O Lago do Cisne
5 A Dor de Cygnus
Notas iniciais
Cygnus Hyoga teve muitos momentos tristes depois de amaldiçoado.
Após fugir de seu pai, passou horas naquele lago, até ser encontrado por Nicodemus. Pai e filho se aproximaram, Nicodemus disse que jamais o deixaria, que o ajudaria a enfrentar aquela maldição, que faria de tudo para vê-lo bem e feliz, mesmo que limitado por aquele maldito destino.
Cygnus nunca vira seu pai chorar tanto. Nicodemus se perguntava como podia aceitar tamanha desventura? Desolado, sem saber o que fazer, ele só conseguia chorar e dizer ao filho que de alguma forma tudo ficaria bem. Cygnus só conseguia pensar em como aquelas lágrimas eram horrendas, só tinha dor nelas, uma dor que ele experimentara, mas em menores proporções, uma dor que era incapaz de imaginar. Pelo que seu pai já tinha passado?
Ao anoitecer, o medo os tomou mais uma vez. As mesmas luzes que o envolveram da primeira vez, o envolveram mais uma vez e ele voltou a ser um rapaz. Ele não mais usava suas roupas velhas e surradas de treino, usava roupas dignas de um príncipe. A coroa lembrava um cisne, as asas ficavam nas laterais do rosto, dando-lhe ênfase, e o pescoço da ave destacava-se no centro. A coroa de louros de seu pai se transformou em uma espécie de cinto e envolvia a cintura do rapaz. Vestia uma toga branca e curta, que deixava o peito, braços e pernas, ainda em formação, a mostra, uma capa longa e usava belíssimas joias de ouro e prata.
¬ Eu... sou humano? — perguntou cauteloso.
Nicodemus engoliu o choro e agradeceu aos deuses por ter ao menos está sorte, mas não podia esconder a verdade do filho. Nicodemus contou-lhe sua teoria de que aquilo era apenas um dos efeitos da maldição, ele seria cisne de dia e de noite voltaria a ser humano, porém algo seria tomado em troca, geralmente algo que amava.
Quando os raios de sol despontaram no horizonte, pai e filho se despediram e Cygnus voltou a ser um cisne. Nicodemus voltou para sua Casa com o coração pesado, que pesou ainda mais ao saber que seu melhor amigo, o Cavaleiro de Escorpião, veio a falecer naquela tarde logo após o sol desaparecer no horizonte, logo após seu filho voltar a ser humano. Para ser humano, Cygnus Hyoga perderia algo que amava, o Cavaleiro de Escorpião era como um segundo pai para o rapaz, uma das pessoas que ele mais amava na vida.
Nicodemus nunca escondeu do filho algo que acontecia, sempre dizia-lhe tudo, e por essa razão, passou a noite seguinte secando as lágrimas do filho, que sofria com a dor da perda.
Muitos morreram, todos eram especiais para Cygnus, o choro do rapaz e de seu pai eram a alegria de Afrodite. Para sustentar sua forma humana, algo deveria ser tomado em troca, quanto mais valioso, mais noites como humano ele teria e saber que era a vida daqueles que amava que lhe dava tal oportunidade rasgava seu coração. Cygnus chegou a proibir o pai de procurá-lo por ter medo de que este fosse o próximo, pedido que foi obedecido, em parte, porque um pai jamais abandona seu filho.
Nicodemus nunca contou a nenhum de seus amigos o que ocorrera ao seu jovem filho, só dizia que a desgraça divina caíra sobre o rapaz, da mesma forma que caíra sobre sua amada.
Um dia, os Cavaleiros e Aspirantes, que treinavam, viram uma bela ave passando pelo local e decidiram caçá-la, seriam um belo troféu para o Santuário, uma oferenda a deusa. Já era fim de tarde quando o rapaz, ainda na forma de cisne, se aproximou da margem e esperou, mal sabia que era observado por aqueles que o queriam como prêmio e por seu pai.
Os caçadores desconheciam a presença do Cavaleiro de Aquário e o mesmo desconhecia a presença deles, mas sempre foi grato por sua boa audição. Nicodemus ouviu o arco ficar tenso, indo atrás do barulho, descobriu o grupo e soube dizer suas intenções.
Nicodemus se colocou na frente de seu filho, sendo atingido pela flecha, soltando um grito de dor e tombando logo após retirar a flecha das costas. O grupo não entendia os motivos do Cavaleiro de Aquário até o cisne revelar sua verdadeira forma, entendendo tudo o que ocorria e o que podia vir a ocorrer. Cygnus Hyoga correu até seu pai e o amparou da melhor maneira possível. O sangue de Nicodemus empapava suas roupas e se misturava ao seus cabelos naturalmente vermelhos, os olhos castanho avermelhados perdiam o brilho e ficava cada vez mais difícil respirar.
