O Lado torpe da Glória
11 Depósito e Judas
Os passos firmes e duros no corredor pôs todos no recinto de prontidão.
Dante me ajudou a levantar e me abraçando forte beijou minha testa.
– sabe quando vou deixar que machuquem você? Nunca mais. Nunca – ele me aninhou um pouco enquanto os passos se tornavam mais altos, nós três sabíamos quem era. Meu ex sogro funesto provavelmente muito bem munido, pronto pra me matar.
Reunimos as armas espalhadas no recinto e nos esquipamos.
Os passos finalmente chegaram, e pra nossa total surpresa não era Leger Oogner que nos esperava ante a porta de segurança destravada, era Jusi, um rebelde da Clareira de 14 anos com os joelhos esfacelados e o rosto roxo.
– precisam... ir... lá fora...corram – então caiu sob a própria arma e suspirou antes de morrer.
Saímos. Pelos labirintos da área restrita de segurança subimos e descemos escadas sob alarmes ensurdecedores até finalmente encontramos uma saída pela cozinha. Panelas ardiam abandonadas nas bocas dos fogões, molhos queimavam, taças estraçalhadas e farelo do buffet se misturavam ao rasto de sangue e marcas de sapatos dos funcionários que fugiram outrora dali, rompemos a porta para saída do enorme salão e vi a cena mais apocalíptica da minha vida.
O Jardim estava tomado.
Pessoas fugiam com trouxas de pano, se escondiam atrás de carros ou simplesmente rodavam atordoadas pelo recinto, um exército de bem vestidos marchava comprimindo a população como uma embolo com ordens para que todos voltassem para suas casas, do outro lado surgindo em desordem pelos prédios uma multidão que lembravam um milhão de grãos de areia do deserto corriam preenchendo as lacunas da rua de encontro aos bem-vestidos portando lançadeiras, atirando, lançando flechas com pontas envenenadas (aprendi a fabrica-las, sei que todas tem as pontas vermelhas.) pedras e arcos de pau com as pontas serrilhadas, afiadas como aço.
– por aqui – gritou Dante nos levando pela Calçada das Esmeraldas, a ala de beleza e salões de luxo, ele me segurava pelos ombros, vimos uma nuvem de fumaça se acumular no teto da cúpula como um redemoinho maligno, a rua parecia deserta, mas os vidros das lojas estavam quebrados e haviam corpos de soldados e mulheres que trabalhavam no local jogados nas calçadas.
Desviei o olhar.
Entramos num desses salões pela porta arrombada, esmagamos vidro ao penetramos no interior e descemos as escadas, havia um deposito de materiais de beleza bem intacto aqui.
– você cuida dela. Eu preciso voltar. – Dante ladrou. Agarrei seu braço com toda força fazendo nos dois tombarmos até uma prateleira de shampoos.
– pode esquecer. Eu vou subir e lutar.
Dante riu sem humor
– ta achando que porque matou um cara pode lutar numa guerra civil? Isso vai durar dias, talvez meses, até que os mais fortes sobrevivam e consigam sair, ou até tomarmos a terra, ou até todos se matarem. Mas eu não vou arriscar sua vida entendeu? Vai me obedecer ao menos desta vez! Vai ficar aqui, vai sobreviver.
Ele tentou partir mas eu o puxei de novo e ele suspirou de irritação.
– vocês me colocaram nisso agora aguentem. Posso ser um soldado tão bom quanto Yla ou Neres, vocês me ensinaram tudo.
– Yla e Neres estão mortos – gritou ele com lagrimas desaguando e puxando o braço com força, ele virou de costas – bons soldados também morrem. E eu não posso arriscar perder você! Se for localizada Leger vai fazer você rezar para nunca ter nascido. Você entende isso?
– perfeitamente. – me limitei a dizer.
– ótimo, eu voltarei quando tudo acabar.
E saiu fechando a porta do deposito, deixando eu e Jéssica num completo breu, dez minutos depois ela achou velas e as ascendeu, estava especialmente quente e com fedor de mofo aqui neste lugar.
– era aqui que escondi ele durante o casamento, ele preparou tudo pra nós – disse ela pegando um carrinho cheio de comida e garrafas de água.
Me encostei em uma parede e comecei a bater a cabeça de leve na parede, quando senti finalmente um filete de sangue escorrendo como uma cobra pelos meus cabelos até chegar a nuca foi que ouvi os tiros lá em cima ficarem mais altos, bombas, granadas, grito e choro...
No outro extremo da parede Jéssica estava deitada no chão gelado, alisando a superfície dura, com os olhos fixos no nada, deve ser adequado que eu não pergunte em quem ela está pensando... sei exatamente em quem é. As duas horas que se seguiram conseguiram ser ainda mais torturantes, eu e Jéssica nos revezamos num banho numa câmara que portava a caixa d’água e encontramos ali no deposito, roupas nada confortáveis de funcionárias do salão: disco pants e blusas com gliter que pinicava; pra nossa sorte haviam muitas mudas de jeans desbotado e camisetas simples de manga muito provavelmente que alguém esqueceu ali depois de um dia de folga.
Adequadas e limpas voltamos aos nossos extremos da parede em silencio, agora nos encarando com estranheza, sacudidas por estrondos acima de nossas cabeças da guerra.
