parado simplesmente observando. Eu precisava de ajuda, Laura precisava de ajuda e- "Michael!"

Ele sacudiu a cabeça como se de repente acordasse, pegou um par de muletas e contornou a falha no piso do buraco até onde eu estava. Depois que ele me ajudou a me apoiar nas muletas eu me aproximei da luz azul e a examinei. Isso tinha que ser rápido. Estava pronta para pisar no buraco quando ele segurou meu braço. "Eu vou atrás da Laura, você fica aqui."

"De forma alguma, Laura é a minha amiga também."

"Com sua perna não vai adiantar muita coisa, é melhor que você se recupere e-" Soltei meu braço de sua mão e caminhei em direção a onde a falha era maior e Laura supostamente havia caído.

"Se você quiser pode vir junto." Respondi e encarei o buraco outra vez. Será que eu sobreviveria a queda? Isso trouxe-me preocupações sobre Laura que ainda estava lá embaixo. A luz que saía da rachadura em pleno solo era tão forte que eu nunca conseguiria ver o fundo ou opinar sobre a profundidade dela. O que o Destino estava aprontando? Não se desespere. Respire fundo. Em meio segundo Michael estava ao meu lado.

"Vou junto." Ele respondeu baixo e eu sorri antes de pegar sua mão, contarmos até três e pularmos.

–-//--

Abri os olhos e ergui a sombrancelha. Senti...Grama? Sim, mesmo olhando para cima enormes colinas estavam à minha volta e todas da cor do mais puro verde. O céu estava sem núvens e já mesclava-se com o laranja. Estava de tarde. A paisagem era tão... perfeita. Eu havia morrido? O cheiro de biscoitos pairava no ar. "Laura?!" sussurrei. Aos poucos minha visão ficou menos embassada pela queda e a provável pancada da minha cabeça na grama. Meus sentidos foram recuperando-se e eu senti a mão de Michael na minha. Seus olhos estavam fechados. O cutuquei. "Mike?" Ele abriu os olhos e me encarou sério.

"Julie! Você sabe onde estamos?" Sacudi a cabeça negativamente, pois não fazia ideia de onde estávamos mesmo.

"Levanta, precisamos achar a Laura." Me sentei e olhei em volta. "Laura?!" Formei uma concha com as mãos e gritei. Nenhuma resposta. Michael se levantou e me ajudou a levantar.

"Onde estão suas muletas?" Ele perguntou examinando o gramado ao nosso redor. Me apoiei nele e arregalhei os olhos.

"Mike, espera!" Senti algo na minha perna. "Eu não-" Ri e me soltei dele para testar ficar em pé sozinha. Minha perna formigou uma vez antes de ficar direita novamente. Me sentei e comecei a desamarrar o gesso.

"Impossível, a médica disse que ficaria com o gesso por mais de uma semana." Michael sussurrou mais para si mesmo pensando alto do que para mim. Sorri ao ver meu pé livre e observei Michael caminhar até o topo de uma das colinas. Ele voltou e sacudiu a cabeça negativamente. "Não sabemos as regras do jogo. Tem a possibilidade de Laura ter caído do lado oposto ao nosso ou em outro lugar... onde estamos?"

Respirei fundo e brinquei com meus dedos. Muitas possibilidades. Tudo que Michael estava fazendo era aumentar minhas preocupações com suas possibilidades. Fechei os olhos. "Não estamos na nossa cidade. Isso é óbvio."

"Sugere que ainda estamos no nosso... mundo?" Pela sua voz já estava óbvio que ele estava de braços cruzados e me encarando com sua cara de não impressionado que era característico dele. Arranquei um pouco da grama em volta de mim tentado pensar. Deve ter algo...

"Não. Não estamos em nada disso." Me levantei e caminhei até onde ele tinha caminhado antes. "Sei tanto disso quanto você, mas eu vou atrás da Laura e vou bater de frente com as suas possibilidades."

"Eu nunca disse que não deveríamos ir atrás da Laura." Ele falou e subiu até onde eu estava. Olhamos ao redor. "Só disse que não sabemos nada sobre onde estamos ou como isso funciona." Assenti e foquei meus olhos numa vila próxima de onde estávamos.

"Nós podemos perguntar para as pessoas ali." Apontei e ele assenti.

"Você vai descalça?"

