O LEGADO DE VIDRO , Os Lâfrer

3 ​CAPÍTULO 3: O Diagnóstco da Luta




​O ginásio da Fundação Lâfrer estava em silêncio absoluto. A notícia de que o Tenente Thomas Lâfrer e a Sargento Maya, a "sucata mecânica", iam se enfrentar correra mais rápido que o toque de recolher. Nas arquibancadas de madeira, dezenas de veteranos feridos, enfermeiras e terapeutas observavam, a tensão no ar sendo quase palpável.

​Richard e Hadassa chegaram de braços dados, com as expressões sérias. Hadassa, ao ver o filho no tatame, soltou um longo suspiro, a ironia habitual sumindo.

​— Ele é um idiota, Hadassa — Richard murmurou, a voz baixa e terna. — Ele acha que está jogando o jogo que nós jogamos.

​— Não — ela corrigiu, o olhar focado no filho. — Ele está jogando o jogo que ele criou. Ele aprendeu com a minha teimosia e a sua força. Ele está se tornando o alvo para que ela volte a ser uma guerreira.

​No centro do tatame, Thomas estava parado, em posição de luta, com as mãos guardando o rosto. Ele vestia apenas uma bermuda tática de treinamento. Seus olhos azuis focavam em Maya, que estava na penumbra da entrada, o braço mecânico emitindo um zumbido sutil enquanto ativava os servos.

​— Vamos, Sargento — Thomas desafiou, a voz ecoando pelo ginásio, com aquele toque de arrogância que ele herdara do pai. — Você disse que ia usar esse metal para quebrar o meu nariz. Eu estou te dando uma lição de anatomia de graça. Ou você é covarde demais para sair da sombra?

​O ginásio prendeu a respiração. Maya avançou. Ela não era apenas uma guerreira; ela era uma força da natureza movida por fúria e culpa. No momento em que pisou no tatame, a energia mudou.

​Thomas não estava ali para feri-la; ele estava ali para ser o escudo que ela precisava quebrar para se encontrar. O primeiro ataque de Maya foi rápido e mortal. Ela avançou, usando o braço de metal não para bater, mas para criar uma barreira. Thomas, acostumado ao combate direto, tentou um soco de direita, mas o braço mecânico de Maya o interceptou com um som sordo de metal contra carne.

​A dor no braço de Thomas foi instantânea, mas ele não recuou.

​— Excelente interceptação, Sargento! — ele gritou, mas mal teve tempo de terminar a frase.

​Maya usou a força da prótese para girar seu corpo e, com um movimento que nem mesmo Richard, o Capitão lendário, vira antes, desferiu um soco de esquerda, o braço mecânico emitindo um zumbido alto. O soco atingiu o ombro de Thomas com a força de um martelo.

​Thomas desabou no tatame com um gemido de dor, o ombro estalando. O ginásio soltou um suspiro de choque. Richard deu um passo à frente, instintivamente, mas Hadassa o segurou pelo braço, a expressão séria.

​— Espere — ela sussurrou. — Ele ainda não terminou.

​Maya, no tatame, estava respirando ofegante, os olhos cinzas arregalados, o braço mecânico vibrando de energia. Ela olhou para o próprio braço com uma mistura de pânico e satisfação.

​Thomas, no chão, começou a se levantar, com dificuldade, segurando o ombro ferido. Ele tossiu um pouco de sangue, mas o sorriso torto, aquele sorriso que Hadassa conhecia tão bem, apareceu em seu rosto.

​— É só isso, Sargento? — ele provocou, levantando-se e limpando o sangue com a mão. — Eu não sinto o meu ombro, mas o meu nariz ainda está intacto. Você é uma guerreira ou uma colecionadora de sucata que não sabe usar a própria força?

​A provocação foi o gatilho. Maya gritou um som que não era humano; era o grito de dor e fúria de todas as vidas que ela perdera em Kandahar. Ela avançou novamente, mas desta vez, sem estratégia. Era puro instinto de sobrevivência.

​Thomas, com o ombro ferido, não conseguia se defender com a mesma eficácia. Maya desferiu uma série de socos e chutes, usando o braço mecânico como uma extensão de sua fúria. Thomas foi atingido no estômago, na perna e, finalmente, no rosto. O soco final, o soco que quebrou o nariz dele, veio com uma força tão devastadora que Thomas desabou novamente no tatame, inconsciente.

​O ginásio explodiu em caos. Richard e Hadassa correram para o tatame. Maya, no centro, estava de pé, olhando para o homem que ela acabara de derrubar, o braço mecânico finalmente silencioso. Ela tremia visivelmente.

​Hadassa ajoelhou-se ao lado do filho, verificando o pulso e o nariz quebrado. Ela olhou para Maya com uma mistura de raiva e... algo que parecia orgulho.

​— O que você acha que fez, Sargento? — ela perguntou, a voz de Hadassa agora com uma autoridade que fez Maya recuar um passo. — Você quebrou o nariz do meu filho e possivelmente deslocou o ombro dele. É isso que você queria? Transformar a sua fúria em sucata humana?

​Maya olhou para o próprio braço de metal, as lágrimas escorrendo pelo rosto. Ela não disse nada, apenas desabou no tatame, ao lado de Thomas, chorando silenciosamente.

​Richard colocou a mão no ombro da esposa. Ele olhou para o filho, que estava começando a recuperar a consciência, e depois para a Sargento quebrada.

​— Ele conseguiu, Hadassa — Richard sussurrou, a voz profunda e séria. — Ele acabou de dar a ela o diagnóstico mais doloroso, mas o único que podia curá-la. Ele se tornou o alvo para que ela voltasse a ser uma guerreira. E o Legacy Lâfrer acabou de ganhar um novo capítulo.