Notas iniciais
Pra quem queria mais, tá aqui. Boa leitura ♥

Dia de outono em Santalune. Um adolescente se preparava para um dia frio e confortável na pacata cidade, planejando procrastinar o dia inteiro.

— O que você quer, Silver? Já falei que não quero sair de casa hoje. Meus pais saíram e está um silêncio divino nessa casa. — Ally usava casaco azul e um short jeans, completando o look casual com um tênis All Star preto. Seus cabelos castanhos lisos, bagunçados naquele dia, não faziam a mínima questão de se igualar ao aspecto organizado e rústico da casa onde Ally morava, com móveis acolchoados de madeira e paredes pintadas de branco. Alguns enfeites como quadros e vasos com pequenas plantas davam vida ao local.

O garoto preparava um lanche simples com um copo de iogurte de ameixa e biscoitos de várias formas, enquanto seu teimoso Sylveon puxava seu braço com suas fitas, insistindo que largasse a zona de conforto e saísse para tomar um ar fresco.

Sem sucesso, claro.

Ally pegou seu lanche e foi para o confortável sofá marrom da sala fazer uma maratona de séries e desenhos animados enquanto Silver o seguia insatisfeito, parando ao lado do garoto.

— Está passando aquele desenho que você gosta. — Ally apontou para a tela da televisão, a qual exibia alguns Carracostas imitando ninjas. — Mas quando eu vou poder assistir os meus programas?

Silver embalou o controle da televisão com um de seus laços e trouxe para perto de si, enquanto corria rapidamente para a poltrona mais afastada do sofá.

— Que oportunista, me dá esse controle! — Ally colocou seu lanche na mesa de centro e estendeu a mão na direção da raposa rosa.

O Sylveon respondeu com um bocejo e estendeu o controle com sua fita lentamente até Ally, deixando o aparelho cair quando o garoto o pegaria.

A raposa rapidamente pegou o controle com a boca e saiu correndo, sendo seguido por Ally na mesma hora. Os dois armaram uma perseguição pelos quartos, salas e cozinha da casa arrumada ao mesmo estilo da que acontecia na televisão, correndo até mesmo pelas grandes escadas da residência.

Foi quando ouviram um barulho na porta vindo do lado de fora e pararam bruscamente no meio da sala onde se iniciou a corrida.

— Ouviu isso, né? — O garoto sinalizou para a fada, que assentiu. — Com essas orelhas, ficaria surpreso se não ouvisse.

Silver deu a língua para Ally e lançou um de seus laços até a maçaneta da porta, mas não conseguiu abrir. Tentou reforçar prendendo mais fitas á porta de madeira, sem nenhum resultado.

— Meus pais estão fazendo um jogo comigo, é? — Ally arregaçou as mangas para aliviar o calor da pequena corrida e deu uma olhada em uma das janelas colocadas simetricamente ao lado da porta de entrada enquanto Silver deitava no sofá e tentava entender o que acontecia no desenho animado.

De novo se ouviu o barulho da fechadura, porém Ally não via nada.

Mudando de ângulo por trás da cortina fechada que cobria a janela, viu um molho de chaves cinzento e sorridente flutuando calmamente enquanto sequestrava a única chave da casa, a qual os pais do garoto haviam feito a dádiva de a esquecer do lado de fora ao invés de levarem consigo.

— Silver, vem cá! Eles nunca esqueceram a chave antes, mas que coisa! — O Sylveon levantou a cabeça e pulou para o lado de seu dono, abrindo as cortinas e ficando sobre duas patas para ver a estranha cena. Ally teve de se afastar para o Pokémon espiar pela janela também. — Ás vezes eu esqueço que você tem tipo, um metro de altura. Era tão pequeno quando era um Eevee...

Silver voltou a ficar sobre quatro patas e pediu espaço utilizando de gestos e grunhidos, cedido sem questionamentos por Ally. A fada abriu a janela manuseando graciosamente seus laços e pulou para fora.

Segundos depois, agarrou seu treinador pelo pescoço e braços novamente com seus laços e o puxou bruscamente pela janela, resultando em uma desastrosa queda na grama florida ao redor da residência, seguida de uma onda de reclamações por parte do garoto.

— Você quer que a gente corra atrás do bicho? Pelo menos desligue a televisão! — O Sylveon deu o controle para o garoto, que rapidamente o usou para desligar o aparelho e o jogou pela mesma janela por onde onde saíra, observando sua aterrissagem brusca em uma almofada.

Os dois olharam ao redor tentando achar o molho de chaves e acabaram dando de cara com o Pokémon, que pairava com tranquilidade acima da fonte em formato de Roselia, no centro da pequena cidade. E lá estava ela: a pequena chave dourada misturada com várias outras reféns do sequestrador.

