O Inverno Deve Esperar

1 Capítulo 1: O Cavaleiro no Corcel Negro.


Notas iniciais
"I never knew perfection 'til
I heard you speak, and now it kills me
Just to hear you say the simple things
Now waking up is hard to do
And sleeping's impossible too
Everything's reminding me of you
What can I do?"
Better That We Break - Maroon 5

Faz frio. Está chovendo. Feliciano está ofegante. As árvores se mexem com o vento e ele não deveria estar do lado de fora de casa, não quando o Inverno parecia chegar com tanta força. Mas, espere, espere, por favor. O Inverno não pode começar ainda, porque se começar...

Se começar, ele irá embora. Ele irá embora e Feliciano não terá dito nada, então, dona Mãe Natureza, espere um pouco, está bem? Só mais alguns dias, uma semana talvez.

Mas não, ali, do lado de fora da casa, aliás, bem longe da sua casa, fica observando a entrada da mansão onde tudo acontecera alguns meses antes. A mesma mansão onde acontecera aquele baile, a mesma mansão que ele viria a querer visitar todos os dias apenas...

Apenas para vê-lo. Mais uma vez. E mais uma vez e mais uma vez. E sem nunca saber o porquê desta vontade insana. E ali, parado do lado de fora das suas altas cercas de ferro, observando a carruagem ser carregada com malas e tudo o mais, ele o viu.

Os cabelos loiros, a postura ereta, alto, imponente. Vestia um grande sobretudo preto e parecia não se importar com as chuvas. Segurava uma cartola numa das mãos, enluvadas, e na mão seguinte tinha uma maleta. Estava indo embora. E estava tão distante que provavelmente não veria Feliciano a lhe observar de tão longe, este último com as roupas completamente coladas ao corpo. Ele iria embora e não o ouviria gritar, porque a chuva se tornava cada vez mais forte e mais barulhenta. Abafaria sua voz como um velho chamando por ajuda no leito de morte.

Se o Inverno esperasse um pouco, aquele homem que agora subia na carruagem não teria que partir tão cedo. Se o Inverno esperasse apenas um pouco, só um pouco, Feliciano poderia dizer tudo aquilo que quis ter dito quem sabe desde o começo.

Mas a carruagem começa a andar então, puxada por enormes corcéis negros que relincham em protesto ao frio da chuva, comandados por um cocheiro que os chicoteia sem piedade. Ainda há tempo, mesmo que o Inverno não espere. Ainda há tempo, ainda há esperando, mas a medida que a carruagem segue até a saída da propriedade, ele se torna cada vez mais distante.

E na chuva, ela parece se perder, se distanciar ainda mais, a parecer não passar de apenas uma ilusão mas mesmo assim, mesmo assim Feliciano corre com força, corre atrás da bendita carruagem como se sua vida dependesse daquilo, não, não sua vida, mas sim sua felicidade.

Mas a carruagem se torna cada vez mais distante, e ele não parece conseguir alcançá-la. O desespero bate, assim como o medo e o frio, mas então, por um milagre quem sabe, a carruagem para. Feliciano continua a correr, ele precisa alcançá-la a todo custo, e alcança e dela desce o mesmo homem que esteve em seus sonhos tantas vezes nos últimos meses, o mesmo homem que também lhe tirou o sono de várias noites, o mesmo homem que agora tirava a cartola da cabeça para enxergar melhor o que vinha em sua direção.

Ele parece ter algo importante para dizer, agora que encontrou Feliciano. E Feliciano também tem algo importante para dizer. Mas são coisas totalmente opostas, deve ser ressaltado, mas para explicar isso, devemos começar por meses anteriores, quando ainda era o final do verão/começo do outono ali, no condado de Birmingham.

Feliciano vinha de uma família rica e morava numa mansão ao oeste de Birmingham com seus pais e seu irmão mais velho. Os irmãos passavam a maior parte do tempo vistando Londres e as cidades mais próximas do condado, evitando todo e qualquer convite para bailes. Até que Lovino, irmão mais velho de Feliciano, se casou e foi morar fora, deixando o irmão sozinho. Depois disso, seus pais, para que a família não fosse alvo de boatos maldosos, começaram a obrigar o filho mais novo a frequentar todos os bailes possíveis numa esperança que ele encontrasse uma jovem para se casar.