– você acha que ele volta? – quebrei o silencio
Jéssica suspirou, olhou para cima e tornou a me encara.
– eu espero que não.
Fiquei um pouco em choque.
– olha pode parecer estranho, não me julgue eu não quero ser má, mas é que é difícil ver duas pessoas que se amam quando acaba de perder a sua. Perdão, é só um sentimento egoísta que ando nutrindo nas últimas horas.
Balancei a cabeça em concordância, eu não ia discutir com alguém tão recentemente ferida na alma. Deitei um pouco no chão para dormir e lá se foram mais três horas, acordei dolorida, aflita, me sentindo estupida de estar escondida quando na verdade deveria estar lá em cima, ajudando os rebeldes, ajudando Dante.
Comecei a andar de um lado para o outro, dolorida, exausta e deprimida;
– vai furar o chão assim – disse Jéssica bocejando
Outro estrondo, pedaços de reboco esfarelaram e caíram do teto como em um terremoto, ouvi ao longe sons de sinalizadores sendo lançados e metralhadoras, já estava me acostumando a tudo e até me permiti comer quando ouvimos barulhos na escada, rastejei até Jéssica e nos escondemos atrás das prateleiras mais cheias, sem nos dar conta estávamos até abraçadas, respirando fraco.
– sou eu. Podem sair – era a voz de Dante
Sorri de contentamento e me levantei junto com Jéssica, saímos de trás das prateleiras. Corri até Dante e pulei no seu pescoço, senti o seu cheiro e fiquei pendurada nele por um bom tempo.
– o fogo cessou, só existem algumas zonas de combate mas tive que descansar ao menos um pouco, estamos em desvantagem.
Beijei sua bochecha várias vezes, ele estava muito machucado e sujo.
– você precisa de um banho. – declarei
– e eu preciso vomitar – declarou Jéssica – se me permitem já que as coisas já estão mais calmas vou fumar nas escadas.
E subiu desgostosa.
Eu e Dante nos encaramos.
– ela me culpa.
– ela entende. Isso é guerra.
Ajudei Dante com o banho, seu corpo estava cheio de cortes e luxações que o impediam de se dobrar, tinham poucos recursos aqui em baixo mas fui capaz de amenizar e limpar as feridas. Não haviam roupas masculinas no deposito, tive que lavar seus farrapos militares e seca-los com um aparelho de calor nada rápido quiçá eficaz.
Deitei-o e não demorou muito para os olhos dele começarem a ficar pesados.
Ele pegou minha mão.
– muita gente morreu lá em cima.
– eu sei. – murmurei
– amigos, irmãos, mães... os adolescentes da fogueira, os recém-casados, soldados grávidas... todos mortos.
– eu sei – murmurei de novo.
– entende porque não quero que você saia daqui?
– e isso é algo egoísta e covarde – declarei. Apoiei a cabeça dele em meu colo, comecei a desembaraçar os nós curtos dos cabelos, coisa agradável e nada difícil.
– eu sou covarde quando se trata de você Costureira – disse com uma tossida fraca no final. – agora preciso dormir de verdade, uma hora e tenho que voltar pra cima.
– tudo bem. Vai me deixar ir com você?
– prefiro furar meus olhos... – embolou o final dessa frase e já estava ressonando. Deitei ao seu lado e abracei seu corpo mas não estava com um pingo de sono, fiquei aspirando seu cheiro o máximo que pude, sua pele estava gelada como morta, sai de seu abraço, aqueci-o com bolos de panos aleatórios e me dei conta de que se passaram horas desde que Jéssica tinha ido para as escadas.
Estava escuro, peguei um suporte pra velas e comecei a subir.
–Jessi?
– Jessi?
Não queria elevar a voz.
Subi as escadas por completo
– Jéssica o que porra você...
Senti algo pressionando as minhas costas.
– em silencio. Ou eu mato você agora. – fechei os olhos, senti o cano da arma roçar na minha coluna fazendo meu corpo gelar.
Haviam mais deles, muitos deles com lanternas e muito bem armados, soldados da guarda da cidade.
Um dele prendeu minhas mãos com algemas para trás.
– pague a garota e deixe-a sair.
Então Jéssica saiu da escuridão, um guarda entregou-lhe um malote prata e aparentemente pesado, Jéssica abriu e pude ver reluzentes bolos de notas amontoados.
– como você pode? – grunhi pra ela que me olhava friamente acariciando as notas. – você se vendeu.
– me vendi. Admito. E você matou quem eu amava. Quem é mais suja aqui?
– vá embora – ordenou um soldado a Jéssica que saiu tranquilamente com o seu dinheiro pelas ruas lotadas de escombros. – vocês dois – disse dois rapazes armados encostado nas escadas – vão lá embaixo e matem o garoto.
Comei a me debater e a chorar, um soldado me jogou no chão e começou a me aplicar murros no peito e no meu rosto até que eu me calasse, houveram dez minutos de tensão até os dois soldados voltarem.
– não tem ninguém aqui em baixo. – relataram os dois.
– ele fugiu! Eu disse pra você fazer silencio sua puta – e começou a me socar mais forte, entre os espasmos e a cegueira da dor me perguntei antes deles me colocarem um saco preto na cabeça para onde e como Dante havia escapado.
– para a mansão dos Oogner. – ouvi um deles dizer enquanto eu era arrastada.
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