Notas iniciais
Demorei um pouquinho mais pra postar dessa vez porque ainda tô trabalhando na terceira parte.

Enumerei mentalmente todas as coisas estranhas que já haviam acontecido comigo: uma vez eu estava no banheiro fazendo... Bem, o que eu tinha que fazer lá, e, quando eu puxei a descarga, um jato d’água da privada me atingiu os olhos. Até hoje não consigo imaginar como aquele líquido me alcançou o rosto.

Uma outra coisa que me aconteceu e me deixou intrigada foi quando eu estava acabando de ler A entrada da noite e era de madrugada. Eu podia jurar que vi três vultos passarem pela porta do meu quarto.

Mas, com certeza, a maior loucura que já aconteceu na minha vida foi entrar nessa merda de Labirinto. Loucura que seria inolvidável.

Castiel ainda dormia ao meu lado. Sentei e encostei as costas na parede. Segundo meus cálculos, estávamos há três dias nesse fim de mundo. Era dia dezoito... dezoito?

Amanhã seria... dezenove!

— Ah, meu Deus! — exclamei um pouco alto.

Tinha me esquecido completamente do meu aniversário. Era no dia seguinte.

— O que aconteceu? — Castiel acordou sobressaltado.

— Ah, acordei você — lamentei. — Desculpe-me.

Ele esfregou os olhos.

— Por que você gritou?

— Nada, é que... Lembrei uma coisa sem importância.

— Sem importância, é? — disse ele, cético. — Então por que você pareceu assustada?

— Eu não pareci assustada — me defendi.

Castiel continuou a me fitar desconfiado.

— Tudo bem — cedi. — Não é completamente sem importância.

— Então o que é?

— Amanhã.

— O que tem amanhã?

— É meu aniversário.

— Ah — foi tudo o que ele disse. Depois virou o rosto e olhou para o chão.

Não esperava uma grande comemoração da parte dele, mas também não pensava que Castiel fosse tão indiferente.

— É uma pena — ele disse recolhendo uma pedra do chão e a esfregando na parede.

Uma pena? Então é isso, uma pena? Respirei fundo várias vezes para não gritar com Castiel. Tínhamos coisas muito mais importantes para nos preocupar do que meu aniversário.

— Como vamos encontrá-los? — perguntei.

— Quem? Aiko, Julia e Henrico?

Não, respondi mentalmente. Patati e Patata.

— É claro, quem mais seria?

— Você não tem nenhuma ideia genial?

— Não.

— Nossa, a Cabeça não sabe o que fazer — seu tom foi de deboche.

— Cala a boca — rosnei. Cerrei os punhos para me acalmar. Castiel estava começando a me tirar do sério.

Retirei meu celular do bolso. Tentei ligá-lo, mas parecia estar descarregado. Não podíamos contar com nosso GPS movido a Bluetooth. Ótimo. Assim não encontraríamos nunca os nossos amigos. Talvez eu devesse ficar aqui sentada esperando que o Labirinto me matasse de uma vez.

Em um momento refleti sobre meu pensamento negativo. Eu nunca tinha cogitado a ideia de morrer. Então percebi que ainda estávamos na Encruzilhada da Angústia. Os pensamentos pessimistas e a tristeza ainda nos rodeavam.

— Não vamos encontrá-los se ficarmos aqui sentados. Cada minuto perdido é perigoso — falei.

Castiel apenas assentiu e nos levantamos. Retirei da mochila algo para comer. Bem, pelo menos ainda recebíamos misteriosamente lanches para não morrermos de fome.

Caminhamos com passos apressados e em silêncio. Castiel não ficou atrás de mim, mas sim ao meu lado. Já deveria ter se passado uma hora e ainda estávamos sem ideias ou planos geniais.

+++

Tentei cinco vezes ligar meu celular, mas não consegui. Andamos na mesma direção por horas até o corredor de pedras dar lugar a outro corredor totalmente úmido. Foi como entrar no esgoto. Me senti um rato.

— Onde eu fui parar... — resmungou Castiel.

Comecei a sentir frio. Quando o vento batia trazia um fedor que fazia meu estômago dar voltas. E eu estava começando a ficar com sono.

— Estou cansada — afirmei.

— Eu também, mas não vamos ficar aqui.

— Tem outro lugar?

Castiel revirou os olhos e murmurou algum tipo de xingamento.

— Você conseguiria dormir aqui? — ele perguntou.

— Se for o único lugar disponível...

O vento bateu forte mais uma vez. Estava fazendo mais frio do que nos outros dias. Estremeci. Olhei para as paredes e o chão cobertos de limo e outras gosmas que não pude nem imaginar de onde teriam vindo. Queria realmente passar a noite nesse lugar?

Me senti frustrada sem ter outra saída.

Castiel afastou com os sapatos o limo no chão e se sentou. Resolvi fazer o mesmo. Ele também retirou do bolso uma pedra e começou a esfregá-la no chão como se a tivesse polindo. Percebi que ele havia feito a mesma coisa durante todo nosso percurso. Castiel esfregava a pedra na parede enquanto andávamos. Seja lá pra que fosse, ele estava fazendo bem feito; a pedra já estava quase completamente lisinha.

— Para que é isso? — perguntei apontando para a pedra. Castiel a guardou rapidamente no bolso.

— Não lhe interessa — ele disse, rápido.

Uma coisa que eu odiava no Castiel era que ele tinha total facilidade em me magoar. O pior era que, na maioria das vezes, parecia de propósito. Como no primeiro dia em que nos falamos. Ele me ignorou na hora da saída. Ou em uma aula de geografia quando o professor pediu para formarmos duplas. Castiel preferiu fazer o trabalho sozinho mesmo depois de eu ter pedido para ser sua dupla. Por que ele fazia isso?