Mas Feliciano geralmente fugia para Londres bem em cima da data, mas não daquela vez. Novamente, estavam entre o final do verão e o começo do outono.

-Eu não quero ir! Nunca tem nada para fazer nesses bailes chatos!-Exclamou, os olhos castanhos implorando para sair da carruagem que agora ia em direção ao baile, e junto com ele, seu pai, Mr. Vargas, e sua mãe, Mrs. Vargas, permaneciam neutros.-Papai! Mamãe! Não é justo!

-Comporte-se, Feliciano. Você já é um rapaz, e precisa arranjar uma noiva.-Sua mãe disse, o vestido fino lhe deixando com uma aparência mais velha do que tinha.-Além de que sabe que há uma razão especial desta vez.

Seu pai apenas assentiu. Não era um homem muito aberto, bastante diferente do pai, o Mr. Vargas anterior, avô de Feliciano, conhecido em todo o condado e até em Londres por sua fama de beberrão e festejador.

Feliciano suspirou, vendo a paisagem passar do lado de fora da carruagem. Detestava bailes, era tudo muito previsível e só havia interesse por trás das conversas, mas mesmo assim, perguntou:

-Que razão especial?

-Fomos convidados exclusivamente pelos Weillschmidt, Feliciano. Nós fomos os primeiros a serem convidados, e diante de tal demonstração de polidez, já que somos os vizinhos mais próximos deles, não podíamos vir sem um dos membros da família, ou seja, você.

-Eu sei, eu sei... Mas não tem mais nada?

-Ao que tudo indica, parece que o filho mais novo deles acabou de voltar do exterior, e estão fazendo um baile para comemorar, mas eles não comentaram muito.

-Ah... É, o Gilbert tinha dito que tinha um irmão, mas ele não falou muito no assunto...-Feliciano murmurou. O filho mais velho da família que organizava o baile, Gilbert Weillschmidt, era um amigo próximo de Feliciano e, depois que Lovino se casara, era seu principal acompanhante nas idas à Londres.-Aliás, acho que ele não disse quase nada.

-Provavelmente estavam fazendo segredo, e dessa forma, a festa poderia ter um impacto maior. Não acha, Mr. Vargas?

-Ah, sim, minha querida.-O patriarca da família disse, parecendo perdido em pensamentos também.

Os próximos trinta minutos se passaram vagamente, até que a carruagem parou em frente a cerca de ferro adornado que demarcava todo o jardim da frente, laterais e dos fundos da propriedade dos Weillschmidt. Outras carruagens também poderiam ser vistas ali próximo. Mr, Mrs Vargas e o filho desceram e foram convidados a adentrar a propriedade por um educado criado.

O jardim era enorme, repleto de flores das espécies e colorações mais variadas, de cores vibrantes e chamativas, com um lago artificial no meio, onde tinham patos e peixes para parecer mais natural. Logo subiam as escadarias e viam-se entrando no enorme hall de entrada da mansão, o chão de mármore polido, repleto de famílias ali presentes conversando amigavelmente entre si.

Feliciano bufou. Não gostava muito de lugares assim, as conversas eram sempre chatas demais. Os Vargas caminharam pelo salão, cumprimentando os convidados que conheciam e sendo simpáticos com os que desconheciam.

-Hey, Feliciano!-O Vargas mais jovem ouve uma voz um tanto rouca lhe chamar, reconhecendo de imediato e virando-se para cumprimentar o filho mais velho dos Weillschmidt.

-Gilbert!

-Fico feliz que tenha vido! Achei mesmo que fosse fugir pra Londres ou ficar em casa na última hora, mas olha, seus pais conseguiram te arrastar, huh?! E tudo isso pra ver o orgulho da família!

-Hã? É seu aniversário?

-Não, Feli, não sou eu o orgulho da família...-Gilbert riu alto, quase se engasgando, a risada mais espontânea e diferente que Feliciano e os convidados tinham a oportunidade de ouvir.-Com certeza eu jamais serei o orgulho da família, Feli. Eu estava falando do mein bruder! Ele voltou uns dias atrás! Tão grande e quase tão incrível quanto eu!

