O Livro do Destino
5 Julgamento
Amanda continuava folheando o livro e observando meu reflexo pelo espelho com um sorriso desonesto. De repente ela parou em uma página. Franzi a testa. Ela fez questão de ter certeza de que eu estava vendo o que ela estava prestes a fazer quando ela tirou uma caneta rosa brilhante de seu estojo e começou a riscar meu livro. Meu queixo caiu e ela riu. Ali, das letras mais curvas, mais rosas e mais arredondadas estava escrito ''Julie + Michael'' dentro de um coração com uma flecha atrevessando- o.
Onde estava a minha realidade? Isso tudo não poderia ser uma simples brincadeira? Não poderia acabar logo? O pânico tomava conta de mim. Tudo, tudo, tudo. Álgebra não estava ajudando.
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Abri meus olhos e vi o teto do meu quarto. Acordei na minha cama. Foi um sonho? Levantei e sorri. Graças a Deus eu só tinha tido o pior dos pesadelos. Me levantei e olhei pela janela. O peso de mil pedras não mais em minhas costas. Estava prestes a celebrar quando alguém tocou a campainha. Corri na escada em espiral da minha casa para o andar debaixo e abri a porta com um sorriso que há um tempo não enfeitava meu rosto.
“Olá-” Meu sorriso sumiu ao notar que Laura me fitava séria.
“Julie, o que aconteceu?” Ela estava de braços cruzados e cara de quem não estava contente, como eu estava ha apenas alguns segundos atrás,
“Eu estava prestes-” eu disse enquanto Laura entrava na minha casa e sentava- se no sofá da sala da minha casa.
“Você desmaiou no meio da aula. O que aconteceu?” Ela repetiu a última parte como se agora eu soubesse de tudo.
Oh.
Oh!
“Laura, a Amanda escreveu no livro.” Falei lembrando das últimas coisas que conseguia e que eu esperava que fossem apenas um sonho ruim.
“E como isso-”
“Eu não sei se isso vai afetar alguma coisa, mas eu preciso do livro de volta o mais rápido possível.” Tudo voltou! Tudas as preocupações sobre o que não deveria fazer mais de duas horas voltaram para minha mente.
Laura concordou. “Ela levou tudo na brincadeira. Não acho que leu muito-” Laura se interrompeu para pensar por um instante e me fitar “O que ela escreveu?”
Suspirei em forma de alívio. “Escreveu um coração com-”
“Felipe dentro!?” Laura me interrompeu e isso me fez lembrar do que havia acontecido ainda antes.
“Na verdade...Michael.”
E nesse momento o rosto da Laura virou sua cara emburrada para um sorriso acompanhados de bochechas rosadas e olhos azuis. “Você... acabou de admitir?”
Assenti. “O problema é que a Amanda colocou nossos nomes em um coração e eu tenho medo no que isso pode afetar!”
“Vamos pegar seu livro de volta, Julie.” Laura se levantou determinada. “Estamos a quantas páginas do coração?”
Mordi o lábio. Quantas? “Eu não sei.”
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Chguei mais cedo na escola. Eu ia pegar o livro de volta. Hoje. Agora.
“Amanda.” Abri a porta e a encontrei lendo o livro com suas amigas ao seu redor. “Devolva-me o livro.”
Amanda abriu um sorriso novamente. “Não.” Ela virou a página. “Meus pêsames sobre a sua mãe.” Arregalhei os olhos. Ela já tinha chegado nessa parte? “Ela não te aturava, Juliette? Foi por isso que ela...? Conta pra sua amiga, Juju."
Senti lágrimas escorrerem pela minha face até meu pescoço. “Devolve esse livro.”
“Nossa, que medo!” Amanda falou com seu sorriso irônico estampado na cara. Paula Maria soltou uma risadinha cínica. Pisei firme até ela e ela fechou o livro e o colocou entre si e a parede. Sorri para ela e sem pensar chutei sua perna. Ela me encarou incrédula e deixou o livro cair junto com ela.
Ops.
As amigas dela me empurraram e eu bati a cabeça na parede. Foi tempo o suficiente para que Amanda e suas amigas saíssem da sala em direção à diretoria com o livro. Me encolhi contra a parede.
“Não, não, não...” Uma mão fez com que minha cabeça encostasse no ombro da pessoa ao meu lado. Olhei para reconhecer Michael que sorriu para mim. Eu me sentia grata por ele estar ali.
