O Legado do Tabuleiro
5 O Brilho do Vidro e o Peso do Sangue
O grande auditório da St. Jude’s Academy parecia um mar de alta costura, perfumes caros e flashes fotográficos. Os lustres de cristal refletiam a imponência da nova ala de Engenharia e Alta Performance, um monumento de vidro espelhado e aço escovado que carregava, na fachada, as letras moldadas em bronze: Pavilhão Styles Lâfrer. Garret e James circulavam entre os investidores e jornalistas como reis em seu próprio feudo, enquanto Sofia e Hope roubavam a atenção dos fotógrafos com a elegância impecável que Nova York já conhecia bem.
Nos bastidores, o clima era completamente diferente.
Maya estava de pé em frente ao espelho do camarim privado, ajeitando o microfone de lapela preso ao colarinho do seu terno sob medida azul-escuro. Seu cabelo estava preso em um coque firme, sem um único fio fora do lugar. Ela respirava fundo, repetindo mentalmente os dados econômicos e as projeções de impacto social do novo pavilhão.
— Se você continuar hiperventilando desse jeito, o microfone vai captar o som de um motor de avião — a voz arrastada de Thomas ecoou quando ele empurrou a porta com o ombro.
Maya virou-se, os olhos estreitando-se instantaneamente. Thomas estava irritantemente impecável. Ele vestia um terno preto de corte moderno, a gravata perfeitamente alinhada e o cabelo arrumado, embora alguns fios rebeldes de sempre caíssem de leve sobre a testa. Ele segurava uma garrafa de água e a estendeu na direção dela.
— Eu não estou hiperventilando, Thomas. Estou concentrada — Maya rebateu, recusando a água com um gesto seco. — Algo que você deveria estar fazendo, em vez de ficar perambulando pelo corredor. Você decorou a sua fala de abertura? Não quero que gagueje quando o reitor chamar seu nome.
Thomas soltou uma risada baixa, encostando-se na mesa de maquiagem e cruzando as pernas.
— Eu não gaguejo, Styles. Eu entro em campo, olho para a marcação e faço o passe. Falar para um bando de velhos de Wall Street é fichinha perto de um clássico de domingo à noite. Você é quem parece que vai desmaiar em cima daquela bancada de acrílico.
— É uma apresentação institucional, Lâfrer! Há milhões de dólares em fundos mútuos dependendo do investidor certo hoje. Se a holding demonstrar qualquer sinal de que a nova geração não é sólida, as ações flutuam na abertura de amanhã — ela deu um passo na direção dele, a voz baixa, mas carregada de urgência. — Nossos pais passaram vinte anos construindo isso. Eu não vou deixar o seu ego de atleta estragar o meu primeiro painel oficial.
Thomas deixou a garrafa sobre a mesa e se desencostou da parede, diminuindo a distância entre eles com passos calmos. O sorriso de deboche desapareceu de seus lábios, dando lugar àquela intensidade séria que costumava usar nos segundos que antecediam o apito inicial do jogo.
— Meu ego? — ele sussurrou, parando bem diante dela, tão perto que Maya conseguia sentir o calor que emanava de sua postura. — Eu estou aqui para garantir o legado tanto quanto você, Maya. Você acha que é a única que carrega o peso desse sobrenome nas costas? Cada vez que eu entro naquele campo, eu jogo pelo orgulho do meu pai e pelo futuro da marca que financia metade desse colégio. Nós estamos no mesmo barco, quer você goste ou não.
Maya prendeu a respiração, o peito subindo e descendo de forma acelerada. A presença dele ali, confinando o ar do camarim, mexia com seus circuitos internos de uma forma que ela odiava admitir. Havia um magnetismo perigoso na forma como ele a encarava, como se pudesse ler exatamente o nervosismo que ela tentava esconder do resto do mundo.
— Dois minutos para entrarem! — a assistente de palco avisou, abrindo a porta rapidamente e quebrando o transe entre os dois.
Thomas piscou, um sorriso de canto lento e cínico voltando ao seu rosto. Ele estendeu o braço direito na direção dela, oferecendo o apoio de forma cavalheiresca e puramente teatral.
— Pronta para o show, titia? Vamos dar a eles o que eles querem ver.
Maya olhou para o braço dele, soltou um suspiro controlado e entrelaçou sua mão na dele, sentindo os nós dos dedos firmes de Thomas contra os seus.
— Sorria e não fale besteira, Lâfrer.
O Tabuleiro Diante dos Holofotes
Quando as cortinas de veludo se abriram, a salva de palmas foi ensurdecedora. O reitor da St. Jude’s Academy deu um passo para trás, gesticulando em direção ao centro do palco.
— E para apresentar a visão de futuro, inovação e liderança que tornaram este projeto possível, recebemos a nova geração da holding: Maya Styles e Thomas Styles Lâfrer!
Os flashes explodiram na direção deles. Na primeira fileira, James e Garret aplaudiam de pé, os rostos exibindo o orgulho de quem via suas próprias trajetórias espelhadas ali. Sofia e Hope sorriam e acenavam para os colunistas sociais.
