O Jogo do Desafio Duplo - Leonardo & Rhanylla
1 One do Leo - Um Passos Para Frente e Dez Para Trás
Notas iniciais
Nicolás riu e conversou de forma bem animada durante todo o trajeto desde o colégio até o condomínio onde morava junto com os melhores amigos, que eram seus vizinhos da frente desde que se entendera por gente, Vitor Gabriel e Mirella Hatada. Porém, chegar ao destino final e olhar para a porta do apartamento 221B fez com que o sorriso divertido sumisse de seu rosto e o velho sentimento de “bad” o dominasse.
— Boa sorte, Nico. — Mirella disse travando os dentes por saber do que se tratava a repentina expressão tristonha do mais alto dos três.
— Não preciso de sorte. — Ele respondeu em um tom de piada pouco convincente. — Preciso do Batman. O Batman do Ben Affleck.
— Relaxa, amigão. — Vitor abriu um sorriso encorajador. — Se a Dama de Ferro deixar você de castigo pra sempre mais mil dias, eu e a Mi já esquentamos o motor do Ford Anglia, é só passar um zap que a gente vai te resgatar na mesma hora.
Nicolás bufou um sorriso e balançou a cabeça de um lado para o outro. — Vocês são os melhores malucos que eu poderia ter de estimação.
— Sabemos disso. — Mirella riu e piscou para ele. — Também te amamos, cabeça de melão. Agora vai lá enfrentar a Lúcifa.
— E que a força esteja com você, Nico. — Vitor fez a expressão séria mais exagerada que conseguiu antes de ir para o próprio apartamento, sendo seguido de perto pela irmã e deixando o amigo para trás.
Respirando profundamente, Nicolás puxou a chave no bolso e destrancou a porta do 221B, trancando-a de volta ao passar.
— Mãe! Pai! Cheguei! — Exclamou alto, não gritando como sempre fazia, na esperança de que ninguém o ouvisse e pudesse apenas ir para o quarto pegar sua toalha para tomar um bom banho, depois almoçar e descansar um pouco antes de ir trabalhar.
— Nicolás Sánchez Oliveira. — Porém o tom firme e assustadoramente frio de sua mãe fez o resto de ânimo que tinha se esvair. — Venha aqui, por favor.
Suspirando com exasperação, o garoto baixou a cabeça e seguiu em direção à cozinha, de onde a voz vinha, arrastando os pés. — Senhora?
— Seu boletim chegou pelo correio esta manhã. Eu só gostaria de saber embaixo de que ponte você pretende morar quando seu pai e eu morrermos. — Raquel questionou com uma expressão dura enquanto jogava o papel e o envelope em cima da mesa. — Porque isso aqui tá uma vergonha.
— Qual é? — Nicolás se sentou a uma distância que considerava mais ou menos segura de sua mãe e pegou a lista de notas. — Eu nem fiquei de recuperação esse bimestre.
— Não, mas em compensação, não tirou uma nota sequer maior do que setenta e dois. — Ela apontou por fim deixando a frieza de lado e demonstrando toda sua irritação. — Sendo que em algumas matérias você já precisava inteirar nota do bimestre anterior e o próximo já é o último. Agora me explica que proeza o senhorzinho pretende fazer pra conseguir em dois meses uma pontuação que não alcançou em seis.
— A senhora fala isso, mas todos os anos eu me viro, não é? — Nico tentava parecer o mais calmo possível, embora cada palavra que saía de sua boca o fizesse sentir a morte mais próxima.
— Tá testando minha paciência, né moleque? — Raquel se levantou e virou de costas porque se continuasse a olhar para seu filho ficaria tentada a esganá-lo com a alça da própria mochila. — Eu só não tiro seu celular, videogame, televisão, internet ou qualquer bosta que possa te divertir, e te tranco no quarto com os livros porque você não tirou nenhuma nota abaixo de setenta. Seu pai iria te defender, eu o mataria e não quero você e a Núbia num orfanato. Mas... — Nesse momento, Nicolás moveu os lábios junto com a fala que já havia ouvido pelo menos um milhão de vezes antes. — Seria tão bom se tentasse agir mais como o Natanael. Na sua idade, o seu irmão já tinha ganhado três concursos de redação, chegado pertinho de ganhar uma olimpíada de matemática e sempre participava das atividades da escola. Até peça ele fez...