-Seu irmão? Quem?

-Ah, ele vai aparecer logo...-Gilbert sorriu, puxando Feliciano para um dos cantos.-Você vai gostar dele, é um cara legal! Da minha família, claro, o sangue mais incrível de todos corre nas veias dele também, mas enfim, vocês serão amigos, estou prevendo... Ah, e Maria está aqui também, se quiser saber.

-Quem...?!

-Maria, imbecil.-Gilbert murmurou, agora ambos num dos cantos do salão, mais afastados dos demais convidados.-Os pais dela ainda estão com um pouco de raiva de você, mas estão dispostos a lhe dar... Uma segunda chance.

-M-Mas...!

Mas antes que Feliciano pudesse reclamar sobre mais alguma coisa, a música parou e um dos empregados chamou a atenção de todos ali, batendo palmas insistentemente. Gilbert riu e puxou Feliciano mais para perto das grandes escadarias no meio do Hall, misturando-se a todos os convidados.

-Ladies and Gentlemen, eu apresento a vocês...

-Por que tudo isso, Gilbert? Eu ainda não entendo...-Feliciano murmurou para o amigo.

-Oras, por quê? Ele voltou, Feli... Além de que hoje também é o aniversário dele.-Gilbert riu, os olhos sobre o topo das escadarias.-Mas ele não gosta de receber parabéns, então só quem sabe disso somos nós.

Que tipo de pessoa não gostaria de fazer aniversário? Feliciano franziu o cenho, sem entender como alguém poderia não gostar daquilo. Mas uma vez que o criado fez todas as apresentações, uma pessoa surgiu no topo das escadarias.

Ombros largos, alto, maxilar quadrado, postura ereta, olhar altivo. E azul. Tão puramente azul que mesmo de longe era possível perceber aquele tom, quase como um farol brilhante no meio de uma tempestade. Os cabelos loiros puxados para trás, as roupas finamente costuradas, as luvas negras. O rosto era bonito, sem muitas imperfeições, e deveria ter menos de 30 anos mas mais de 23. Era um... Homem muito bonito, com porte e elegância, mas...

-Olha, Feli! O Lud! Até parece que o moleque um dia foi menor do que eu!-Gilbert riu, o olhar sobre o irmão mais novo que agora descia as escadarias lentamente, cumprimentando os demais convidados, e uma vez que a música voltou a tocar, todos voltaram a fazer as rodas de conversa.

Mas... Aquele homem... Parecia um tanto frio. Distante, infeliz, o que fosse. Frio. Como gelo, como a cor do olhos.

-Hey, Lud! Vem cá, quero apresentar alguém pra você!-Gilbert exclamou para o irmão mais novo.-Feli, este é Ludwig, meu irmãozinho, e Lud, este é o Feliciano Vargas, meu amigo e nosso vizinho.

-É um prazer conhecê-lo.-O homem loiro, Ludwig, disse, estendendo uma das mãos enluvadas com uma educação que beirava a frieza. Feliciano voltou a franzir o cenho, mas melhorou a expressão trocando a mesma por um sorriso mais simpático, apertando a mão estendida.

-Igualmente, Mr. Weillschmidt.-Disse, ainda sorrindo.

-Ah, qualé, Mr. Weillschmidt não... Chama o Lud de Ludwig mesmo, ele não se importa, não é, Lud?-Gilbert perguntou, rindo, dando uns tapinhas nas costas do irmão mais novo.-Ah, vou ali pegar alguma coisa pra beber, me esperem um pouco.

E dizendo isso, Gilbert os deixou sozinhos, o que fez um silêncio constrangedor surgir no ar. Feliciano não ousava começar uma conversa porque não conhecia Ludwig, e temia dizer algo que pudesse desagradá-lo, e Ludwig... Simplesmente olhava para todo lugar menos para Feliciano, este último não deixando de notar isso. Estaria ele com raiva de alguma coisa? Tinha dito algo errado?

-Está gostando de Birmingham?-Perguntou Feliciano então, as mãos nos bolsos.

-Sim.-O loiro respondeu apenas, ainda sem olhar para o menor e mais jovem, que voltou a franzir o cenho. Ele não precisava ser tão rude assim a ponto de falar com uma pessoa e nem sequer olhá-la nos olhos.

