O Jogo do Diferente
8 A decisão dos Kanasawa
Tatsuo limpou as mãos sujas de graxa, após finalizar os reparos de mais um carro de cliente da oficina. Apesar de a proposta daquele tal de Uda Takeru martelar em sua cabeça durante os últimos dias de forma ininterrupta, ele conseguia manter o foco no trabalho que desempenhava. Aliás, ele tinha que manter o foco, pois não poderia deixar que assuntos particulares interferissem em seu serviço.
Dois dias já se passaram desde aquela conversa na delegacia. Era hoje que ele, junto com Miiko, daria a resposta aos policiais.
Em casa, os dois irmãos mal abordavam o assunto. Um não queria pressionar o outro, mas sim retomar a vida, pois não poderiam ficar parados lamentando a perda de alguém querido. Guardariam, sim, com carinho, mas não poderiam parar de viver.
Entretanto, a decisão não dependia só dele. Claro que, como irmão mais velho, estava cônscio de que era responsável por Miiko, mas não poderia dar o veredito sem falar com ela. Os dois sempre dialogaram sobre tudo, e dialogariam sobre isso também.
Era assim que eles sempre se entendiam. E, naquela casa, eles tinham apenas um ao outro, estavam sempre prontos para um apoio mútuo em qualquer situação.
Entretanto, a questão envolvendo a irmã não era tão fácil assim de resolver. Qualquer que fosse a decisão a ser tomada, deveria ser levando em conta a opinião dela.
Era dessa forma que as coisas funcionavam entre eles.
*
Volta e meia se pegava olhando para a carteira ao lado, onde Eimi se sentava. Apesar disso, procurava buscar foco para conseguir voltar a acompanhar a aula, embora o clima não fosse mais o mesmo de tempos atrás.
Os colegas de classe pareciam ainda mais distantes do que o “normal”. Antes, não ligava muito para um afastamento assim, mas agora tinha uma sensação bastante estranha.
Antes, passava batida pelos outros, enquanto tinha laços de amizade com Eimi. Agora, não era isso, mas parecia que procuravam evita-la.
O que não deveria incomodá-la passava a incomodar.
Passavam perto dela, mas não lhe dirigiam a palavra. Antes, conversavam entre si e a ignoravam. Aliás, isso vinha desde que Eimi fora atacada naquele beco, naquele fatídico dia. Desde que sua amiga tentara voltar à sua rotina, percebeu certa insensibilidade dos demais, além de certa dose de maldade.
Talvez o afastamento de Eimi devesse ter sido mais prolongado, ela nunca esteve preparada para retornar para o convívio com outras pessoas. Já chegara a discutir com Aratani Shiori, a garota mais popular da classe, a fim de defender a Minazuki de fofocas e derivados.
Shiori sempre vira Eimi como uma ameaça à sua popularidade com os garotos e as garotas. E, após tudo o que ocorrera, passou a revelar o que realmente era. Uma garota que buscava manter seu status e se livrar de qualquer ameaça por qualquer meio.
Neste caso, tripudiando do sofrimento alheio e se aproveitando da fraqueza de outrem para mostrar sua superioridade.
― Escute aqui, Minazuki! – Miiko, ao voltar do banheiro, ouviu Shiori vociferar enquanto empurrava Eimi contra a parede do corredor perto do bebedouro. – Você não me engana com essa cara de coitadinha! Aposto que você não foi estuprada coisa nenhuma, e só está se fazendo de pobrezinha para ganhar atenção dos outros! Mas não vou deixar isso acontecer! Farei qualquer coisa para que você não consiga o que quer!
― Vai fazer o quê, por exemplo, Aratani?
Shiori largou Eimi, que continuava sem qualquer reação, para encarar Miiko com seus olhos negros penetrantes. Sorriu com ironia:
― Você verá, “Nise Burondo”! Darei meu golpe de misericórdia!