— Mãe, eu to morrendo de fome, passei o dia com essa roupa e daqui a pouco tenho que trabalhar. — Nicolás interrompeu passando ambas as mãos pelo cabelo mais longo do que sua família aprovava, sem paciência. — Podemos partir pra parte em que a senhora ameaça quebrar os meus dentes se minhas notas não melhorarem no próximo bimestre?
Poucos minutos depois, no apartamento da frente, o celular de Mirella vibrou ao lado de seu prato. Ela então largou o garfo e desbloqueou a tela para ler a mensagem.
“Mi, pode me emprestar um pouco de base? Não quero trabalhar com a marca dos cinco dedos da Dama de Ferro na cara.” – Cabeça de Melão ♥
“Eita! Kkkkkkkkkk Pode passar pra pegar. Preocupa não que aqui é só Produtos Ivone.” Respondeu com um sorrisinho de canto estampando o rosto.
“Vlw, xuxu.” – Cabeça de Melão ♥
“O pai e a mãe disseram que tem uma viajem de trabalho (cof cof sei cof) e só voltam no domingo, então eu e o Vi temos o ap. inteiro só pra gente por dois dias. Tá a fim de dormir aqui?”
“Já é. Depois do trampo vou direto praí.” – Cabeça de Melão ♥
“Beleza. Vamos chamar uns amigos pra comer besteira, ver uns filme.”
“Massa. Assim... Só por curiosidade... Cs vão chamar o Damian?” – Cabeça de Melão ♥
Mirella riu e mostrou a tela para seu irmão que deu um sorrisinho malicioso e pegou o próprio celular, enviando um “Hmmmmmmmmmmmmm” para Nicolás.
“Claro que vamos. Todo mundo tá na torcida pra esse ship se desenrolar de uma vez.”
“Que ship? Não tem essa de ship. A gente só tá se conhecendo ainda, tá bom? Vcs são muito chatos. Vou almoçar que eu ganho mais. Até a noite, seus otário.”
Os irmãos mandaram um áudio cantando “Damian eu te amo. Damian eu te amo sim. Quando estamos distantes, meu coração bate só por você.”. Ao que Nicolás respondeu com um emoji de dedo do meio, fazendo-os cair na gargalhada.
E Nico em seu apartamento sorria também. Aqueles dois eram completos idiotas, mas fazer o que se as melhores amizades são assim?
(...)
Um vento agradável perpassou a noite morna, fazendo com que Nicolás suspirasse e fechasse os olhos para apreciar melhor a sensação, em seguida os abriu para não esbarrar em ninguém enquanto caminhava. Poucos minutos depois cumprimentou o porteiro ao entrar no prédio e seguiu direto para o apartamento de seus melhores amigos.
— Bem-vindo de volta ao lar, kefalí peponioú. — Mirella se levantou do sofá cor vinho e fez uma reverência divertida ao vê-lo entrar com a chave “de emergência ou quando estiver a fim de vir aqui” que dera a ele sete meses antes.
— Qual é essa agora? — Questionou sorrindo antes de se virar para trancar a porta de novo.
— Grego. — Ela também sorriu, se jogando de volta no estofado.
— Mi, em quantas línguas exatamente você já chamou o Nico de cabeça de melão? — Vitor entrou na conversa, voltando da cozinha abrindo uma lata de Fanta Laranja.
— 16. Português, alemão, russo, espanhol, italiano, latim, búlgaro, tailandês, quenya, língua do p, libras, húngaro, francês, klingon, chinês e, por fim, grego. — Mirella contou com certo ar de orgulho.
— Você é doida. — Vitor riu tirando outro refrigerante do bolso e entregando-o para Nicolás. — To. Para tu.
— Valeu. — Agradeceu pegando a lata e sentando no chão, já que uma das regras da casa era não sentar nos sofás antes de tomar banho ao passar uma hora ou mais na rua. — E aí? Quem vocês chamaram pra reuniãozinha social?
