O LEGADO DE VIDRO , Os Lâfrer

4 ​CAPÍTULO 4: O Feitiço Contra o Feiticeiro




​Thomas estava deitado em uma das macas da ala médica, com um saco de gelo no ombro deslocado e o nariz devidamente imobilizado. Ele parecia ter sido atropelado por um comboio, mas o brilho vitorioso em seus olhos azuis não havia desaparecido.

​A porta se abriu com um estrondo familiar. Maya entrou marchando, carregando uma bandeja com medicamentos e uma gaze. Ela não parecia mais a alma penosa do quarto 104; agora, ela exalava uma energia perigosa e irritada.

​— Olha só — Thomas tentou falar, mas sua voz saiu anasalada por causa dos curativos no nariz. — Se não é a minha enfermeira de ferro. Veio terminar o serviço ou veio pedir autógrafo no meu gesso?

​Maya bateu a bandeja na mesa de metal ao lado da cama com uma força desnecessária, fazendo os frascos tilintarem.

​— Cala a boca, Lâfrer. Se você abrir essa boca para falar mais uma idiotice, eu juro que desoco o seu outro ombro só para equilibrar a anatomia — ela rebateu, com uma agilidade ácida. Ela pegou uma compressa com álcool e pressionou, sem delicadeza nenhuma, contra um corte na testa dele.

​— Ai! — Thomas reclamou. — Onde você aprendeu enfermagem? No açougue da base ou com um instrutor de tortura da CIA?

​— Com a sua mãe — Maya deu um sorriso de lado, letal e sarcástico. — E ela me disse que pacientes teimosos e com o ego inflado precisam de um tratamento... "especial". Agora, fica quieto ou eu vou ter que usar a função de vibração do meu braço mecânico para fazer uma massagem craniana em você.

​Thomas soltou uma risada curta, que logo virou um gemido de dor.

— Você é insuportável, Maya.

​— E você está deitado em uma maca porque apanhou de uma "sucata" — ela retrucou, limpando o sangue seco do rosto dele com movimentos rápidos e precisos. — O diagnóstico é claro, Tenente: você é um péssimo lutador e um paciente ainda pior.

​Do lado de fora da sala, observando através do pequeno vidro da porta, Richard e Hadassa estavam paralisados. Richard tinha um braço em volta dos ombros de Hadassa, e ambos tinham sorrisos idênticos e nostálgicos.

​— Isso te lembra alguma coisa, Nymerelle? — Richard sussurrou, a voz carregada de diversão. — Um capitão arrogante, uma enfermeira que queria matá-lo e uma tensão que dava para cortar com uma baioneta?

​Hadassa revirou os olhos, mas encostou a cabeça no ombro do marido.

— A diferença é que eu era muito mais sutil nas minhas ameaças. E eu não tinha um braço de titânio para reforçar os meus argumentos.

​— Ah, não se engane. A sua língua sempre foi feita de aço — Richard riu baixo. — Veja só... ele está olhando para ela do mesmo jeito que eu olhava para você quando você me dava banho de esponja e eu tentava manter o que restava da minha dignidade.

​Lá dentro, Thomas tentou segurar a mão de Maya — a de carne e osso — enquanto ela trocava o curativo.

​— Sabe, Maya... — ele disse, o tom de voz baixando, perdendo um pouco do deboche. — Você bate forte. Mas cuida muito bem.

​Maya parou por um segundo, os olhos cinzas encontrando os azuis dele. A máscara de ironia dela vacilou, apenas por um milésimo de segundo, antes de ela apertar o curativo com força extra.

​— Não se acostuma, Lâfrer. Amanhã às cinco da manhã, eu vou tirar o seu cobertor com o braço de metal. E eu não vou jogar o cobertor longe... eu vou jogar você pela janela.

​— Mal posso esperar, Sargento — Thomas sorriu, apesar da dor.

​Do lado de fora, Hadassa deu um suspiro dramático.

— Estamos perdidos, Richard. Nós criamos um monstro e ele acabou de encontrar o par perfeito.