O Intraduzível
1 O que pode ser traduzido
Às vezes, era inevitável pensar que os anos de faculdade foram, na verdade, anos desperdiçados. Passara 4 anos e meio estudando teorias de tradução e interpretação; práticas que pareciam infindáveis em cabines claustrofóbicas, estudo de ferramentas em busca do state-of-art... Tudo, para quê? Para acabar seguindo astros mimados e auto-centrados em turnês, eventos de fãs, aparições em TV. Além da jornada extenuante, tinha que lidar com humores instáveis de agentes e dos próprios "ídolos". Era escorraçada quando vacilava minimamente... Ainda dá tempo. Se eu sair agora, pegar o metrô das 18h, estarei em casa às 19h. Peço uma pizza e posso fingir que não acabei de arruinar minha carreira e com minha única fonte de renda. Ser uma assalariada só tem desvantagens, no meu ponto de vista. Então, é isso. Reanalisei as informações na ficha do contratante.
PAR LINGUÍSTICO: Coreano- Português Brasileiro (Possíveis interações em inglês)
CONTRATADA: Julee Nobre
CONTRATANTE: Kim Seok-woo
VIGÊNCIA DO CONTRATO: 01/03/2020- 09/03/2020
DESCRIÇÃO: Interpretação e acompanhamento do CONTRATANTE em atividades de cunho profissional e pessoal. Interpretação durante a testagem de equipamentos com a equipe brasileira e intermediação entre outros técnicos(motorista). Presença obrigatória em todos os dias da turnê, incluindo no evento de fan meeting.
O único ponto positivo é que a comissão não era nada ruim e ainda poderia roubar umas olhadelas desse tal de Kim Seok-woo, que segundo minha rápida pesquisa, não era lá de se jogar fora. Ora, ora, Julee. Controle-se ou vão te acusar de assédio, pensei comigo mesma.
A reunião introdutória com Kim-ssi estava marcada para daqui a 30 minutos. Tempo suficiente para verificar minha aparência no banheiro ao fim do corredor. Sem maquiagem e apenas com um hidratante labial, minha aparência só poderia ser descrita como "profissional". Profissionalmente tediosa. Cabelo ondulado na altura no queixo, uma franja que fingia disfarçar uma testa que só poderia ser descrita como "charmosa". Charmosamente grande. Olhei o relógio. 15 minutos. Melhor voltar para a sala de reuniões.
Do lado de fora da sala de reuniões, um segurança que não estava lá antes guardava a porta.Pela aparência e postura, parecia ser um dos seguranças coreanos de Kim-ssi. Adotei um ar profissional e diplomático e no momento em que me ia me dirigir a ele, informando que era a intérprete contratada, ele se adiantou e disse em inglês quebrado:
— No coffee. No asked coffee.
Perplexa por um momento, comecei a responder que não tinha entendido... Café? Senti um misto de emoções se amontoando.Não seria a primeira vez que alguém me confundira com uma copeira, cozinheira, empregada. Afinal, quem imaginaria que uma mestiça, predominantemente negra, poderia ser a intérprete contrada, não é mesmo? Que concepção absurda.Engulido a ira que borbulhava no estômago, respondi em coreano polido:
—Ajushi, sou a intéprete Nobre Julee. Muito prazer.
Falei estendendo o cartão de visitas. Fiz um mínima mesura e entrei na sala sem esperar que ele me respondesse.
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