— Caramba, acho que me esqueci de mandar mensagem pra galerinha que fiquei de chamar. — Mirella colocou uma das mãos na testa enquanto pegava a Coca-Cola Zero que seu irmão lhe estendeu ao sentar se acomodar ao lado dela. — Cê lembrou, Vi?
— Lembrei, mas você só me disse pra chamar o Damian. — Vitor respondeu com o tom mais fingido possível de inocência. — E pior que a gente vai ter que comprar a janta lá naquele lugar muito longe que a comida demora que só pra ficar pronta. Puxa, que pena.
— Puta merda! — Nicolás arregalou os olhos e se levantou em um salto tão rápido que seria perdido por um espectador que piscasse. — Vocês dois... Vocês vão... Vão me deixar aqui sozinho com o Damian!
— De nada. — Ambos disseram ao mesmo tempo, esbanjando sorrisinhos cínicos.
A cor pareceu desaparecer do rosto de Nico e seu cérebro não conseguia mais lembrar a maneira certa de respirar. — Não! Nós nunca ficamos sozinhos antes! Eu nem sei... Eu nem ao menos... Cancelem! Ainda dá tempo! Fazer isso em cima da hora desse jeito pode até ser mal educado, mas...
A intenção dos irmãos era prosseguir com a brincadeira por mais algum tempo, porém aquela reação colossalmente desesperada fez os irmãos Hatada caírem na gargalhada.
— A gente tá só brincando, cabeção. — Mirella disse após enxugar as lágrimas de riso dos contos dos olhos.
— A ideia até que seria boa, mas sabemos que você é muito frouxo pra topar. — Vitor completou depois de recuperar um pouco de fôlego. — Além do seu futuro namorado, vem a Karina, o Tarso, a Eliana, o Jotatê, o Jonas e a Lara.
— SEUS FILHOS DO FERDINAND COM A RACHEL! CRIAÇÕES DA DRA. COADY! — Nicolás gritou se sentindo ao mesmo tempo bravo e aliviado. — Nunca mais me assuntem assim! Na moral, eu preciso da bombinha de asma.
— Você nem tem asma, cabeça de melão.
— Não tinha, mas agora acho que tenho. — Respondeu colocando a mão sobre o peito de forma dramática. — Minha pressão caiu, estou morrendo.
— Deixa de ser fresco, viado. — Vitor riu, balançando a cabeça negativamente. — Foi só uma brincadeirinha. Termina seu refri aí pra ir tomar banho logo. A galera deve começar a chegar daqui a meia hora mais ou menos.
— Tá bom.
(...)
Depois de assistir Lisbela e o Prisioneiro e comer pizza, a turminha de adolescentes se divertia conversando e ouvindo a playlist de Mirella no Spotify. Ou observando a acirrada, mas nada emocionante partida de Speed Stacks que Nicolás e Jotatê jogavam mesinha de centro da sela dos Hatada.
— Rá! Buiatchaka! — Nico exclamou depois de vencer de novo. — 8.62 segundos. Na sua cara! Eu vou contar pros seus filhos e eles nunca vão respeitar você. Ahan, ahan, ahan!
— Desisto! — Jotatê respondeu cruzando os braços. — Como você consegue fazer isso, cara? Meu recorde nesse troço não passa dos 13.75 segundos.
— Não fica chateado, quando comecei também era um bosta. Melhora com o tempo.
— Ninguém diria isso te vendo jogar agora. — Damian entrou na conversa com um sorrisinho encantador enfeitando o rosto. — Já pensou em participar de competições ou algo mais profissional?
— E-eu já. — Nicolás tentou não parecer nervoso, mas não pode evitar levar as mãos ao cabelo para arrumá-lo melhor. — Só que pra começar a ganhar grana com Speed Stucks, a gente precisa investir primeiro. E minha mãe nunca ia me deixar fazer isso. No máximo, ela ia me deixar jogar bola se eu fosse bom, nenhum outro esporte a dona Raquel conseguiria levar a sério. Além do que, eu sou bom, não ótimo. Meu maior recorde foi 6.239 segundos, o mundial é de 4.813 segundos.
— Fala sério, você é super ágil. — Replicou gesticulando bastante com as mãos. — Eu acho de verdade que com um pouco de treino ficaria imbatível.
