O Lince e a Pantera Negra
1 Capítulo Único
Notas iniciais
A situação daquele coelho mudou de “azar absurdo” para “sorte sobrenatural” em um intervalo de no máximo 4 segundos. Em um instante, ele estava na mira dos dois melhores caçadores de Inquini. No outro, ambos caçadores estavam desacordados.
R×N×P×G
Daiki acordou com cabelo loiro na boca. Estratégico, analisou a situação: seus olhos estavam mal vendados e seus braços estavam bem amarrados a outros dois braços com, o que parecia, serem tiras de couro. Conhecia aqueles nós. Mas não fazia sentido. Não invadira o território do Yōsen recentemente. Faria sentido Seirin ou, argh, Tōō capiturá-lo. Então, lembrou-se da flecha tranquilizante que o atingiu e seu cérebro deu um nó maior ainda.
Achou ter solucionado o mistério ao se lembrar de alguém que copiava estratégias e técnicas alheias, mas só então reparou que era a essa pessoa que estava amarrado. Bom, essa seria a única explicação para o cabelo loiro.
Quem? Quem poderia capturar os dois ao mesmo tempo? Que clã se sentiria seguro ao capturar os melhores caçadores de Inquini? Nem mesmo o Seirin teria culhões para isso. O caçador estava confuso e incomodado com a proximidade ao seu rival, que parecia ainda estar desacordado.
Tentou permanecer imóvel, mas qualquer caçador que se preze sabe diferenciar uma presa consciente de uma presa inconsciente.
— Aomine, Aomine... Quando você vai parar de caçar no nosso território? – Daiki reconheceu a voz.
— Hyuuga! Aposto que você acabou de ajeitar os óculos no rosto – disse, sarcástico. Será que estaria ele confundindo os nós no couro? Será que o Seirin conseguiu fazer um tranquilizante, mesmo que fraco? Talvez estivesse enganado em relação à audácia deles. – Sobre os territórios... Bom, você sabe que eu não tenho um território. Sempre que eu caçar vai ser invadindo um!
— Então porque você não para de caçar? – Aquela voz? Daiki não entendia o que estava acontecendo.
— Mukkun?! – disse, sem conseguir disfarçar a surpresa e confusão.
A risada que chegou aos seus ouvidos fez Daiki desistir de tentar entender a situação.
— Seda ele de novo e põe eles vocês sabem onde. Queria falar com o Kise antes de fazer isso, mas acho que demos uma dose muito grande de tranquilizante pra ele.
Até mesmo Daiki acreditava que Kise estava desacordado. Ledo engano.
R×N×P×G
Ryōta desmaiou por poucos minutos, mas, manter-se com a mesma respiração e postura de inconsciência era um truque que dominara após tantas capturas.
O nó do couro que o prendia era obra do Yōsen. Pela forma que o tranquilizante fizera efeito, com certeza, fora preparado por alguém do Tōō, apesar do clã não ser conhecido pela manipulação de substâncias. Tinha certeza que estava no território do Seirin ao ser atingido.
Seu maior pesadelo estava acontecendo: as legiões se uniram para capturá-lo. Obviamente estava amarrado a Aomine, já que nenhuma das legiões engoliria o orgulho e juntaria forças apenas para resolver metade do problema das invasões de território.
Pelos pulsos e antebraços colados, Ryōta podia sentir os batimentos de Aomine. Ele ainda demoraria a acordar.
Aguçou a audição: ouvia murmúrios distantes. O volume era baixo demais para se identificar vozes, quiçá entender o diálogo. Permaneceu inerte, paciente.
Passada quase uma hora, ouviu um rangido e os murmúrios se definiram um pouco. Pôde identificar algumas vozes: Murasakibara Atsushi e Himuro Tatsuya, do Yōsen; Imayoshi Shoichi, do Tōō; Jumpei Hyuuga, Kagami Taiga e Kuroko Tetsuya, do Seirin, e, argh, Akashi Seijūrō, do Rakuzan. Realmente seria difícil que outro caçador conseguisse unir tantas legiões. Entretanto, Ryōta nutria esperanças de que ele não estivesse envolvido. Akashi é perigoso. Ele sabe coisas perigosas.
Eles ainda estavam distantes demais para que o caçador entendesse o que falavam. Não demorou muito, porém, para que ouvisse alguns passos.
— Vou ficar aqui. Quero ser o primeiro a falar se Aomine acordar antes. Ele é arrogante a ponto de talhar numa árvore quantos caçou em meu território – disse Hyuuga.
— Quero falar com o Kise, eu espero junto – falou Murasakibara, com sua voz preguiçosa.
— Aomine... como eu gostaria de poder abatê-lo como um rouxinol! – Imayoshi disse, e então Ryōta ouviu o som dele, possivelmente, sentando no chão.
— Você fala como se valesse a pena! Me desculpe, mas eu prefiro a imortalidade – disse o caçador do Yōsen.
— Eu não estou considerando matá-lo, baka! Sei que a deusa Nico deixou bem claras as condições para o pacto.
— Eu admito, estou meio preocupado – disse o caçador do Seirin – Se paramos de caçar por 24 horas, morremos. Se matarmos outro caçador, perdemos a imortalidade. Então privar outro caçador de caçar não nos automaticamente tira a imortalidade?
