O Lado torpe da Glória
9 Sopa amarga e a Dança Macabra
Um vento fresco acariciava minhas bochechas.
Ao abrir os olhos uma pequena multidão de pessoas de jalecos brancos se amontoava ao redor de mim, o mais velho deles me abanava com um leque de penas.
– Fiquem longe – ouvi a voz de Franco exigir dispensando a multidão, senti o conforto e o luxo ao meu redor. Ainda vestida de noiva, acordei do desmaio num divã dourado recheado de plumas macias, os meus sapatos de salto haviam sido removidos revelando as belas unhas de madame. – Doutor, o que ela tem? Ela não é doente não é? Não posso estar casado com uma invalida...
– aquiete seu coração jovem Ogner – repreendeu o doutor com impaciência – foi só uma queda de pressão. Ou a sua esposa se alimentou mais ou ficou demais abalada com as execuções ao vivo, nada com que se preocupar.
Dante....está...morto. eu posso lembrar agora.
Lágrimas de desespero começaram a romper meu rosto, meu peito parecia ter uma rocha da montanha o esmagando, eu não podia respirar, eu não podia raciocinar, meu desejo era correr a todo vapor pra Clareira e...
– chorando pelos rebeldes queria? – a voz veio de trás de um biombo, abrindo bem os ouvidos podia ouvir que música e conversas animadas vibravam em algum lugar não muito longe daqui. Era minha recepção de casamento que eu estava perdendo. Frio como gelo, Leger se direcionou até mim com os braços cruzados – posso até suspeitar de que a senhorita nutra sentimento por eles devido a convivência.
– papai! – miou Franco como uma criança mimada – não seja mal com a Celeste.
Levantei do divã ainda um pouco zonza, Franco me segurou enquanto secava as lagrimas insistentes, respirei fundo e mirei aqueles olhos frios de raposa como uma rainha, destinada a sobreviver.
– muito pelo contrário querido sogro. Os rebeldes me fizeram muito mal, executa-los devido a invasão não passa de protocolo pra qualquer um aqui. Minhas lagrimas são de desespero, medo de ter perdido minha nova festa. Perdi demais dela?
As gargalhadas foram gerais, Franco me olhou com uma ternura teatral.
– oh doçura! A festa não começará sem minha mais bela princesa. – suspirou ele me abraçando e secando a lama de maquiagem borrada em meu rosto – vamos comigo.
A multidão logo se dispersou por portões laterais, Franco exigiu que nossa entrada fosse anunciada, dois guardas bem vestidos seguraram cada maçaneta e abriram os portões num rompante, o som das palmas foi ensurdecedor, uma multidão de bem-vestidos nos aguardava num grande salão iluminado e muito bem arrumado.
Um grupo enorme de músicos tocava música clássica alegre num placo de mármore decorado com flores e bandeirolas de seda, mulheres com penas na cabeça e vestidos colados circulavam com taças de champanhe e confetes de prata para os convidados mais animados, haviam bailarinas, lagostas, dançarinos e dançarinas, cuspidores de fogo, pôneis domados corriam pelo jardim, pistas de dança haviam sido montadas... a visão era um paraíso de possibilidades.
No topo de uma galeria, uma mesa circular com homens de cartola e roupas mais brilhantes, no meio delas acabara de se sentar Leger Oogner me encarando o tempo todo com desconfiança. Essa era a localidade da Embaixada.
Eu deveria envenena-los... eu poderia...
– dance comigo querida – Franco me puxou brusco pelo braço, descemos a escada em meio a aplausos e abraços de parabéns, pelo canto do olho vi meus presentes de casamentos doados por famosos estranhos que se acumulavam numa sala de coletas: bolsas de couro colorido, tapeçarias, jogos de louças de ouro puro... suspirei de tédio. A gloria estava ali diante de mim, tudo que eu sempre quis, como uma sopa suculenta e quente num topo de uma mesa, eu escalei a braçadas, cai de costas, furei os dedos, sangrei, cheguei a topo, alcancei a tão sonhada tigela se sopa... mas seu gosto! Oh quão amargo, o sal me queima a garganta e a temperatura derrete meu estomago. O sabor amargo da vitória, o lado torpe da gloria. Nunca me imaginei absolutamente infeliz com meu projeto de felicidade.
Franco e eu começamos dançando uma balada lenta numa pista exclusiva reservada aos noivos, um garçom veio nos servir, eu e ele ficamos com doses de uísque e fomos deixados a sós, apenas um cozinheiro apareceu no meio da dança para deixar a lagosta mas saiu calado como feio fechando as cortinas de diamantes.
