O Lado torpe da Glória
10 Farsa e Revelações angustiantes
Gargalhando na frente do espelho do banheiro, eu precisava ser rápida.
Removi o grampo dos cabelos e os desalinhei, comecei om longo e doloroso trabalho e rasgar o vestido, as mãos molhadas transformaram a maquiagem numa máscara de palhaço, olhei no espelho satisfeita, alegre. Agora vinha o mais difícil: baguncei o banheiro inteiro, e com os cacos de vidro, os dolorosos cortes que fiz no meu braço foram suficientes para criar uma macabra pintura de sangue no banheiro.
Então me joguei no chão e gritei. Gritei muito, um lamento, um choro, um pedido mais forte que pude de ajuda.
– Senhorita Oogner? – uma multidão de seguranças invadiram o banheiro completamente pasmos. – o que houve aqui? Onde está o senhor seu marido?
– ah! Franco... Franco não! Achem o Franco – berrava eu. – estávamos dançando. Foi tudo tão rápido, eram muitos deles. Pegaram Franco e me bateram!
A balburdia foi descomunal. Um dos seguranças gritava ao rádio um alerta de rebeldes, ouvi gritos lá embaixo no salão de festas, um dos seguranças me pegou no colo enquanto eu fingia um desmaio segurando minha gargalhada na garganta.
– levem a Embaixada para ala Segura. Vão,vão,vão....
Portas de aço foram baixados, ninguém entrava e ninguém saia, o segurança me conduziu aos saltos até uma sala de teto baixo e portões lacrados escondidos atrás de estantes de livro na recepção, lá havia uma poltrona simples, uma pia bem funda, um estante com comida processada e um tubo no teto que despejava ar fresco e gelado. O segurança me colocou deitada na poltrona com os pés esticados, uma médica de cabelos bem rentes e encaracolados chegou e começou a olhar meus ferimentos, um segundo segurança chegou.
– Senhorita Oogner – começou ele em tom de pesar – precisa ser forte.
Mesmo sabendo do que se tratava meu corpo gelou. Quando tempo eu teria para fugir? Como chegaria a Clareira? Em pouco tempo quando eles juntassem as peças e não encontrassem nenhum rebelde sacariam que eu fui a assassina. Eu fui a ultima pessoa que estava com ele, aquela faca estava repleta de digitais e o mais elementar dos exames constataria que o sangue empapado meu vestido era do meu marido.
– Franco está morto.
Pensei no rosto de Dante urgentemente e as lágrimas vieram, comecei com soluços e me debatendo no meu teatro, entre “sentimos muito” e “vamos amparar você”, uma agonia estarrecedora e barulho começaram a retumbar pelos corredor: soldados armados e alinhados da guarda da cidade invadiram as brechas de segurança com escopetas e armas a altíssimo calibre.
– voltaremos em breve. – esclarecendo todos lacrando a sala e deixando-me sozinha.
Em desespero comecei a bater nas portas, eram hermeticamente fechadas, estapeei-as inutilmente em busca de uma escapatória. Cansada e ensanguentada tornei a cair em cima da poltrona exausta e chorando como nunca. Talvez a morte não fosse má coisa agora, imaginar as torturas e humilhações a quais serei submetida ao descobrirem meu crime com toda certeza me fazem pensar o quão uma morte rápida e limpa seria bem vinda. Eu já me vinguei suficiente, ver Franco morto já me dera prazer por toda uma vida mortal.
Ouvi um bip-bap nas portas, alguém estava digitando a senha, para minha total perplexidade quem entrou a sala lacrada foi Jéssica, a camareira rebelde. Abracei-a com força, era a coisa mais reconfortante que eu podia ver nesse momento.
– me largue você está nojenta – disse ela com um empurrão, ela puxou seu carrinho de limpeza para dentro e lacrou as portas novamente, não entendi o porquê do carrinho e principalmente porque Jéssica, a empregada estava vestida como uma dama convidada. – antes de mais nada poupe sua conversinha, eu sei que foi você.
Meu rosto ficou branco.
–s..sabe?
Os olhos dela ficaram vermelhos depois lagrimas puras começaram a brotar, o lábio tremia e as sobrancelhas se curvaram.
– ele me avisou que você o faria. Sabia do que você era capaz! Todo tempo ele sabia. Disse pra mim que quando a revolução estivesse instaurada gostaria de partir desse mundo... ele acreditava numa vida de recompensa do outro lado...ele era...ele era... – e desabou em lágrimas caindo no chão, fiquei aturdida, agoniada para fugir dali com ela mas ao mesmo tempo queria entender o que estava acontecendo.
– o que Franco tinha a ver com a revolução?
– eu queria matá-la sabia? Você matou o único homem que eu amei na vida.
Estática, lembrei daquela mulher estonteante que entrou no prédio Nupcial de Franco quando ele me dispensou, aqueles beijos frios, o fato de ter escolhido ele mesmo Jéssica pra mim...
– você era amante de Franco? – berrei.
