O Leilão

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Finalmente consegui escrever sobre o casal *-* tudo por culpa (inveja) da Anne L, que escreveu uma também ♥

A festa anual beneficente da Corporação Wayne, em prol da Associação dos Orfanatos de Gotham City, iniciava-se com um discurso eloquente do anfitrião da noite. Após uma calorosa salva de palmas, Bruce Wayne deu inicio ao tão esperado leilão.

O dinheiro arrecadado seria revertido para melhorias dos Orfanatos de Gotham. Nos últimos quatro anos, o leilão havia se transformado em uma superprodução televisionada por um canal de TV a cabo, com direito a tapete vermelho e entrevistas com perguntas constrangedoras e respostas mais ainda. Bruce mantinha sua aparência de jovem bilionário, bonitão e solteiro, porém não solitário. Chegou à festa acompanhado de duas modelos famosas, e passou alguns minutos na frente dos flashes fazendo poses e sorrindo para as câmeras.

Para dar início ao primeiro lote do leilão, Bruce convidou ao palco uma personalidade importante de Gotham, com que, internamente, ele não se importava muito, mas a presença de todas aquelas pessoas ali fariam a diferença no futuro de alguns cidadãos.

O homem era um âncora do jornal mais visto na cidade e havia doado um de seus ternos para o leilão. O lance inicial era de duzentos dólares e o lance final foi de cento e noventa e nove mil dólares. A nata da sociedade estava disposta a abrir suas bolsas e carteiras para o bem das crianças de Gotham. E claro, serem fotografados quando assinassem os cheques.

O segundo lote seria um conjunto de porcelana chinesa, leiloado por cento e doze mil dólares. Depois vieram vinhos importados com mais de noventa anos, um par de luvas de boxe do grande campeão Muhammad Ali. Um par de abotoaduras adornadas de cristais e diamantes, tacos de golfe assinados pelo jogador Tiger Woods, entre outras surpresas..

No intervalo de dez minutos, Bruce recebeu um novo envelope com uma novidade que iria abalar a noite. Ao ler qual seria o lote final daquele leilão, suas mãos suaram e ele sentiu o estômago revirar. Era ridícula a sensação, mas teve uma boa ideia. Pegou o celular e fez uma rápida ligação um minuto antes de subir novamente ao palco.

— A noite ainda não acabou. Recebi uma ótima notícia, e nesse envelope em minhas mãos está o maior prêmio da noite. – Bruce sentiu a voz falhar na garganta, mas sua expressão era impassível. Abriu o envelope com maestria. Todos ansiosos para saber qual era a grande surpresa. Então ele anunciou. – Um jantar pago pela Corporação Wayne, na companhia da heroína Mulher-Maravilha, que veio hoje representando a Liga da Justiça.

O salão vibrou com a notícia. O burburinho foi intenso principalmente quando Diana ficou de pé, revelando sua localização em uma das mesas no fundo do salão.

Bruce solicitou a presença dela no palco e, enquanto Diana caminhava por entre as mesas, sendo cumprimentada por todos, Wayne admirava o longo vestido preto que lhe cobria todo o corpo. Uma vez que não fosse novidade vê-la de pernas à mostra, mas naquele momento em especial foi quase como enxergar Diana pela primeira vez, com seus longos cabelos negros adornando o belo rosto. Seu sorriso era adorável, capaz de cativar qualquer coração de pedra dentro daquele lugar.

Ela subiu no palco, recebendo a ajuda de Bruce com sua mão estendida.

— Que ideia foi essa? – ele sussurrou tão discretamente que quase poderia ser confundido com um ventríloquo. Diana ainda sorria, acenando para a plateia, que aplaudia excitada por sua presença.

— Eu disse que queria ajudar.

— Sim, mas não precisava se oferecer para ser leiloada.

Os dois mantiveram a conversa paralela até os aplausos cessarem. O lance inicial de trinta mil foi dado por um homem. Bruce o analisou rapidamente. Botões da camisa quase arrebentando das casas, devido ao tamanho de sua barriga. Não que isso fosse um problema. Mas o olhar malicioso daquele homem fez o interior de Bruce estremecer de raiva.

Alguns outros lances maiores foram pipocando pelo salão.

Oitenta mil dólares.

Cento e vinte mil dólares.

Duzentos e dez mil dólares.

Trezentos e quarenta e sete mil dólares.

Quatrocentos mil dólares.

Seiscentos e setenta e sete mil dólares.

Novecentos mil dólares.