"A grama é incrivelmente macia aqui." Sorri para ele e tentei estimar quanto tempo levaríamos para chegar na vila. Michael parecia estar estimando a probabilidade de alguem lá saber sobre a Laura e eu revirei os olhos. Ele sempre fazia isso. Respirei fundo e o cotovelei de leve. "Vamos fazer uma corrida até a vila, devem ser uns 60 metros até la, mas descidas são rápidas. Quando chegarmos lá, perguntamos para quem encontrarmos, okay?" Ele concordou.

Senti a grama debaixo dos meus pés e prendi meu cabelo em um coque para que nada me impedisse de chegar na vila. O tempo estava passando e logo seria de noite. Teríamos problemas se não começassemos à agir. Olhei para Michael mais uma vez antes de ele assentir e eu sentir minhas pernas correrem ladeira acima e finalmente o vento bater em meu rosto ladeira abaixo.

Chegamos na cidade rapidinho e eu respirei fundo antes de encarar Michael. Ele mantinha os olhos fechados e a respiração pesada. "Vamos, não está na época, ainda." ele tossiu algumas vezes antes de levantar o rosto vermelho e me encarar. Esperei apreensiva até ele franzir a testa e sorrir. O ataque de asma não veio. Soltei o ar que não sabia que estava segurando em minhas bocechas em alívio. Será que esse lugar possuía alguma fonte de cura?

"Eu nunca corri tanto." Ele falou antes de ajeitar os óculos. "E eu provavelmente vou encher minha bombinha com o ar daqui." Ri e paramos para admirar a vila ao nosso redor. Era pequenina e parecia abandonada, ainda que bem ajeitadinha. Não havia asfalto, apenas paralelepípedos de pedra colocados de forma irregular entre casas que variavam entre madeira ou pedras mais escuras que as da rua. Já estava escurecendo e só no final da rua havia uma luz fraca e amarela iluminando o que estava exatamente abaixo do poste. Peguei a mão de Michael e o guiei até onde estava a luz. "Iluminação à vela?" Michael sussurrou e estreitou os olhos. "Onde estamos?"

"Boa noite, crianças." A voz grave vindo de detrás de nós causou-me um arrepio e eu soltei a mão de Michael e corri até o poste antes de virar-me e encarar o dono da última frase. Michael se aproximou do foco de luz e logo um homem com um nariz enorme, olheiras fundas e um rosto rosado, cabelinhos grizalhos ralos, apareceu na escuridão. Ele carregava um lampião com um fogo bem vivo dentro e uma vara. "Não tenham medo, só estou acendendo os postes."

Michael se aproximou de mim e segurou minha mão. "Onde estamos?"

"Lebenwald" O ascendedor de velas encolheu os ombros e subiu a escada para acender outra vela. Observei ele acender a ponta da vara com o fogo da lanterna e então acender uma a uma as três velas do poste.

"O senhor teria talvez visto uma menina... uh..." Encarei Michael e ele apertou minha mão. "Cabelo tons de mel com castanho claro, olhos meio azulados... como ela estava vestida?"

"Uma blusa laranja de gola e, hum... calças jeans." Michael completou por mim e o moço pensou um pouco.

"Não, não, o que seriam essas coisas? É uma menina de quem falam?" Michael e eu nos entreolhamos e fizemos que sim. "jeans? Calça?"

"Somos... viajantes, não possuímos muitos costumes." Michael respondeu e postou-se na minha frente. "Fomos assaltados e-"

"Foram assaltados? Bom que venham ceiar na minha casa."

"Isso não será necessário-" Intervi e Michael me interrompeu.

"Claro que sim, uma honra." Michael sorriu e cutucou minhas costas.

O senhor sorriu de volta e desceu as escadas. "Eu preciso acabar meu trabalho, mas minha casa fica logo ali, é aquela taberna de madeira na esquina." E apontou o lugar com seu dedo.

"Obrigado pelo convite." Michael olhou para a direção, agredeçeu mais uma vez e me puxou até longe do moço.

"Michael. Vamos confiar em estranhos? Sua mãe vai ficar tão contente em saber que-"

"Se a ceia está sendo realizada quer dizer que tem mais gente para questionar e imagine, provavelmente a mulher dele."