-E o que... Você acha do clima?-Resolveu perguntar novamente, a voz com um tom um tanto mais incisivo. Feliciano era amigável com todas as pessoas que lhe conheciam, claro, mas tinha sangue italiano correndo nas veias e não suportava ser mal tratado por ninguém que fosse, e ser ignorado daquela forma certamente não era do seu agrado.

-Bom.-Ludwig respondeu, e até movimentou a cabeça, e quando Feliciano achou que era justamente para lhe olhar nos olhos, nada. O filho mais novo do Weillschmidt simplesmente virou o rosto para outro lado e cruzou os braços, se afastando um passo e então, indo embora sem falar nada.

O que tinha acontecido ali, pelos céus?! Feliciano levou uma das mãos até a boca, cheirando o próprio hálito. Não estava ruim, e as roupas cheiravam à perfume. Não tinha sido mal-educado e nem grosso, tinha?

Gilbert se aproximou com uma taça de vinho em cada mão.

-Ué, cadê o Lud, Feli?-Ele perguntou, entregando uma das taças ao outro.

-Eu sei lá... Ele... Simplesmente foi embora quando eu tentei conversar.-Feliciano respondeu, tomando um gole longo.

-Hm... Bem, ele é um pouco desajeitado, mas ele é um cara legal.-Gilbert sorriu.

O baile correu de forma calma e agradável, com música soando animadamente, danças no meio do salão e comidas e bebidas sendo servidas a gosto. Realmente agradável, Feliciano tinha que admitir. O problema foi quando este mesmo baile estava chegando ao final e as famílias iam embora aos poucos.

Os Vargas foram um dos primeiros a partirem, visto que Mrs. Vargas estava com calos nos pés de tanto ficar em pé. Feliciano se aproximou de Gilbert para agradecer o convite, cumprir com as velhas formalidades e comentar sobre uma ou outra convidada que chamara sua atenção. Ludwig estava do lado do irmão, em silêncio, olhando para qualquer outro lugar que não fosse o mais jovem dos Vargas.

-Bem, Feli, você falou com a Maria?-Gilbert perguntou, cruzando os braços.

-N-Não... Mas os pais dela passaram todo o tempo conversando com os meus. Espero que isso não dê em nada ruim.-Feliciano respondeu, um tanto desconfortável.

-Você quer dizer “casamento”?

-É... Tanto faz. Se casar é um saco. Foi só Lovino se casar que ele já perdeu toda a graça! Mal sai de casa direito e tem aquela meretriz no pé dele o tempo todo...-Feliciano fez um muxoxo, fazendo Gilbert rir, este último dando tapinhas nas costas do amigo.

-Não fique assim, Feli, vai tudo dar certo. E você sempre pode se esconder aqui se quiser... Ou em Londres. Ah, Lud.-Gilbert chamou, atraindo a atenção do loiro que ainda tinha um olhar indiferente demais.-Feliciano está indo embora.

-Ótimo.-Ludwig respondeu, logo voltando a virar o rosto para longe enquanto Gilbert fazia uma careta com a grosseria do irmão e Feliciano franzia o cenho, mas o mais jovem dos Vargas estendeu uma das mãos então, disposto a deixar aquilo passar, embora ainda um tanto confuso.

-Lud, o que há com você, huh? Aperte a mão do Feli, vamos lá. Não vai doer!-Gilbert tentou intervir, ainda rindo, mas tudo o que Ludwig fez foi lançar um olhar sobre o mais jovem dos Vargas e sair, subindo as escadas e se afastandi para adentrar os recantos mais privados da mansão, deixando os dois amigos sem reação. Gilbert se virou para o amigo, com um sorriso amarelo.-Feli, desculpe o Lud... Ele é assim com gente que não conhece e...

Uma coisa era ser ignorado uma vez. Outra coisa era ser ignorado completamente duas vezes e ainda ser tratado com tanta grosseria. Novamente, Feliciano tinha o sangue latino nas veias, emoções a flor da pele, diferentes daqueles europeus nórdicos que lidavam uns com os outros apenas com indiretas. Não, Feliciano era a pessoa mais amável e simpática do mundo, mas ser maltratado daquele jeito era... Inaceitável.

