O Lago do Cisne
2 A Cólera de Afrodite
Notas iniciais
A muito, muito tempo, os Cavaleiros de Atena já estavam em sua 20° geração e todos viviam tão felizes, que até mesmo os deuses invejavam sua alegria. Eram muito abençoados pelos destino, todos com vidas boas, casas maravilhosas, esposas belas e filhos forte. Uma vida louvável.
Dentre eles, o Cavaleiro de Ouro de Aquário, conhecido como Nicodemus, era o que mais tinha bênçãos aos olhos de seus companheiros. Tinha muitas conquistas de batalha e trabalho, uma esposa belíssima de nome Astra e um filho, ou filha, a caminho.
Astra era a mulher mais bela que a Grécia inteira já vira, era uma estrangeira, vinda do Norte, que conseguiu a afeição do frio Cavaleiro de Aquário, que jamais cairá de amores por alguém como caio por ela. Astra era alta, de porte impecável, possuidora de um corpo invejável, rosto de beleza sem igual, pela branca como a neve que caia em sua terra, olhos azuis brilhantes e ferozes como um relâmpago de Zeus, cabelos longos e loiros que mais pareciam raios de sol moldados pelo próprio Apolo. Astra destacava-se de tal maneira, que não havia homem ou mulher na Grécia capaz de dizer que ela não era uma deusa vivendo entre mortais.
¬ Nossas esposas são todas belas. Agradeço todos os dias por ter uma esposa como a minha. — dizia o Cavaleiro de Ouro de Leão aos companheiros. — Mas não há como negar, de todas, igual a Astra não há!
Não tinham quem discordasse. Todos admiravam a formosura da jovem estrangeira.
A fama ultrapassou todas as fronteiras imaginadas pelo homem, todos os dias chegavam pessoas de todos os lugares para admirar sua beleza, mesmo que de longe, pois ela preferia assim, ficar oculta e longe daqueles homens e mulheres que insistiam em lhe ver. Mesmo assim, para evitar transtornos maiores do que os já existentes, a própria deusa Atena pedia para que ela se mostrasse para os viajantes ao menos uma vez, coisa que fazia a contragosto.
¬ Por que devo mostrar-me a esses homens e mulheres que não conheço, de que nunca ouvi falar? — questionava o marido, enquanto acariciava o ventre fecundado e ainda plano.
¬ É a vontade de Atena, minha esposa. — tornou o aquariano. — Essa situação também não me agrada, mas devemos fazê-la por nossa deusa, ela sabe o que faz e certamente sabe que tudo se resolvera. — abraçou a mulher. — Não se preocupe, minha amada, logo tudo ira passar.
¬ Tal ostentação não pode trazer bons resultados! — respondeu o marido ao aceitar seu abraço.
Os dias se passavam, seu ventre crescia e ela se expunha para os viajantes, que chegam e partem, sem desordem nem arruaças. Vinham apenas conferir com os próprios olhos aquilo que ouviam sem querer acreditar. E se admiravam, sobremaneira, por constatar a beleza em muito superior à imaginada.
¬ Não existe mulher tão bela como Astra! — dizia um dos viajantes aos companheiros. — Nem os poetas fazem justiça a sua beleza! — todos concordavam com as palavras emocionadas do companheiro.
¬ Nem a beleza de Afrodite se compara!
A comparação que provocara estranheza, na primeira vez, passara a constituir objeto de todas as observações. Abismados pela beleza de Astra, aqueles homens se despiam de suas crenças a ponto de afrontar a deusa, comparando-a a uma simples mortal.
¬ Quem sabe, não será a própria deusa disfarçada na pele de uma mortal?
Aos poucos, o culto a deusa da beleza e do amor, foi sendo desviado para Astra. Afrodite um dia descobriria, coisa que não demorou a acontecer. Quando a deusa se deu conta da triste realidade, ficou muito revoltada e prometeu:
¬ Astra pagará caro pela sua insensatez! Juro que sentirá na carne a força do meu rancor!
Dias vinham, dias iam. Semanas passavam, meses minguavam. A deusa não brincava com palavras, durante os meses que se seguiram, fazia de tudo para que as criaturas mais cruéis sobre a terra ou abaixo dela, fizessem sua vontade, caçando a jovem mãe, ainda mais depois que decidiu fazer Astra de desfazer em lágrimas pela perda da criança que carregava e amava, queria que ela sentisse uma dor inimaginável e para isso, tiraria o maior tesouro de Astra, seu bebê.
