O Livro Do Destino
73 Mike e eu
Caminhei até a casa do Mike, talvez nem estivesse totalmente consciente do que fazia, e se isso estiver "correto" eu não estive consciente de nada que fiz todas essas semanas, as únicas coisas que realmente passavam por minha cabeça eram preocupações com a Letícia e o Destino.
Henrique, o irmão do Mike (então... agora lembrei que são dois... talvez seja mais fácil chama-lo de outro Henrique abreviação: O.H.) atendeu a porta.
–Oi, Julie. Ele falou encostando-se no batente e voltou a se concentrar em um bloquinho de notas.
Uma pessoa mais anti social que eu: O.H.
–Oi, Henrique o...
–Sim, — O.H. suspirou e revirou os olhos sem se desconcentrar do papel — o Mike está.
–Obrigada. Falei entrando.
Henrique sentou no sofá e depois apontou para o sótão.
Subi as escadas e observei Mike que ainda não notando minha presença estava totalmente concentrado no computador.
Me escondi atrás de algumas caixas me aproximando sem que notasse.
Ele estava totalmente distraído.
Corri até ele e cobri seus olhos com minhas mãos.
–Deixe-me adivinhar. Ele falou segurando minhas mãos e rindo.
Segurei o riso.
–Que mãos geladas, Julie.
Tirei minhas mãos de seus olhos.
–O que está fazendo? Perguntei sentando-me do seu lado.
–Tentando acabar de fechar este portal. Ele falou apontando para o buraco não tão enorme quanto da última vez que me lembro.
–Genial.
–Estou transferindo a energia e partículas deste portal para a NERF do meu irmão. Ele falou sorrindo.
–Não fale em energia.
Ele deu de ombros.
–Julie o que realmente aconteceu no castelo?
Ele fechou a tela do computador e me encarou.
–Nada realmente grande... você sabe... eu vi o Destino, ou devo dizer, o cara que manipula os livros, li suas cartas e tentei sobreviver. Falei dando de ombros.
Ele fez um gesto positivo com a cabeça de leve.
–Está dormindo? perguntei.
–Eu não durmo de olhos abertos. Ele respondeu revirando os olhos.
Dei de ombros.
– Sei que é perigoso estar aqui e que é egoísta da minha parte querer que esteja, mas fico feliz em saber que você está na mesma dimensão que eu. Mike falou depois de um longo silêncio.
–Eu fico feliz de saber que aprecia minha companhia, mesmo ela sendo totalmente perigosa, arriscada e desimportante . Falei fazendo uma careta.
– Se eu não apreciasse sua companhia não gostaria de você. Ele falou revirando os olhos.
– Você "gosta" de mim? perguntei torcendo o lábio.
Ele riu.
–Eu amo você. Ele falou fazendo uma careta.
Sorri.
–Eu também.
Ele olhou para a janela.
–Pretendia sair, mas já está tarde. Falei olhando para o sol já quase desaparecendo.
–Se ainda quiser sair, ali tem lampiões. Mike falou apontando para uma caixa.
–Adoro lampiões! Falei correndo até a caixa.
Ele me acompanhou com o olhar.
–Quando eu morrer, por favor, coloque vários lampiões em volta da minha lapide. Falei separando alguns lampiões empoeirados.
Mike franziu a testa.
–Pretende morrer? Ele falou se levantando e examinando os lampiões.
–Mike, não esconda a verdade — Falei dando de ombros — Sei que vou morrer.
–Mas pode ser evitado. Ele falou colocando o lampião na mesa.
–Não, não pode, quando o Destino quiser eu vou morrer, e eu estou pronta para isso.
Ele segurou o ar nas bochechas por alguns segundos (ele sempre faz isso).
–Tem certeza?
Fiz que sim.
–Mas isso não impede que eu viva normalmente enquanto posso e tal.
Ele olhou para os lados discretamente.
–Então você tem que aproveitar cada instante.