Sendo assim, pegou a taça de vinho que segurava até aquele instante e jogou na direção do loiro que o tinha deixado tão furioso, e olhe que ver Feliciano furioso era tão raro quanto ver um fantasma naquela região. Haver, havia, mas era dificílimo de ver.

A taça não acertou o mais jovem dos Weillschmidt, mas todo o vinho que continha caiu exatamente em sua cabeça e roupas, fazendo-o se virar e procurar quem tinha feito aquilo.

-Quem sabe este vinho não adoce um pouco seu humor, Herr Weillschmidt.-Feliciano disse, cruzando os braços com pura ironia e sarcasmo enquanto todas as famílias ainda presentes olhavam dele para Ludwig, querendo descobrir o que aconteceu.

Mas o irmão mais novo de Gilbert apenas bufou e voltou a passar a mão pelos cabelos numa tentativa falha de tirar um pouco do vinho, voltando a rumar para dentro da mansão, como se Feliciano não significasse nada para ele.

Ah, e isso foi pior do que o pior dos socos.

-Ei, volta aqui, eu ainda não terminei com você!-Feliciano exclamou, sem obter resposta alguma enquanto Gilbert lhe segurava os ombros e Mr. e Mrs. se aproximavam.

O fato foi que naquela noite, na volta para a mansão dos Vargas, Feliciano foi altamente repreendido pelos pais por jogar vinho no “dono” da festa, apesar de todas as tentativas de se justificar. Gilbert relevou o fato, dizendo que se fosse com ele, teria feito o mesmo senão pior, e só não tinha realmente intercedido ali porque era aniversário do irmão mais novo e não queria estragar-lhe o dia.

Resultado? Mesmo assim, Feliciano ficou de castigo: Não poderia sair de Birmingham por um mês, e teria que pedir desculpas formais ao filho mais novo do Weillschmidt, então para isso ele escreveu uma carta e mandou que os criados entregassem. Horas depois, os mesmos criados voltaram dizendo que Mr. Ludwig Weillschmidt nem se importou em ler a carta, mesmo quando os criados disseram que era um pedido de desculpas.

-Agora chega! Ele é a pessoa mais rude que já conheci na face da Terra!-Exclamou Feliciano quando soube da carta, ficando irritado pelos dias que se seguiram e recusando-se a falar com os pais ou com qualquer outra pessoa, visto que também achava injusto que, após ser tão maltratado, ainda estivesse de castigo.

Ludwig Weillschmidt era grosso, rude, orgulhoso e ignorante! Era mal-educado e não merecia o sobrenome que tinha e tampouco todas as regalias que lhe eram dadas pelos pais! Ele nem olhara no rosto de Feliciano, uma vez sequer! O filho mais jovem dos Vargas não entendia tamanha aversão para consigo, e isso o irritava ainda mais.

E desde então, a cada vez que alguém citava o nome do mais jovem do Weillschmidt, Feliciano fazia uma cara feia e cruzava os braços, irritando-se. Faltavam ainda mais dois meses até o começo do Inverno, e quando o castigo acabou, a primeira coisa que Feliciano fez foi passar três dias seguidos em Londres.

Porém, quando estava cogitando em passar um quarto dia, um criado lhe entregou uma carta, informando que Lovino estava vindo passar uma semana em casa. Feliciano franziu o cenho, sem entender muito bem o motivo daquela visita inesperada, mas claro, voltou para casa, prevendo que era provável que seus pais o exilassem se não o fizesse.

-Feliciano, seu irmão está no jardim dos fundos, vá falar com ele.-Sua mãe ralhou assim que o filho mais novo dos Vargas chegou em casa, seguindo diretamente para tal jardim que, embora menor do que o da frente, era mais bem planejado e com mais flores e árvores, além de uma pequena mesa para tomar chá ao ar livre sob um salgueiro.

Lovino estava na parte mais distante do jardim, de braços cruzados como se estivesse esperando pelo irmão desde que chegara ali, e quando Feliciano se aproximou, o mais velho foi logo gesticulando, irritado.