Todas as criaturas enviadas pela deusa tinham como objetivo matar a criança e ferir a mãe, porém sem matá-la, e sempre falhavam. A jovem vivia cercada de Cavaleiros, que a defendiam, e tinha um ótimo marido, que seria capaz de ir até Hades e desafiá-lo se isso fosse capaz de livrar sua amada de qualquer armadilha do destino. Porém, mesmo que a jovem tivesse os 88 Cavaleiros de Atena a sua disposição, um dia, as defesas cairiam.
Astra estava com sete meses de gravidez e as peregrinações em busca de sua beleza estavam cada vez mais insuportáveis, tinha até quem supunha que seu bebê nasceria um deus, um absurdo para a jovem mãe. Naquele dia em especial, ela estava colhendo flores perto de um lago, que não ficava tão distante do Santuário, quando foi atacada por um leão, não era um enviado de Afrodite, apenas um animal faminto tentando sobreviver. O leão a atacou e com suas garras lacerou a lateral de seu corpo, a jovem desesperada correu para água ignorando a dor que sentia, nadando até o centro do lago com dificuldade devido ao ferimento, o leão tentou se aventurar atrás dela, mas ao ver que poderia, e certamente iria, se afogar, deu meia volta e abandonou-a.
Astra começou a nadar de volta para margem, deixando um rastro de sangue na água, logo algum animal das profundezas se entregaria pela presa fácil, então nadou o mais rápido que lhe era permitido. Ao chegar na margem, Astra rasgou o resto de suas roupas com dificuldade e percebeu que não viveria muito tempo com aquele ferimento, ela podia ver a carne dependurada exibindo algumas parte do osso e do interior do corpo.
Se fosse apenas sua vida em risco, não se importaria de desistir, mas ela tinha uma criança em seu ventre, não seria levada com tanta facilidade. Sentindo que a bolsa rompera, tentou a todo custo levantar, mas as dores do ferimento junto com as dores do parto não permitiram. Seu grito de dor e horror chegou até os ouvidos de todos que estavam no Santuário e aos ouvidos de Atena e Afrodite, sendo que a última se deliciou com a ironia do destino.
Nicodemus e seus companheiros partiram em sua busca. Tiveram dificuldades em encontrá-la, pois seus gritos ecoavam por todo lago, sem dar uma direção precisa, e quando os gritos cessaram, o desespero só aumentou. Por fim a encontraram, na beira do lago, deitada de lado com um bebê todo ensanguentado junto de si.
Nicodemus se aproximou da esposa, vendo o terrível ferimento, quase entrando em choque com aquilo, e vendo o estado em que ela se encontrava. Astra estava no linear da morte, só aguentava pelo recém-nascido, estava pálida, o brilho abandonava seus olhos e estava com mais e mais dificuldades para respirar. O recém-nascido era um menino, que gritava a plenos pulmões, ele tinha indícios de uma cabeleira loira e pele como a da mãe. Nicodemus pegou o menino em seus braços e viu a esposa sorrir quase sem vida, as lágrimas rolavam pelo rosto do casal, um misto de tristeza, alegria e dor.
¬ Nicodemus... — sussurrou Astra. — Meu esposo. Cuide de nosso menino. Cuide de nosso filho. Ele será o seu maior tesouro, seu sustento, sua força. Ame-o mais que a própria vida. — aquilo não era um pedido, era uma suplica. — Meu amor. Diga a ele, que não importa os caminhos que tome ou a pessoa que se torne, eu sempre o amarei.
¬ Astra... — Nicodemus não escondia suas lágrimas de ninguém, o bebê, que antes chorava, se aquietara no colo do pai. — Não nos deixe. Não sei nem como chamá-lo. — com muito esforço, Astra beijou os dedos, os encostando nos lábios do marido e depois no rostinho do filho. — Astra...
¬ Ele nasceu sobre estás estrelas. Nasceu sobre os cuidados daqueles que puxam o carro solar de Apolo. — ela puxou ar com dificuldade e tossiu muito sangue. — O nome dele é Cygnus, Cygnus Hyoga. — o marido sabia que o segundo nome, era o nome do pai de Astra, a quem nunca conheceu.
¬ Cygnus... Hyoga... — sussurrou o homem e a mulher confirmou serrando os olhos.
¬ Eu amo vocês.
Astra puxou ar mais uma vez, dando seu último suspiro com uma expressão de paz. Nicodemus ajeitou melhor o filho no colo, tentando acalmá-lo, pois este voltou a chorar loucamente, tentando se acalmar e sustentar o peso da perda junto com o da responsabilidade, se perguntando: A cólera de Afrodite cessará?
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