Sorri.
–Eu estou, sempre quis uma aventura, algo novo, olhe, agora tenho o que queria. apontei para ele.
–Você não vai morrer, enquanto puder não vai.
Fiz que não com a cabeça.
–De um jeito ou outro vamos todos ficar juntos no final.
Ele concordou de leve.
–Para onde vamos?
–Para um lugar com grama seca, uma árvore sem folhas e não pega internet.
–Ah, não, Julie... Ele falou desanimado.
Ri.
–Precisa aprender a enxergar a beleza em tudo.
~~//~~
–Diga o que vê. falei depois que escalamos a pequena colina irregular, fazendo-o parar de me encarar e olhar para o campo ao redor dele.
–Grama seca e alta por todo o canto, uma árvore que logo será derrubada pelo vento, e sem energia. Ele falou revirando os olhos.
–Sabe o que eu vejo? perguntei ansiosa.
–Vai me dizer que vê um mundo cheio de arco-íris e pôneis. Ele falou cruzando os braços.
Fiz que não.
–Estou vendo o que vê... mas melhor.
Ele me encarou mostrando que realmente não estava interessado.
–Está vendo este campo seco? é uma grama cor de ouro, por falta da energia consigo ver todas as estrelas e mesmo que tenha pouca sombra da árvore ela impede que cresça muito mato em volta dela.
Ele deu um sorriso amarelo.
Revirei os olhos.
–Não é fácil encontrar na hora, eu mesma não consigo, mas com prática...
Ele me encarou incrédulo.
–Mais um exemplo: Segure minhas mãos com força. Falei estendendo as mãos.
Mike me encarou desconfiado, mas as segurou.
Sorri.
–Isto não é um bom sinal. Ele falou olhando pro lado e tentando soltar as mãos que eu segurava com força.
–Tem razão. Falei dando-lhe uma rasteira que o fez cair na grama alta.
–Julie... ele falou e continuou deitado.
–Desculpe, não queria machucar meu namorado. Falei rindo e me sentando do lado dele.
–Pensa em algo bom nisso?
–O que tem de bom na sensação de quase quebrar suas costas?
–Primeiro: a sua namorada quase quebrou suas costas e isso é melhor que alguém que queria lhe fazer um real mal, segundo: A grama seca e alta tornou seu impacto mais macio.
Ele me encarou deitado, provavelmente não queria sentar ou suas costas haviam realmente sido muito machucadas.
–E qual seria a terceira coisa boa nisso?
–Eu não preciso ficar na ponta dos pés para lhe beijar. Falei rindo.
Acho que fiquei completamente viciada em beija-lo, mas o que posso fazer? nada.
–Mesmo assim minhas costas continuam doendo, não consigo sentar. Ele falou fingindo estar bravo.
Fiz carinho em seus cabelos quase lisos.
–Por que eu me sinto assim depois? Ele perguntou fazendo carinho em minha mão.
–Sente-se como?
–Sei lá, sabe, um toque de realidade.
–É, realidade é...
–bom?
Ri.
–Sim.
–Estava pensando.- Ele falou virando a cabeça para me encarar. — Encontrei outra coisa bonita na paisagem local.
–O que seria?
–O lugar é... bonito... mas o fato de você estar aqui o torna mais. Ele falou sorrindo.
Ri.
– No que está pensando? Ele perguntou ao notar meus devaneios.
–Primeiro: Os sonhos da Letícia são reais? ela vai melhorar logo? Segundo: Meu deus! acho que quebrei as costas do meu namorado, Terceiro: Felipe respondeu minha carta?
–Não sei responder nenhuma delas.
–Eu sei. Falei rindo.
–Mas a Letícia não teve nenhuma melhora?
–Ela diz que vai encontrar a Laura.
Ele me encarou sério depois fez que ia falar algo, mas desistiu.
–Precisamos achar um jeito de acalma-la, se descobrirmos mais sobre a explosão... Falei.