Maya deu um passo à frente, assumindo o púlpito principal com uma elegância natural. Quando abriu a boca, sua voz saiu firme, ecoando pelo sistema de som com uma clareza invejável.
— Boa noite a todos. O Pavilhão Styles Lâfrer não é apenas uma expansão física de tijolos e vidro; é a materialização de uma tese econômica. Nós acreditamos que a liderança do amanhã é cultivada na intersecção exata entre a precisão analítica e a resiliência operacional. Ao investirmos em laboratórios de ponta e centros de desenvolvimento, a nossa holding está garantindo que o capital intelectual de Nova York continue a ditar as regras do mercado global.
Lá no fundo da plateia, investidores experientes assentiam com a cabeça, impressionados com a maturidade técnica da garota.
Em seguida, foi a vez de Thomas. Ele deu um passo ao lado de Maya, pegando o microfone sem fio com uma naturalidade que parecia o quintal de sua casa. Ele olhou diretamente para a plateia, conectando-se visualmente com cada fileira antes de falar.
— A Maya explicou a ciência por trás do projeto, mas eu estou aqui para falar sobre a execução — Thomas começou, sua voz grossa e carismática prendendo a atenção de todos de imediato. — No esporte, assim como na holding, você pode ter o melhor plano traçado no papel, mas o que define o sucesso é a capacidade de ler o cenário dinâmico sob pressão e tomar a decisão correta em uma fração de segundo. Este pavilhão vai treinar líderes que não têm medo do impacto. Líderes que sabem que o verdadeiro legado não é apenas desenhar a estratégia no vestiário, mas ter a coragem de correr até a linha de fundo e cravar a vitória.
A plateia explodiu em aplausos. Thomas olhou de soslaio para Maya, os olhos brilhando com uma satisfação silenciosa, como se dissesse: “Viu só? Eu sei jogar.” Maya manteve o sorriso perfeito para as fotos, mas devolveu o olhar com um brilho desafiador que dizia claramente: “Não se ache tanto, o jogo mal começou.”
O Brinde nos Bastidores
Após o encerramento do painel principal, o coquetel foi servido no átrio de vidro do pavilhão. Enquanto os pais continuavam retidos em rodinhas de conversas corporativas pesadas, Maya conseguiu se esquivar da multidão, caminhando até uma varanda lateral que dava vista para o campus iluminado da St. Jude. O vento frio da noite de Nova York bateu em seu rosto, trazendo um alívio merecido.
O som de saltos ou sapatos elegantes se aproximando a fez não se mover. Ela já sabia quem era.
Thomas apareceu ao seu lado, segurando duas taças de cristal com espumante. Ele estendeu uma para ela. Dessa vez, Maya aceitou, pegando a taça pela haste e deixando que os cristais brindassem com um som tímido.
— Tenho que admitir — Maya começou, olhando para o horizonte iluminado da cidade —, você não foi o desastre completo que eu achei que seria. A metáfora da linha de fundo foi brega, mas funcionou com os acionistas mais velhos.
Thomas soltou uma risada genuína, encostando o quadril no parapeito de ferro e olhando para ela. O brilho da lua refletia nos detalhes prateados do terno dele.
— Vindo de você, Styles, isso é o equivalente a um troféu de MVP. E você... bem, você quase não pareceu uma máquina de ler dados. Teve uma hora ali, no segundo parágrafo, que eu juro que vi um ser humano de verdade falando.
— Idiota — ela murmurou, dando um gole na bebida, mas não conseguiu conter um pequeno sorriso de canto que surgiu em seus lábios.
— Nós fomos bem lá dentro, Maya. Formamos uma boa dupla na frente das câmeras — Thomas disse, a voz descendo para um tom mais suave, quase íntimo, enquanto ele observava a linha do maxilar dela. — Os jornais de amanhã vão dizer que o futuro da holding está em boas mãos.
Maya virou o rosto para encará-lo. A calmaria da varanda e a adrenalina pós-evento criavam uma bolha perigosa. O ódio que os alimentava no dia a dia parecia ter se transformado em algo muito mais denso e difícil de ignorar. As faíscas ainda estavam lá, mas a direção do fogo estava mudando.
— O problema de fingir tão bem na frente das câmeras, Thomas — ela sussurrou, estreitando os olhos de forma séria —, é que as pessoas lá embaixo começam a acreditar que nós realmente seguimos as mesmas regras.
Thomas deu um passo à frente, o corpo quase tocando o dela, os olhos fixos em seus lábios por um breve e torturante segundo antes de subirem de volta para os olhos de Maya.
— Quem disse que eu me importo com as regras do jogo deles, Maya? — ele respondeu, a voz arrastada e magnética, fazendo o ar sumir dos pulmões dela. — No final das contas, o tabuleiro é nosso. E a próxima jogada é sua.
Ele deu um último gole no espumante, piscou para ela com aquele charme arrogante que a enlouquecia e voltou para o salão principal, deixando Maya sozinha na varanda, com os dedos apertando a taça de cristal tão forte que as pontas de seus dedos ficaram brancas.
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