O Jogo do Desafio Duplo - Ale & Leoa
1 One da Leoa - Por Siempre
Notas iniciais
Misma cantidad de palabras
Tema: decepción
Canción: Only told the moon-Camila Cabello
Personajes: Lexa, Ivánnia, Yeison

E mesmo depois de passar todo o caminho querendo virar para o outro lado e fugir para o mais longe possível, lá estava eu com a mão erguida para bater na única porta lilás no fim de um corredor de portas brancas na enorme mansão da família Prado. Ainda podia ouvir minha consciência gritando “vai pra casa, Lexa”, quando deixei que os nós de meus dedos encontrassem a madeira produzindo o som que chamou a atenção da noiva dentro do quarto.
Então Ivánnia surgiu inundando minha visão com sua beleza, e a vontade que eu já tinha de me estapear por estar ali triplicou de tamanho, pois ela estava ainda mais magnifica do que na última vez que nos encontramos.
O vestido branco marcava lindamente a cintura fina e os seios fartos, porém era solto na parte de baixo e chegava apenas até os joelhos, deixando bem visível que ao invés dos sapatos salto alto que se espera que uma mulher use em seu casamento, um par de all stars também brancos cobria seus pés. No rosto uma maquiagem simples e elegante parecia fazê-la brilhar. E nada daquilo era pra mim.
— Lexa. — Ela sussurrou assim que conseguiu encontrar a voz.
— Oi, Iv. — Respondi erguendo o canto esquerdo de meus lábios, o que foi o máximo que pude me forçar a fazer.
— Você veio. — E aos poucos surgia ele, o maldito sorriso que abalava completamente o meu emocional. — Nem imagina como eu me sinto agora.
— Não se empolgue tanto, não vou ficar pra cerimônia. — Anunciei enquanto entrava no quarto e sentava na cama onde passei muitas noites de minha adolescência quando Ivánnia fazia suas “festas do pijama para duas”. — Só achei que como melhor amiga, se é que ainda eu sou, era obrigação minha vir te desejar sorte no futuro. E toda a felicidade que merece.
— Pra ser sincera, eu não sei se “a felicidade que mereço” é algo bom ou ruim. — Seu sorriso vacilou por um segundo, porém continuou ali para testar meu autocontrole. — Mesmo assim, obrigada. Significa muito pra mim. E você sabe que sempre vai ser minha melhor amiga.
— “Pra sempre” é um tempo longo demais, não acha?
— Muitas vezes sim, mas nesse caso acredito que não.
Uma risada curta e parcialmente irônica escapou de meus lábios por um instante no qual desviei o olhar para o chão, porém logo voltei a mirá-la. — Vamos mudar de assunto, ok? Como se sente estando prestes a se casar?
— Fora as duzentas e cinquenta e sete mil seiscentas e treze borboletas voando dentro do meu estômago, me sinto bem.
— Está feliz?
— Sim. — Dessa vez, quando seu sorriso vacilou foi tão rápido que eu sequer teria notado se não prestasse tanta atenção quanto prestava, e logo em seguida os olhos cor de noite brilharam como estrelas. — Claro. É o meu casamento.
— Ótimo. Sendo assim também fico feliz por você, Iv. — Respondi sorrindo de volta. — Meus parabéns.
— Sei que está sendo sincera, mas os seus olhos... Eles estão transbordando decepção, Lexa. — Pois é, intimidade é uma droga, né? Depois de tudo que passamos, Ivánnia Prado me conhecia muito bem, até demais. — Me desculpe. Eu o amo.
— Acha que estou decepcionada porque está se casando? — Levantei da cama e me aproximei de Iv. — Yeison é um homem maravilhoso e eu espero de verdade que vocês sejam muito felizes juntos. Só... Nós somos amigas há mais de uma década, se você não me amava, deveria ter me deixado ir ao invés de me fazer suportar...
— Mas eu te amava, Lexa. E-eu ainda amo.
— Não. Não mesmo. — Um riso raivoso me subiu a garganta, meus olhos arderam por lágrimas que não deixei cair. — Sabe como doeu? Todas as vezes em que fingi estar dormindo enquanto você saia do meu quarto de fininho e eu sabia que você ia voltar pra sua vida pacata com ele. As festas das nossas famílias em que eu tinha que assistir o perfeito casalzinho e agir como se fôssemos só amigas.
— Lexa...
— Você começou o assunto, Iv. Me deixa falar.
— Desculpa. — Ela recolheu os ombros parecendo frágil, o que me fez querer abraçá-la. Quis me estapear por não poder controlar esse instinto de proteção por ela, então ri mais.
