Celtigar, filho de Hessyah.

Septuagésimo Nono Entardecer do Outono do Ciclo de 27 da Era das Espécies.

Blackfield — Extremo Norte do Velho Continente.

OS preparativos apressados para a viagem de última hora foram um pouco mais complicados do que imaginaram. Com ajuda de Hessyah, conseguiram encontrar um pequeno carregamento de peles antigas, da época de Dorfaren, mas ainda em estado bom o bastante para usarem como justificativa para a empreitada uma simples e pequena caravana para a comercialização daquelas peles. Afinal, já seria suspeito demais dois lobisomens marcados como criminosos partindo para tão longe, fazê-lo sem uma explicação plausível seria praticamente implorar por uma condenação à morte.

Também precisaram chamar por Iswed e Beyaz, os lobos e companheiros de almas de, respectivamente, Merikh e Celtigar. Todo lobisomem, ao nascer, tinha um elo mágico, profundo e inquebrável, com um lobo. Era muito parecido com o vínculo de familiares, mas não faziam parte da rede de pensamentos compartilhados dessas outras criaturas.

E assim como os seus “donos”, Iswed e Beyaz eram espíritos livres e costumavam vagar juntos pelo Bosque de Lehoy. Embora os lobos preferissem ficar perto da cabana de Hessyah, era difícil que ficassem junto a eles, de modo que precisaram de um tempo para localizá-los, prender neles os suportes de couro e carregá-los com as peles. Durante todo o processo, Mavka os observou parecendo especialmente triste, já que sua própria loba, Nkoza, se recusava a segui-la até a fronteira, insistindo em permanecer aos arredores da cabana de Chafyr.

De qualquer forma, conseguiram realizar todos os preparativos a tempo. Celtigar ainda fez questão de fazer com que Hessyah prometesse que iria cuidar de Mavka enquanto estivessem fora e que iria realizar seu parto caso não desse tempo das Sacerdotisas da Lua interferirem — um movimento que Merikh considerou inútil, já que era óbvio que a elfa já faria tudo aquilo, independente de qualquer promessa.

Assim como Merikh tinha dito, ambos estavam no centro de Blackfield juntamente a Iswed e Beyaz exatamente ao pôr-do-sol, quando os comerciantes do Mercado Central já estavam fechando suas barracas. Haakon estava os esperando pacientemente no mesmo local do Sol anterior, desta vez carregando uma sacola de pano com seus pertences, pendurada no ombro, e uma espada longa e fina de prata Abissal presa a um grosso cinto de couro em sua cintura.

— Estão prontos, rapazes? — Haakon perguntou assim que os avistou, visivelmente nervoso.

— Bem mais do que você, pelo visto. — Celtigar respondeu com o seu costumeiro mal-humor, lançando um olhar desaprovador para sua espada. — Isso irá nos arrumar problemas em Ryuk.

— Bom, eu não vou enfrentar um luphyr e um Círculo de Guardiões apenas com minha Magia Elemental. — Haakon objetou, não sem razão.

— Já disse que eu vou cuidar do luphyr. — Celtigar resmungou, ainda não satisfeito. — Você e Merikh só precisam se preocupar com os Guardiões.

— Tanto faz. — Haakon revirou os olhos. — Deixem a parte de se explicar para a Tribo de Mohen comigo.

Dois fatos sobre Haakon: ele era um exímio espadachim e sua lábia era melhor ainda. Era capaz de convencer qualquer um de que o céu era roxo e ainda dar um jeito de ganhar dinheiro com isso. Não havia motivos para que os dois mais velhos duvidassem de sua capacidade de levar os outros na conversa. Afinal, quando conheceram Haakon, ele não era um ladrão propriamente dito, e sim sobrevivia de trambiques e pequenos golpes.

— Só não faça Celtigar te bater de novo. — Merikh pediu, soltando um suspiro cansado. — Preciso de vocês realmente centrados dessa vez.

— Comprometi-me em participar disso e pode ter certeza que farei direito. — Celtigar o tranquilizou, suavizando sua expressão. — O que eu tinha para ser resolvido com Haakon já foi feito no Luar anterior. Eu não deixarei vocês dois na mão.

— E eu prometo me comportar para não provocar a fúria de vocês. Farei a minha parte o melhor possível. — Haakon garantiu, apoiando o loiro. — E depois que tudo isso acabar, eu também prometo que essas loucuras vão acabar. Nunca mais vou aceitar nenhum trabalho sem a autorização de vocês.

