O Lago do Cisne

10 Eros Não Obedece


Diante da determinação louca vislumbrada no rosto da deusa, o servo dispensou qualquer pergunta ou comentário, saindo no mesmo instante à procura do deus.

Sempre que Afrodite se sentia contrariada, apelava para o filho. E o deus corria a atendê-la, oferecendo-lhe os préstimos de suas flechas, contra as quais não havia proteção possível, na terra, no céu ou no Inferno. Nem mesmo os deuses estavam livres de suas flechas. Ele sempre fazia o que a mãe mandava, mas isso tinha mudado.

Quando o belo e jovem deus se apresentou à deusa, ela pôs-se a lastimar:

¬ Meu filho, fui ofendida! Sinto-me profundamente magoada! E irada!

Eros ouvia atentamente os queixumes da mãe infeliz, mas nada fazia ou expressava, totalmente impassível, se perguntando o porquê de ainda estar parado ouvindo.

¬ Mas isso diz respeito a tu, meu filho! — Afrodite apontou para o jovem a sua frente acusadora. — Desde que nasceste, tem mostrado um poder superior ao meu no Amor e nas Paixões! Desde então, tem cuidado de ambos sentimentos, sujeitando-os a sua vontade e ordens! Então eu lhe pergunto, meu filho. — Afrodite, agora, apontava para o espelho d'água de seu palácio, de onde assistia a vida dos mortais, especialmente Phoenix e Cygnus. — O que fizeste?

¬ O certo. — respondeu de forma seca. — Eu fiz com que se apaixonassem. Transformei suas maldições em consolo e esperança, estou anulando suas maldições. — a deusa se viu ainda mais irritada.

¬ Quero que desfaça. AGORA!! — ordenou a deusa.

¬ Não. — respondeu de forma lenta, de madeira que a deusa sentisse toda a intensidade da palavra. — E não será você, nem ninguém a me obrigar.

A deusa sentiu-se consumida pela raiva. Seu filho jamais negou-se a cumprir um desejo seu, mas isso era antes, antes dela ser humilhada pela primeira vez por aquela maldita mortal que conseguira roubar o coração do deus do amor e paixões.

¬ COMO OUSA DESOBEDECER A SUA MÃE?! — a deusa estava cega de ódio. — DESDE QUANDO ME TRATA COMO SE EU FOSSE UM MORTAL?!

¬ Não vou deixar que faça isso novamente! — ditou altivo. — Não vou deixar que faça com eles o mesmo que fez a mim e Psique! Não vou fazer sua vontade!

¬ Eu disse... — Afrodite começou a chorar, talvez se fazer de vítima desse certo. — EU DISSE QUE PSIQUE LHE CORROMPERIA!! EU DISSE QUE ELA LHE ENVENENARIA E O TIRARIA DE JUNTO DE MIM!! ELA ME MAGOOU, ME HUMILHOU E TIROU VOCÊ DE MIM!!

¬ Cale-se. — a deusa nunca ouviu tais palavras de seu filho, ficou em choque. — Deixe de ser falsa! És invejosa! Tem inveja deles, meros mortais, tem inveja e ódio daqueles que não lhe agradam, que não se curvam a sua vontade!

¬ MENTIRA!! — gritou ainda mais ensandecida.

¬ Mentira!? — Eros elevou seu tom de voz, mas não perdeu a postura. — É mentira que matou a mãe de Cygnus porque os mortais admiravam sua beleza? É mentira que amaldiçoou o rapaz porque ele se parece com a mãe? Por ele não temer sua cólera? É mentira que fez Ares, o deus cachorrinho, amaldiçoar o general ateniense, Phoenix, por ele ter matado um de seus amantes mortais? É mentira que sente inveja deles? É mentira que quer vê-los sofrer por pura diversão? Para se contentar em ver que eles se tornaram ainda mais inferiores? É mentira a sua inveja?