— Qual o seu problema comigo? — questionei revoltada.

— Não tenho problema com você — ele respondeu olhando para as próprias mãos.

— Eu não acredito.

Ele bufou.

— Annie, quer que eu faça uma lista?

— Uma lista sobre o porquê de você me odiar?

— Eu não odeio você!

— Então é uma lista sobre o quê?

— Sobre os motivos de minha amizade com você ser a mais fraca comparada aos nossos outros amigos.

Ele finalmente me olhou nos olhos. E seus olhos eram frios. Suas palavras foram cortantes como pedras pontiagudas de gelo. Meus músculos se contraíram. Eu iria chorar.

— Annie — ele chamou quando desviei meus olhos dos dele. — Você é inconsequente, impulsiva, extremamente agitada, extremamente falante, extremamente controladora, extremamente...

— Já chega! — gritei quase deixando as lágrimas escaparam. — E eu não sou controladora.

— Então por que você propôs ao Labirinto um desafio? Porque você achava que conseguiria fazer tudo sozinha! — Castiel também gritou.

— Você ia morrer! Eu só quis te salvar.

— Com essa escolha inteligente? Deixar morrer três só por uma vida? Você pode achar que sempre vai conseguir tudo com um superplano, mas nem sempre vai ser assim, Annie, nem sempre!

— Eles não morreram — baixei a voz e não consegui mais segurar o choro.

— N-não f-faça i-isso. — Percebi que a voz de Castiel estava falhando. — Não chora.

— Não chorar? Depois de tudo o que você disse? Se eu sou realmente todos esses ‘extremos’, você é extremamente insensível!

— D-desculpe! — ele tentou tocar meu braço, mas eu recuei. — Por favor, Annie, para de chorar.

— Não fale mais comigo.

Me afastei de Castiel ainda chorando. Minha cabeça doía. O modo como Castiel falou comigo deixou meu coração apertado. Eu não tinha culpa de ser do jeito que eu era. E não mudaria só porque ele estava incomodado.

Deitei-me em meio ao musgo sem me importar com o fedor. Fechei os olhos e me perguntei o porquê de Castiel não querer me ver chorar. Ele realmente pareceu preocupado quando viu minhas lágrimas. Como quando pensei em desistir um dia atrás e Castiel quase me bateu para fazer “voltar ao normal”. Ele disse: Não é você! Minha Annie nunca desiste.

Sinceramente, nunca entenderia o que se passa na cabeça desse garoto.

+++

Acordei com uma dor de cabeça pior que a do dia anterior. Meu humor estava péssimo. Castiel não teria que reclamar do meu “extremo agito” hoje.

Me levantei e me limpei o máximo que pude. Castiel se pôs ao meu lado sem dizer uma única palavra. E foi assim que caminhamos por duas horas. Apenas com o som do limo grudando em nossos sapatos.

+++

Minha mochila estava novamente cheia com o alimento do dia. Comi enquanto andava.

— Feliz aniversário — Castiel quebrou o silêncio ao meu lado.

Virei-me para ele.

— Você se lembrou — sussurrei.

— É. — Ele encarou o chão e parou de andar. Levou uma das mãos ao bolso e retirou algo. — Pra você.

Ele me estendeu uma pequena pedra perfeitamente polida amarrada em um pedaço de fio de lã.

— Castiel...

Fiquei sem palavras.

— Coloque no pescoço — ele pediu. — Obedeci. Ele, com certeza, tinha pegado o fio da minha mochila. Mas o perdoei mentalmente pela invasão.

— Obrigada — disse com um sorriso. Ele voltou a olhar para mim.

— Me desculpe — falou. — Por... tudo o que eu disse ontem. — Fiquei calada. — Você não é menos amiga pra mim.

— Você disse o contrário ontem.

— Esquece. Eu fui um idiota.

— Foi um esforço muito grande?

— Isso foi uma piada?

— sorri.

Toquei a pedra pendurada em meu pescoço. Era simples, mas significada muito.

— Desculpe, mas não resisti.

Foi um grande alívio quando Castiel também riu.

— Acho que tenho que criar uma lista sobre os porquês de sermos amigos.

—Ah, é? E qual seria o primeiro motivo?

— Você é capaz de me constranger em qualquer situação.

— Eu não faço isso! — respondi rindo.

— Ah, faz sim. Como no dia em que apresentamos trabalho em grupo e eu esqueci a fala. Você começou a falar na frente da classe toda: Ah, Castiel, vamos, eu não lhe ensinei direitinho?

Não pude parar de rir.

— Meu lado impulsivo estava apenas se manifestando — expliquei.

— A classe inteira percebeu.

Passamos uns segundos para acalmar o riso.

— Annie. — Castiel parou de rir. — Hoje você faz dezessete anos, já é quase uma adulta, como se sente?

— Como me sinto? Vejamos, estou passando meu aniversário em um Labirinto com cheiro de esgoto. Está sendo uma ótima festa.

Castiel me deu um sorriso fraco e então me abraçou.

— Feliz aniversário. Mais uma vez.

Senti meu corpo relaxar. A Angústia não estava mais fazendo efeito em mim. E, pelo visto, nem em Castiel. Fechei os olhos e escutei as batidas do coração dele.

Por um instante tudo pareceu tranquilo.

Até uma explosão ocorrer a nossa frente.

Foi um BUM acompanhado por uma luz forte que deixou jogado no chão alguma coisa parecida com um corpo.

Me soltei de Castiel e me aproximei devagar. Estava a poucos passos quando soltei um grito.

— O que houve? — Castiel veio ao meu alcance.

— É... O Henrico!

Notas finais
:)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.