– era mulher dele! – retrucou ela cheia de autoridade – todo o tempo isso foi um plano Celeste. Mantivemos você ignorante para que não interferisse em nada! Mas desde o dia que escolhemos você pra ser capturada na sua província Celeste, sabíamos de cada passo que você iria dar. Franco e eu fomos crescemos juntos, eu era uma combatente da Clareira aos sete anos de idade, a Clareira sudoeste, fomos invadidos e capturados mas eu e minha mãe éramos bonitas e jovens demais para sermos simplesmente mortas. Fomos trazidas para um prostibulo aqui no Jardim, eu passei fome, frio e fui muito abusada, era uma criança assustada sendo fodida todos os dias por homens velhos. A minha mãe morreu de uma doença infecciosa. Foi quando o Sr. Oogner levou Franco aos doze anos para iniciar a vida sexual dele, e escolheu a mim. Franco estava tão nervoso que nem sequer tocou em mim, ficamos deitados na cama conversando sobre nossas vidas e quando era a hora de pagar aceitei o dinheiro e topei dizer ao pai dele que o filho dele já era um homem. Todos os fins de semana ele voltava então, não nos tocávamos...
Ela tornou a chorar e eu não conseguia dizer nada, só escutei.
–... quando ele completou quatorze anos o pai dele achou que já tinha ido longe demais, não queria o filho dele apaixonado por uma puta... mas já era tarde demais. Já tínhamos virado confidentes, Franco me mostrava as marcas e queimaduras que seu pai fazia no seu corpo quando ia mal em matemática, ou quando o humilhava por ser fraco e sensível demais, e nesse caminho lhe ensinei as coisas de revolução, ensinei a ele sobre liberdade, sobre a vida nas Clareiras, sobre o que o Jardim tinha feito a minha família. Ficamos trocando cartas durante um ano separados, um dia depois que o pai o chutou numa aparição pública e o chamou de burro Franco se juntou a nós...
–Franco era um rebelde???? – berrei com meu queixo desabando
– dá pra acreditar? – gargalhou ela sem humor – ele espionava o pai pra gente, mandávamos cartas a Dante, o líder geral das Clareiras pra montar as estratégias de guerra, em troca Franco recebeu anistia e titulo oficial de membro. Cortei meu cabelo, pintei e Franco conseguiu convenceu ao pai de que eu era uma faxineira e me trouxe pra dentro da Mansão Oogner. Nós nos amávamos tanto... descobrimos um ao outro e vivíamos um amor feliz e pacifico. Então Franco escolheu você para ser a peça chave de todo o plano. O sequestro foi planejado, a execução de suas amigas, tudo foi feito em nome da nossa causa. E ele quis que você o matasse, foi estupido e torpe o tempo todo porque não queria viver para ver o pai morto apesar de tudo ele sempre o amou como um filho ama. Sabia que se você viesse para cá...
– se eu viesse pra cá o que? – disse invadida por uma maré de emoções confusas como remorso e arrependimento.
– seria a cereja que faltava no bolo. Todos estariam distraídos demais com toda trama, inclusive o próprio Leger Oogner para desconfiar de nós, como bode expiatório toda a Embaixada voltou os olhos pra você enquanto agíamos debaixo dos panos.
Como se uma pedra tivesse caído na minha caixa torácica perdi todo o fôlego.
– tenho duas notícias pra você princesinha. Sabe matar um, pode matar mais – disse ela com tristeza. – vou levar a tristeza comigo essa noite. Vivi o que tinha pra viver, um amor pleno e suficiente. Ele decidiu partir nas suas mãos não há nada que eu possa fazer. – abrindo uma bolsa que até agora não tinha visto de dentro do carrinho de limpeza ela tirou duas bestas e dois revolveres em coldres.
– pra que isso?
– ainda não expliquei? Está havendo uma invasão no seu querido Jardim, enquanto todos se acumulavam aos bolos atrás de notícias sobre a morte de Franco, entramos e estamos tomando a cidade. Se prepare porque Leger Oognal está vindo aqui te matar antes de entrar com uma tropa cercando a cúpula.
– que ótimo – disse com a voz embebida em pânico pegando a besta e carregando-a como me foi ensinado na Clareira – e a segunda? Antes de me dizer quero dizer que sinto muito e...
– pare com isso. Foi o que tinha pra ser – disse Jéssica prendendo os cabelos – isso é guerra.
Assenti, o pânico fervilhava debaixo da minha pele. Uma guerra rebelde acabar de estourar e estaria pasma se não estivesse em estado de alerta, estaria incrédula e mataria Dante se na terra ele ainda estivesse por ter sido usada como um plano o tempo todo por um bando de desconhecidos. Lá fora podia ouvir gritos e correria por trás da porta lacrada.
– a segunda vai te animar. Sintou muito por Yla, ela não conseguiu resistir. Mas acho que ele compensa...
Então Jéssica abriu a porta, e entendi antes mesmo de vê-lo que Franco desligou o holograma antes dele parar de se debater para que todos pudessem escapar. Embora nem todos tivessem resistido e...
Ele estava diante de mim, marcar profundas no seu pescoço como um anel de carne viva e o olhar cansado me olhava com ternura, ele entrou na sala lacrada e as portas se fechara,.
– não estou morto Costureira. cortaram a corda antes dos meus nervos explodirem. eu gosto bastante de ar...
Pulei em Dante derrubando no chão, ainda suja, feia e ensanguentada mas lhe deu o beijo mais profundo e doce da minha vida entre sagradas lágrimas de alegria.
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