— Mesmo? Obrigado.
Jotatê percebeu o clima se formando ali e saiu de fininho para entrar na discussão de Jonas, Lara e Tarso sobre a Eleven ser ou não o Demogorgon e se deveria haver personagem LGBT na nova temporada de Stranger Things.
(...)
Por volta das onze e meia da noite, todos os convidados decidiram ir embora para não voltar para casa em um horário muito perigoso, então à meia noite os irmãos Hatada estavam sentados no sofá de três lugares assistindo Rick and Morty pela Netflix na Smart TV.
Nicolás saiu do banheiro cantarolando “É o poder, o mundo é de quem faz Realidade assusta todos tão normais Viu? Falei Depois não vem dizer que eu não avisei” vestido apenas com uma cueca boxer preta, e, enxugando seus cabelos com a toalha branca ao redor de seu pescoço, se acomodou no meio de seus dois amigos. — Nossa, eu comi naquela hora e já to cheio de fome de novo.
— Pior é que eu também. — Mirella respondeu bufando um sorriso. — Na moral, bora pedir outra pizza?
— Apoio. Inclusive, vou fazer isso agora mesmo. — Vitor puxou o celular no bolso e fez uma rápida ligação. — Prontinho. Chega em meia hora/ quarenta minutos. Mas vamos ao que interessa. Você, Lover Boy, ficou conversando por horas com o Damian essa noite, que só foi possível graças a nós, então queremos o relatório completo que temos direito.
— Não vou contar a conversa nos mínimos detalhes, até porque nem foi nada de mais de qualquer forma. — Nicolás começou a falar sem conseguir conter o sorriso. — Pra resumir, eu deixei de ser frouxo e o chamei pra sair. Vamos ao cinema no próximo sábado assistir It – A Coisa. Eu podia ter escolhido Kingsman – O Círculo Dourado, assim se fosse um encontro ruim, ia valer a pena só pelo Taran Egerton, mas tudo bem porque eu acho que vai ser bom sim. E, caso seja, ele já disse que gosta de filmes da Marvel e DC, então eu posso chamá-lo pra ver o Thor: Ragnarok e o filme da Liga da Justiça.
— Aeeeeeeeee, viaaaaaaaaaaado! — Vitor comemorou o abraçando só com um braço ao redor dos ombros e o chacoalhando. — Um passo pra frente, finalmente.
— É, só que hoje foi um passo pra frente no amor e dez pra trás na vida. Nunca que eu tive que tirar 95 pra passar. — Lamentou. — Se eu reprovar em física ou até mesmo se eu ficar de recuperação final, a Dama de Ferro arranca meu couro, faz uma farofa e me obriga a comer.
— Ué. Porque não pede ajuda do Damian? Ele é fera nisso. — Mirella sugeriu.
— Eu pensei nisso, mas acabei de criar coragem de chamá-lo pra sair, não quero que ele pense que só to fazendo isso pelas notas.
— Desencana, ele não vai pensar isso. — Vitor encorajou.
— Todo mundo sabe que ele é meio nerd, é bem capaz de isso acontecer ou de já ter acontecido. Prefiro não arriscar. — Nicolás sentenciou sério, porém logo em seguida suspirou e suavizou a expressão. — Quer saber, eu to feliz demais pra pensar nisso agora. Depois eu me viro, procuro umas vídeo aulas, dou em cima da professora ou qualquer coisa. Agora só quero aproveitar a sensação de saber que tenho um encontro com meu senpai.
— Tá certíssimo, cabeça de melão. Esse é um momento de alegria e muito amorzinho. — Mirella sorriu e o abraçou também por cima do braço de seu irmão.
— Por falar em amorzinho. — Nico sorriu sugestivo para Vitor. — Nem pense que eu não te vi também, conversando com a Karina. E misteriosamente os dois sumiram do meio da galera. De novo.
— Ah, cara. — O garoto fechou os olhos por alguns segundos e suspirou. — Eu acho que foi pedir ela em namoro.
E foi a vez de Nicolás o abraçar e chacoalhar enquanto Mirella cantarolava “vou ganhar uma cunhada, vou ganhar uma cunhada”.
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