— Acho que a culpa foi minha também. — Estava mais difícil manter o choro preso, mas era como uma questão de honra pra mim me manter firme. — Sempre que decidia me afastar, eu te avisava repetindo mentalmente o discurso que “você merecia saber”. E no fundo eu sabia que você ia me persuadir a ficar, mas como a idiota apaixonada que sempre fui por, tinha esperanças de que ou você escolheria ficar comigo ou me deixaria ir. Rs, que imbecil. Foram quase quatro anos desde o começo de tudo até a metade do seu noivado e você nunca me deixou ir, nunca considerou que eu podia estar morrendo por dentro toda vez que escolhia permanecer nessa. Se eu não tivesse fugido, estaríamos nessa até hoje provavelmente.
— Não fui má por querer, ok? — Ela suspirou, duas vezes, estava tentando não chorar também. — Eu te feri e traí a confiança do Yeison, sendo que vocês dois são quem mais amo no mundo. Não consegui escolher. Fui fraca, confesso. Brinquei com suas vidas e sinto muito, muito mesmo. Mas não aja como se tivesse sido fácil pra mim, porque não foi. E não é.
— Parabéns, Iv. Depois de tantos anos você consegue falar sobre sentimentos. — Bati palmas e sorri irônica antes de perceber o que estava fazendo. — Droga, esse sem dúvida é o pior momento que eu poderia escolher pra ter essa conversa. Desculpa, Iv. Mas... Já que nós falamos e eu sei seu ponto de vista, vou facilitar pra você. — Enxuguei a lágrima solitária que conseguiu me escapar e caminhei com calma até ela, depositando um beijo demorado em sua testa. — Adeus, Iv.
Sem esperar sua resposta, saí dali praticamente correndo. Queria ir direto pra rua, se não fosse o azar de encontrar Yeison bem no pé da escada.
— Lexa. — Murmurou surpreso e abriu um sorriso radiante. — Nossa, não te vejo há o que? Uns cinco, talvez seis meses? Você está linda, mas não parece muito bem. Que um copo d’água? — Sua gentileza apenas me fazia sentir pior.
— Impressão sua. Só recebi uma ligação urgente e não vou poder ficar pra cerimônia.
— Uh, que pena. — Seu sorriso diminuiu um pouco e ainda assim continuava radiante, provavelmente por ser o dia de seu casamento. — Quem sabe possamos marcar um jantar quando Ivánnia e eu voltarmos da lua de mel. Chamamos...
— Sim, claro. — Cortei-o querendo fugir de uma vez. — Estou com um pouco de pressa agora, mas te mando uma mensagem depois acertando tudo. Felicidades e parabéns, Yeison. Você merece tudo de melhor nessa vida.
— Obrigado, Lexa. Você também.
Sorri amarelo e saí dali apressada, a pé. Poderia pegar um táxi como fiz para chegar ali, mas andar me ajudaria a espairecer a cabeça. Passei em uma loja de conveniência de um posto de gasolina que ficava entre a casa de Iv e o apartamento de meus pais, comprei um maço de cigarros mentolados e segui até uma pracinha onde ia muito quando era criança. Uma garrafa de bebida seria mais apropriada para a ocasião, mas infelizmente sempre que eu bebia fazia alguma idiotice.
Então fiquei por algum tempo, sentada em um dos balanços, fumando. Iv só passou a morar no bairro aos 12 anos de idade, ficamos amigas aos 13 e inseparáveis aos 14. Óbvio que nessa época eu já não gostava de parquinho de praça e não havia nada ali que remetesse a alguma lembrança dela. Entretanto, o gosto do cigarro me fazia lembrar que passei a fumar apenas mentolados porque ela odiava o cheiro dos comuns. Ou seja, mesmo longe de meus olhos, minha mente continuava inundada dela.
“Se eu estivesse em um telhado poderia fazer minha própria versão de um clipe pra Only Told The Moon” comentei em pensamento me causando uma risada, um sabor salgado se misturando ao mentol denunciando meu choro. Será que estava chorando há muito tempo?
Talvez eu estivesse certa no meio daquela conversa movida por emoções em excesso. Talvez boa parte da culpa pertencesse a mim. Afinal, eu era metade de um “nós”. Bom, eu era ao menos um terço. A verdade é que não devo pensar nisso. Ou devo por uns tempos bem longe de Yeison e Ivánnia, me recompor e voltar. Não sei bem se estou decepcionada com ela, comigo ou sei lá.
E se eu descobrir e lidar com isso, colocar minha cabeça no lugar... Eu sei, vou amá-la para sempre, somos melhores amigas. E vamos ser por todos os dias de nossas vidas. Eu só preciso me resolver com o que não pode ser real, conhecer alguém legal por aí e quando eu voltar, não vai ser mais estranho. Posso ser feliz e me sentir bem com a felicidade dela. Quero isso mais que qualquer outra coisa.
Traguei uma última vez e joguei o cigarro no chão, apagando-o com a sola do sapato, ergui meu corpo e arrumei o vestido. Ou tentei já que estava muito amarrotado. Enfim. Dei um passo à frente e foi apenas o primeiro para seguir em frente.
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