Após a minha dramática (e falsa) declaração, todos ficam em silêncio por um momento como se avaliassem minha afirmativa cogitando a possibilidade de ser verdade (piratas não costumam ser muito inteligentes). Esta pausa me dá certa esperança, que acaba sendo destruída rapidamente quando o homem atrás de mim começa a ri alto e logo todos o acompanham num coro. Logo percebo: aquele no timão (o qual rendi com minha pistola) deveria ser apenas o navegador, o capitão está bem aqui atrás. Droga. Não demora até que eu me veja novamente dentro de uma cela sentado de frente para o ex-parceiro, que agora é novamente meu parceiro de cela.

– De todas as mentiras que já te ouvi contar (que foram muitas, e olha que te conheço a pouco tempo), esta foi a pior! – O parceiro de cela está visivelmente irritado, tento dizer algo mas ele volta a falar assim que abro a boca. – Sério, Jack Sparrow?

– Não entendo sua reclamação. – Agora ele me irritou. – Você está colocando a culpa disto tudo em mim? O que esperava? Pessoas te servindo bebidas? Uma cama quentinha te esperando? Sabíamos dos riscos. – Respiro fundo retomando a calma. – Ainda estamos vivos. Saímos no lucro afinal.

Nos encaramos por um instante até que ele expira conformado.

– É, você tem razão. – Ele olha para a parede de madeira que nos separa do mar. – Qual a chance de nos acertarem com um tiro de canhão de novo?

Rimos por um instante até a dura realidade nos silenciar aos poucos.

– Qual seu nome? – Ele me pergunta. – O de verdade. – Acrescenta rindo.

– Jonh Sulivan. E o seu?

– Connor.

Percebo que há outros prisioneiros mas nem a garota e nem o olhos puxados está entre eles. O tempo passa, ainda é noite, o navio está bem silencioso, todos dormem mas eu não consigo. Percebo que Connor, embora esteja deitado, também não.

Escuto passos, chamo a atenção de Connor discretamente mas ele já percebeu. Sorrateiramente uma figura surge em meio a escuridão do navio e se aproxima da nossa cela. Quando para em frente ao portão, a luz da lua ilumina seu rosto. É olhos puxados. De alguma maneira ele não foi pego, ou talvez tenha sido mas conseguiu fugir. Do jeito como ele é falante, nunca saberemos.

Em suas mãos vejo um círculo de metal com chaves o qual maneja habilmente e em segundos encontra a chave que abre nossa cela. O portão range, então começamos a move-lo vagarosamente. Se alguém acordar vai começar a implorar para abrirmos a cela deles e isso poderá acordar outros, desencadeando muito barulho, destruindo nossa fuga. Além disso, muita gente seguindo a gente seria complicado de manter a discrição.

Quando já estamos quase deixando a ala de celas, vejo pelo canto do olho alguém se levantando. Meu coração pula. O encaro e quando ele abre a boca para dizer algo, uma faca surge em sua testa o matando. Olho para olhos puxados, rápido o suficiente para vê-lo abaixar o braço que usou para jogar a arma. Ele me olha e sinto como se ele dissesse “vamos logo”. Sigo, silenciosamente olhos puxados e Connor, mas não sem antes olhar para trás e ver onde o homem caiu morto, percebo que dormindo ao seu lado está o mesmo cara que dormia na minha cela em Tortuga. Como diabos ele veio parar aqui?

Deixando isto de lado, chegamos ao convés que está vazio e bem iluminado por uma belíssima lua. Vemos os botes mas olhos puxados aponta para uma porta do lado oposto ao que nós estamos.

– A garota está lá? – Pergunto e ele responde positivamente com a cabeça.

– Aquele é o aposento do capitão. – Diz Connor informando.

– Não podemos deixa-la. – Insisto.

Connor hesita, mas concorda. Não sei se ele se sente do mesmo jeito, mas não consigo parar de pensar de que ela só caiu no meio dessa confusão por minha culpa.

Nos movemos com cuidado, sem fazer barulho e olhando em todas as direções. Olhos puxados vai até um dos botes e de dentro tira duas espadas e as distribui entre mim e Connor (olhos puxados já tem uma, além de uma pistola na parte de trás da cintura). Parece que ele já colocou nossas coisas dentro do bote para partirmos, ele já deve estar trabalhando em nossa fuga faz algum tempo.

Nos agachamos e espiamos pela janela. Dentro do aposento está tudo escuro, pouco dá pra ver do interior, o capitão provavelmente dorme. Olhos puxados já conseguiu abrir a porta, mas ele não parece ter as chaves, me pergunto o que ele não sabe fazer. Dentro do quarto, com a ajuda da luz que entra pela porta e janela, podemos ver melhor. Há uma mesa no centro com algumas cadeiras e na parede oposta à porta vemos uma cama onde o capitão dorme junto da garota.

