O Livro do Destino
3 "Capítulo 1"
Acordei com o livro em cima de mim. Estava aberto, era pesado. Esfreguei os olhos. Eu o tinha jogado da janela? Tinha! Gritei e o joguei no chão outra vez. Desta vez olhei para o papel avulso entre as páginas. ''Bom dia'' escrito em letras tons chocolate. Franzi a testa e tentando entender o que acontecia quando meu pai bateu na porta do meu quarto
“Já está pronta para a escola?”
“Um minuto.” Esse livro estava começando a me deixar nervosa. O tranquei dentro do guarda- roupa e me aprontei para a escola. Vi outros bilhetes se acumulando e sumindo que vinham do vãozinho das portas do guarda- roupa enquanto penteava meu cabelo. Eu estava ficando louca. “Ótimo, presente de grego.” murmurei e estava prestes a abrir a porta do quarto quando um vulto me empurrou para trás.
“Não saia...!” Inclinei a cabeça para o lado. A voz sumiu tão de repente quanto o vulto. Eu estava começando a ficar com medo. Meus pés fizeram o favor de me guiar à caixinha de remédios sem que notasse e tomar algo para a dor de cabeça.
“Pronta?” Meu pai perguntou entrando na cozinha e arrumando as coisas para o seu trabalho.
Fiz que sim e coloquei a mochila nas costas.
“Quer uma carona?” Ele fitou a mesa sério.
“Vou... com o Michael.” Menti.
“Bom dia, então.”
“Bom dia.” Respondi e ele saiu da casa sem me olhar outra vez. Caminhei até o quintal observando o carro partindo com velocidade em direção ao do trabalho de meu pai. Talvez ele fizesse questão de ir rápido caso eu mudasse de ideia, para que não desse tempo... Suspirei e tirei minha bicicleta da garagem. Não iria com o Michael hoje, eu tinha que pensar sozinha.
Cheguei na escola rápido demais. As coisas pareciam no auto piloto. Caminhei até a sala, coloquei a mochila embaixo da mesa e me sentei observando qualquer coisa. A sala estava vazia, a não ser por um grupinho de meninas fofocando no fundo da sala de aula. Fechei os olhos tentando me acalmar. Como o livro havia voltado para o meu quarto? Como tinha me mandado... "bom dia"? Abri os olhos novamente esperando que as respostas tivessem gravadas em algum lugar. Surpresa. Gravuras novas na mesa surgiram. ''Advinha...'' a letra era perfeita demais para ter sido escrita com alguma tesoura ou estilete e como nas outras mensagens sumiu do nada. Segurei a respiração. Eu não conseguia pensar em nada mais.
Novas letras começaram a ser escritas na mesa, desta vez em vermelho. ''Aqui começa o sangue.'' e como se a mesa sangrasse as letras se encheram da mesma tinta em que foram escritas e começaram a foramar uma poça no chão. Levantei da mesa num pulo e tudo sumiu novamente.
“Julie?” Alguém me chamou detrás de mim e eu escondi meu rosto em minhas mãos. Ninguém podia ver aquilo, certo? “Julie, o que foi?” Sua mão parou em meu ombro e me chacoalhou. “Julie?!”
Mordi o lábio e respirei fundo me virando rapidamente para encara-lo. Era Michael. “Bom dia.” respondi rápido e ele arregalou seus olhos com a mudança repentina de assunto.
“O quê-”
“Estudou para a prova?” O interrompi tentando parecer que estava tudo em ordem e olhei em volta da mesa, nada, absolutamente nada, ótimo. Voltei meus olhos para Michael que, me encarando com os braços cruzados e uma postura nada convencida com meu teatro falou no seu tom mais seco:
“Oi?” Queria rir. Michael nunca deixava de estudar. Essa foi a pior desculpa que eu poderia inventar. E eu ainda precisava distraí-lo rápido. Mesmo Michael sendo meu melhor... amigo eu não queria assumir em palavras o que acontecia e o que eu sentia naquele momento. Sei que não era justo... Afinal, considero-nos amigos desde que nasci. Nossas mães eram amigas. Ele esteve comigo 100% da minha vida até hoje e eu queria que ele estivesse comigo pelo 100% total da minha vida, isto é, eu queria sim, que o que estivesse escrito no livro se profetizasse.
“Olá.” Respondi e ele me encarou incrédulo.
“Você é impossível- que livro é esse, Julie?” Ele apontou para minha mochila e eu o observei um pedaço do Livro Do Destino dentro de minha mochila. Meu queixo caiu. Eu não estava louca. Estava acontecendo mesmo. Michael tirou o livro da minha mochila e eu rapidamente o tirei das mãos dele.
