O LEGADO DE VIDRO , Os Lâfrer
13 CAPÍTULO 13: A Mira do Coração
O laboratório subterrâneo parecia ter congelado. O som metálico da respiração do ciborgue colossal preenchia o vazio. O braço mecânico do monstro apertava o pescoço de Thomas, cujos pés mal tocavam o chão. Richard mantinha o fuzil erguido, mas o dedo no gatilho tremia pela primeira vez em trinta anos de carreira.
— Thomas! — Maya sibilou, o braço mecânico zumbindo em sobrecarga, as luzes azuis refletindo no suor do seu rosto.
Thomas, com o rosto vermelho pela falta de ar, fixou o olhar no de Maya. Ele não entrou em pânico. No meio da agonia, os seus olhos azuis começaram a piscar de forma rítmica e frenética.
Ponto. Ponto. Traço. Ponto.
Maya, através do seu visor tático, decodificou a mensagem em milésimos de segundo: "AXILA ESQUERDA. NÚCLEO EXPOSTO. ATIRA."
O problema era óbvio: para atingir aquele ponto, o projétil teria que passar a centímetros do pulmão de Thomas. Era uma margem de erro inexistente. Se ela falhasse por um milímetro, mataria o marido e o pai do seu filho.
O ciborgue soltou uma risada distorcida.
— O que você está esperando, sucata? Veja o seu legado morrer!
Richard percebeu a hesitação de Maya.
— Maya, não faça isso! É arriscado demais!
— Ele está pedindo, Richard! — Maya gritou, as lágrimas lutando para sair, mas a sua mão de metal estava firme como nunca. — Ele confia em mim!
Thomas deu um último olhar a Maya — um olhar que dizia: "Eu te amo. Confia no nosso aço."
Maya não usou o fuzil. Ela estendeu o seu braço mecânico. O novo sistema de interface neural permitia que ela disparasse um dardo de alta pressão integrado no pulso da prótese, carregado com a toxina de paralisia de Hadassa e envolto em uma ponta de tungstênio.
Ela respirou fundo; o tempo pareceu parar. Ela sentiu o movimento do bebê no seu ventre, como se ele também estivesse dando força a ela.
— Fogo Amigo — ela sussurrou.
O disparo foi quase silencioso. Um "vupt" de ar comprimido.
O dardo atravessou o espaço, roçando o tecido da farda de Thomas, cortando a pele do seu ombro por um fio de cabelo, e cravou-se profundamente na junção exposta da axila do ciborgue.
O monstro estacou. A luz vermelha no seu rosto piscou violentamente. A toxina de Hadassa, desenhada para fritar sistemas nervosos, começou a agir. O ciborgue soltou um rugido eletrônico agudo, os braços perderam a força e ele largou Thomas.
Thomas caiu no chão, tossindo e tentando recuperar o fôlego.
— AGORA, RICHARD! — gritou Maya.
Richard não hesitou. Ele descarregou o pente do seu fuzil no núcleo exposto do monstro, enquanto Maya avançava como um raio de titânio. Ela saltou sobre o ciborgue paralisado e, com um soco carregado com toda a energia cinética do seu braço, atravessou a placa de peito do monstro, arrancando o núcleo de energia central.
O laboratório foi mergulhado em silêncio quando o corpo metálico do protótipo de Vance caiu sem vida.
Maya correu para Thomas, caindo de joelhos ao seu lado. Ela usou a mão de carne para segurar o rosto dele, enquanto a mão de metal cortava as braçadeiras que o prendiam.
— Você é um idiota! Um idiota completo! — ela gritava entre soluços de alívio, beijando-o repetidamente.
Thomas, rouco e exausto, sorriu com aquele clássico sorriso torto.
— Eu disse... que a minha mira... era excelente. Mas a sua... a sua é assustadora, mulher.
Richard aproximou-se, colocando a mão no ombro de ambos, as lágrimas finalmente correndo livremente pelo rosto do veterano.
— Vamos sair daqui. A Hadassa vai me matar se eu demorar mais um minuto para te levar para casa, filho.
Thomas olhou para Maya, e depois para a mão dela que repousava no seu próprio ventre.
— Você sabia? — ele sussurrou.
— Eu soube no dia em que você desapareceu — Maya respondeu, encostando a testa na dele. — Ele vai ter o seu nome e a minha pontaria. Estamos ferrados, Lâfrer.
O FINAL: O Legado Inquebrável
Semanas depois, na mansão Lâfrer, o sol brilhava sobre o jardim. Thomas estava em uma cadeira de balanço, ainda em recuperação, mas com o anel de tungstênio de volta ao dedo. Maya estava ao seu lado, com o braço mecânico agora pintado com as cores da fundação, segurando uma xícara de café.
Hadassa e Richard observavam da varanda.
— Sabe, Richard — disse Hadassa, cruzando os braços com aquele tom irônico de sempre — eu acho que o General Vance ficaria furioso ao saber que o seu "projeto secreto" serviu apenas para unir ainda mais esta família.
— Ele nunca percebeu — Richard respondeu, abraçando a esposa — que o vidro pode ser frágil, mas quando é temperado pelo fogo e pelo amor de um Lâfrer... ele se torna mais forte do que qualquer aço.
O Legado continuava. E desta vez, a guerra tinha perdido.
FIM
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