O Legado do Tabuleiro

8 O Calor da Água e as Cartas na Mesa



​O sábado à tarde trouxe um sol radiante que justificava perfeitamente o dia de folga na piscina da mansão de Tribeca. A área de lazer estava decorada com espreguiçadeiras confortáveis, e o som de uma música ambiente animada misturava-se com o barulho da água sendo agitada. Claire e Michael haviam sido convidados para passar o dia com os herdeiros, e a atmosfera de leveza que começara no acampamento parecia ter se consolidado de vez.

​Claire estava sentada na borda, molhando apenas os pés, enquanto conversava com Maya. Thomas e Michael competiam para ver quem conseguia dar o mergulho mais espalhafatoso da plataforma. Tudo corria dentro do roteiro esperado para uma tarde entre amigos de colégio.

​Até o momento em que a dinâmica mudou drasticamente na área das espreguiçadeiras.

​Michael havia saído da piscina para pegar uma toalha e acabou se sentando na mesma espreguiçadeira onde Claire organizava suas coisas. Uma brincadeira boba sobre quem estava mais queimado de sol evoluiu para um silêncio repentino. Maya, que observava de longe de dentro da água, arregalou os olhos quando viu Michael segurar o rosto de Claire com suavidade. Em menos de três segundos, os dois estavam se beijando com uma intensidade que ninguém ali imaginava que existia entre eles.

​— Mas o que... — Maya murmurou, chocada, segurando-se na borda interna da piscina.

​Lá do outro lado, Thomas parou com a bola de futebol americano nas mãos, boquiaberto.

​— Cara... o Michael finalmente tomou coragem — Thomas soltou uma risada alta, jogando a bola na grama e mergulhando na direção de Maya para assistir ao camarote de perto.

​Confissões na Borda

​Thomas emergiu logo ao lado de Maya, jogando o cabelo molhado para trás com as mãos. Ele apoiou os dois antebraços na borda de mármore da piscina, ficando na mesma posição que ela, observando o novo casal que parecia ter esquecido completamente que o resto do mundo existia na espreguiçadeira ao fundo.

​— Olha só para aquilo — Thomas sussurrou, com um sorriso de canto divertido, os olhos brilhando. — Quem diria que o meu Running Back ia pontuar logo com a presidente do comitê de etiqueta?

​— Eu estou em choque — Maya admitiu, soltando uma risada genuína, o ombro roçando levemente no dele por causa do movimento da água. — A Claire passa metade das nossas ligações reclamando que o Michael faz barulho demais no corredor. Claramente, era pura implicância para disfarçar.

​— É... a implicância às vezes disfarça muita coisa — Thomas comentou em um tom mais baixo, virando o rosto para olhar diretamente para ela. A alusão ao passado recente dos dois ficou suspensa no ar por um segundo. Ele deu de ombros, mudando de assunto com um sorriso provocativo. — Mas e você, Styles? Quando é que a gente vai ver você agarrada com alguém numa espreguiçadeira dessas? Algum pretendente no comitê de debates?

​Maya soltou um bufo fingido, jogando a cabeça para trás no parapeito.

​— Por favor, Thomas. Eu não tenho tempo para namorados. Minha meta é o vestibular e a holding. Na verdade... eu nunca nem namorei sério. Nunca foi uma prioridade para mim.

​Thomas ergueu as sobrancelhas, genuinamente surpreso.

​— Nunca? Nem um romance de verão em Hamptons? Nada?

​— Nada — ela confirmou, virando-se de lado na água para encará-lo, cruzando os braços sobre a borda. — Minha vida sempre foi muito calculada para distrações. Mas você não pode dizer o mesmo, não é? O Quarterback titular da St. Jude deve ter uma lista de espera. Eu tinha certeza absoluta de que você já tinha... bem, que já tinha feito sexo com metade das garotas do comitê de torcida.

​Thomas soltou uma risada curta, mas logo o sorriso de deboche sumiu, sendo substituído por uma expressão surpreendentemente séria. Ele girou o corpo na água, ficando de frente para ela, os olhos escuros fixos nos azuis de Maya.

​— Engraçado como você projeta essa imagem de cafajeste em mim — ele disse, com a voz mansa, o tom descendo para algo íntimo. — Mas a verdade é que eu não sou assim, Maya. Eu não consigo ver graça nessa coisa de ficar por ficar, só para contar vantagem no vestiário. Eu estou esperando.