— Eu não sei. Sei que confiaria minha vida ao Akashi como qualquer outro ex-membro do já diluído clã Teiko – Murasakibara disse, e o caçador independente pôde ouvir uma maçã ser mordida – Qualquer outro membro que não esses dois traidores.
Alguém, provavelmente Hyuuga, suspirou. Um silêncio denso se fez.
— Mas você acha que aquele calabouço subterrâneo pode contê-los por 24 horas? – era a vez de Imayoshi expor suas inseguranças.
— Sim. Akashi me pôs lá por um dia e me disse para fazer de tudo para sair. Eu não consegui nenhum progresso e tive de usar apenas as mãos para abater o pequeno porco do mato que ele deixou para mim. – o yōsen parecia entediado com aquele assunto, mais uma mordida de maçã. Ryōta estava cansando de manter postura de inconsciente, porém iria até onde suportasse. – Eu sou mais forte que esses dois. Não vamos deixar qualquer coisa para que eles dependam só da força bruta para escapar.
Novamente, silêncio. O caçador sem clã já se focava somente em manter sua consciência imperceptível. Dado o ritmo cardíaco, Aomine acordaria em alguns minutos. Enquanto isso não acontecia, Ryōta precisava pensar em como se esquivar de situação tão perigosa.
Ao organizar os pensamentos, viu que, se não houvessem falhas de seus oponentes, teria que se safar na lábia, habilidade que infelizmente não é sua especialidade.
“Bom dia, Aominecchi!” debochou em pensamento, percebendo que o outro acordava naquele instante. Seu autocontrole foi enorme ao permanecer inerte ao ter seu cabelo puxado. Só então notou que alguém desfizera suas tranças. Se irritou muito com isso. Esperando a oportunidade de entrar no diálogo, Ryōta agora tinha também de controlar a vontade de rir do confuso Aomine. Era mesmo difícil para seu pequeno cérebro conceber a união entre as legiões. Tolo...
— Do que você está falando?! Pôr-nos aonde? – “Ele já está perdendo a postura?! Eu achei que ele era melhor que eu na lábia! Julguei mal...”, pensou Ryōta, ao ouvir a voz de Aomine tremer.
— Vão nos levar para um calabouço e nos abandonar lá por 24 horas, provavelmente para sempre. Vão nos matar. – o corpo fatigado do loiro teve extrema dificuldade em sentar-se, ainda mais estando amarrado, contudo, sabia que surpreenderia a todos passando de “desacordado” a “totalmente consciente” e “mais informado do que deveria” em apenas um instante, e isso lhe daria uma vantagem psicológica.
Aomine não era tão ingênuo como Ryōta gostava de pensar, porém. Instantaneamente percebeu o abalo psicológico causado em seus oponentes por seu rival e soube esconder rapidamente seu próprio abalo para se aproveitar da situação.
— Fico satisfeito em saber que troco minha vida pela imortalidade de todos vocês. Não planejava algo assim, admito, porém é satisfatório saber que os arrastarei junto a mim, principalmente você, Imayoshi-senpai – doía a Ryōta admitir, entretanto Aomine tinha habilidade com sarcasmo, deboche e manipulação psicológica. No entanto ele estava errado e infelizmente o copiador sabia disso. Era o único, além de Akashi, a saber. Deveria ele contrariar seu rival? Ou seria melhor continuar com a tortura psicológica?
— Eu também amaria condenar todos ele, Aomine. Mas, infelizmente, o assassinato não é direto. Nós morremos e eles não perdem a imortalidade.
— Como pode ter tanta certeza, aho? – o desprezo exagerado nas palavras de Aomine escondia medo, pensava Ryōta.
— Experiências... experiências pessoais... – o caçador gostaria de ter escondido mais a dor daquelas palavras. O calor dos braços alheios colados nos seus o reconfortou, e tal reação o incomodou.
— Do que você... – o som de uma flecha cortando o ar interrompeu Aomine, que, junto a Ryōta, jogou-se para a esquerda no momento certo, calculando a trajetória pelo som. Para o infortúnio de ambos, porém, Himuro Tatsuya atirou a flecha, que cortou os braços colados segundos depois.
Inconscientes novamente, seria aquilo o começo do fim?
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No escuro total, Daiki acordou alerta. Estava com medo, mas nunca demonstraria. O chão era de terra úmida e macia. Ele não estava mais amarrado, seu corpo estava numa posição incomum, como se tivessem o amontoado em um canto. Manteve-se quieto e imóvel. Mas, mesmo assim, uma voz veio do breu a frente.
— Bom dia, bela adormecida! – a voz de Kise era doce, apesar de debochada. Perceber que não estava sozinho, e ainda com a companhia de Kise, acabou com seu medo. Irritou-se não com a piada do rival, mas sim com o efeito tranquilizante que a simples voz do outro lhe causara.
— Já nos puseram no tal calabouço, né? – os músculos do corpo estavam doloridos pelas seguidas doses de tranquilizante e pelas posições desconfortáveis que ficara. Espreguiçava-se, alongava e estralava.
— Sim. Estamos condenados – a voz do caçador não trazia desespero ou pânico, era sóbria – Já explorei todo o local. Não há brechas ou falhas. Nem em completo frenesi conseguiríamos escapar em 24 horas.
