O LEGADO DE VIDRO , Os Lâfrer

2 ​CAPÍTULO 2: O Despertar da Matilha




​Eram cinco da manhã quando Thomas Lâfrer parou diante da porta do quarto 104. Ele não vestia a farda de oficial médica, mas sim o uniforme de treinamento físico do exército: camiseta preta tática, calça de combate e coturnos bem amarrados. O corredor da fundação estava em silêncio absoluto.

​Thomas não bateu na porta. Ele a abriu com um chute controlado, mas barulhento o suficiente para ecoar pelo corredor. O quarto estava na penumbra. Maya estava na cama, encolhida, o braço mecânico descansando inerte sobre o peito. Ela não acordara totalmente, apenas se movera desconfortável com o barulho.

​Thomas caminhou até a cama com passos pesados. Ele parou ao lado dela e, sem hesitação, segurou a ponta do cobertor de lã militar e o puxou com força, jogando-o longe, em direção à parede oposta.

​O ar gelado da manhã atingiu Maya instantaneamente. Ela soltou um gemido agudo de surpresa e fúria, sentando-se abruptamente, os olhos cinzas arregalados, o braço mecânico emitindo um zumbido sutil enquanto ativava os servos.

​— O que você acha que está fazendo, Tenente?! — ela gritou, a voz rouca de sono e raiva, cobrindo o rosto com o braço mecânico para se proteger da luz que ele acendera.

​— O sol já nasceu, Sargento — Thomas rebateu, a voz calmo, mas com uma autoridade fria. — O tempo de lamentar a sucata acabou. Você tem cinco minutos para se vestir. Se eu voltar e você ainda estiver com essa cara de quem foi atropelada por um tanque, eu mesmo vou te arrastar pelo corredor até o ginásio.

​— Eu não recebo ordens de você, Lâfrer! — Maya gritou, tentando encontrar o cobertor com a mão de metal, que tremia de raiva.

​Thomas pegou o cobertor no chão e o jogou de volta, mas desta vez, cobrindo apenas as pernas dela, como um lençol de hospital. Ele se inclinou, ficando a centímetros do rosto dela, o olhar azul focado e impiedoso.

​— No manual do meu pai, dizem que um soldado que se recusa a levantar é um soldado que já aceitou a morte — ele sussurrou, a voz carregada com o peso do sobrenome Lâfrer. — Eu não vou deixar você ser uma covarde na minha fundação, Maya. A sua cicatriz diz que você sobreviveu, mas a sua atitude diz que você quer morrer. Escolha. Cinco minutos. Se você não aparecer no ginásio, eu vou considerar que você é apenas... sucata. E eu não perco meu tempo reciclando metal que não quer ser moldado.

​Thomas endireitou o corpo, deu meia-volta e saiu do quarto, batendo a porta com força ao passar.

​Ele ficou parado no corredor por exatos quatro minutos e cinquenta segundos. O silêncio do outro lado da porta era tenso. Quando o cronômetro mental dele marcou o tempo final, ele já ia colocar a mão na maçaneta, mas a porta se abriu com uma fúria contida.

​Maya estava lá. Vestindo a camiseta de treinamento do exército e uma calça de moletom, a prótese mecânica bem ajustada no braço esquerdo. Seus olhos cinzas estavam injetados de raiva, e a cicatriz em seu rosto parecia vibrar com a intensidade de sua fúria.

​— Se eu for até aquele ginásio, Tenente — ela sibilou, a voz baixa e letal — eu vou usar esse braço para quebrar o seu nariz e te ensinar a bater na porta.

​Thomas abriu um sorriso letal, o mesmo sorriso que Richard usava antes de um ataque.

​— Excelente, Sargento. Esse é o diagnóstico que eu estava esperando. Vamos ver se esse metal no seu braço aguenta uma lição de anatomia humana básica.