“Sabe, Julie, você precisa se importar menos.” Ele murmurou.
“Fácil para voc-”
“Conseguiremos o seu livro de volta, ficar se destruindo por dentro não vai faze-lo voltar, quem sabe... quem sabe é isso que ele realmente queira? Pare de se importar.” Realização. Ele estava certo. Mordi o lábio. Faltava eu dizer. Este era o momento certo para dizer. Era, não era?
“Você... está certo, obrigada.” Me levantei, esquivando-me do nosso rotineiro abraço. “Mas eu preciso pegar o livro.” Ele suspirou levemente confuso .
“Okay, eu te ajudo.”
“Ô, casal!” Laura colocou sua mochila embaixo da carteira e nos encarou. “Por que a Amanda está indo para a secretaria?” Ela não disfarçou, olhou para mim. Sabia que tinha sido eu. Michael riu de leve.
“Lembra aquele chute que você queria dar nela? Considere o trabalho completo por Juliette Roberts.” Dei uma cotovelada na barriga de Michael e Laura me encarou. Aprrensão estampada em sua cara.
“Você... chutou...” Fiz que sim e ela franziu a testa. “Julie!”
“Eu... elas... elas...” Eu não tinha razão alguma e Laura estava deixando óbvio. Me senti a pior pessoa do mundo.
“Elas falaram da mãe dela!” Michael se postou a minha frente “Todo mundo está falando! Não é sua culpa, Julie!” eu o afastei.
“Michael, eu usei violência, não precisa me proteger.” Já estavam correndo boatos? Nossa. Respirei fundo. “Quero ver o dia que conseguirei por minhas mãos naquele livro novamente agora.”
Michael se virou. “Pára com isso!”
Laura me abraçou. “Vamos conseguir seu livro de volta, Julie, eu te prometi isso. Por que tentou sozinha?
Fomos interrompidos por uma secretária entrando na sala. “Julie Roberts.” Nós três a olhamos. Não precisava olhar para os lados para saber que meus amigos faziam a mesma cara culpada que eu. Por que os meti nisso? Por que? “Acompanhe-me.” Ela olhou para meus amigos. “Alguém aqui é testemunha?” Michael logo se pôs ao meu lado, mas eu o empurrei de volta e fiz que não.
Segui a secretária pelos corredores da escola. Chegamos na secretaria onde ela me levou para a sala da coordenadora e me puxou uma cadeira. Amanda e suas amigas já estavam sentadas como se tivessem nascido para sentar daquela maneira naquele lugar. Meus olhares dispararam para Ysabelle que ria. Ótimo. Ysabelle 10 x 0 para Julie. Helena era a paixão de Michael desde o 6o ano e desde o dia que ele me contou montei um placar das vezes que ela já se deu bem por minha conta e parecer ainda mais bonita ou melhor que eu. Sacudi a cabeça, por que estava pensando na vida romântica do Michael? Era o livro? Ou era minha cabeça? A coordenadora entrou na sala e me encarou brava.
“Outra vez, Juliette?”
Ah, como eu achava aquela mulher implicante... “Eu sinto muito.”
Ela ajeitou os óculos. "Quinze anos e age como uma menina de-” Bloqueei o comentário que ela sempre faz quando acabo na secretaria por causa da Amanda. “O que aconteceu desta vez?” Por ser a décima sexta vez que me encontrava na secretaria por culpa da Amanda eu realmente duvidava que a coordenadora acreditasse em minha inocência.
“Ela tentou roubar meu livro e quando eu a peguei em flagrante ela me chutou.” Amanda falou com o tom de voz mais meloso e mais irritante que já tinha ouvido. Parecia um julgamento. Era um julgamento. A pequena sala em que nos encontrávamos de repente virou um grande auditório e a coordenadora trocou suas roupas beges por uma de juíza.
“Meretíssima! O livro é meu, pode ver na capa e no conteúdo.” A juíza pediu o livro e verificou.
“Julie, se a senhorita tivesse nos avisado antes teríamos lhe devolvido o livro sem problemas, agora ele será da escola, até que seu pai venha falar com a escola. Agressão, Julie, nunca é a resposta.” E assim a sentença é lançada e como sempre, eu me dei mal.
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