— Estamos condenados à morte e a 24 horas de convivência. Akashi continua desprezível após todos esses séculos, não é?! – ele sabia bem que ninguém mais poderia unir as legiões em um plano tão genial.
Kise riu sem graça, concordando.
Daiki ouviu pequenos ruídos de atrito. E finalmente viu algo: faíscas. Então, fogo. Só nesse momento percebeu que sentia frio. Contrariado, se aproximou do outro.
— Eles nos deixaram algo? Comida, água...? – Daiki perguntou. Ele não gostava de ser o menos informado.
— Deixaram muitas frutas e água suficiente para não agonizarmos antes da morte. Deixaram também lenha e pedra de faísca.
— Gentis demais para assassinos. – Daiki suspirou – Existe possibilidade de caçarmos algo por aqui?
— Repare no solo. Não reconhece? – Kise levantou e andou além da área iluminada pelo fogo.
Daiki pegou um punhado de terra. Esmagou entre os dedos. Cheirou. Kise voltou com uma banana na boca.
— Campos Moges. A área mais estéril de Inquini, território do antigo e extinto clã Teiko. – O ódio já corria nas veias de Daiki.
— Gostaria de atirar uma última flecha! – Kise disse melancólico. Porém, parecia conformado demais para aquela situação. Ele terminou a banana e deitou ao lado do fogo.
— E eu uma última lança! – deitou-se do outro lado do fogo.
Enquanto compartilhavam o silêncio, Daiki jurava para a deusa Nico e para si mesmo que não desistiria. Ele lutaria até o fim, não importa como fosse perdida sua causa. Ele sairia dali e se certificaria de saquear os estoques do Seirin, do Tōō, do Yōsen e do Rakuzan diariamente. Faria todos pagarem.
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Já estava acordado há algumas horas. Gastara muito esforço analisando cada milímetro daquele cárcere. Com o calor do fogo e seu crepitar, Ryōta adormeceu.
Ao contrário da inconsciência dos tranquilizantes, o sono dele foi regado de pesadelos terríveis.
Ryōta se via obrigado a sacrificar tudo que lhe era importante a fim de sobreviver. A partir do momento que soltasse aquela flecha, estaria fadado a viver em constante fuga. Soltar aquela flecha significava abandonar o clã Kaijō. Significava abandonar Yuki.
A ferida em sua bochecha deixada pelo soco ardeu quando uma lágrima escorreu por sua face.
Soltou.
Acordou com o coração acelerado, a respiração ofegante. Já estava habituado com aquilo, apesar de que há uma anos não sonhava com aquele momento. Ryōta não sabia qual deus regia os sonhos, mas esse, com certeza, tinha algo contra o caçador.
Como sempre, ele continuou imóvel e em silêncio, as lágrimas escorrendo sem esforço. Depois de um tempo, adormeceu novamente.
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Vendo que o rival estava dormindo, Daiki levantou-se e foi ele explorar seu cárcere. Com ajuda de uma tocha improvisada, viu que estavam em uma sala retangular não muito grande, cercados por aquela terra tóxica. O contato com ela naquela sala não os mataria em 24 horas, mas tentar escavar uma saída seria letal. Daiki bufou. Há quanto tempo Akashi estivera trabalhando naquela conspiração?
Mais ao fundo, em cima de cascas de árvore, haviam duas pilhas: uma pilha de frutas, nenhuma de caroço ou casca duros, para evitar a confecção de qualquer ferramenta, e uma pilha de lenha seca. Também havia algumas pederneiras e uma pequena barra de ferro de formato inaproveitável, além de um tanque de água feito com o tronco escavado de uma árvore, com duas cuias do fruto ao seu lado.
O caçador estralou o pescoço e pegou uma goiaba, voltando para o fogo, sentindo-se derrotado. Valia a pena tentar escapar? Sua natureza não se conformava em pacientemente esperar pelo pior, mas este parecia inevitável.
Sem qualquer referência, Daiki não saberia dizer o tempo que passou ali, ao lado da fogueira, perdido em pensamentos. Pensara principalmente se tinha mesmo valido a pena abandonar o Tōō para virar um caçador independente. Trabalhar em clã nunca fora sua praia, muito menos gostava de que um bando de gente fosse responsável pelas suas transgressões. Ele buscava apenas uma coisa: caçadas emocionantes, difíceis, intensas, empolgantes. E daí que aquele búfalo estava além de um limite imaginário? O que importava se caçou aquela pantera ali e não aqui? Daiki nunca se importara em transgredir essas regras. Mas agora as consequências de seus atos chegaram e a morte o envolvia com seus dedos gélidos e bufava em sua nuca, esperando para levá-lo.
Pegou mais lenha e alimentou o fogo. Entediado, inconformado e incomodado, Daiki não viu nada mais interessante para fazer além de dormir.
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Foi uma atitude burra voltar a dormir, pensou Ryōta. Não podia reclamar nem um pouco a tortura que estava sofrendo. Sabia que quando tinha um sonho sobre sobre aquela época, ele nunca vinha sozinho.
Agora Ryōta se via um pouco antes. Assustado, o copiador passava as costas das mãos onde fora atingido.
Sangue.