O último lance foi feito pelo magnata do petróleo, um árabe chamado Harun al-Rashid. Ele ficou de pé e confirmou mais uma vez seu lance. Ao lado de Bruce, Diana pôde ver a mão dele se fechar em volta do envelope, amassando-o. Ela quis tocar em seus ombros e dizer que era apenas um jantar, algo que faria para ajudar as crianças. Mas sabia que Bruce não entenderia. Talvez porque fosse um pouco difícil de lidar com aquele sentimento corrosivo que era o ciúme.

Mas, antes de bater o martelo, um novo lance foi ofertado, cobrindo aquele número.

— Novecentos e dez mil dólares – disse uma voz masculina nos fundos do salão. Todos se viraram para vê-lo. Era um senhor de bigode e muito bem vestido em um smoking elegante.

— Novecentos e vinte mil dólares – O Magnata não estava disposto a perder aquela chance.

— Novecentos e quarenta mil dólares. – Novamente o homem cobriu a oferta anterior.

— Novecentos e noventa e nove mil. E é minha oferta final.

— Pois muito bem – disse aquele homem. – Eu dou um milhão e meio.

De repente a sala ficou em silêncio e o barulho do martelo ecoou pelo ar. Estava feito. O leilão acabou. Diana virou-se para Bruce; queria dizer que sentia muito por fazê-lo passar por aquela situação, mas, quando menos esperava, ele já estava vestindo aquela bela máscara de sorriso perfeito e olhar altivo.

Diana foi convidada a se juntar à mesa do anfitrião pelo resto da noite e ali eles ficaram na companhia de algumas pessoas importantes de Gotham, como o prefeito, o senador e o delegado. Além das modelos que os acompanhavam. Diana sentiu-se um pouco deslocada no início, mas depois recebeu tanta atenção que preferiu não ter ido àquela festa, como havia sido discutido uma semana antes em seu quarto na torre da Liga.

— Suas roupas, quem as desenham? – perguntou uma das mulheres. Seus olhos azuis seriam muito mais bonitos sem toda aquela maquiagem escura ao redor, pensou Diana.

— Qual o seu manequim? Imagino que não deve ser muito fácil acordar de manhã e se olhar no espelho. – Outra sorriu, secamente. – Sabe, por ter um corpo mais saliente.

A amazona não entendeu qual o problema com seu corpo.

— Você faz dieta? Musculação?

— Onde corta o cabelo?

— Suas unhas são sempre curtas?

— Você não usa maquiagem?

Todas aquelas perguntas sem fundamento e importância deixaram a Mulher-Maravilha tonta. Ela sequer conseguiu responder a primeira pergunta, e mais outras iam vindo. Os homens na mesa conversavam sobre negócios importantes e, como Diana ouviu dizerem: as mulheres têm seus assuntos.

Em certo ponto da noite, as duas mulheres que sentavam cada uma ao lado de Bruce começaram a trocar segredinhos e risadas um pouco escandalosas. Bebiam e acariciavam o rosto de Bruce com intimidade.

Diana evitou olhar em sua direção, mas era quase impossível. Enquanto isso, o Senador Scott a tirou para dançar. Ela aceitou apenas porque não queria mais permanecer naquela mesa.

— É uma honra para mim, senhorita. Ou devo chamá-la de outra forma? – ele comentou com um sorriso galanteador. Diana não sabia muito sobre o Senador Scott, senão o que Bruce lhe dissera uma vez. Apesar de jovem e de boa aparência, era uma serpente venenosa.

— Diana está bom para mim.

— Sim, claro. Diana. – Eles giravam pelo salão, ao som de uma valsa. – Deveria visitar nossa cidade mais vezes, Diana. Seria agradável ter por perto uma presença tão bela e poderosa.

— Achei que já possuíam um herói. O Batman.

— Não me leve a mal. – O Senador apertou mais a mão na cintura dela, diminuindo a distância entre os dois. – Acredito que sua bela presença, voando pela cidade, seria muito mais graciosa do que um morcego.

— A beleza não é eterna, Senhor Scott. É como um vaso de flores. De que adianta ele ser de cristal se as flores estão mortas?

— Bem, o que posso dizer? Sou vítima das belas mulheres. – O sorriso dele pareceu escorrer veneno. Diana sentiu-se enjoada. Queria escapar das mãos daquele homem, mas seria rude de sua parte. E, apesar de ser a Mulher-Maravilha, ela não se achava no direito de fazer uma cena no meio do salão.