“Michael eu acho que preciso... de ar-” Michael fez com quem iria comigo e eu o empurrei com a outra mão e fiz que não. “Sozinha, por favor.”
Ele semicerrou os olhos. “Julie, o que está acontecen-”
“Ansiedade para a prova.” Falei correndo até a porta.
“Mas não leve o livro com você-” Fechei a porta e corri até o banheiro. Ar. Arranquei as páginas do livro e as rasguei enquanto corria apressadamente. Acabei cortando minhas mãos e dedos fazendo com que algumas gotas de sangue começassem a escorrer de minha mão e sendo atormentada com mais páginas simplesmente “brotando” do livro.
Chegando ao banheiro, fui direto lavar minha mão direita, onde escorria gotas e gotas de sangue.
“Julie...?” Vi o reflexo de minha amiga Laura entrando no banheiro. “Julie, o que... Sua mão está sangrando!”
“Laura!” Ela olhou para o livro e me encarou.
“O que está acontecendo?” Ela murmurou.
“Laura?!” Ouvi a voz de Michael do lado de fora do banheiro.
“Fica calmo, japa.” Laura virou-se para a porta fazendo um sinal com a mão para Michael esperar e depois virou- se para mim, com as mãos na cintura ela encarou o sangue escorrendo no meu braço. “...”
“Eu estava... lavando minhas mãos quando... essa cerâmica da pia está afiada e-”
Laura já não estava querendo explicações. Levantou meu braço e o examinou. “Julie... sua pele está absorvendo...” Olhei para o meu braço e constatei o que Laura havia falado. O sangue estava aos poucos sendo absorvido e desaparecendo. Ela me encarou séria e eu encolhi os ombros sem saber o que dizer.
–//--
“Eu não... entendi...” Michael repetiu outra vez e Laura coçou a cabeça.
“Nenhum de nós entendemos.” Ela se virou para mim e lançou outro olhar estranho para o livro. “O que você está fazendo com isso?”
“Eu...” Como explicaria? Nem eu sabia direito o que eu estava fazendo com aquele livro ainda, além de que eu nem queria segurar o livro. Ele era pesado. Extremamente pesado e provavelmente colado na minha mão, mas eu não seria a pessoa a ver se realmente estava. “Eu... não consigo explicar-”
“Julie!” Amanda, menina encrenqueira de minha turma, gritou do final do corredor e eu me perguntei se meu dia poderia ficar pior. Claro que podia. “Conta para a amiga o que aconteceu com você?” Ela riu e olhou para o meu livro claramente pronta para me irritar com todo aquele sarcasmo de gosto duvidoso.
“Por que você não nos deixa em paz e vai lá com a sua gangue?” Laura murmurou ao meu lado e Amanda ignorou.
“Olha! Ta lendo outro livro?! Legal, deixa eu advinhar... os mocinhos morrem no final?” Ela riu e olhou para Michael. Fitei a maquiagem roxa em seus olhos junto ás bochechas vermelhas como morangos. Parecia ter levado um soco no rosto. Urgh. “Você morre no final.” Ela sussurrou alto para que ouvíssemos, mas baixo para parecer que falava algo importante. Depois virou-se para mim e piscou. “Eu vejo a cena: 'E finalmente o mais óbvio casal parou de ser trouxa e admitir que se queriam com... como eles descrevem? Mais ardente paix-” Michael a encarou sério e ela se interrompeu para rir. “Vocês dois não tem graça.” Ela revirou os olhos. “Só quero garantir que fiz minha parte.” E com isso ela se retirou e me deixou com uma Laura rindo ou do que Amanda falou ou do jeito que a Amanda andava remexendo o traseiro pequeno que ela pensava ser enorme (pensava) e um Michael incrédulo. O sinal tocou para a primeira aula e de repente, diante dessa cena cotidiana me senti um pouco mais normal e possibilitada de ignorar o livro em minhas mãos.
Andamos juntos para a sala com Laura sussurrando que quem seria madrinha era ela. Michael me lançava olhares preocupados. A primeira aula começou assim que entramos. Tiramos os cadernos para fazer exercícios e Michael aproveitou o momento para sussurrar. “É melhor você explicar o que aconteceu, Juliette.”
Michael sentava atrás de mim e eu não sei se eu era grata ou não por isso. Não neste momento. “Eu já falei que não consigo.” sussurrei de volta e ele chutou minha perna por debaixo da mesa. Revirei os olhos. “Esse livro é... assombrado, Mike.”
Ouvi ele rir. A professora o olhou com um olhar de censura e ele ficou quieto. Laura, que sentava do outro lado da sala, virou-se para nós e nos encarou séria. Conseguia quase ouvir seus pensamentos dramáticos.
“Eu não estou brincando.”
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