Nunca antes. Nunca antes Yukio havia ferido-o. Já apanhara muitas vezes de seu senpai. Sempre doía, claro, mas nunca machucava ou feria. Lembrava de uma vez ter ficado com um leve hematoma na canela e Kasamatsu pedir desculpas, achando que o hematoma fora causado por um de seus chutes. Agora tinha um corte na bochecha, com seu rosto começando a inchar, e Yukio quem lhe atingira.
— Eu mandei você fugir e ir caçar em outro território! O que está esperando?! Quer morrer também? – a bochecha latejava e o corte ardia, mas não se comparavam à dor de cada palavra que escutava – Me diga, Kise, você quer morrer?
— Não! Mas não quero que toda o Kaijō morra! – “não quero que você morra” completou mentalmente – Por que vocês não vêm junto? Mais ninguém pode vir comigo?
— Já conversamos sobre isso. Você sabe que o clã não aguenta as consequências de uma invasão de território em massa! Você é o único habilidoso o suficiente para sobreviver como caçador independente.
— Não sou o único e você sabe disso! Você também pode! Juntos conseguimos. Nós...
— Kise, você sabe que sou o líder. Abandonar o clã?! Por acaso acha que sou esse tipo de líder? – não existia sarcasmo naquelas palavras.
— Claro que não, mas, Yukicchi...
— Kasamatsu-senpai – ele corrigiu-o – Agora obedeça o líder de seu clã e vá caçar algo!
Yukio deu as costas a um despedaçado Ryōta, que despencou de joelhos na terra da floresta.
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Tirado de um sonho bizarro, — nele jogava um jogo que tinha de quicar uma bola em um chão de madeira incrivelmente clara e brilhante e tentar acertar um aro que ficava muito, muito alto. No sonho, Daiki era o melhor naquilo, exceto por Kagami, o único a vencê-lo. Bizarro! — Daiki foi despertado com pequenos gemidos de dor sufocados.
Abriu os olhos minimamente: sentado do outro lado da fogueira, em cuja já não se via mais chamas, estava Kise. Ele tentava desmanchar o ninho que tinham transformado seu cabelo. E falhava miseravelmente. O impulso mecânico do sorriso sádico de divertimento com o sofrimento alheio chegou a sua face, mas não o sentimento. Estranho.
Sorrateiro, Daiki levantou e se aproximou de Kise, silencioso e voraz como se se aproximasse de uma presa.
Pousou suas mãos nos ombros do outro.
— Deixa que eu te ajudo, baka! – Daiki sussurrou no ouvido de Kise.
— Oe! Aominecchi! – o copiador berrou com o susto.
Daiki sentiu antigos sentimentos, antigos raciocínios, antigas mentalidades e antigos pensamentos estapearem-lhe a face. Apenas ouvir seu apelido de outrora saindo dos lábios do arqueiro, mesmo que no impulso, já lhe causara tudo isso. Daiki se amargurava ao admitir, mesmo que internamente, mas ele era muito vulnerável a Kise.
— Podemos ser rivais, Ryōta, mas não vou te deixar sofrendo com essa crueldade que lhe fizeram – Pôs-se a desfazer os muitos nós – Quando sairmos daqui, descubro quem te fez isso e dou um tratamento especial.
— Aominecchi… – Kise estava surpreso pelo zelo contido nas palavras de Daiki, isso era notável.
“O que você não sabe é que estou tão surpreso quanto você…”, ele pensou. Por que estava tão indignado? De onde vinha aquele instinto protetor?
As coisas mudaram tanto desde o rompimento do Teiko… Eles faziam parte da segunda legião de caçadores de Inquini, mas seu território nem fazia fronteira com a primeira. Kise fora o último do clã a selar o pacto com a deusa da caça, Nico. Apesar de ser uma memória de quase um século, Daiki se lembrava como se fosse ontem: Akashi reunira todos para dar um aviso, ele disse que a deusa da caça se comunicara com ele, contando que um novo caçador chegaria no dia seguinte e que caberia a eles aceitarem-no no clã ou não.
Kise tinha o cabelo curto na época. O caçador riu da memória e provavelmente causou confusão no outro, mas Daiki não ligou para isso e continuou separando aqueles fios dourados enquanto mergulhava em pensamentos nostálgicos.
Akashi quis medir as habilidades do novato como caçador, lembrava ele. Eles todos deveriam acumular o maior número de pontos. Estes pontos eram dados através de uma tabela que classificava o valor de cada presa. Era uma pequena competição que tinha o pôr do sol como delimitação de seu fim.
Como a caça de Kuroko dependia de Daiki, esperava-se que ele tirasse a menor pontuação em uma competição individual. Mas o sol já beijava o horizonte e Kise tinha apenas poucos pássaros na sua pilha. Todos — com exceção, talvez, de Haizaki — estavam decepcionados, principalmente Daiki, que havia simpatizado com o novato.
Todo o Teiko já estava reunido no acampamento do clã, apenas esperavam o sol terminar de sumir no horizonte para dar o já óbvio veredito. A mata farfalhou e o avaliado finalmente apareceu.
— Você trazia seis coelhos e duas lebres penduradas no corpo, fazia esforço para arrastar um antílope abatido com uma única flecha, com a exata precisão de Midorima. – Daiki nem reparou quando começou a verbalizar os pensamentos – Você superou todos os outros, menos eu. – uma pergunta surgiu em sua mente – Foi aí que começou sua rivalidade comigo?