“Nise Burondo”... “Falsa Loira”, era como Aratani a chamava, encarando-a de forma desafiadora. Mostrava-se uma grande semeadora de intrigas, inventando coisas terríveis a respeito de Eimi, conseguindo colocar boa parte dos colegas de sala contra elas.
Aratani Shiori era um demônio disfarçado de anjo de luz, e conseguia, com suas amiguinhas, semear a discórdia e causar um clima bastante pesado na sala. E, até então, suportava a implicância que tinha com seus cabelos tingidos de loiro e com o fato de Eimi, até o ocorrido, ser tão querida.
Mas, desta vez, fora a gota d’água vê-la ameaçando sua amiga fragilizada! Por isso, deu um forte tapa no rosto da garota.
― Deixe a Eimi em paz! Você me enoja!
Depois daquele dia, Eimi abandonou a escola e ela, pela primeira vez na vida, enfrentou uma suspensão devido ao que fizera, após Aratani se fazer de vítima indefesa. E, claro, a escola chamou Tatsuo para busca-la. E, quando voltou da suspensão – dois dias depois – menos gente interagia com ela, que priorizava tentar ajudar sua amiga a sair daquela situação terrível na qual estava.
Em vão.
E agora, após o suicídio de Eimi, ela estava isolada. Estigmatizada. Segundo as más línguas – na verdade, a má língua de Aratani Shiori – Miiko atraía tendências suicidas. Primeiro, Katsuya Takehisa. Depois, Minazuki Eimi.
Ninguém queria ser o próximo. Um plano perfeito da garota popular da classe para tentar abalar a “Nise Burondo”.
Como se isso a abalasse tanto assim...
Além de prestar atenção às aulas, tinha outra coisa a pensar, uma decisão a tomar: se aceitaria ou não a proposta daquele cara, o tal de Uda Takeru.
― Kanasawa – o professor de matemática chamou sua atenção. – Venha resolver a equação que está no quadro.
Sob os olhares de toda a classe, ela foi até o quadro. Lançou um olhar desafiador a Shiori, pois saberia resolver aquele problema de cálculo...
... E saberia também qual seria a sua decisão, a ser compartilhada com Tatsuo.
*
― Claro que vou aí, Ryuhei! – Hiroji confirmou de forma jovial ao celular. – Assim que eu terminar meu trabalho aqui. Só estou esperando duas pessoas chegarem e depois vou aí. Dentro de uma hora estou aí no hospital.
O superintendente, ao se despedir do filho e encerrar a conversa, exibia um sorriso que há um bom tempo não aparecia em seu rosto. Um sorriso aliviado após dias tão complicados em sua vida pessoal.
Entretanto, ele não estava totalmente satisfeito. Depois da tentativa malsucedida de suicídio de Ryuhei, ele não tratava aquela investigação como apenas mais uma em sua longa carreira como detetive. E nem dava a ela a mesma relevância que a imprensa dava.
Tampouco dava a ela o frio tratamento dado de forma padronizada. Era impossível, pois, mesmo por pouco tempo – alguns dias, na verdade – estivera do outro lado... Do lado das famílias que perdiam seus filhos para a morte, provocada por um estúpido que queria brincar de shinigami.
Era questão de honra para a polícia agarrar o assassino, e era algo que lhe era vital... Evitar que mais famílias sentissem o que ele sentiu, mesmo que temporariamente.
E evitar que mais jovens morressem, como a vítima mais recente daquela onda de suicídios.
A porta de sua sala foi aberta por um policial, que anunciou os irmãos Kanasawa. Logo depois dos dois, entraram também Takeru e Ruriko, pois naquela sala haveria uma importante decisão a ser anunciada.
Tatsuo e Miiko se entreolharam, para depois encarar cada um dos demais. Após se sentarem nas cadeiras em frente à mesa do superintendente, os olhos de ambos recaíram novamente sobre Hiroji.
Coube ao Kanasawa mais velho anunciar:
― Superintendente Ohta, durante os dois últimos dias Miiko e eu amadurecemos nossa decisão. Pesamos os prós e os contras, levamos em conta os riscos e decidimos que vamos ajuda-los.
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