O Legado Esquecido

19 Os preparativos finais


A noite caía pesada sobre Hogwarts, trazendo uma estranha mistura de expectativa e tensão. Era como se o próprio castelo, com suas paredes seculares e torres imponentes, estivesse prendendo a respiração. Pelos corredores, poucos alunos se aventuravam a andar tarde da noite; pareciam todos saber, em algum nível inconsciente, que forças antigas estavam em jogo. O grupo sentia essa pressão de maneira ainda mais intensa, pois tinham a certeza de que algo iminente e definitivo estava prestes a acontecer.

Reunidos na Sala Precisa, Rose, Albus, Scorpius, Lorcan, Lysander, Lily, Hugo, Fred, James e Molly encaravam os mapas e os pergaminhos que haviam acumulado. O local estava repleto de livros raros, feitiços antigos e retratos de magos históricos que, sem falar uma só palavra, pareciam observar os jovens com curiosidade. Um caldeirão ainda borbulhava em um canto, resquício de uma poção experimental que Lily e Hugo estavam testando para reforçar escudos mágicos. O aroma exalado era agridoce, como se simbolizasse o dilema que o grupo enfrentava.

— A única certeza que temos é que a Ordem da Lua Negra ainda existe, mesmo que momentaneamente retraída — disse Rose, sua voz soando mais calma do que ela realmente sentia. — Eles acreditam que Merlin confiou a eles a proteção da Essência do Equilíbrio, mas sabemos que se corromperam.

Albus vasculhava um antigo tomo com runas que poderia ajudar a fortalecer o selo sobre a Essência. Ele ergueu o olhar das páginas, os olhos cansados de tantas leituras e poucas horas de sono. — Se essas runas não forem aplicadas corretamente, corremos o risco de enfraquecer em vez de fortalecer a barreira. Precisamos ser meticulosos, cada detalhe importa.

Em outro canto, Lorcan passava os dedos por uma lista de nomes das famílias Sagradas 28. Era um registro antigo, com margens repletas de anotações feitas ao longo dos séculos. Seu coração batia acelerado sempre que pensava em sua possível conexão de sangue com a Ordem. Em sua mente, persistia o temor de que sua herança pudesse subjugá-lo, transformando-o em algo que não desejava ser.

— Tantas famílias... — murmurou ele. — Imaginar que algumas dessas linhagens possam ter se ligado à Ordem me assusta. A corrupção pode passar de geração em geração, camuflada em tradições e segredos.

Scorpius, ao ouvir isso, aproximou-se. Em seus olhos cinzentos havia empatia e compreensão. — Eu entendo. Passei a vida inteira lutando contra o peso do sobrenome Malfoy. Mas não somos prisioneiros do nosso sangue, Lorcan. Fazer a escolha certa é o que nos define.

Enquanto isso, James e Fred, sempre os mais elétricos, andavam de um lado para o outro, como leões enjaulados. Precisavam de ação, de algo que pudessem enfrentar de frente. James ajeitou os óculos na cabeça, um tanto impaciente.

— Certo, e então? Vamos ficar sentados esperando que a Ordem apareça ou atacamos primeiro? — questionou, a impaciência evidente em seu tom. — Sabemos que eles estão enfraquecidos, mas não podemos subestimá-los.

— Precisamos de um plano sólido — completou Fred. — Se nos precipitarmos, podemos acabar caindo em uma armadilha.

Lily e Hugo, que examinavam um mapa mágico do castelo e dos arredores, trocaram um olhar preocupado. No pergaminho, algumas áreas próximas aos terrenos de Hogwarts brilhavam, indicativo de magia antiga ainda ativa. Eram locais onde, segundo as hipóteses do grupo, a Ordem poderia se reagrupar.

— Encontramos marcas de feitiços obscuros perto do lago e na orla da Floresta Proibida — relatou Lily. — Pode ser que estejam se reunindo nesses pontos mais afastados para preparar uma investida.

— Isso confirma nossas suspeitas — pontuou Hugo, mordendo a ponta da pena num gesto de ansiedade. — Se eles concluírem esse tal “Ritual de Restauração” que encontramos mencionado nos pergaminhos... pode ser o fim da barreira que criamos ao redor da Essência.

Um silêncio denso se abateu sobre a Sala Precisa. Nas chamas tremeluzentes das tochas, sombras dançavam pelas paredes, quase como se representassem o conflito interno de cada um deles. Foi Rose quem o quebrou, tomando a palavra de modo decidido:

— Precisamos de duas frentes. Uma, para reforçar o selo na Essência. Já temos as runas e os feitiços necessários, embora sejam incrivelmente complexos. A outra, para rastrear e, se necessário, confrontar os membros da Ordem antes que eles possam agir. Se conseguirem romper o selo, tudo que fizemos será em vão.

Molly, que até então ouvia em silêncio, concordou. — Eu posso ajudar na parte do selo. Tenho boas notas em Feitiços e DCAT. Se trabalharmos juntas, Rose, podemos decifrar as runas a tempo.

— E nós vamos nos dividir na patrulha — sugeriu Lorcan, finalmente recuperando a firmeza na voz. — Lysander, Fred, James e eu podemos vigiar as áreas suspeitas ao redor do castelo. Lily, Hugo e Albus podem checar dentro de Hogwarts, ficar de olho nos corredores e passagens secretas onde a Ordem possa se esconder.

Scorpius lançou um olhar a Albus, que meneou a cabeça em concordância. — Tudo bem. Mas cuidem-se. Já vimos do que a Ordem é capaz.

A porta da Sala Precisa se abriu com um estalido repentino, fazendo todos se voltarem de varinhas em punho. Foi apenas um aluno do primeiro ano, completamente perdido e sem entender como fora parar ali. Com paciência, Rose explicou que ele havia encontrado a sala por acaso e o guiou para fora, aliviada por não ser um invasor. Mas a cena reforçou o senso de urgência: a qualquer momento, poderia não ser um garoto confuso, e sim um adversário letal.

Com o pequeno intruso devidamente encaminhado, eles retornaram ao planejamento. O tempo parecia curto, mas uma determinação inquebrável brilhava nos olhos de cada um. Em meio a presságios e pressões, a chama da coragem reacendia.

Quando finalmente se dispersaram para retornar aos dormitórios, o relógio do castelo marcava uma hora avançada da madrugada. Ainda assim, nenhum deles cogitou descansar. Sabiam que, quando a Ordem reaparecesse, teria mais força e mais sede de poder. E naquele instante, cada um carregava a certeza de que a verdadeira batalha ainda estava por vir.

Assim, à medida que a noite avançava, Hogwarts mergulhava num silêncio tenso. Pelas janelas, a lua crescente iluminava as torres e pátios, tecendo clarões prateados que se misturavam às sombras. Nas profundezas da escola — e talvez até além dela — forças se agitavam, preparando o capítulo final de um confronto que poderia redefinir o destino do mundo mágico.