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Ryōta já estava se sentindo incomodado com o afeto demonstrado por Aomine e agora o aho fora capaz de despertar antigos sentimentos e antigos conflitos internos no copiador.
— Foi sim, com o resultado daquela competição que o sentimento de rivalidade por você nasceu em mim – “e junto também nasceu um outro sentimento que até hoje não consigo definir o que é.”, Ryōta completou mentalmente.
Aomine apenas riu e se manteve mudo cuidando do arqueiro.
De vez em quando, seu rival puxava-lhe o cabelo, lhe causando dor não intencionalmente, mas o copiador não reclamava. Já estava se sentindo demasiado frágil e um tanto humilhado com aquela situação. Ao mesmo tempo, porém, sentia-se acolhido e... pertencente como não se sentia desde o, bem, desde o Kaijō.
— Oe, Ryōta, pra onde você foi depois do fim do Teiko? – “Não, não, mil vezes não! Aominecchi! Por favor, não faça essa pergunta! Não me obrigue a falar disso! Não quero demonstrar mais fraquezas!”, pensava o arqueiro, desesperado – Porque ficamos um tempão sem nos vermos e, quando nos reencontramos, você já era um caçador independente. Você chegou a se filiar a outro clã?
Aomine separou uma mecha de cabelo sem nós do resto do bolo e pôs-a na fé do ombro direito de Ryōta, tocando o pescoço dele com as costas da mão no ato. Um calafrio percorreu a espinha do copiador de habilidades, originado no toque, e ele automaticamente endireitou a postura.
Quando já não podia mais estender o silêncio, ele suspirou e relaxou as costas.
— Eu entrei no clã Kaijō, ele não faz fronteira com o Tōō ou com outros clãs da região. – Ryōta não conseguia esconder o pesar das palavras – Nosso clã foi encurralado, o Kirisaki Daīchi, clã do Hanamiya Makoto, antigo caçador do velho Shōei, ficava invadindo nosso território sem deixar vestígios, nos deixando sem um único animal para caçar. – “Não! Eu não posso chorar! Eu não vou chorar! Eu, eu não podia estar chorando…” Por que estava contando tudo aquilo? Era masoquista, por acaso? Aomine não tinha simplesmente perguntado se ele se filiara a outro clã antes de se reencontrarem? – Eles eram um clã muito agressivo para simplesmente invadirmos o território deles para sobreviver.
A frequência dos puxões no cabelo aumentou e Ryōta imaginou que seu rival parou de prestar atenção no que fazia.
— Mas não havia nenhum outro clã que fizesse fronteira com vocês? Que não desse tanto problema invadir o território, que pudesse ser resolvido de maneira diplomática? – Aomine falava rápido, suas palavras carregavam desespero e angústia e o arqueiro temia tentar descobrir o porquê daquilo.
— Além do Kirisaki, Aominecchi, fazíamos fronteira com o mar e com um clã chamado Fukuda Sōgō. O caçador mais habilidoso desse clã, Daiki, era o Haizaki Shōgo.
— O cara que não só é um babaca como provavelmente tem rancor de você. – A voz de Aomine demonstrava apreensão – Como... como você sobreviveu?
Ryōta sabia que essa pergunta viria. Mesmo assim, nunca estaria preparado para falar sobre aquilo. Estava também surpreso pelo fato de não estar irritado da inconveniência de Aomine, principalmente por se tratar do lanceiro. Aquele que sempre o superava. Aquele que o irritava tanto. Aquele que era o único que não conseguia copiar as habilidades. E era para ele que o arqueiro estava abrindo o seu coração. Como contaria aquilo? Que palavras usaria? Será que conseguiria falar sobre sua memória mais sombria sem se acabar em lágrimas? Não era tão frágil assim! “Inspira. Expira. Ok, lá vai.”
— Meu líder ordenou que eu me rebelasse e caçasse no território do Haizaki sem ser pego, para então me tornar um caçador independente. Me mandou pro oeste – narrou, mantendo-se impassível – De acordo com ele, eu era o único capaz de sobreviver dessa forma. Mas ele mentiu. Kasamatsu-senpai teria aguentando como caçador independente se estivesse comigo.
— Mas ele não abandonaria o resto do clã por nada. Entendo.
Mais uma mecha sem foi posta junto a primeira e mais um toque inesperado mexeu com o copiador.
Finalmente Aomine ficou quieto e Ryōta pôde relaxar com o trato. Ele deveria estar fazendo isso por causa do tédio, claro. Não tinha sentido que Aominecchi o tratasse com tanto zelo, não é?
Algo ali estava mudando. Algo ali estava voltando com força.
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O lanceiro estava se sentido culpado por ter começado aquele assunto. Por que não ficou quieto quando percebeu o desconforto de Kise? Nunca imaginara que o outro tinha um passado tão sombrio. Sentia-se um babaca por ser um caçador independente por um motivo tão idiota enquanto Kise o era por não ter tido outra opção. Daiki abandonou seu clã por puro egoísmo enquanto... Chega de comparações! Daria um tempo de silêncio ao arqueiro e depois puxaria qualquer assunto banal.
