O Lado Sombrio do Amor
28 Resquícios do passado
Narrado por Renesmee
A aula de História da Indumentária Contemporânea havia sido intensa, mas fascinante. A professora dissecou cada detalhe das influências pós-modernistas nas coleções dos anos 2000. No final, fechei meu caderno com um leve suspiro e guardei os materiais na bolsa de couro, já ansiosa para sair dali.
Assim que atravessei o corredor lotado, ouvi a voz de Claire, claramente dirigida a mim, mesmo que falasse "em tom de piada" para duas colegas.
— Tem gente que fala em irmandade feminina, mas é mais cobra que as do desfile da Versace...
Parei. Inspirei fundo. Virei devagar.
Ela me olhava com aquele sorriso provocador, o mesmo que usava quando queria cutucar sem se comprometer. Eu não era mais a garota da república. E definitivamente não ia engolir desaforo em silêncio.
— Claire, nós não estamos mais no segundo grau. Nem disputando o posto de líder de torcida ou de quem usa o gloss mais caro da farmácia.
— Ah, então agora você é adulta, refinada... só falta ser honesta, né, Nessie? — retrucou, cruzando os braços e se aproximando.
— Eu sou, Claire. Mais do que você foi comigo — respondi, com firmeza. — A diferença é que eu não te trai. Eu não te iludi. Eu não fiquei com dois caras ao mesmo tempo.
Ela franziu o cenho, tentando manter a pose, mas eu vi o rubor em seu rosto.
— Você armou, Nessie. Fez de tudo pra se aproximar do Jacob, depois de dizer que ele era só seu amigo. Você é falsa.
— E você é confusa. — Dei um passo à frente, meus olhos nos dela. — Me diz uma coisa, Claire... Quem você quer de verdade? Jacob? Ou Quil?
Ela piscou, engolindo seco, sem saber o que dizer.
O corredor silenciou ao nosso redor. Algumas pessoas tentavam parecer distraídas, outras estavam visivelmente prestando atenção. Mas eu não ligava.
— Porque quem não sabe o que quer, sempre perde o que tem.
Virei as costas e segui pelo corredor, deixando o salto ecoar atrás de mim.
Dessa vez, Claire não me seguiu.
O sol da tarde refletia nas janelas da faculdade, e eu só queria sair dali o mais rápido possível. A discussão com Claire ainda reverberava nos meus pensamentos, mas eu mantinha o rosto sereno. Estava quase no portão quando ouvi:
— Renesmee! Dá pra tirar uma foto com a gente?
Virei, surpresa. Duas alunas que eu mal conhecia sorriram empolgadas, celulares em mãos.
— Claro… — respondi, meio sem jeito, ajeitando o cabelo.
Tiramos algumas fotos e antes que eu pudesse escapar, uma delas comentou, encantada:
— Você e Jacob Black formam um casal lindo. A gente torce muito por vocês!
Sorrir foi minha única opção.
— Obrigada... vocês são gentis.
Elas acenaram, e eu continuei meu caminho até o estacionamento, tentando organizar meus pensamentos. Mas ao avistar meu carro, meus passos diminuíram. Meu estômago revirou ao ver a figura encostada na lataria.
Phil.
Vestia um paletó cinza-claro, como se ainda estivesse no escritório. Os braços cruzados, o olhar atento.
Aproximou-se antes mesmo que eu pudesse abrir a boca. E, para minha surpresa, me puxou para um abraço. Rígido, urgente, e familiar.
— Renesmee... — murmurou ele ao meu ouvido — Nós precisamos conversar.
Cruzei os braços, mantendo a distância. Meu coração acelerava, mas minha voz saiu calma.
— Depois de tanto tempo, agora quer conversar?
Phil suspirou, passando a mão pelos cabelos grisalhos.
— Sua avó... está preocupada.
— Com o quê exatamente? — arqueei uma sobrancelha.
— Com esse noivado repentino. — Ele foi direto. — Ela recebeu o convite ontem. Ficou em choque.
Dei um leve sorriso irônico.
— Então agora vocês se preocupam comigo?
— Isso não é justo, Nessie.
— Não? — rebati. — Porque pra mim o que não é justo é vocês esconderem coisas. A vida inteira.
Phil baixou o olhar por um instante, depois voltou a me encarar.
— Nem eu e nem Renée queremos te impedir. Só queremos te proteger.
— De quem? De Jacob? — perguntei com sarcasmo. — Porque ele parece ser o único que não mente pra mim.
Phil apertou os lábios, tenso.
— Não é sobre o Jacob apenas...
— Então diz logo, Phil! — soltei, irritada. — Do que vocês estão me protegendo? Por que meu noivado com um Black incomoda tanto?
Ele hesitou, e eu soube naquele instante: estava perto de algo. De alguma verdade.
— Você não sabe o que está dizendo — ele murmurou.