Por um momento os três olhares ficaram cruzados e imóveis, quando Ally se levantou e começou a correr, seguido de Silver. O chaveiro rapidamente se deu conta do que iria acontecer e, desesperado, desatou a fugir.

Evitando obstáculos e algumas poucas pessoas que andavam por Santalune, o garoto e seu Sylveon se revezavam para tentar apanhar o que lhes foi roubado, enquanto o Klefki — cujo nome foi revelado aos dois perseguidores quando algumas crianças reconheceram o Pokémon fugitivo — desviava de todas as formas possíveis das mãos e laços.

O caminho de tijolos de pedra não se estendeu muito desde o ponto de partida, visto que a casa do garoto não ficava muito longe da entrada da floresta, que era o único destino a sul da cidade. Coisa que Ally não havia percebido, pois este apenas seguia o chaveiro aos suspiros e tropeços desviando de pedras, postes, bancos e afins.

— Silver, é sua vez! Eu estou morrendo de cansaço! — arfou o garoto, se apoiando em uma árvore para recuperar o fôlego, já que não tinha costume nenhum de correr. Já haviam chegado á entrada da Floresta de Santalune, segundo uma placa. Mais uma corrida e estariam dentro da mata.

A raposa avançou pela grama, saltou bravamente e, em toda sua glória, capturou o Klefki com um lançamento certeiro de seus laços brancos e rosas, amarrando o chaveiro com rapidez.

— Isso! — Ally se recompôs e avançou, cheio de um suor grudento e irritante, até a pequena presa.

O Sylveon se aproximou enquanto o Pokémon capturado tentava fugir fazendo um inútil esforço contra os fortes laços da fada. O garoto sentiu-se vitorioso e fez a melhor expressão esnobe que podia enquanto acariciava sua leal raposa.

— Parece que você perdeu, não é? — Para Ally, era a hora de trocar algumas provocações. A resposta do Klefki foi curta e grossa, incluindo vários chacoalhos e grunhidos furiosos.

Se Ally tivesse alguma experiência com treinamento e batalhas, saberia que aquilo era um movimento bem comum para aquele tipo de Pokémon. O Swagger servia para irritar o adversário, o que fez um notável efeito em Silver. Afinal, era estressante ser provocado por alguém no qual estava amarrado.

O Sylveon começou a rosnar e trocar insultos com o chaveiro enquanto Ally assistia ao barraco, empolgado por seu esforço ter valido a pena.

No entanto, os efeitos colaterais dos insultos estavam surgindo e Silver começava a perder as noções de tanta raiva. Confusão.

— Ei, quieta o facho, ele tá preso!

No meio da pequena briga, Silver acabou escorregando em uma pedra com limo e caindo no chão em um engraçado tombo que libertou o chaveiro.

O molho de chaves aproveitou a oportunidade para tentar escapar, mas foi agarrado com força por Ally que o segurou pela grande chave acima de seu rosto.

— Aonde pensa que vai? Devolve minha chave! Essa dourada, aqui! — O garoto suspendeu sua chave para destacá-la das outras, mas isso só irritou mais o Pokémon.

Como resposta, o Klefki gerou uma pequena onda de eletricidade que paralisou Ally por completo. Um súbito Thunder Wave.

A paralisia era mais forte do parecia ser. O adolescente acabou imóvel: não conseguia mover um mísero músculo. Por sorte, Silver rapidamente tomou conta da situação, prendendo o Klefki com mais força do que antes e curando Ally com Heal Bell.

Enquanto o garoto se levantava elogiando o Sylveon por ser multitarefas, este trocava olhares ferozes com o chaveiro.

— Tá, eu vou direto ao ponto. Temos mais o que fazer e você tem algo que é nosso. Acho que você sabe bem o que é, certo? — O garoto estendeu a mão esperando ser atendido, mas ao invés disso ecoou o som irritante de várias chaves chacoalhando. Silver mordeu levemente a perna de Ally, pedindo para agilizar a situação, provavelmente por fome. — Tá bom! Eu sei o que estou fazendo, eu acho. Olha, Klefki, trabalho com opções: ou você nos dá a chave que roubou ou vai ter que ficar conosco pra sempre abrindo e fechando uma porta.

O chaveiro parecia não gostar da ideia de perder a liberdade, mas não queria abandonar a linda chave que conseguira.

— Você vai ser bem cuidado lá. — disse Ally para o Pokémon, aos sussurros, numa tentativa desesperada de resolver o problema. O Pokémon rapidamente concordou e começou a flutuar de volta para a casa do garoto, porém ainda estava amarrado pelos laços do Sylveon. Ele chacoalhou suas chaves novamente e foi solto, enquanto a raposa grunhia para o seu dono demonstrando sua insatisfação com a ideia de morar com o pequeno ladrão. Ally respondeu com “A gente se acostuma.” e os dois saíram da entrada da floresta de volta para casa.