A sede de vingança do lanceiro mudava seu foco. De seus captores e dos responsáveis por aquela brincadeira de mal gosto com o rival, sua ira migrava para Kirisaki Daīchi e Fukuda Sōgō, em especial a Hanamiya Makoto e Haizaki Shougo. Mataria esses dois sem hesitar. Que pensamentos eram aqueles? Como, por Nico, estava disposto a abrir mão de sua imortalidade para se vingar de alguém que só fizera mal a Kise, mas não a ele? Pela primeira vez em séculos, lembrou-se de um elemento de sua vida mortal: sua mãe. Pôde escutar claramente a voz da sábia mulher repetindo suas frases mais comuns. “Quem ama, cuida. Quem ama, protege. Quem ama, se preocupa.”.
Inconformado, Daiki chegou na conclusão que nunca queria ter chegado. Ele, Aomine Daiki, amava seu grande rival, Kise Ryōta. “Nossa! Que ótima notícia! Estou louco para comemorar!”, Daiki pensou, sarcástico.
O caçador estava tão abismado com o que tinha acabado de descobrir que nem reparou que tinha parado de cuidar do seu amado. Confuso, Kise olhou para trás.
— Me distrai, desculpe – Daiki falou, olhando para baixo por não conseguir sustentar o olhar do outro.
— Você sabe que não precisa fazer isso, né?
— Sei sim... – Daiki disse, encabulado e louco para mudar de assunto. Felizmente, Kise não insistiu na pergunta. – Oe, Ryōta… Também trocaram sua roupa?
— An? Ah! Não, não trocaram. Sempre uso esse colete de pele de lince. Por quê? Eles trocaram sua roupa?
— Sim! Não estranhou eu não estar usando meu capuz de pantera negra? – Daiki sempre usava roupas de pantera negra, havia uma espécie de conexão entre ele e esse lindo animal. Pela grande habilidade do caçador, as panteras eram caçadas aos montes. Mas, ao contrário do esperado, a quantidade de panteras de Inquini só aumentava com a caça de Daiki, afinal o lugar é a floresta sagrada da deusa da caça, então os animais ganham força e quantidade de acordo com a dedicação dos caçadores e a paixão com que caçam – Eu nunca uso pele de coelho branco!
— Com certeza foi mais uma provocação... – Kise se demonstrou bem desinteressado sobre o assunto “roupas” – Você tem noção de quantas horas já se passaram?
— Umas quinze, mas não tenho certeza. Bem, até que a nossa convivência não está sendo tão insuportável, não é? – Daiki poderia não estar confortável com a situação “eu amo meu maior rival” e nunca fora bom em lidar com sentimentos, mas sempre foi corajoso e curioso, tinha de testar Kise e descobrir se tinha alguma chance com ele.
— É-é... – o arqueiro gaguejou – acho que amadurecemos desde a última vez que nos vimos...
Aquela última frase soara como uma desculpa esfarrapada e Kise se demonstrou desconfortável com a afirmação de Daiki. Podia ser que o lanceiro estivesse otimista ou sonhador, mas, pelo jeito, mexia com o rival de alguma forma além da competitividade.
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Aomine estava sendo tão, eh, simpático, que Ryōta não conseguiu se irritar com seus assuntos inconvenientes. Pelo contrário, achava graça de seu jeito atrapalhado e tinha pena das suas falhas tentativas de melhorar o humor do arqueiro. Realmente, falar em seu passado fora difícil e não teria feito se pudesse. Mas não culpava Aomine, afinal ele não poderia saber que Ryōta tinha um passado tortuoso quando começara o assunto e nem era obrigado a controlar sua curiosidade quando o arqueiro ficara nervoso.
Uma habilidade que Ryōta tinha e Aomine não, era a capacidade de, em situações cruciais, abandonar seu orgulho e analisar a situação apenas com sua racionalidade. E algo lhe dizia que era uma boa hora para fazer isso. Sentia que algo não estava claro, que ele ainda tinha algo a resolver antes de morrer. Então Ryōta teve a última prova que precisava: instintivamente, como que para se proteger, bloqueou algum pensamento ou raciocínio. Precisava desesperadamente, argh, engolir o orgulho e mergulhar em pensamentos. Nunca tirava boas conclusões quando fazia isso, pelo contrário, sempre voltava com más notícias, mas elas sempre eram úteis e salvavam sua pele. Aproveitaria que o “trabalho” de Aomine ainda demoraria um pouco e mergulharia em pensamentos.
O que estava acontecendo? Ryōta fora abandonado para morrer em um calabouço subterrâneo. Estava rodeado por uma terra altamente tóxica que o impedia de escavar uma saída com as mãos. Deixaram-lhe água, comida, lenha e pederneira, ou seja, não sofreria antes de morrer. Akashi Seijūrō que tinha esquematizado tudo aquilo, então falhas bobas não seriam encontradas... Por não ter como caçar nada, morreria poucas horas. Era só isso... Algo a admitir? Bom, ele só fora capturado por não ter se preparado para essa conspiração, mesmo já desconfiando que um dia os clãs se uniriam. Nada mais. Estava se esquecendo de algo? Ah, claro! Aomine Daiki! Aquele que o arqueiro sempre vira como um grande rival e agora se via obrigado a passar seus momentos finais ao seu lado. O esperado é que essa convivência fosse insuportável, mas Aomine estava tornando aquilo estranhamente agradável e acolhedor. Até agora, o lanceiro não tinha sido babaca ou arrogante como normalmente era. Esse comportamento de Aomine o conquistou ao ponto de ele voltar a usar o “cchi”, que era uma forma de demonstrar respeito e admiração (bom, sempre admirara Aomine como caçador. As habilidades do outro eram lindas e assustadoras). Então o problema estava em Aomine? Aquilo provavelmente tinha a ver com aquele sentimento esquisito que não sabia definir. Ele estava temeroso com o que atingiria com aquela linha de raciocínio. Sempre soubera que teria de decifrar esse sentimento que ora era fraco, ora era forte, mas sempre estava lá.
