O Instinto
3 Com minha dor não se brinca
Notas iniciais
TRÊS:
... eu já disse que não.
E o grande medo parece se tornar real: meu amor enfim repete o erro que cometi.
"Por que não fazemos um ménage?"
Risos embebidos de álcool. Estoura a rolha de uma garrafa.
"Olha, Davi, eu acho que a sua namorada está ficando animada."
À menção de meu nome, saio da concha. Não o faço de todo, claro; ergo os olhinhos pela fresta apenas o suficiente para ter uma perspectiva impressionista da cena.
Ah, por quê? Nada mudou. Estás indecente. Inadequada. Tu te esparramas sobre o colo de Ernesto com a mesma segurança que me encanta e me intimida em ti.
Então, dou de ombros.
"Diga-me quando ela não está animada."
Piscadela. Boca entreaberta. Ponta da garrafa roçando no lábio superior, inferior, entrando, entrando. Chupas feito fosse outra coisa, eu bem sei o quê. Vai deslizando, tirando... Estalo.
"Já estão considerando o ménage?"
Rebuliço silencioso. Nós, homens, piscamos.
"Olha," Ernesto começa, não sem suspeita falta de ar "depois dessa..." Pausa. Procura-me com as vistas. "Com todo respeito, parceiro."
Respeito... Que respeito?!
Tu és uma mulher que sabe o que quer. Jamais perdes a chance de provocar. De maltratar. "Davi, amor, venha ficar ao meu lado." Vais amassando os lençóis…
Respeito é o caralho!
Deito-me a colar nossos corpos. Meu pau esfrega nas tuas costas. Suspiras, ah, suspiras… Perversa! Estapeio a tua bunda! Forte, forte, de novo, forte! Irei te ensinar a jamais me fazer de bobo novamente com essa tua maldita poligamia! Meto o nariz no teu pescoço. Cheiro bom, cheiro de presa indefesa… “Sai daqui, Ernesto…” eu rosno. Preciso te morder, te lamber, te comer... “Oh, no,” tu interrompes. “Hoje eu quero dois homens.” Depravada! Agarro-te pelo braço, sem dó! Puxo, puxo, puxo, tu não reclamas. Tranco o banheiro e te jogo na porta. Tua reação? Começas a rir. Bêbada ou sóbria? Apenas sei que tenho medo do som, tenho medo de ti e de tudo, e então percebo: caí em cárcere. “Por que você está rindo? Por quê?”
“Oh, Davi. Quer me bater por ciúmes? Pois bem, que pelo menos você tenha motivos para isso.” Não entendo. Gargalhas mais, a cabeça tremendo contra o madeiro. “Pegue meu celular no quarto.”
“Como?”
“Pegue meu celular no quarto, Davi, e deixe eu te mostrar.”
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