Por sorte, ou azar, Bruce veio em seu resgate, sugerindo uma troca de casais. O Senador Scott não foi contra a boa ideia, levando a bela modelo ruiva pelo salão.

Bruce segurou a mão de Diana, segurando sua cintura com a outra mão. A música iniciou-se e o casal começou uma dança tímida no inicio, mas depois tudo parecia fluir naturalmente.

— Eu jamais imaginei que você dançasse tão bem – Diana confidenciou baixinho.

— É porque nós nunca nos encontramos antes, senhorita. – Ele sorriu confiante.

Diana não discordou ou sentiu-se ofendida; a verdade era que Diana e Bruce Wayne tecnicamente não se conheciam. Mas era quase difícil para ela fazer essa divisão. Embora Bruce Wayne fosse um homem cercado por mulheres fúteis – queria ela que não –, subestimadas pelos homens e ainda acharem graça dos comentários masculinos.

E Bruce tinha certeza de que ela pensava nisso.

Foi um silêncio desconfortável, mas necessário. O que poderia ser dito, seria dito em outro momento, longe dos olhos atentos da sociedade de Gotham.

Ao final da música, Bruce beijou a mão de Diana como o cavalheiro que era, agradecendo pela calorosa dança.

A noite não poderia ter sido mais difícil, para ambos.

Bruce deixou a festa logo em seguida na companhia de suas modelos, enquanto Diana recusou educadamente todos os convites de carona. Ela voou, cortando o céu de Gotham em uma velocidade incrível.

***

Como foi leiloado, o jantar oferecido pela Corporação Wayne na companhia da Mulher-Maravilha seria realizado naquela noite de terça-feira, aproveitando que não havia nenhum tipo de ocorrência grave na qual seria solicitada sua presença. Um motorista particular a aguardava na frente do The Gotham Hotel, onde a heroína estava hospedada.

Ela tentou engatar uma conversa, mas o motorista parecia mais uma máquina cuja função era apenas dirigir. A cidade de Gotham parecia uma grande tela escura, com pinceladas fracas de amarelo vindo dos postes. Diana estava um pouco deprimida. Desde a festa, dois dias antes, não houve nenhum contato de Bruce. Ela não sabia o que pensar sobre aquilo. Sequer poderia ter certeza do que acontecia entre os dois. Pensar no assunto deixou-a mais confusa e, em consequência disso, perdeu o apetite. Queria poder cancelar o jantar, mas, quando menos esperava, a porta do carro foi aberta. O motorista estendeu a mão enluvada e ajudou-a sair do carro.

Diana contemplou a entrada pomposa da mansão. Ela esperava que o jantar fosse em um restaurante. A porta foi aberta, e um senhor de bigode e elegantemente vestido a recepcionou.

— O senhor quem deu o lance final. – disse surpresa.

— Sim, senhorita. Por favor, entre.

Ela entrou e foi levada para uma sala bem aquecida pela lareira, e assim ficou confortável para retirar o casaco sobre o vestido. O mordomo estava prontamente lá para segurá-lo. Em seguida, ele ofereceu uma bebida, Diana agradeceu, mas recusou. Queria saber o que acontecia ali.

— Eu sou apenas o mordomo, infelizmente não serei sua companhia esta noite.

— Se o senhor é mordomo, então quem vai jantar comigo?

— Boa noite. – Diana virou-se para o homem que entrava na sala e a cumprimentava. Ele vestia um terno cinza-escuro, camisa preta e uma gravada da mesma cor. – Espero que esteja com fome. Alfred preparou um jantar grandioso.

— Bruce! Você? – Diana ainda estava surpresa pela revelação.

Alfred se retirou, deixando-os sozinhos.

— Aceita uma bebida? – ele ofereceu como se aquela situação não fosse confusa. – Separei um champanhe muito bom. – Bruce serviu as taças, oferecendo uma para Diana.

— Mas... — ela pensou um segundo. – Eu entendo agora. – Diana sorriu, sentindo-se boba por achar que ele não iria interferir naquele leilão. E feliz por tê-lo feito. – Um milhão e meio por minha companhia nesse jantar.

— Porque eu sabia que valeria cada centavo. – Bruce pegou a taça das mãos dela, deixando-a sobre uma mesa. Segurou Diana entre seus braços, num abraço quente e cheio de saudade. – As crianças de Gotham agradecem.

Ele a beijou, da maneira que desejava fazer desde o instante em que a viu naquele salão. Abraçou-a possessivamente, provando que a companhia daquela mulher não poderia ser de outro homem, senão dele.

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