(...)

A lua já iluminava Santalune, e Pokémon noturnos saíam á noite dando mais vida e som ás florestas e cidades de Kalos. Ally estava pronto para dormir, mas resolveu dar um tempo e explorar uma caixa de pôsteres, revistas e acessórios com a temática Pokémon — dados de presente por sua avó naquela semana —, espalhando tudo pelo chão do quarto branco e deixando que os Pokémon vissem também. É muita coisa mesmo, pensou ele.

Klefki estava se acostumando aos poucos com a casa confortável e quente onde iria viver daquele dia em diante, sem muitas dificuldades. Ao contrário de Silver, que se incomodava com a simples presença do chaveiro. Os dois trocavam algumas farpas ás vezes, mas Ally dizia que logo isso passava e que eles iriam ser como irmãos meses depois. Claro que os dois discordavam da ideia.

— Ela até comprou coisas sobre a Liga Pokémon e Pokédex atuais e colocou tudo no pacote onde estava tudo. — comentou, desdobrando um grande pôster com as insígnias e líderes de ginásio da região e colocando-o no chão ao seu lado direito. — Oito lindas insígnias que um dia talvez eu consiga. Não tenho muita motivação pra ser treinador, acho que a convivência com os Pokémon já me satisfaz.

Explorando e abrindo todos os presentes enquanto Ally focava em uma coisa só de cada vez — na companhia do Klefki —, Silver encontrou um grande livro marrom com um círculo vermelho e branco em sua capa. Achou também uma máquina vermelha quadrada com um círculo azul no meio e duas linhas laterais de mesmo tipo e material saindo deste.

— Silver! Essas coisas devem ser enciclopédias. Já ouvi falar dessa máquina vermelha, ela é uma Pokédex: registra dados de uma espécie de Pokémon assim que o identifica. O livro deve ser uma versão escrita e mais detalhada. — Ally pegou o grande livro, o abriu e folheou rapidamente as páginas — E bem grosso, por sinal.

O Klefki chacoalhou suas chaves na direção do círculo na capa do livro.

— Essas coisas são Pokébolas. Servem para capturar um Pokémon e servir como um “quarto” para onde ele vai quando não quer ficar ao ar livre. Minha avó me deu um conjunto de seis. Ela saiu comprando tudo que treinadores usam? — Ally apontou para um tubo esférico onde os objetos repousavam, em cima de uma pilha de revistas no canto do quarto, perto do pôster. — Algum de vocês quer testar?

Silêncio.

— Tá, eu também não gostaria dessa ideia no início. Mais tarde falamos mais sobre. — Ally pegou a Pokédex e apontou para a raposa, agora sentada ao seu lado. Provavelmente funciona como um tipo de câmera, refletiu ele.

“Sylveon, o Pokémon Laço. Quando caminha com seu amado treinador, este Pokémon envolve o braço dele com seus laços. Consegue emitir uma aura calmante através dessas fitas.”.

— Que fofo! — Ally olhou carinhosamente para Silver, que se esfregava no garoto orgulhoso de sua descrição amorosa. — Vamos ver a do Klefki, fiquei curioso!

“Klefki, o Pokémon Chaveiro. Esses colecionadores de chaves nunca abandonam uma chave da qual eles gostam e ameaçam qualquer um que tente roubá-las com um chacoalho barulhento. As pessoas costumam oferecer chaves e outros acessórios para estes Pokémon.”disse a máquina.

— Ah, está explicado. — murmurou o garoto para Silver.

O pequeno chaveiro chacoalhou seu molho de chaves e grunhiu, se mostrando também orgulhoso de sua descrição na enciclopédia. O Sylveon bocejou em tom provocativo.

— Aqui tem um negócio de “tipagem”, pelo que vi cada Pokémon se encaixa em uma classe, as quais eles denominam assim. — O garoto colocou a máquina de lado e pegou o grande livro marrom, folheando este até encontrar dados dos Pokémon presentes ali. — Me deixa ver, agora no livro... Vocês dois são do tipo Fada, que legal!

Olhares insatisfeitos circularam entre os monstrinhos. Ally colocou o livro e a Pokédex do seu lado esquerdo e olhou em volta.

— Tenho que guardar isso tudo, esse quarto está uma zona... Espera, esqueci desse outro livro aí. — Ally se esforçou um pouco para alcançar o objeto de capa branco-acinzentada com um lacro composto de um botão metálico e uma pequena tira de borracha combinando bem com a aparência do livro. Um pequeno compartimento guardava um lápis branco com uma pequena borracha na extremidade oposta á ponta com grafite. — Deve ser um diário, algo pra eu guardar as minhas memórias de uma possível... Jornada? Mas que jornada, gente? Eu já falei que não quero...