-Feliciano! Idiota! Por que demorou tanto?!-Lovino exclamou, se aproximando do mais novo e lhe dando um tapa nas costas, sua forma de cumprimentar as pessoas mais próximas.

-Ouch, Lovino! Não precisa me bater, fratello... Eu estava em Londres, oras. Vim ser avisado que você vinha hoje de manhã... Alguma coisa aconteceu? Onde está sua...

-Noiva?! Há! Ela me deixou! Viajou há dois dias, fugiu com um dos criados, acredita?! O irmão dela veio falar comigo!-Lovino cuspiu no chão, ficando furioso, marchando na grama, dando voltas em torno do irmão mais novo.-Aquele é outro imbecil! Me ofereceu até dinheiro para que eu não fosse atrás delas porque ele a queria ver feliz! Que ele enfie essa felicidade no reto dele!

-Calma, fratello...!

-Calma uma ova! Eu estava dependendo do dinheiro da minha noiva, mas ela sumiu e levou tudo! Tudo! Não tenho mais um tostão, e como se não bastasse, além do dinheiro dela, ela levou o meu também! Acabou, Feliciano, eu perdi todo o meu dinheiro para aquela vadia!

-Lovino...

-Como vamos nos manter?! Nossos pais também contavam com esse dinheiro! Vamos ter que vender a mansão e nos mudar e trabalhar em Londres!

-Calma, Lovino, não é assim, nós vamos dar um jeito e...

-A não ser que... A não ser que você se casasse com aquela menina, como era o nome dela...? Maria! É, sim! Feliciano, você precisa se casar com ela! Aí todos nós estaremos a salvo! Eu sei que ela não é tão rica assim, mas o dote dela com certeza seria grande, e ela gosta de você, não é?!-Lovino sorriu como se tivesse a ideia mais brilhante de todas.

-Mas eu... Não quero casar...-Feliciano murmurou.

-Não tem essa de não querer casar! Ou você casa e salva a família ou se prepara para nos ver todos na lama! É isso que você quer?! Ver a mim e ao nossos pai na lama?! Feliciano, está na hora de crescer! Não existe essa de amor no casamento, idiota!

Feliciano mordeu um dos lábios, sem saber o que falar. É claro que ele não queria que a família ficasse na pior, mas tampouco queria se casar... Passar o resto da vida com alguém que não gostava era... Terrível. O mais jovem dos Vargas recuou alguns passos, deixando o irmão mais velho falando sozinho, entrando em casa e se trancando em seu quarto. Era abrir mão da sua felicidade ou da felicidade de todos ali.

Não conseguiu dormir naquela noite e nem na que veio, e recusou-se a deixar o quarto também. Lovino continuava lhe ameaçando de morte caso não saísse, mas apesar das tentativas, não conseguiu arrombar a porta. Os pais de Feliciano permaneceram em silêncio sobre o caso, visto que já tinham tomado uma certa decisão e a opinião do filho não importava o bastante para que o consultassem mesmo.

Foi então que veio a gota d'água num começo de tarde, uma semana depois que Lovino tinha chegado. Feliciano foi obrigado a sair do quarto sob um intimado que, caso não cedesse, iria passar mais um mês preso em casa. Lá fora ele já tinha ouvido o barulho de alguma carruagem chegando, mas não conseguira ver quem era, além do barulho insistente da chuva constante.

-Quem foi que chegou?-Perguntou ao criado que, para seu espanto, afirmou não saber. Feliciano parou no hall de entrada, encontrando seus pais e Lovino, este último com uma péssima expressão e de braços cruzados, mal-humorado como sempre.

As portas se abriram e, acompanhada de uma criada, surgiu Maria, filha de uma família rica do condado vizinho ao de Birmingham. Os vestidos finos, o perfume forte, as formas graciosas. Feliciano olhou para os pais com o cenho franzido, sem entender ou sem querer entender.

-Seja bem vinda, Mrs. Maria Bucharest!.-Mrs. Vargas cumprimentou a convidada, se aproximando e tomando-lhe as mãos de forma amigável, virando-se para o Vargas mais novo ali.-Feliciano, não vai cumprimentá-la?

-O que... O que está acontecendo aqui?-Perguntou, ainda franzindo o cenho.