Já tinha dado três goles e deixado meu copo numa estante quando Franco me puxou pra mais perto, dançávamos uma canção apaixonada, sem nenhum olhar nos mirando.
– finalmente eu possuo você – sussurrou ele em meu ouvido, sua mão livre me prendeu numa armadilha e a outra segurava o copo próximo ao meu ombro.
– nós possuímos um ao outro – disse eu sem graça.
– errada – retrucou ele – eu possuo você. Você é minha, meu objeto, minha coisa...
Senti meu rosto esquentar de vergonha, naquela dança podia sentir o membro de Franco pressionando-se ao meu não de forma sexy, mas de forma autoritária e violenta, sua voz era uma cantiga sádica e imoral.
– eu nunca quis algo como quis você Celeste. Você é a materialização de todos os meus sonhos, algo além do dinheiro, você é o que o meu poder pode comprar. Você é minha, meu objeto, minha coisa. Eu vou foder você como uma puta da floresta, vou rasgar você ao meio sempre que quiser, quando eu chegar do trabalho você vai lamber seus sapatos e secas sua boquinha no meu pau. Vou te estuprar todas as noites antes de dormir, vou te socar quando tiver raiva, beber seu sangue com uísque quando tiver sede, e quando vier a luz do dia... você vai estar sorrindo para as câmeras, vai me tornar a porra do homem mais foda e poderoso da cidade...
Lágrimas ameaçavam desabar em meu rosto mas tentei manter o controle, continuei naquela dança como se nada estivesse ouvido, inundada de dor pelas palavras que cortavam por dentro tudo se misturava a Dante sendo enforcado, estava sendo amassada pela angustia como um cãozinho preso a uma roda de caminhão.
– eu sei que você gostava daquele selvagem... eu enforquei ele, matei mesmo.
Meu rosto perdeu a cor. Permaneci muda.
– como sabia?
Ele gargalhou.
– tenho olhos em todos os cantos minha princesa.
Um liquido negro chamado ódio começou a bombear no meu corpo, senti nojo.
– ele me ensinou algumas coisas na mata. – disse eu friamente.
– tipo?
– foder.
Franco me empurrou pra trás me olhando pasma.
– como assim foder sua vagabunda? Você deveria ser virgem! Você disse pra mim que... – ele estava possesso de ódio, seu rosto de galã agora virara uma erupção de raiva profunda, seus punhos estavam cerrados e pela linguagem corporal posso apostar como serei socada.
Vou jogar meu xadrez de palavras, fazer o que sei melhor: manipular. Manipular e cometer loucuras estão no meu sangue e posso fazer com isso o rio correr ao meu favor.
– ele fodia comigo divinamente. – disse andando até a mesa do jantar, peguei o que precisava e fiquei recostada numa pilastra de espelhos, milhões de reflexos nossos se espalhavam no recinto, eu estava divinamente bela e isso me dava prazer. – quando me amava me fazia soluçar de paixão, aquele abraço, aquele corpo, aqueles gemidos, eu o amo, em comparação a ele você deve ser um mimadinho de bosta que não sabe nem como se met...
Franco avançou sobre mim prestes a me matar, agarrou meu pescoço e me pressionou contra a pilastra de espelhos, seus dedos finos contornaram minha garganta fazendo meu ar sumir aos poucos, ele berrava palavrões impossíveis de ouvir no restante da festa devido a música, mas eu ouvia bem, vi seu rosto vermelho desejar minha morte.
– sua puta miserável, eu vou te matar agora e te jogar aos cachorros! Eu vou cortar você inteira. É bom me dizer suas últimas palavras.
Ele afrouxou seus dedos do meu pescoço.
– antes de morrer quero dizer uma outra coisa que ele me ensinou.
– lata sua puta.
– Dante me ensinou a matar.
A faca da mesa de jantar entrou em Franco mais fácil que cortar um pão quente. Vi seu rosto se transformar numa máscara de dor quando enfiei a faca firme em seu abdômen até sentir a ponta tocar mais fundo na carne, segue jorrou em meu vestido de noiva e respingos pularam no meu pescoço e queixo, puxei a faca e Franco caiu pra trás fazendo uma poça enorme na pista de dança, a melodia de amor tocava mais alto.
– e aqui começa minha vingança. – suspirei eu largando a faca em qualquer lugar.
não há atalho para a verdade que nos cerca, o certo é o certo.
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