O garoto foi interrompido por Silver, que com olhos brilhantes colocou as patas no pôster que fora aberto minutos antes. Ally pegou o grande pôster e leu em voz alta a parte destacada pela raposa.

Valerie, líder de ginásio do tipo Fada. Estes Pokémon podem ser delicados como uma brisa e frágeis como uma flor, mas eles são fortes.”. Não entendi, você quer que eu seja um líder de ginásio?

Silver negou, e mostrou com uma de suas fitas uma foto de vários Pokémon — incluindo um Sylveon — reunidos ao lado da líder na foto.

— Eu ainda não entendi...

A raposa bateu com força a pata direita na imagem dos mostrinhos enquanto encarava seu treinador, sorridente. Dessa vez a comunicação foi estabelecida.

Ally não disse nada, apenas assentiu enquanto seus olhos brilhavam cada vez mais.

Silver acabara de sugerir uma grande ideia sem falar uma palavra. Pelo menos não para o garoto, já que grunhia várias coisas para o chaveiro ignorando totalmente a recente rincha entre os dois por causa de sua empolgação.

— Alguém me dá o diário! — O garoto demorou alguns segundos para perceber que este estava em seu colo, mas logo subiu em sua cama de solteiro feita de madeira e pintada de branco e abriu o livro na primeira página. Enquanto ajeitava sua posição — tirando a arrumada fronha azul decorada com estampas de balões de sua posição original —, olhou ao redor.

Seu quarto, com vários detalhes azuis nos móveis brancos, era iluminado pelo pequeno abajur que repousava no criado mudo ao lado da cama. Pense, disse o garoto a si mesmo, mentalmente. Não sabia como começar até que um pequeno flash de inspiração adentrou seus neurônios.

Pegou o simplório lápis e começou a escrever.

Oi, Diário. Não sei como te chamo, então esse vai ser seu nome já que você deve se identificar como um. Também esqueci que dia é hoje, por isso coloco a data depois em algum lugar.

Hoje certas coisas importantes aconteceram. Coisas que me ajudaram a me livrar do meu tédio e indisposição diários e me deram um objetivo. Entre essas coisas, está o fato de eu ter corrido atrás de um Klefki fujão com meu amado Sylveon recuperar uma chave perdida. Agora ele está morando com a gente em troca de ficar com a chave dourada para si.

Estou pensando na possibilidade de não só ter recuperado a chave de casa, mas também de ter encontrado outra que destranca algo mais precioso: minha juventude.

Enquanto explorava uma caixa cheia de presentes da minha avó (todos relacionados a Pokémon), meu Sylveon (Silver, para os íntimos) me deu uma grandiosa ideia.

Vou ser um treinador de Pokémon do tipo Fada.

Acho que a ideia procede. Fiquei empolgado e comecei a planejar as coisas na cabeça. E não, não vou deixar de conhecer e pesquisar sobre outras espécies. Estou falando de batalhas, essas coisas. Eu já havia dado uma olhada nos livros e outras fontes sobre alguns tipos, e as fadas em especial me agradaram bastante. Esses Pokémon são todos tão lindos e interessantes!

Minha jornada... Em nenhum momento sonhei com isso, já que jornadas envolvem batalhas e eu nunca me interessei muito por elas. Mas sei que posso aprender a gostar e até fazer outras coisas. E vou estar acompanhado de Pokémon que eu gosto, além do simples fato de ter uma equipe que sempre está com você. Isso é motivador!

Sobre o novo integrante da casa, apresentei o Klefki aos meus pais mais cedo e eles o acharam uma graça, independentemente de não terem gostado do fato de terem de comprar outra chave. Mas mesmo tendo a simpatia de todos, ele (ou ela) ainda precisa de um nome.

Agora vou embora, escrevi o suficiente para hoje. Tenho um quarto cheio de revistas, papéis, livros e coisas de treinador que precisa ser arrumado, além de dois Pokémon que estão brigando agora.

Guarde a frente e o verso desta folha de papel como sendo o início de uma jornada Pokémon. Amanhã vou conversar com meus pais, ir a Centros Pokémon, essas coisas que treinadores iniciantes fazem. Você, o Klefki e Silver vão me acompanhar, isso não é empolgante?

A partir de amanhã as coisas vão mudar na minha vidinha monótona. Boa noite, Diário!

Notas finais
Gostaram? Sim, né? (ata) Comentem e falem o que gostaram, não gostaram, acham que pode melhorar, isso sempre ajuda qualquer escritor ♥ Obrigado por gastarem um pouco do seu tempo pra ler, isso é... motivante (uau, baita referência :0)! Até mais :3 *abraços de algodão doce*
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!