Notas iniciais
Como o prometido, mais um capítulo!

Merikh, filho de Megaera.

Septuagésima Nona Lua do Outono do Ciclo de 27 da Era das Espécies.

Tribo de Mohen — Extremo Norte do Velho Continente.

Enquanto eram guiados por Asthur, Benat e Oulix pela Floresta de Ryuk, Merikh não podia deixar de reparar que a Tribo de Mohen parecia exatamente igual a Tribo de Nyhue — e talvez todas Tribos licantropas fossem idênticas, em certa medida. Era formada por cabanas triangulares de madeira de diferentes tipos de tamanhos. Era definitivamente maior do que a Tribo de Nyhue, tiveram que andar tanto para chegar ao seu centro que quando finalmente o alcançaram, a Madrugada já estava caindo e suas pernas já estavam doendo.

O centro era composto pelas maiores cabanas, presumidamente pertencentes ao Chefe, aos Sacerdotes e aos anciãos, formando um grande círculo. Lá, havia uma fogueira muito alta, onde estavam assando pedaços de carne de cervo e de javali. Haviam também diversos obeliscos, cada um decorado com motivos diferentes para cada uma das Divindades, espalhados pelo local. Próximo a fogueira, estava parado um homem alto, de pele tão escura quanto o mogno, olhos verdes e longos cabelos grisalhos arrumados em várias tranças. Pelo modo que se vestia, não era difícil concluir que se tratava do Chefe de Mohen: pedaços de peles de lobo branco lhes envolvia os braços, tronco e pernas, contrastando com a majestosa capa de pele de urso negro e era ornamentado por inúmeros colares e pulseiras.

— Pai! — Asthur chamou, acenando para o homem grisalho, fazendo-o se aproximar. — Esses crimi… digo, forasteiros de Nyhue querem permissão para atravessar nossa floresta!

Merikh precisou conter uma risada ao perceber que Asthur quase se referiu a eles como “criminosos”. Por mais que aquela fosse a verdade óbvia impressa em suas peles, pela convivência com Mavka, sabia que aquela era uma gafe diplomática que até mesmo poderia ser considerada grave. Afinal, mesmo que fossem vistos como desonrosos e nojentos perante toda a comunidade licantropa, ainda eram membros de uma Tribo aliada prestes a ter uma audiência formal com o Chefe de Mohen e a norma mandava que fossem tratados com respeito, pelo menos até que o Chefe ou o Conselho de Anciãos determinasse o contrário.

— Peço perdão pela falta de modos de meu filho, que não nos apresentou adequadamente. — o homem grisalho olhou com interesse para o estranho grupo a sua frente, sem se importar de repreender o filho em público. — Chefe Batsal, filho de Eshe. Vocês são…?

— Merikh, filho de Megaera. — o moreno tomou a frente. — Esses são Celtigar, filho de Hessyah e Haakon, do Clã Vidar.

— Espere, eu acho que conheço você. — Batsal franziu o cenho, encarando o loiro. — É o filho de Dorfaren, não é? E pela marca em sua testa, é o filhote que perdeu o controle da transformação quando estava assaltando aqueles elfos.

— Fiz a minha quantidade de besteiras quando era filhote. — Celtigar admitiu cautelosamente. Não era difícil perceber que a pergunta em sua mente era a mesma que o melhor amigo se fazia: como a fama deles havia chegado até Mohen? — E o Chefe está certo sobre o nome do meu pai.

— Você realmente o conhece? — Asthur também parecia surpreso.

— É claro que vocês não vão se lembrar, eram muitos filhotes. — Batsal explicou, com uma expressão saudosa. — Foi na Era dos Deuses, quando meu pai ainda era Chefe de Mohen. Quando tivemos um problema com um luphyr aqui em Ryuk, o Chefe Chafyr mandou alguns caçadores de Nyhue para nos ajudar. Depois disso, Dorfaren chegou a vir para cá algumas vezes antes de… bom, eu acho que não preciso dizer.

Merikh não conseguiu evitar lançar um olhar preocupado para Celtigar. Dorfaren havia falecido ainda na Era dos Deuses, durante um embate com um luphyr que invadiu o Bosque de Lehoy, pouquíssimo tempo antes de Asthramyne confinar os luphyres nos Abismos. Aquilo realmente mudou muita coisa em Celtigar, foi quando ele começou a se tornar mais impulsivo e sua raiva e ódio aumentaram a tal ponto que chegaram a se tornar mais intensos do que Merikh sentia.

Ódio contra a Tribo de Nyhue, porque Dorfaren nem deveria ter sido chamado. Já era um ancião na época, não era mais um caçador e definitivamente não tinha condições de enfrentar um luphyr, enfraquecido pela velhice do modo que Dorfaren estava. Ódio contra Asthramyne, que criou monstros horríveis cujo único objetivo da existência parecia ser dizimar Tribos, cidades e vilas inteiras e eram incrivelmente resistentes. Ódio contra Asthramyne, que tinha meios para confinar tais monstros nos Abismos e não o fez por uma Era inteira, esperou milhares de mortes, esperou Dorfaren morrer. Ódio contra os Deuses em geral, que assistiram as atrocidades das Mães dos Monstros e não fizeram absolutamente nada.

Mas para a surpresa de Merikh, Celtigar conseguiu se controlar para manter a expressão tranquila e despreocupada, como se aquele assunto não despertasse os seus sentimentos mais violentos.