–Quer ver isso agora? Ele perguntou.
Sorri.
–Não, as poucas horas que tenho assim não podem ser contaminadas por estes pensamentos também.
Ele concordou de leve.
–Olha, já apareceram. Ele falou apontando pro céu.
–São tão visíveis aqui. Falei impressionada com a visão cheia de estrelas.
–Verdade.
Levantei.
–Faz tanto tempo que não as vejo tão claramente.
Me joguei no chão do lado dele.
–Mike, acho que também machuquei minhas costas.
Rimos juntos.
–Julie, sei que não quer tocar no assunto, mas isso me perturba, não acha que o Destino virá lhe procurar e por isso explodirá o local?
Pensei um pouco.
–Mike, o que eu vou fazer? não quero voltar.
–Precisa ver a carta do Felipe. Ele respondeu.
–Por que não vem comigo?
Ele deu de ombros.
–Seu pai quer que eu vá jantar na sua casa, digamos que eu não sou uma pessoa muito confiante para o caso de seu pai começar a falar comigo.
Acredito no Mike, ele sempre teve medo do meu pai, não o culpo, vamos dizer que meu pai não é o cara mais simpático do mundo...
–Deixe de besteira. Falei rindo.
Ele deu de ombros.
–Julie, vai mesmo deixar de contar o que aconteceu no castelo? Ele perguntou de repente.
–É que eu já resolvi.
–Nada está resolvido até acabar.
Suspirei.
–Recebi uma carta. Falei entregando a carta que já estava solucionada.
Ele pegou a carta e o lampião.
–Como sabia?
–Da carta? Ele perguntou antes de começar a ler.
Fiz que sim.
–Eu não sabia, mas sei quando está escondendo algo.
Revirei os olhos.
–Todos sabem quando escondo algo. Falei fazendo uma careta.
Ele deu de ombros e leu e releu mais algumas vezes.
–Quem lhe mandou isto?
Tirei a última carta que minha mãe redigiu enquanto viva e lhe entreguei.
Ele leu o primeiro parágrafo e ficou um pouco confuso.
–Esta não é a carta...
–É...
–Não entendo o que uma tem a ver...
–Mike — falei sentando-me e pegando a carta que ele havia fechado. — Compare as letras.
Ele olhou e franziu a testa.
–Acha mesmo que...
–Pode completar as frases, amor. Falei rindo.
Ele revirou os olhos.
–"Amor"? — Mike fez uma careta, revirou os olhos e riu- Que droga.
Ri.
–Olha, minha mãe escreveu esta carta.
Ele me encarou com atenção.
–Ela queria que eu a perdoasse.
–É claro que fez isso. Ele falou parando para olhar para a carta por um instante.
–Sim... mas é complicado...
Ele concordou de leve.
–Acho melhor voltarmos. Falei me levantando.
O ajudei a levantar.
Ele reclamou um pouco, mas depois disse que não doía.
–Quer que eu lhe acompanhe até em casa? Ele ofereceu.
–Não, eu posso ir sozinha, além do mais, suas costas...
–Não dou a mínima para minhas costas. Ele falou fazendo uma careta.
–Tudo bem, tudo bem mesmo, é melhor que eu vá sozinha, a casa está uma bagunça com as coisas do casamento. Respondi.
–Falando nisso...
–Meu pai pediu para convidar você. O cortei.
–Para o casamento? ele perguntou fazendo careta.
–Você vai, sim, eu não vou ficar sozinha lá.
Ele revirou os olhos.
–Mas talvez o Felipe queira entrar comigo na igreja.
Ele sorriu.
–Não, não, eu adoraria lhe acompanhar.
Ri.
–Ótimo.
–Vai ficar bem? perguntei.
Ele fez que sim.
Me despedi dele e fui andando para casa, na verdade a colina ficava perto de minha casa assim como a dele.
Fale com o autor