O Livro do Destino
2 Em Tudo Que Acredito
Ao praticar o intenso esporte de viver conseguimos entender certas coisas. Fogo queima, água afolga, terra suja... morremos com certeza dessas coisas e com outras perguntas não respondidas. Pra que viver? Vida ou morte, calor ou frio, amor ou indiferença? São palavras atribuídas a coisas que sentimos, mas nem todos sentem a mesma coisa e agora tanto faz.
Julie, Juliette, como quiser, outro nome atribuido à um sentimento ou à uma pessoa. Eu. Os títulos, rótulos e nomes passam a não importar mais e tudo que eu deveria ter aprendido e vivenciado em uma longa vida foram entregues em minhas mãos. Por um livro que- Não tem pressa? Então, por favor, sente-se, sempre gostei de contar histórias.
Naquele dia não fui para casa após a escola. A biblioteca, como sempre, para mim, parecia ser uma melhor ideia. Agora, na minha cidade não tínhamos bibliotecas. Tínhamos... biblioteca. Uma antiga construção empoeirada com pouquíssimos livros de séculos e mais documentos judiciais do que realmente ficções e enciclopédias. Eu leio bastante, mas ter lido todos os livros daquela biblioteca não era considerado grande feito.
Meus olhos procuraram por algum livro novo, mesmo que infantis ou seculares. Decidi ler o mesmo livro outra vez. Sentei-me a mesa e o abri, meus olhos estavam cansados da mesma palavra e acabaram olhando a arquitetura da biblioteca e como se os deuses houvessem ouvido meus gritos de tédio uma luz do outro lado da biblioteca me chamou a atenção. Quem suspeita de luzes azuis? Eu queria ter suspeitado. Me levantei e fui em direção à fonte. Ela logo sumiu e eu estava pronta para voltar ao livro quando meus olhos viram algo incomum. Um livro em cima da mesa de madeira velha. Não incomum o livro, nem o fato de um objeto em cima de uma inofensiva mesa de madeira e sim isso na biblioteca. Nunca eram deixados livros fora das estantes. Me aproximei do livro e admirei suas páginas. Então havia um livro que eu nunca havia lido ali? Olhei para ambos os lados. Ninguém lá.
Fitei o livro por uns oito segundos, peguei, esfreguei a capa empoeirada para conseguir ler o título. "Destino", autor "você mesmo". Assustei- me ao mesmo instante que me interessei, levei para a bibliotecária que não reconheceu tal peripécia, deixando- me ficar com ele para mim. Achando interessante a ideia de levar um livro novo e de graça para minha casa, o pus na mochila e voltei pedalando para casa, pensando em que tipo de livro carregava comigo.
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"Juliette encontrou o livro que mudaria sua vida". Fechei o livro. Uma piada de mal gosto? Passei o dedo pela capa cor verde musgo e o título "Destino" gravado em letras douradas. O livro era sobre mim? Desde o primeiro capítulo o livro contava sobre minha vida.
“Juliette! Estou em casa!” Meu pai anunciou do andar debaixo e eu abri o livro novamente. Haviam coisas escritas até o final do livro. Seria o modo como morreria? Mordi o lábio. Será? Abri a última página e li. "Julie morreu de velha idade ao lado de seu marido Michael." Revirei os olhos, coloquei o livro em cima da mesa e andei pelo quarto com um sorriso bobo no rosto. Eu era besta por acreditar que aquilo era verdade, mas meus sentimentos estavam falando mais alto. Obviamente uma piada de um colega, mas... Meu pai abriu a porta atrapalhando minha linha de raciocínio. “Hora de dormir, Juliette.”
Fiz que sim com a cabeça e desliguei a luz. “Boa noite.” Respondi e ele foi embora. Suspirei e me cobri. Meus olhos estavam pesados e eu ainda sentia meu coração palpitando por causa da brincadeira. “Grande coisa...” fechei os olhos e tentei pensar em outra coisa.
Passaram-se horas e eu não consegui dormir. O livro chamava a atenção. Poderia culpar meu estado de sono com as sombras esquisitas que eram projetadas na parede, mas eu já culpava o livro. Mordi o lábio. O que fazer? O livro já não me importava. Eu devia me livrar dele. Um jeito que nunca mais o veria. Sim.
Isso.
Levantei e joguei o livro pela janela. Só podia ser uma brincadeira, e eu não tinha tempo para brincadeirinhas assim.
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