Celtigar quase ficou com pena do mais novo. Em nenhum momento o objetivo deles era cercear a autonomia de Haakon, tanto que ele sempre teve liberdade para aceitar os trabalhos solos que bem desejasse sem precisar prestar quase nenhuma justificativa aos mais velhos. Mas depois desse episódio em que Haakon havia simplesmente decidido confiar em Sacerdotes — e pior, Sacerdotes da Morte — sem nem ao menos considerar os riscos envolvidos, talvez fosse realmente melhor mantê-lo sob supervisão por um tempo e Celtigar pretendia cuidar daquilo pessoalmente enquanto Merikh e Mavka se adaptavam a chegada do filhote.

Afinal, o que Haakon faria se Merikh e Celtigar tivessem decidido que não iriam se envolver com a Morte e se recusado a acompanhá-lo naquele maldito encontro no Mundo Inferior? Haakon certamente não tinha condições de enfrentar um luphyr sozinho, por conta própria. Será que Sacerdote Draven e Guardião Caractacus o deixariam sair vivo caso recusasse o serviço? Sabendo que estavam libertando um criminoso sem moral e escrúpulos com a informação sigilosa que havia na Superfície um livro que ensinava coisas extremamente perigosas? Sabendo que essa informação poderia facilmente ser vendida para gente com ainda menos moral e escrúpulos ou simplesmente espalhada para denunciar que havia uma Deusa irresponsável o bastante para não apenas ter escrito um livro registrando e ensinando como realizar essas coisas extremamente perigosas, mas também o confiado a um Ciclo de Guardiões e manchando a reputação das Divindades? Celtigar duvidava muito.

É claro, os dois mais velhos jamais deixariam Haakon lidar com toda aquela encrenca sozinho. Iria contra a natureza deles e os laços de amizade que formaram, tão fortes que poderiam ser considerados uma irmandade. Por mais que Celtigar tivesse ficado bravo com Haakon, jamais pensaria abandoná-lo. No fundo, ele era só um filhote e filhotes faziam merda.

— Ótimo. — Merikh se deu por satisfeito, aliviado com a garantia dos amigos. — Podemos partir, então?

— Eu pensei em alugar um cavalo, ainda tenho algumas moedas guardadas. — Haakon sugeriu, um tanto hesitante. Era quase como se já soubesse que era uma péssima ideia, pois chamaria muita atenção. — Quer dizer, só se vocês forem montar em seus lobos também, é claro.

— Iswed e Beyaz são lobos, não montarias. — Merikh pareceu ofendido com a sugestão. — Eles já estão fazendo um grande favor em carregar as peles e nossa barraca para nós.

— Vamos a pé, como já tínhamos planejado. — Celtigar tentou conciliar, embora praticamente conseguisse sentir o quão Beyaz estava ofendido por ser comparado com um cavalo. — E é bom sermos rápidos, pois o caminho é longo.

O loiro estava certo. Pelos seus cálculos, levariam pelo menos três Luas para atravessar a Floresta de Ryuk, considerando tanto a extensão em si quanto o tempo que teriam que gastar para manter uma boa relação com a Tribo de Mohen e se certificar de que nenhum deles desconfiasse de suas verdadeiras intenções.

Quando finalmente chegassem a cidade de Northriver é que as coisas realmente ficariam complicadas. Precisariam reunir informações que os permitissem adiantar-se o máximo possível e tentar localizar o tal Círculo dos Guardiões. Se dessem sorte, conseguissem fazer aquilo antes de um luphyr ser invocado na Superfície.

— Eu farei como mandarem. — Haakon abaixou a cabeça, fazendo os outros dois se entreolharam com preocupação. Era claro que ele ainda se sentia culpado por os envolver em toda aquela confusão.

— Ótimo. Quero você debaixo do meu olho o tempo todo. — Celtigar ordenou, apertando o ombro mais novo. — E me faça o favor de levantar essa cabeça. Ninguém aqui está bravo com você mais.

Aquilo fez com que Haakon prontamente obedecesse e deixasse escapar um pequeno sorriso aliviado. Celtigar, no entanto, sentiu o peso da responsabilidade em seus ombros. Era o mais velho do grupo e considerava Merikh e Haakon como seus irmãos mais novos. E por mais que fosse uma criatura de moral tão distorcida, não conseguia deixar de lado a parte da cultura em que foi criado e o colocava como o responsável por protegê-los.

E Celtigar realmente faria tudo que estivesse ao seu alcance para que eles fossem os menos prejudicados naquela confusão. Não foi apenas por conta do desespero de Mavka que Celtigar chamou para si a tarefa de dar cabo ao luphyr. Se fosse para alguém correr o risco de morrer, que fosse ele.

Se tratavam de laços muito profundos que se formaram ao longo dos Ciclos. Roubavam juntos, apanhavam juntos, batiam juntos, comiam e dormiam juntos. O sangue poderia formar parentes, mas a lealdade fazia a verdadeira família — e Celtigar iria cuidar da sua.