​Maya piscou, pega completamente de surpresa pela declaração.

​— Esperando? Você? Thomas Styles Lâfrer esperando? — ela semicerrou os olhos, desconfiada. — Esperando o quê?

​— A pessoa certa — ele respondeu direto, sem piscar, a firmeza em sua voz fazendo o estômago de Maya dar um nó estranho. — Alguém que realmente valha a pena. Alguém que mexa com a minha cabeça de verdade, e não só por uma noite.

​O Jogo na Água

​O silêncio que se seguiu foi denso. Maya sentiu o rosto esquentar, e a proximidade física de Thomas sob a água morna da piscina de repente pareceu elétrica demais. Para quebrar aquela seriedade que ameaçava desarmá-la por completo, ela juntou as duas mãos na superfície e jogou uma quantidade generosa de água direto no rosto dele.

​— Ai meu Deus, você é um sentimental de carteirinha! Eu nunca imaginei! — ela zombou, rindo alto ao ver Thomas tossir e passar a mão nos olhos, fingindo indignação.

​— Ah, é assim, Styles? Guerra de água? — ele exclamou, com um sorriso determinado.

​Thomas avançou na direção dela, jogando água de volta com os braços compridos. Maya tentou nadar para trás, rindo e gritando enquanto tentava se defender do contra-ataque implacável do atleta. Em meio aos respingos e às risadas ecoando pelo jardim, Maya escorregou de leve no azulejo do fundo. Para não afundar, ela estendeu as mãos, agarrando-se instintivamente nos ombros largos de Thomas.

​Ele reagiu rápido, passando os braços firmes ao redor da cintura dela para segurá-la.

​O movimento brusco cessou a brincadeira instantaneamente. O som da água batendo na borda foi o único barulho que restou. Maya se viu presa contra o peito dele, as mãos espalmadas na pele molhada de seus ombros, enquanto as mãos de Thomas a seguravam com força contra o seu corpo. A água batia na altura do peito de ambos, mantendo-os unidos em um abraço tenso e sufocante.

​Maya ergueu os olhos, a respiração ofegante pelo esforço da brincadeira. Thomas olhava para ela de cima, os fios de cabelo grudados na testa e as gotas de água escorrendo pelo maxilar trincado. O olhar dele desceu devagar para os lábios dela, e o espaço entre os dois pareceu encolher a cada milésimo de segundo. A tensão que vinha se acumulando desde as noites no quarto e na barraca explodiu naquele espaço de poucos centímetros. Os lábios de ambos estavam tão próximos que Maya conseguia sentir o calor da respiração dele.

​Thomas inclinou o rosto milimetricamente para frente, os olhos fixos nos dela, entregando-se ao magnetismo proibido que os puxava. Maya não recuou; seus dedos apertaram os ombros dele, o coração batendo tão forte que parecia que Thomas podia ouvir através do peito colado ao dela.

​— Crianças! O lanche está servido na mesinha do jardim! Venham antes que esfrie! — a voz alta e animada de Hope ecoou da varanda lateral, quebrando a bolha como um estalo de chicote.

​A Interrupção

​O feitiço que os prendia se quebrou instantaneamente. Thomas piscou, como se estivesse voltando à realidade após um choque elétrico. Ele soltou a cintura de Maya devagar, dando um passo para trás na água, o maxilar rígido enquanto tentava recuperar o controle da própria respiração.

​— Eu... eu já estou indo, mãe! — Thomas gritou de volta, a voz saindo um pouco mais rouca do que o normal. Ele olhou para Maya por uma última fração de segundo, uma mistura de frustração e confusão cruzando seus olhos escuros.

​Sem dizer mais nenhuma palavra, ele nadou rapidamente até a escada de inox, impulsionando-se para fora da piscina com a agilidade habitual. Ele pegou a toalha no chão, jogando-a sobre os ombros, e caminhou em direção à mesa do jardim sem olhar para trás.

​Maya continuou dentro da água por mais alguns segundos, sentindo o corpo tremer levemente, e não era por causa do vento. Ela levou os dedos aos próprios lábios, o coração ainda martelando contra as costelas. Ela soltou o ar que nem sabia que estava segurando, ajeitou o cabelo molhado e caminhou lentamente em direção à escada, saindo logo atrás dele, ciente de que as regras do jogo entre a tia e o sobrinho tinham acabado de evaporar sob o sol de Tribeca.