O Lago do Cisne
8 O Príncipe do Lago
Os rapazes se encararam em silencio, ambos com uma admiração sonegada, sabiam que eram muito mais do que aparentavam e respeitavam esse fato. Mas suas perguntas ainda não tinham resposta, quem tomara a iniciativa foi o aquariano.
¬ Sou o residente deste lago. — respondeu sereno. — Cygnus Hyoga.
O leonino estranhou o fato do rapaz possuir dois nomes, mas nada disse, demonstrou um mínimo respeito ao se curvar sutilmente e voltou a postura habitual, tudo sem desviar o olhar do mar azul que eram os olhos do outro.
¬ Fui um general de Atenas, agora sou candidato a Armadura de Leão. — os olhos do rapaz a sua frente pareceram tristes. — Phoenix, é meu nome.
¬ Phoenix... A ave mitológica que renasce das cinzas. — Cygnus o esquadrinhou. — Parece-lhe adequado. — concluiu com um leve sarcasmo na voz, o qual Phoenix decidiu ignorar, mas que precisava e muito de um bom banho precisava.
¬ O que te aflige? — estava verdadeiramente interessado no olhar triste que o loiro sustentou por segundos.
A postura de Cygnus vacilou por alguns instantes, ele ficou verdadeiramente espantado, mas procurou não demonstrar. Como aquele homem a sua frente soube que ele entristeceu-se? Será que viu a pouca dor que deixou ser refletida em seus olhos? Não importava agora, tinha que satisfazer suas duvidas.
¬ O que aconteceu com seu antecessor? O dono anterior da Armadura de Leão?
O mais velho se surpreendeu e não escondeu. Qual seria o interesse do rapaz no antigo Cavaleiro de Leão?
¬ Ele veio a falecer meses atrás, em um anoitecer. — respondeu com simplicidade.
Cygnus esboçou um sorriso triste. Sef, o falecido Cavaleiro de Leão, era como um irmão mais velho para ele, quando o aquariano se metia em encrencas, Sef sempre estava lá para salvá-lo ou para ajudá-lo a enfrentar as adversidades, divertido e alegre, por vezes orgulhoso e teimoso, era uma criança na forma adulta.
¬ O que faz aqui? — não queria dar margem a mais perguntas do leonino, não gostou da forma como foi decifrado tão rápido e fácil.
Phoenix não soube o que dizer. Não achava certo dizer que tinha perseguido um cisne até ali com a intenção de caçá-lo, pois era óbvio que o cisne se tratava do rapaz a sua frente.
¬ Você é o cisne, não? — o rapaz não expressou nada.
¬ Você estava me caçando? — Phoenix corou e abaixou a cabeça envergonhado, o tom de voz usado pelo menor deixava tudo mais constrangedor.
¬ Desculpe. Não sabia que o cisne é um homem. — tentou melhorar sua imagem perante aquela figura.
¬ Sou um amaldiçoado. — corrigiu taciturno. — Agora, por favor, vá embora.
Phoenix o encarava incrédulo, não entendia o porque de ir embora e teimoso do jeito que era, olhou no fundo daquele mar azul que eram os olhos do aquariano e declarou:
¬ Obrigue-me a partir!
Cygnus deu uns dois passos para trás, descrente das palavras ditas pelo leonino, pela primeira vez em anos expressou alguma coisa, Preocupação. A única coisa que conseguia imaginar era: Aquele homem é louco!
¬ Alguém falou-lhe que este lugar é proibido? — perguntou, tentando se recompor.
¬ Minha irmã falou algo. — lembrou-se do alerta da irmã, mas ela não explicou-lhe direito. — Porém não disse nada além de que ninguém mais vinha aqui por conta de um monstro ou maldição.
Cygnus sorriu de maneira imperceptível, sua maldição se tornou história para fazer as crianças não desobedeceram os pais, não sabia dizer se era irônico ou triste. Mas o que realmente atraia sua atenção era o homem a sua frente, parecia que, de fato, não moveria um único músculo.
¬ Como parece determinado em suas palavras de que vai ficar. — deu as costas ao leonino e começou a voltar para o lago. — Acredito que devo me retirar. — e mergulhou nas águas do lago.
Cygnus vivia ali a 5 anos, conhecia aquele lago como a palma de sua mão, conseguia nadar horas sem se cansar e conseguia prender a respiração por minutos a fio, independente de sua forma, humana ou cisne. O rapaz decidiu se esconder em uma gruta submersa no fundo do lago, tinha montado outro abrigo naquele lugar, ficaria ali até cansar ou até o homem ir embora, o que acontecesse primeiro.
Phoenix se assustou pelo rapaz não voltar a superfície, mas preferiu acreditar que ele logo apareceria, esperou durante horas e nada do rapaz aparecer, pensou em mergulhar atrás dele, porém, algo lhe dizia que isso era desnecessário, por fim desistiu e voltou ao Santuário. Mesmo assim, jurou que voltaria, que descobriria tudo sobre ele e que estabeleceria alguma relação com aquele rapaz, faria o possível e o impossível para ter alguma importância aos olhos dele. Não sabia bem o porque de estar tão comovido, só sabia que definitivamente acabaria com aquela tristeza que viu nos olhos do aquariano.
Horas mais tarde, estava almoçando ao lado dos companheiros, que estranhavam seu comportamento. Geralmente, a aquela hora, Phoenix estaria fazendo piadas as custas dos amigos, rindo e implicando com eles, mas estava silencioso e pensativo, isso era um pouco estranho vindo dele.
¬ Ikki! — a Amazona de Peixes se jogou em cima dele. — Tira esse bico do rosto tão lindo!