— Batsal! É claro, por isso o nome me pareceu familiar, meu pai já falou de você. — o loiro mentiu, fingindo se lembrar de algo que nunca ocorreu. — Por algum motivo, achei que fosse da Tribo de Treedan.

— Não, o Chefe de Treedan é Leif, filho de Kleio. — Batsal esclareceu. — Nem sabia que Dorfaren tinha contato com eles, mas deveria ter imaginado.

— É, meu pai sempre foi muito sociável. — Celtigar tratou de desconversar para não se aprofundar no assunto.

Merikh precisava confessar que o movimento de seu melhor amigo foi, de certa forma, genial. Pelo menos, agora tinham uma informação sobre a Tribo de Treedan e, de quebra, ganharam a abertura para talvez fazerem mais perguntas sobre o assunto futuramente, disfarçado de curiosidade sobre a história de Dorfaren.

— E se você é o filho de Dorfaren, esse deve ser o filho de Ulke. — Batsal prosseguiu, virando-se para o moreno. — Estou finalmente conhecendo o famoso Ladrão de Nyhue, casado com a filha do Chefe Chafyr?

O fato do Chefe Batsal conhecê-lo não o surpreendeu tanto. Para começar, se ele conhecia Dorfaren e sabia quem era Celtigar, certamente já tinha ouvido falar dele também. Afinal, após a morte de Megaera, a convivência entre Merikh e Ulke se tornou simplesmente insuportável, já que seu pai, como muitos, o culpou pela morte de sua própria mãe. A partir desse momento, se tornou comum que fugisse para a cabana de Hessyah e Dorfaren e passar várias Luas por lá. Era apenas um filhote na época, com seus 10 Invernos, e Celtigar — que tinha seus 15 Outonos — era o único feiticeiro que conhecia e o admirava muito. Merikh admitia que era bem irritante naquele tempo, mas por sorte Celtigar foi extremamente paciente com ele e desde então, se tornaram melhores amigos.

Além disso, era de se esperar que Batsal e Chafyr, como Chefe de Tribos aliadas, tivessem algum grau de contato e considerando o quão furioso Chafyr ficou devido ao seu casamento com Mavka, há 15 Verões, era de se esperar que tivesse reclamado várias vezes, principalmente conhecendo o seu humor.

— Eu era o Ladrão de Nyhue, agora sou apenas um caçador e comerciante de peles. — Merikh sabia que era uma mentira arriscada, estava apostando suas moedas na hipótese de que Chafyr, assim como Ulke, não iria comentar sobre seus últimos delitos por vergonha. — O amor de uma mulher muda um homem.

— O amor de uma mulher e o medo do sogro. — Batsal riu, para o alívio dos criminosos, antes de se virar para o terceiro elemento do grupo. — Ora muito bem, eu só não conheço o elfo. Confesso que estou curioso para saber o que faz com dois lobisomens.

— Ele disse que é um bastardo rejeitado pela mãe. — Asthur se intrometeu, visivelmente incomodado com o quão tranquilamente o pai estava lidando com eles. — Falou que foi criado pela mãe de Celtigar.

— Não me lembro de Dorfaren ter comentado sobre isso comigo. — Batsal franziu o cenho, parecendo genuinamente confuso. — De qualquer forma, a pergunta não foi para você, Asthur.

— Eu ainda sou filhote, Chefe, tenho só 32 Verões. — Haakon apressou-se em justificar, diminuindo descaradamente sua idade para bater com a morte de Dorfaren. — Não cheguei a conhecer o finado pai de Celtigar, ele infelizmente já estava morto quando Hessyah me acolheu.

Era obviamente mentira. Haakon não apenas mais velho (embora continuasse sendo um filhote), como chegou a conhecer e conviver com Dorfaren. Era bem o final da única época tranquila que os três criminosos tiveram.

— Hessyah sempre foi uma mulher fantástica. — Batsal sorriu, vendo algum sentido na explicação. — Agora me resta saber o motivo de quererem atravessar Ryuk.

— Para comercializar peles em Northriver. Como o Chefe deve presumir, nossa fama nas cidades mais próximas do Bosque de Lehoy não é nada boa e não somos exatamente bem recebidos nem nos Mercados e nem nas caravanas tradicionais. — Merikh retomou a fala, cuidando para manter a voz calma e firme. — Normalmente, Mavka cuida da parte das vendas para nós, mas ela está grávida e nosso filhote está prestes a nascer. Eu, Celtigar e Haakon concordamos que seria melhor e mais seguro nós tratarmos do comércio dessa vez.

— Quer dizer que Chafyr vai ser avô novamente? Ora, permissão concedida. — Batsal pareceu feliz, fazendo um gesto para que se aproximassem da fogueira. — Já está amanhecendo, venham comer comigo. Só não poderei, infelizmente, pedir para que meu povo os acolha em suas cabanas, dado as circunstâncias.

— Jamais poderíamos por isso. — Celtigar assegurou. — Se pudermos montar a nossa barraca, já é o suficiente.

Os três criminosos sentaram junto ao Chefe Batsal para se alimentar e discutir os últimos detalhes. Apesar de estar longe de ser o início ideal, Merikh considerou que conseguiram sair-se de forma satisfatória. Agora, precisavam dar um jeito de chegar em Northriver o mais rápido possível, antes que Batsal tivesse tempo de descobrir suas mentiras.