-Oras...-Mrs. Vargas começou enquanto todos viam Maria abaixar a cabeça e corar de leve, dando um risinho baixo.-Você vai ser um cavalheiro, não vai? E passar uma tarde com esta dama?

-Para quê?-Feliciano voltou a perguntar, um tom de voz mais apreensivo enquanto recuava um passo.

-Para pedi-la em casamento, idiota!-Lovino exclamou, cansando de todo aquele lenga-lenga , chamando a atenção de todos no salão.

-Mas eu...-Feliciano tentou, mas os olhares que tinham passado para si não lhe permitiram soltar uma palavra sequer. O da mãe era repreendedor, duro, frio. O do pai era condescendente, não se importava, mas queria o bem da família. O de Lovino era irritado. O de Maria era constrangido. E o dele? Assustado, contrariado, um pouco irritado, mas esse era o menor sentimento naquele instante.

-Feliciano, ande, diga alguma coisa.-Mrs. Vargas ralhou, ainda ao lado da convidada.

-Eu... Eu...-Feliciano limpou a garganta. Era tanto peso em suas costas, costas essas que estavam desacostumadas a lidar com qualquer tipo de responsabilidade. Ele era jovem, tinha uma boa família, que preocupações haveria de ter? Nenhuma. E de repente, o bem estar de toda sua família lhe era jogado nas mãos. Uma escolha que na verdade não era escolha. Se ele se casasse, seria infeliz. Se não se casasse, seria infeliz e provavelmente expulso de casa.

Em ambos os casos, sua felicidade seria deixada de lado. O que fazer? O que fazer? O que fazer? Ele simplesmente não conseguia lidar com tanto peso de repente, o ar lhe faltava nos pulmões, e como todo e qualquer animal assustado que já não consegue raciocinar direito, a mercê do próprio instinto, ele fez apenas uma coisa: Fugiu.

Saiu correndo porta afora, querendo esquecer nem que fosse por alguns instantes as palavras duras dos pais e do irmão, querendo deixar aquele mundo, querendo escapar, voltar à mesma vida descompromissada de antes, querendo... Querendo...

Agora chovia mais forte. A chuva era tanta que poucos segundos bastaram para que Feliciano ficasse completamente encharcado, ignorando os gritos do irmãos mais velho atrás de si, se afastando mais e mais da casa, correndo sem rumo, apenas correndo e fugindo.

Passou pelo jardim e viu-se mergulhando nas colinas de grama alta, onde tropeçou várias vezes, mas quando caía, voltava a se levantar. Ninguém corria atrás dele, mas ele sentia que, se parasse de correr, toda aquela angústia o pegaria. Portanto, corria, caía, corria e caía novamente, as roupas pesando, manchando-as com lama, arrancando as solas dos finos e caros sapatos.

Não teve como saber quantas horas ele correu, mas quando finalmente caiu e não pôde mais se levantar por causa do estados das pernas e dos pés, o sol já estava se pondo, e a chuva continuava forte. Estava com febre, fraco, com frio, tremendo.

No meio da grama alta, ele quis ser apenas parte dela. Pelo menos não teria que lidar com aquele tipo de peso. A vista começou a rarear, o mundo começou a girar a sua volta, e ele sentia uma grande vontade de dormir.

Mas então... O som de cascos. Um relinchar alto de um cavalo negro que se aproximava, cujo cavaleiro estava envolto num sobretudo também negro, embora a pele fosse branca como mármore e os olhos, azuis como gelo. Mas quem quer que fosse, era quente, Feliciano pôde constatar isso, era quente, principalmente ao ser erguido nos braços dele, sobre o cavalo, e partir dali.

Como se tudo fosse apenas um pesadelo ou até um sonho.

Notas finais
Ok, cá está o primeiro capítulo. Acho que serão 3 no total, e pode ser que ainda nesta semana eu poste o que estão faltando. Parabéns mais uma vez, Giu ♥
Maroon 5 sempre me inspira nessas horas ♥
Ah,sobre os erros de digitação que eu SEI que tem: Digitei rápido demais nas últimas partes e não tive beta, porém, sintam-se livres para me dizer quaisquer erros que encontrarem.
Reviews?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.