"Oh!" Sorri. Ótimo. Michael parou na casa com a primeira vela acesa. Batemos na porta e uma senhora rechonchuda com rugas e olheiras mais escuras que as do senhor abriu a porta.

"Qual é a dessas pessoas e o sono?" Michael sussurrou para mim antes de virar-se para a moça e segurar minha mão novamente. "Boa noite, nós-"

"Pobre meninos" A senhora colocou as mãos em seu rosto fino e me encarou com seus olhos frios Michael se virou para mim e levantou uma sombrancelha. "Como pode cuidar assim dessa moça? Está com as pernas frias?"

Olhei para minhas pernas e comparei meu shortes que chegavam até metade das minhas coxas com o longo vestido da moça que chegava até seus pés. "Fomos assaltados." Repeti o que Michael tinha falado antes como desculpa.

"Pobres criaturas, podem entrar, temos sopa e eu arranjo algo para você vestir." Ela nos puxou para dentro e observamos a coleção de velas na sala de jantar. Esculpidas, coloridas, aromatizadas, acabadas. Ceras de todos os cheiros. Michael e eu nos entreolhamos e a senhora voltou para a sala com uma menina com o cabelo presos em duas tranças. A menina parecia ter uns 6 anos e nos cumprimentou antes de me entregar um vestido não tão armado como o de sua mãe. A senhora me apontou um aposento para eu me trocar e eu questionei Michael com o olhar antes de ele fazer que sim.

"Essa cidade está super violenta, uma mocinha tentou pegar uma de minhas roscas antes de vocês chegarem." A voz da senhora era rouca e forte, eu conseguia a ouvir mesmo com a porta do quartinho fechada. Estava tudo tão escuro. Não havia janelas e eu tentei ajeitar o vestido o mais rápido possível.

Ouvi a voz de Michael. "Era uma moça da idade da minha companheira, olhos claros, cabelo cor de mel?"

"Oh! Uma menina vestida de menino? Sim, sim!" Ouvi um bater de palmas. "Ela esteve aqui há pouco tempo atrás."

Abri a porta no mesmo instante. "Você a viu?! Sabe para onde foi?"

A senhora me encarou incrédula e Michael sorriu. "Não se preocupe, já demos conta dela."

"Como?!" Senti a mão da menina me guiando até a mesa onde uma tigela com sopa me aguardava.

"Já a mandamos para nosso rei."

"Re-rei?" Repeti e olhei para Michael que estava atento a menina. "Michael, ouviu isso?"

"Vou buscar um pouco de leite. Fiquem aí ..." A senhora entrou na cozinha e eu me virei para Michael.

"Vamos embora, precisamos encontrar a Laura! Quem sabe o que já fizeram com-"

"Espera." Ele falou olhando para a cozinha. "Está sentindo esse cheiro de-"

"Queimado?!" E com isso uma grande ventania pareceu rodar a casa e acender todas as velas de uma só vez.

"Onde está aquela menina?" Michael se levantou da mesa e olhou embaixo procurando a criança. Uma risada e as velas caíram no chão.

"Michael!" Me levantei e observei a sala começar a queimar a madeira de que eram feitas as paredes.

"Julie, seu vestido!"

Me virei para olhar o fogo alimentar-se do tecido azulado. Nunca conseguiria tirar o vestido a tempo... Me virei para a sopa. Okay. Poderia funcionar. Derramei o conteúdo já frio no tecido e o fogo apagou-se. A cera quente das velas começou a tomar o chão e eu já sentia meus pés queimando. "Quem eram elas?"

"Muito provavelmente não nossas amigas." Ele falou olhando para todos os cantos procurando uma saída.

"Michael, o teto!" Ele direcionou seu olhar para o candelabro de ferro que cedia agora que o teto pegava fogo. "Se não morrermos queimados morreremos por sufocamento."

"Calma. Fica calma." Ele mordeu o lábio e observou o caminho que a cera derretida fazia até nossos pés. As cinzas chegavam no meu nariz e traziam a sensação de que até dentro de mim pegava fogo. Pense. Pense. Ouvimos o rúido do teto no canto oposto ao que estávamos. Segurei a mão de Michael e subi na ponta dos pés para ocupar menos espaço agora que a cera magicamente nos circulava em uma circunferência perfeita. Respirei fundo.

Estávamos fritos.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.