Afrodite ergueu a mão com a intenção de desferir um tapa na face do filho. Ele sempre apanhou da deusa quando fazia algo errado e nunca reclamou de seus castigos, mas isso ficou no passado. Eros segurou o pulso de sua mãe antes que fosse atingido.

¬ CRIANÇA INSOLENTE!! NÃO INSULTE A MIM OU AO SEU PAI!!

¬ Meu pai?! Você?! — o deus riu com escárnio. — Os únicos que merecem o meu respeito são Zeus, Poseidon, Hades, Atena e Hefesto, que criou-me como filho, mesmo sabendo que eu era um bastardo, o único homem e deus que te amou de verdade.

A deusa tentou espernear mais uma vez, dizer que aquelas palavras a feriam, que rasgavam seu coração de mãe, mesmo assim, Eros permanecia firme.

¬ Chore, grite, esperneie. Eu não me importo. — o deus a olhava sério. — Não me importo há muito tempo.

¬ EU ORDENO QUE DESFAÇA ESSE AMOR, ESSA PAIXÃO!! EU ORDENO QUE OS FAÇA INFELIZES!! — a deusa tentava se soltar enquanto cuspia as palavras. — EU SOU SUA MÃE!! EU MANDO EM VOCÊ!! EU QUERO QUE DESFAÇA!!

Eros empurrou a deusa, que caio sentada sobre um dos muitos divãs de seu palácio. A deusa o encarava com ódio e ele continuava a olhá-la com frieza.

¬ Você tirou tudo deles. — declarou o deus. — Phoenix nunca morrerá, vera todos a quem ama morrer e nunca encontrara a paz, vagando pelo mundo como cinzas sendo levadas pelo vento. Cygnus nunca conheceu a mãe, perdeu sonhos, amigos e pai, a única família que lhe restou, viveu sozinho por anos, nem sabe mais o significado da palavra Família. — Eros virou-se e rumou para saída, dando uma bela visão de suas asas. — Não vou desfazer nada! Você roubou tudo que era deles, especialmente o amor e a felicidade. Você é a deusa do amor e da beleza, devia zelar por ambas acima de tudo, mas só faz a discórdia nascer nos corações mortais. — ouvisse um riso do deus. — Mas isso já era de se esperar, não? Afinal você é uma titã filha de Urano. Não importa a função que lhe deem, ou a habilidade e aparência que possua. Você só é capaz de gerar a discórdia. — o deus parou por alguns segundos, porém não olhou para trás. — Quero devolver a felicidade que foi roubada! Dar-lhes a chance retirada! Quero vê-los felizes, como UM! E principalmente... — o deus abriu as enormes asas. — Quero ver-te cair por terra! — declarou ao alçar voo, deixando a mãe para trás.

Os lábios da deusa tremiam de raiva. A deusa se levantou em um ímpeto, quebrando e destruindo tudo que via em seu caminho e, totalmente descontrolada, recolheu-se para sua câmara íntima. Em todo o palácio, sua voz ecoava como uma explosão:

¬ MALDITO SEJA EROS!! MALDITOS SEJAM PHOENIX E CYGNUS!!

Demorou muito tempo para a deusa se acalmar, mas seu interior queimava de ódio. Ares não queria ajudá-la, temia o ódio dos demais deuses, muito menos Eros e Hefesto, que a abandonara fazia séculos, só tinha uma pessoa a quem recorrer. Uma pessoa que não lhe negaria nada, uma pessoa que tinha sido criada para ser o assecla mais importante da deusa.

¬ Hora de ver o que Emrallt aprendeu...

Depois de horas experimentando do puro ódio, a deusa permitiu-se rir com desdém. Se seu filho dizia que ela era uma titã, então agiria como tal.

Notas finais
Meu computador deu tilte e eu perdi todo o cap original... Tacar o PC na parede não ia ajudar, mas foi uma ideia muito tentadora... Olha, eu espero que tenham gostado desse cap pós depressão e devo avisar que provavelmente, o próximo cap será longo e exigira muito de minha criatividade, já que é o finalmente, nem tão finalmente assim. Entenderam? Também não XD Bjs. L