¬ Primeiro. — começou tempestuoso. — Como descobriu a forma que minha irmã me chama desde que era um bebê? — virou-se para Amazona. — Segundo. O que quer? — a Amazona se afastou.
¬ Grosso! — deu-lhe a língua.
¬ Vou arrancar sua língua. — a forma calma com que falou foi o bastante para a Amazona recolher a língua.
¬ Deixa de ser bruto! Seu estoico! — disse se sentando ao lado dele. — E respondendo suas perguntas. Eu vi Andrômeda chamando-te assim, então tomei a liberdade. — Phoenix olhou-a de soslaio. — E ela me contou que quando era bebê não conseguia dizer seu nome, só o final dele, o Ix, mas sempre soava como Ikki, então ficou.
¬ Achou que vou ter uma pequena conversa com Andrômeda. — concluiu o leonino, já imaginando se a deixaria de castigo no quarto ou se a faria comer formigas para controlar a língua.
¬ Não seja mal com ela! Ela te ama mais do que tudo nessa vida. — interveio a Amazona de Peixes, como se visse os pensamentos do homem ao seu lado. — Mas respondendo sua outra pergunta. — continuou. — Estou preocupada. A essa hora tu estarias rindo, não com essa tromba enorme no rosto e essa trombinha aqui em baixo. — apalpou o baixo ventre do homem.
Automaticamente, Phoenix ficou vermelho e se afastou bruscamente da Amazona. Aquele mulher era um perigo e ele sabia, não havia vivalma naquele Santuário que não conhece o jeito despudorado da Amazona de Peixes, que mais parecia se divertir com o encabular alheio. Tanto que ria da expressão de Phoenix até o momento.
¬ Perdoe-me. — continuou a rir, procurando não se atrapalhar na fala. — Não pude resistir a brincadeira.
¬ Alguém tem que te reeducar, mulher!
¬ É uma proposta? — perguntou com um sorriso ardiloso.
¬ Procure marido em outro lugar. — respondeu ranzinza, o que a fez rir.
¬ Você é encantador, Phoenix. — não mentia, Phoenix tinha algo que o tornava atraente a todos. — Porém, agora é sua vez de responder minha pergunta. O que lhe aflige?
Phoenix ponderou se era sensato ou não se abrir para a Amazona, mas duvidava que a mulher seria tão desgraçada ao ponto de contar a todos que encontrasse o que o afligia.
¬ Eu... — começou sob o olhar de expectativa da Amazona. — Eu fui parar naquele lago, atrás do Santuário, na minha dispensa. — o susto da Amazona era mais do que visível.
¬ Oh, Atena... — gemeu a Amazona. — Me diz que você não conversou com o rapaz do lago!? — Phoenix, para o desespero da Amazona, confirmou o que ela temia. — Oh, Meu Zeus!!
¬ Pare de lamuria, mulher! — Phoenix já tinha perdido a paciência. — Diga de uma vez o que há de errado!
¬ Phoenix! — a Amazona era um misto de irritação e medo. — Aquele rapaz é amaldiçoado pela deusa do Amor.
¬ Afrodite!? Porque?
¬ Porque, os deuses me perdoem e protejam, ela teve inveja do rapaz, não só dele, como da mãe também. — falou exasperada.
¬ Explique-se. — exigiu o leonino.
¬ A mãe do rapaz era muito bela e nós, mortais, fomos tolos ao compará-la com a deusa da Beleza. Atraímos a desgraça não só para ela e sua família, como para nós também. — seu olhar era triste e distante, mesmo que a voz fosse altiva e alegre. — A mãe dele morreu no parto, depois de sofrer um grave ferimento. Anos depois, o rapaz se mostrou tão belo quanto a mãe, o que não agradou a deusa, e como não conseguia tocá-lo, ela o amaldiçoou.
Phoenix não podia negar. O rapaz era muito belo, o ser mais belo que vira em toda sua vida, mas seria tão belo ao ponto de provocar a ira de uma deusa?
¬ De dia, ele é um cisne. Um animal proibido no Santuário e caçado pelos mortais. De noite, ele volta a ser um rapaz, porém, para manter sua forma humana, algo de valor deve ser dado em troca. — a Amazona suspirou. — Eu era uma criança quando ele nasceu, seu pai era o antigo Cavaleiro de Aquário e sua mãe era a mulher mais bela que já vi. Aqui no Santuário, somos uma família, todos nós. Ele cresceu tendo muitos exemplos, muitos a considerar como tio, irmão e um segundo pai, ele foi muito amado.
¬ Onde quer chegar? — perguntou preocupado.
¬ Afrodite é cruel na sua vingança. — respondeu a Amazona. — Tornou a beleza do rapaz sua maldição. Por ser belo e amável, não foram poucos aqueles que se tornaram especiais para ele. Para se tornar humano, alguém de valor para ele deve morrer. Por isso nos afastamos, por pedido dele e medo nosso. Não só a solidão, como a dor da perda endurece seu coração.
Phoenix não sabia o que dizer. Aquele era um destino cruel, pior do que o seu próprio.
¬ Surgiu um ditado na cidade, que serve para afastar as pessoas do lago. — continuou a Amazona. — Durante o dia, quem passasse pela região avistará, à beira do lago, um belo cisne coroado, quem sabe o mais belo cisne que já havia visto. Durante a noite, verá o Príncipe do Lago, a quem deve temer, pois este trará a morte para quem o ver.
Um destino cruel, que não intimidou Phoenix, para quem a morte era amiga, uma maldição como aquela não tinha importância. Estava determinado a se tornar alguém importante ao rapaz, estava determinado a banir aquela tristeza que viu nos olhos dele, e talvez, quem sabe, não banisse a própria tristeza...
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