Ryōta se sentia nervoso e desconfortável do lado de Aomine, mas não era um desconforto ruim, era algo... bom. Seu toque, sua voz e seu olhar lhe causam esse “bom desconforto”. Isso não fazia nenhum sentido! Onde estava a lógica desse sentimento? Tentando mudar a linha de pensamento, Ryōta se fez a seguinte pergunta: “O que eu gostaria de fazer com o Aomine?”. Após refletir, o arqueiro percebeu que, no final das contas, ele gostaria de passar mais tempo com o outro, não importa como, até mesmo preso naquele lugar horroroso. Apesar de toda a rivalidade, Ryōta gostava de Aomine, gostava muito. Será que o amava? Muito provavelmente.
— Terminei! – o lanceiro vociferou – Já aproveitei pra trançar que sei que é assim que você usa…
— Obrigado, Daikicchi! – Ele se levantou e admirou as tranças. Não é que Aomine trançava bem? – Fico te devendo uma, pode pedir quando quiser!
R×N×P×G
A ideia de Daiki era ousada, mas ele ia morrer mesmo, não ia? Estava arriscando quase nada, além de que não tinha tempo, aquele era seu o último dia. Levantou-se, respirou fundo e usou toda sua ousadia naquelas palavras:
— Eu quero um beijo. – Sorriu desafiador e malicioso, tentando fazer como se estivesse chamando Kise para uma competição.
O copiador ficou paralisado, olhos arregalados, muito corado, e não respondeu. Daiki deu um passo para frente, pronto para tomar a atitude ou parar assim que o outro pedisse, nunca o obrigaria a nada, mas, surpreendendo Daiki, quem adentrou os cabelos alheios e consumou o beijo, foi, na verdade, Kise. O lanceiro, que estava com uma postura toda confiante, se via totalmente entregue e amolecido àquele beijo selvagem e apaixonado. Daiki jamais admitiria, mas, no fundo, toda aquela dominação era o que realmente queria.
Como não tinha experiência com aquilo, ele não sabia se beijos são realmente contáveis e, se são, não saberia identificar o limite de um para outro, mas Daiki tinha certeza que recebeu mais de um beijo.
Lentamente, se separaram. Com exceção do crepitar do fogo e da respiração ofegante de Daiki, o cárcere subterrâneo manteve-se em silêncio. Kise olhava reto e tinha um rosto sério ou sem expressão, o lanceiro não conseguia ter certeza, enquanto ele próprio ofegava e tinha um sorriso abobado no rosto. O que pensar daquilo? Kise tomara a atitude porque queria acabar aquilo logo ou porque queria começar aquilo logo? Daiki agradecia aos deuses por sua pele morena, ela ajudava a disfarçar seu rubor. sua mente se resumia a um grande nó. Algo em seu instinto selvagem de caçador lhe mostrava que estava próximo do fim. Não era hora para grandes reflexões, o melhor que podia fazer era agir no impulso e tentar o parecesse certo em sua cabeça. Não viveria tempo suficiente para perceber que estragara tudo , não é?
— Kise, eu, bem… eu acho que te amo… muito – Agora não havia pele escura no mundo que disfarçasse o quão corado estava, cada segundo que o outro demorava a responder era como uma longa sessão de tortura.
— Daikicchi. Eu não minto quando falo que preferia que não, mas eu também… – Aquelas palavras... felicidade definia Daiki – Eu percebi isso antes, mas vejo que já existe há séculos...
— Idem. Acho que… acho que sinto atração por você desde que Akashi te apresentou para o resto do clã, sempre vi algo a mais em você.
— Você me atrai desde, hum, desde que te vi caçando na competição do meu primeiro dia e simplesmente não consegui copiar seus movimentos. Mas essa atração sempre ficou camuflada junto à nossa rivalidade. Só me dei conta de que aquele sentimento estranho que tinha por você era amor quando você terminou de trançar meu cabelo. – Kise jogou-se sentando no chão de terra, não conseguindo esconder seu arrependimento – Tarde de mais, não é?
— Eu percebi assim que você terminou de contar sua história. Até nessas duas coisas fui mais rápido que você – Daiki provocou com seu sorriso sarcástico voltando aos lábios, sentando-se à frente do outro.
— Queria ter algo para jogar em cima de você agora… – disse Kise, entrando na brincadeira com um sorriso tão lindo no rosto que o outro sentiu vontade de mordê-lo.
— Que tal você se jogar em cima de mim? – Não aguentando mais aquela encenação, riram juntos, cúmplices da mesma desgraça: estar apaixonado por seu rival e não poder passar nem mais cinco horas ao lado dele.