Com cuidado tento afastar o braço do capitão de cima do corpo da garota, sem sucesso. Estou muito nervoso. Connor toma a iniciativa, com muita precisão ele afasta o braço do capitão e pega a garota em seus braços enrolada num cobertor (parece estar sem roupas). Pego um vestido que está sobre uma cadeira e começo a sair do quarto. Ela acorda assustada, Connor põe o dedo indicador na frente dos lábios pedindo por silêncio, ela entende e não faz sons. Ela se põe de pé e sai logo atrás de mim. Olhos puxados sai logo depois seguido por Connor. Todos congelam ao ouvir um “CLIC”. Quando olho para trás vejo o capitão mantendo Connor refém com uma arma encostada em sua cabeça. Estávamos tão perto.

– Onde pensam que vão com minha mulher? – Diz o capitão.

Sua mulher? Do que ele está falando? Olho para a garota esperando algum tipo de esclarecimento ou resposta, mas ela fica sem reação por um instante e então começa a caminhar de volta para perto do capitão. Entendo. Acho que consigo imaginar o que ela está pensando. Ela quer fugir conosco, mas, no momento em que fomos descobertos, ela tem mais chance de escapar com vida se fingir querer ser mulher do capitão. Ela não tem escolha, e parece que nem nós. Qualquer movimento errado nosso e ele pode matar o Connor. O som do tiro irá alertar toda a tripulação. Mesmo que eu e olhos puxados consigamos chegar no bote e ir pro mar (o que é improvável), ainda poderíamos ser atingidos pelos canhões. Não tem jeito. Acabou.

– Venha para cá mulher. – Diz o capitão para a garota que se move vagarosamente. Ela não parece estar certa do que está fazendo, mas, desde que o capitão não perceba, ela deve ficar bem. Ela está perto de olhos puxados que ainda encara o capitão.

CLIC.

O que ela está fazendo? Acontece muito rápido. Quando chega perto de olhos puxados (metade do caminho até o capitão), ela para e toma a pistola presa na parte de trás de sua cintura e, com uma das mãos, a aponta para a cabeça de nosso salvador mudo enquanto que com o outro braço segura o cobertor que tremula com a brisa do mar e cobre seu corpo.

Eu não entendo. Não posso ver a expressão dela e nem de olhos puxados por estarem de costas pra mim, mas Connor, que está na frente do capitão, na mira de sua arma, demonstra estar irado pela traição por parte da garota, que, por acaso, ele nem queria se arriscar em salvar. Enquanto isso, posso ver que o capitão parece divertir-se com a cena.

– Gostei de ver mulher, mas armas não são brinquedos. Vocês mulheres não tem a capacidade que nós homens... – BAM!

Ela dispara. Vejo uma fina fumaça deixar o cano da arma e o dele corpo desabar, não consigo acreditar como ela pôde fazer isso, como uma garota de aparência tão delicada pôde, a sangue frio, atingir o capitão, uma pessoa. Connor, fica finalmente livre da mira do capitão, ele então pega a arma da mão do corpo e corre em direção ao barco. A garota entrega a arma a olhos puxados sem dizer nada e pela primeira vez vejo olhos puxados assustado, mas não há tempo de conversar. Corremos para o bote que olhos puxados preparou. Ao subir a bordo do barco vejo os primeiros piratas surgindo no convés. Porém, antes de cairmos no mar, olhos puxados pega uma lâmpada, que ele guardara previamente na pequena embarcação, e a acende. Num breve momento de luz dourada, vejo uma trilha de pólvora no chão serpenteando pelo convés. Olhos puxados quebra o objeto no chão ateando fogo na trilha. Quando caímos na água escuto as primeiras explosões do que viria ser uma grande reação em cadeia. Ele deve ter bolado alguma estratégia com barris de pólvora. Fico imaginando a quanto tempo ele esteve elaborando tudo isso e como ele conseguiu.

Passam-se alguns minutos. O navio queima ao longe e o sol começa a nascer. Vejo agora, sob a bela luz dourada do amanhecer, com clareza os rostos de cada um. A garota está bem cuidada embora seus cabelos estejam despenteados e seu corpo ainda enrolado no cobertor, ela se agarra ao vestido que peguei antes de sair. Olhos puxados e Connor estão visivelmente cansados, sujos e com ferimentos leves das lutas de mais cedo. Ninguém parece estar muito disposto a conversar, mas eu não consigo ficar calado.

– O que vão querer no café da manhã?