Era uma noite típica de verão em Hillsight, abrilhantada, porém, por uma magnífica lua cheia que reinava alta no céu pintalgado pelas infinitas estrelas. Estava em seu quarto, sentado no chão, abraçado em seus joelhos e próximo à janela, de onde obtinha a vista mais ampla do céu. Observava com um olhar reflexivo a passagem das nuvens cinzentas que tentavam ocultar sem sucesso o brilho da lua. Pensava em seu aniversário que estava próximo, na nova idade, nos planos que fizera com seu pai para as férias que estavam igualmente próximas: iriam pescar no lago, construir uma casa na árvore, e adotariam um cãozinho...

Seus devaneios foram interrompidos com um abrupto estampido oriundo do andar inferior, e que logo foi prosseguido por gritos aterrorizados de sua mãe e ruídos estridentes de vidro se estilhaçando. Com um solavanco, pôs-se em pé o mais rápido que pôde e correu para a porta.
O primeiro pensamento que ocorreu em sua mente foi uma briga de seus pais, já que nos últimos meses as discussões foram frequentes, porém não ouvira nada antes que pudesse anunciar o começo de uma discussão. O que diabos estava acontecendo?
Próximo a escada, no corredor, teve uma visão ampla do andar inferior, porém esta fora dificultada pela muita fumaça que naquele momento subia em direção ao teto: vislumbrou, em meio a fogo, fumaça e seus pais, homens encapuzados de negro. Tratava-se de uma invasão.

Antes que pudesse gritar ou algo do tipo, aninhou-se imediatamente junto ao chão – temendo ser apercebido — e rastejou até onde pensou que não poderiam vê-lo, para então levantar e correr até seu quarto, a fim de fugir. Não havia maneira de ajudá-los. Não sabia como ajudá-los.
Trancou a porta de seu quarto e rapidamente espreitou-se janela a fora, atingindo o telhado e logo a beirada do mesmo, de onde saltou para o quintal. Riscou o gramado, sem sequer olhar pra trás, em direção a um conjunto de grandes árvores que erguiam-se no limite da extensão do quintal da propriedade e, então, respirou, ofegante.
Lançou-se mais adentro do arvoredo para encontrar uma árvore a qual pudesse escalar. Com dificuldade e de bônus alguns arranhões, conseguira subir em uma das árvores, de onde ficou a observar atentamente a movimentação de sua casa, que àquela altura ardia em brasas. Estava cansado. Estava apreensivo. Estava com medo. Chorou.

Tudo estava calmo. Eles haviam partido. Desceu da árvore e saiu da escuridão. Arrodeou sua casa, a fim de entrar por onde eles entraram. A ausência da porta deixou gentilmente a vista do massacre aos seus olhos ainda do lado de fora. Adentrou. Sua mãe estava estatelada no chão, imóvel, fria, morta. Suas pernas cederam. Caiu, aos berros, debruçando-se sobre o corpo dela. Alguns poucos metros à frente estava o seu pai, igualmente estirado, porém ofegante. Ainda respirava. Foi até ele. Seus olhos, encharcados, encontraram os âmbares dele. — Seja forte, fi-filho. – disse, levando tremulamente uma só mão ao seu rosto, tateando de maneira analítica, como se nunca o tivesse visto. – Proteja-os. E a si mesmo igualmente. – esforçava-se para completar as frases. — Orgulhar-me-ei aos pés dos deuses. – sua voz soava com placidez. Sabia que estava morrendo. – O fogo ilumina. O fogo aquece. O fogo consome.

Não teve oportunidade de respondê-lo e tampouco pensar no que referia-se tais dizeres. Vira a chama da vida apagar-se nos olhos de seu pai. Naquele momento, os soluços interrompiam as lágrimas incessantes que jorravam de seus olhos. O mundo desabara sob seus pés.

Ainda não sabia, porém, a partir dali, sua vida não seria mais a mesma. Tudo mudaria drasticamente. Ele assumiria o legado deixado por seus pais. Eras, agora, rei.

Notas finais
Espero que gostem.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.