— Ah, eu sei sim. Sei que vocês escondem alguma coisa. E quer saber? — dei um passo pra frente, encarando-o. — Eu vou descobrir o que é. Com ou sem vocês.
Phil me olhou como se visse uma sombra do passado em mim. Talvez visse mesmo. Talvez visse Bella.
E, pela primeira vez, ele não tentou se justificar. Apenas assentiu com um suspiro pesado, como quem entendia que não podia mais me impedir.
Cheguei ao meu apartamento ainda com o sangue fervendo. A conversa com Phil ecoava na minha mente, como um zumbido insistente. Algo estava errado, algo grande... E eu estava cada vez mais perto.
Joguei a bolsa no sofá, tirei os sapatos, e fui direto ao notebook. Havia duas mensagens de Jacob:
"Já estou com saudade."
"Hoje à noite vamos jantar só nós dois. Surpresa."
Sorri involuntariamente. Digitei uma resposta rápida:
"Vou me arrumar pra você. ❤️"
Mas logo o foco mudou. Cliquei no aplicativo da câmera e abri o feed do escritório de Billy Black. Não esperava encontrar nada... até ver.
Meu coração disparou.
A imagem tremia levemente, mas era nítida: Renée, minha avó, estava lá. E não estava sozinha. Bonnie Black estava sentado à frente dela.
Aumentei o volume.
— “Você acha que eu sou idiota, Bonnie?” — a voz de Renée soou fria. — “Você acabou com a minha filha. Não vou deixar que o seu sobrinho destrua a vida da minha neta.”
Engoli seco.
— “Renée, cuidado com o que diz…” — Bonnie respondeu, mas Renée o cortou.
— “Não vou repetir. Assim como você fez com a Bella, manipulando tudo, encobrindo o que aquele desgraçado do Edward fez... você quer o quê agora? A Renesmee como moeda de troca para limpar o nome dos Black?”
Eu mal respirava.
Bonnie inclinou-se na cadeira, tenso.
— “Você não entende nada…”
Mas antes que dissesse mais alguma coisa, ele parou. Os olhos dele fixaram diretamente na câmera, como se enxergasse minha presença através da lente.
Meu corpo congelou.
Com expressão dura, Bonnie se levantou, caminhou lentamente até a estante... e então, sem tirar os olhos da câmera, a pegou com firmeza.
A imagem tremeu.
Então ele se aproximou e falou olhando diretamente para mim:
— “Seja quem for que esteja atrás dessa câmera… vou encontrar você.”
A tela ficou preta.
Eu me afastei da mesa com um pulo, a respiração acelerada.
Bonnie Black sabia. E agora… ele estava me caçando.
Narrado por Jacob
A reunião com os acionistas havia sido produtiva. Números crescendo, projeções otimistas e, acima de tudo, a marca ganhando força no mercado. Mas, para ser sincero, meu foco estava em outra coisa.
Olhei discretamente o celular assim que o último gráfico foi projetado.
"Vou me arrumar para você ❤️"
Sorri.
A simples ideia de vê-la naquela noite, de tê-la só para mim, bastava para fazer meu corpo relaxar em meio ao caos corporativo.
A reunião foi encerrada, os acionistas começaram a se levantar, um a um apertando minha mão, trocando palavras sobre contratos, investimentos e a próxima exposição.
Assim que a sala esvaziou, ouvi a porta ser aberta novamente. Era Bonnie.
Ele entrou com passos firmes, carregando algo na mão. Um pequeno objeto escuro, metálico.
— Precisamos conversar — disse ele, sem rodeios.
Fechei o notebook e me apoiei na mesa, atento.
— O que aconteceu?
Ele jogou o pequeno objeto sobre a mesa. Rolei com os dedos. Uma câmera. Disfarçada. Profissional.
— Isso estava no escritório do meu irmão — disse Bonnie, encarando-me. — Alguém está nos vigiando, Jake. Os Black estão sendo monitorados.
Me endireitei, o sorriso anterior completamente apagado.
— Tem ideia de quem colocou isso?
Bonnie negou com um movimento lento da cabeça.
— Ainda não. Mas essa pessoa é cuidadosa. Inteligente. E tem acesso. Não foi um qualquer. Essa câmera estava bem posicionada, escondida entre livros na estante. Ela estava transmitindo, não apenas gravando. Alguém nos assistiu ao vivo.
Passei a mão no rosto, respirando fundo.
— Então, seja quem for… está por perto.
— Exato — Bonnie confirmou. — E, Jake, se essa pessoa tem acesso ao escritório de Billy, ela pode ter acesso a qualquer lugar da nossa estrutura.
Eu cerrei os punhos.
— Nós vamos descobrir quem é.
Bonnie assentiu, mas seus olhos estavam sombrios.
— Só tenha cuidado. Essa história tem mais profundidade do que imagina. E, de alguma forma… isso tudo está ligado ao passado.
Apertei a câmera nas mãos.
O passado estava batendo à nossa porta. E talvez… já tivesse entrado.
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