O Inverso da Dor
3 Capítulo 3: Sensação de pertencimento
No outro dia, June foi até o hospital, onde Lucy já estava pronta a sua espera, e bastante animada.
- E então... Vamos?
- Dormiu bem, Lucy?
- Muito bem. E você?
- Na verdade... pensei muito em você. — disse levemente constrangida ao ouvir suas próprias palavras.
Lucy não entendeu exatamente a resposta da moça, que provavelmente também não entendeu o que disse.
As palavras simplesmente saíram de sua boca, sem nenhuma autorização prévia.
Entretanto uma coisa era fato, as duas se sentiram bem com esse comentário, cada um a seu modo.
Lucy se sentiu aliviada, já que compreendeu perfeitamente o pensar muito nela, pois tinha acontecido o mesmo com ela. Desde que tinha sido tocada por ela na academia, sentia-se extremamente confusa com relação as suas sensações. Diante dela, tudo mudava. Ganhava mais cor. Ela sorria, mesmo que sem querer, e adorava ficar observando a outra, em silêncio.
***************
15 minutos mais tarde, June parou o seu carro em frente à casa de Lucy.
As duas se entreolharam, confusas.
Elas não queriam se afastar.
Queriam permanecer juntas...
- Você não quer subir?
- Eu...
- Claro que não, você deve ter um compromisso — adiantou-se na própria recusa, envergonhada pelo convite.
- Na verdade não, hoje não tenho aula.
- Você faz faculdade?
- Sim, Direito. E você?
- Jornalismo.
June sorriu, radiante.
Acabava de conhecer Lucy melhor, e tinha certeza que ainda saberia muito mais coisa sobre ela.
- Bom, se realmente não for incômodo, eu até aceito subir.
June subiu até a casa de Lucy. Sentia como se precisasse de mais tempo com ela, como se precisasse de ar para respirar. Seus sentidos ainda lhe pareciam confusos, porém ela começava a perceber a estranha influência que o olhar de Lucy proporcionava em seu corpo.
Sentia que a garota era uma peça fundamental em sua vida, embora nao soubesse o porque.
Lucy morava num apartamento sem elevador e June, ao perceber que a outra teria de subir a escada com o pé machucado, parou-a no primeiro degrau com seu próprio braço, e olhou-a docemente.
- Não... Você não pode...
Lucy sorriu. Ela gostava da preocupação da garota. Era tão fofa.
E estranhamente, ela lhe fazia se sentir tão especial, tão amada.
Não conseguia entender ao certo o porque, simplesmente sentia.
E já tinha se acostumado a não se preocupar com a estranheza da situação.
Simplesmente se deixaria levar.
Sem mais uma palavra, June pegou a menina em seus braços, que ruborizou violentamente ao ter a sensação de ser carregada pela futura advogada. Mesmo envergonhada, Lucy não pôde evitar olhar nos olhos de June que lhe inspirava uma grande tranqüilidade.
- Incrível. - exclamou, impressionada pelo carinho que nutria pela outra.
- O que, June?
- Não sei, eu sinto como se tivesse que protegê-la... Isso tá me consumindo... desde ontem... Não consegui parar de pensar nisso... a noite toda... — falava pausadamente, evidenciando uma grande angústia em sua voz.
Lucy mordeu os lábios, sentiu algo estranho ao ouvi-la dizer essas palavras. Sensação de que já havia ouvido as mesmas palavras antes.
Ao chegar no apartamento, June a carregou até o sofá mais próximo, e largou-a cuidadosamente de seus braços.
Com as faces próximas, as duas se entreolharam profundamente.
Lucy sentiu pela primeira vez uma forte vontade de beijá-la, o que fez assustar-se por um momento.
Lucy se afastou bruscamente.
June sentiu a reação súbita da outra, e se preocupou.
June sentou-se no sofá, ao lado da moça, que virou de frente para ela.
Precisava lhe dizer uma coisa.
- O que foi?
A voz da garota lhe acalmou, imediatamente, sem precisar de grandes esforços.
Lucy sentia-se vulnerável perto de June, mas definitivamente feliz. Completa.
- E-Eu... Eu deixei cair o aparelho... por que... — disse muito nervosa, tentando achar palavras que explicassem o que ela estava sentiu no momento em que a conheceu.
June lhe encarava com uma expressão preocupada, mas ainda de forma sedutoramente gentil.
- Não sei, você faz com que eu me sinta...
O olhar de June não mudara.
Ela imaginou o que a outra iria dizer.
Sentia o mesmo...
E já não parecia mais estar preocupada.
- Vulnerável.
Lucy insistia em encarar o olhar de June, que lhe inspirava tanta coragem e desejo.
June pegou no cabelo de Lucy, que ruborizou instantaneamente.
- Eu também... sinto isso.
- V-você? — embora já soubesse, lá no fundo, ainda se sentiu surpreendida.
June foi se aproximando do rosto de Lucy, enquanto sussurrava uma resposta.
- Sim.
Seus lábios se entreabriram para receber um ao outro.
Era quase instintivo, mas definitivamente apaixonado.
As sensações de June e Lucy se misturaram, e elas apenas sentiam uma grande necessidade de permanecer naquele momento.
Elas sentiam como se aquele momento fosse a continuação de um outro de muito tempo atrás.
Como se algo tivesse errado, e agora fosse a oportunidade de fazer dar certo.
O sentimento era muito forte e latente, como se elas entrassem em contato com uma sensação até então adormecida.
Esperaram muito tempo por um reencontro, podiam sentir isso.
Embora não soubessem de nada, podiam sentir tudo.
Não tinham idéia do que seria aquilo, mas apenas não podiam deixar de sentir aquela sensação.
Queriam continuar, queriam pertencer uma a outra.
E, na verdade, elas sentiam como se já pertencessem, desde que se conheceram.
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