Olhando um nos olhos do outro, as risadas se transformaram em sorrisos melancólicos, cheios de por quês de verbalização irrelevante. Daiki se aproximou lentamente de Kise e beijou-lhe os lábios carinhosamente, então abraçaram-se. Ao começar o abraço, o lanceiro pretendia trocar um gesto de amor, mas então o outro começou a soluçar em seus braços, fazendo Daiki se perguntar se não tinha feito algo errado, mas logo percebeu que aquelas lágrimas era uma espécie de desabafo silencioso. O peso da morte, da descoberta de um novo amor e do arrependimento que envolvia esses dois fatos acabava com qualquer um.
Tornando o abraço mais acolhedor, ele também queria chorar, mas sentia que era o momento de manter-se forte, ser o ponto seguro, consolar Kise. Aquele garoto passara por muito mais que ele, afinal.
Quando seu Kise estava mais calmo, Daiki se levantou e foi alimentar o fogo, trazendo também um pouco de água para os dois. Ele deitou do lado da fogueira e chamou o arqueiro para deitar ao seu lado. Kise deitou e Daiki o envolveu com os braços.
R×N×P×G
O toque de Aomine o deixou momentaneamente tenso, mas logo Ryōta estava aconchegado em seu braço, sentindo seu cheiro, e pela primeira vez não se sentiu desconforto junto com aquela boa sensação de sentir o outro. Ainda temeroso com aquele avanço, deitou no peito de Aomine, se aconchegando ainda mais.
— Sabe, Kise… – começou o lanceiro enquanto iniciava um singelo cafuné – isso de morrer, bem, não é tão ruim assim… Bem, claro que é o fim da vida, fomos ambos enganados e ficar 24 horas sem caçar é uma tortura, mas esse tempo que fomos obrigados a passar juntos... provavelmente não descobriríamos nosso amor se não fosse por ele.
— Além de que, mesmo sendo algo triste, Nico sabe que não estamos traindo ela. Só morreremos porque trato é trato – um pouco de otimismo não fazia mal a ninguém – E, bem, pelo menos essas últimas horas estamos passando juntos e conscientes de nosso amor.
— Então vamos aproveitar, né? – Ryōta subiu do peito de Aomine para seus lábios.
R×N×P×G
Faltavam apenas quatro horas quando Aomine e Kise começaram a trocar carícias singelas. Quatro horas que passaram mais rápido que um lince fugindo de uma armadilha explosiva.
Foi no meio de um pequeno beijo que tudo ficou escuro para ambos simultaneamente. Não esperavam aquilo, afinal era praticamente impossível que tivessem caçado pela última vez no exato mesmo momento.
O primeiro a despertar, dessa vez, fora Aomine. Ele se encontrava em um lugar lindo e muito místico. Só quando levantou que reparou que estava submerso e, mesmo assim, respirando normalmente. O líquido atingia sua canela quando estava de pé. Olhando a sua volta, viu que, em 360 graus, a paisagem era a mesma: chão branco, com uma camada de um líquido levemente azulado. No horizonte, esse estranho solo se encontrava com um céu branco. Além do som da água que parecia existir mesmo sem movimentá-la. O local de tamanho imensurável era preenchido por um ruído branco. Daiki não parou nem um segundo para se deslumbrar com aquele cenário: já começou a correr, desesperado, a procura de Kise.
Após vagar totalmente a esmo, confundido por aquela paisagem totalmente idêntica, Aomine avistou algo quebrando o branco a muitos passos de distância. Ao chegar perto, avistou Kise na mesma situação que estivera: desacordado, submerso mas com o peito subindo e descendo com a respiração como se nada molhado estivesse ao redor.
— Kise! – Daiki se jogou de joelhos ao lado do amado.
Ryōta abriu os olhos, instantaneamente, e se levantou de supetão. Só então que suas roupas foram notadas: ambos usavam roupas de linho branco. Ambos não vestiam roupas de tecido desde que fizeram o pacto.
— Que lugar é esse? Nós morremos? – Kise olhava em volta, confuso.
— Não sei. Sei que estou feliz por ter te encontrado! – Aomine puxou Ryōta para um abraço desesperado, temendo que o outro sumisse novamente.
“Bem vindos, meus caçadores!” uma voz doce ecoou de todos os lados e de lado nenhum, como se estivesse em suas cabeças, assustando o casal. “Não, vocês não estão mortos. Mesmo tendo passado mais de vinte e quatro horas sem caçar um único animal, vocês não romperam o pacto que fizeram comigo.”, com essas palavras, ambos entenderam com quem falavam. Continuavam abraçados, mas agora olhavam para cima. “Kise Ryōta e Aomine Daiki, meus bebês, meus melhores caçadores, caçar não é apenas matar animais, é lutar por algo apenas com o coração e instintos selvagens. E nessas 24 horas que passaram juntos, vocês nada mais fizeram além de caçar. Caçaram primeiramente uma saída, depois a resposta de questões interiores e, por fim, o amor alheio.” A deusa deu uma pausa “Trouxe-os aqui no Aeprier com um único objetivo, que é mandar-lhes de volta para que possam consertar seus erros e continuarem a fazer o que fazem de melhor: caçar. Voltem para Inquini, meus caçadores, voltem e provem que vocês podem fazer melhor, provem que merecem essa segunda chance.”
Após Nico parar de soar, o casal fez uma reverência e então toda aquela luz se apagou. Quando deram por si, estavam novamente em Inquini. Era a vez de juntos, caçarem seus erros.
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