¬ PAI!! — Cygnus o chamava desesperadamente. — PAI!! PAI!! NÃO MORRE!! NÃO ME DEIXE, PAI!! PAI!!
Nicodemus pousou a mão no rosto marcado de lágrimas do filho e fez um pequeno carinho, que calou o rapaz.
¬ Seja forte... — sua voz era um fio, mas não perdia a sua firmeza. — Seja você... Afrodite pagará... — sorriu para o filho. — Eu te amo, meu filho... — tirou a mão do rosto do filho, a pousando sobre o tronco e serrando os olhos. — Mas agora que tenho que me juntar a sua mãe...
¬ Pai!? — Cygnus assistiu a respiração de seu pai parar e o sangue manchar a terra. — PAI!? — o homem esboçava um pequeno sorriso que se desfez após o último suspiro. — PAI!!
Cygnus se agarrou ao corpo e urrou de dor, seu único parente, sua família, seu sustento, sua força, seu Pai estava morto e jamais voltaria, não cantaria para ele, não sorriria, não passaria a mão por seus cabelos, não diria quanto orgulho tinha pelo filho, não poderia ser sua proteção, não seria seu lar. Cygnus Hyoga estava sozinho.
¬ O que fizemos? — perguntou um dos Aspirantes do grupo.
¬ Testemunhamos uma maldição. — respondeu um Cavaleiro, que, engolindo seu medo, se aproximou do rapaz e tocou seu ombro. — Cygnus?
Este o afastou violentamente e gritou a plenos pulmões:
¬ VÃO EMBORA!!
¬ Cygnus... — o Cavaleiro quis se aproximar mais uma vez, mas sentiu o ar congelar entorno do rapaz, ele liberava uma quantidade perigosa de cosmo-energia.
¬ VÃO EMBORA!! — voltou a gritar.
¬ Cygnus, temos que levar o corpo e dar explicações à deusa. — tornou o Cavaleiro, aquelas palavras atiçaram ainda mais o ódio do rapaz, que volveu cheio de ódio.
¬ VÃO EMBORA E EXPLIQUEM-SE, MAS NÃO LEVARAM MEU PAI!!
¬ Cygnus... — mais uma tentativa.
¬ NUNCA MAIS VOLTEM AQUI!! — cortou o homem. — VÃO EMBORA!! EU SOU UM AMALDIÇOADO!! SE QUISEREM MORRER, PODEM FICAR, POIS TODOS QUE FICAM PERTO MORREM PARA ME TORNAR HUMANO!! — aquilo só serviu para confirmar as hipóteses dos homens a sua frente, deixando-os assustados, afinal, que homem não teme a morte? — VÃO EMBORA!!
Por fim, atenderam o pedido do rapaz e se foram, espalhariam a verdade pela cidade, para que nada assim acontecesse novamente. Ao se ver sozinho com o falecido pai, Cygnus se deixou levar pela dor lacerante, não parou de chorar um só instante, nem quando cavava uma cova para seu pai, nem quando o enterrava do lado de sua mãe, que tinha sido enterrada a 128 pés ao norte do lago. A cada lágrima que caia por terra, o riso de Afrodite se espalhava por seu palácio.
Agora, com seus vigorosos 18 anos, o rapaz esperava pela noite, sozinho, como fazia a 4 anos. Queria ir para casa, que construirá, comer alguma coisa, ler, treinar, visitar seus pais, descansar e, por fim, voltar ao lago, esperando o sol surgir, tudo com uma expressão seria e sem vida. Essa foi sua rotina desde que se transformara.
Mais uma vez, as luzes, que mais pareciam a Aurora Polar, escaparam de seu corpo, revelando o belo e jovem rapaz. Saio da água sem dificuldade, balançou a cabeça para se livrar de algumas gotículas de água, estapeou a roupa, que também estavam com gotículas, e tomou rumo para sua casa. Mas parou em seu caminho quando sentiu que alguém estava perto, virou a cabeça devagar, encontrando um par de íris da cor índigo.
Cabelos negros e rebeldes, olhos índigos, provocantes e misterioso, rosto másculo e altivo, alto e de corpo trabalhado sem exageros, roupas de treino e calor envolvente. Este era rapaz que o encarava espantado, até mesmo admirado.
¬ Quem és tu? — a voz firme e forte, porém mansa do rapaz, fez seu corpo estremecer de leve.
¬ Sou quem pergunta. — respondeu sem demonstrar o mínimo sentimento ou expressão. — Quem és tu?
Fale com o autor