O Incomodo de Neve

1 Capítulo 1 e único


O frio era intenso naquela noite, a lareira da estalagem trepidava. Todos já estavam a dormir, exceto pelo dono do estabelecimento. Um senhor grisalho de longas barbas que sentado ao lado do fogo se aquecia em memórias felizes de uma vida pacata, um olhar cansado, porém satisfeito. Havia sido um dia muito tranquilo, nenhum grande conflito na cidade, mas esse sossego estava por findar.

A porta da estalagem se abre violentamente, por ela entra um jovem ofegante, de pele branca que estava avermelhada, trajava uma armadura de couro e vestes de tons amadeirados escuros e carregando uma mochila pesada. Logo após sua entrada deste entra um grande cão, de pelagem brilhante e olhar determinado, aparentemente era o companheiro do homem. Assim que ambos entraram a neve começou a cair. O jovem se volta ao senhor e lhe diz:

—Me desculpe, mas teria algum quarto vago? Nem me lembro a quanto tempo que eu to andando._ A voz do jovem se tornava progressivamente mais aguda.

—Rapaz isso vai ser um incomodo, mas acredito que não vai ser pior do que a nevasca que se aproxima. Não poderia negar um quarto a alguém nesta condição. Pode pegar uma chave, os quartos estão enumerados e deixe o dinheiro sobre o balcão, na minha idade se levantar e sentar são coisas meio complicadas._Dizia em tom de deboche, visivelmente gozava de boa saúde.

—Muito obrigado tá, quanto é o quarto?

O senhor sinaliza com suas mãos seis peças de prata. O rapaz deixa o dinheiro sobre o balcão, pega a chave de dirige-se ao quarto onde cai sobre a cama de exaustão. Rapidamente dorme, e em seu sono penetram seus medos e receios do que acontecera a três dias. Os pesadelos tomavam conta de sua alma gradativamente, imagens da mão negra que arrastou sua esposa para si em desespero. O homem acorda na noite, em choque, várias vezes em reflexões sobre o que aconteceu, quais seriam os próximos passos de sua empreitada, a impossibilidade da desistência.

Amanhecia um dia branco e brilhante, uma beleza que estava longe da apreciação de nosso protagonista. Não que lhe fosse um desagrado, mas lhe passava longe da mente todo e qualquer pensamento que fugisse muito de seu foco. No momento a neve mais lhe seria um obstáculo do que um mero ornamento da natureza. Durante a primeira refeição do dia e a única no local antes de deixa-lo o dono da estalagem o questiona, enquanto escreve uma carta:

—Sei que pode ser intromissão minha, mas o que lhe trás tão desesperadamente a esta vila? Sabe, tenho meus motivos para crer que este pelo menos é um ponto importante em sua jornada.

—Bem, eu tava procurando por um oráculo e me disseram que tem um aqui certo?_ Respondia meio desanimado.

— Entendo, bem sua procura não é em vão, há uma casa sim onde pode ser encontrado um oráculo. É fácil acha-lo, ele vive no sul da vila, não tem muito erro, é a única casa onde sempre está estendido um grande tecido roxo na lateral. Não quero ser intrometido, nem arranjar qualquer tipo de problema, mas você me pareceu boa pessoa, espero que isso ajude.

O rapaz agradece e parte em direção da casa do oráculo. Realmente era fácil de achar, batendo a porta foi atendido por uma garotinha, que se apresentou como a filha do místico que procurava. Ela o dirigiu a uma porta coberta por uma cortina roxa, entrando por lá teve a visão do homem que lhe ajudaria. Tinha o corpo coberto por tatuagens e cicatrizes, os olhos eram completamente brancos, mas se movia como se enxergasse, era careca, trajava apenas calças escuras e estava cercado por velas aromáticas que impregnavam o ambiente com um forte odor doce. O vidente andava acendendo as velas calmamente com um sorriso muito simpático no rosto embora fosse uma figura imponente e de constituição robusta. O oráculo se vira ao jovem e lhe diz em tom absolutamente sereno:

— Eu sabia que você viria meu amigo, sei que seus motivos para estar aqui são mais que justos, nada lhe cobrarei. Sua amada está bem, e sua principal sorte é que ela não está longe. No momento ela está há dois dias de viagem daqui, em oito horas ao sudeste você chegará a uma nova vila onde encontrará uma velha amizade peculiar e receberá um título. Haverão percalços, mas acredito que você passará por eles, não que esteja em minhas visões sua vitória, mas confio em você.

O rapaz fica estupefato com a confiança que o oráculo tinha no que falava, mais ainda no que havia acabado de ouvir, ninguém há dias de distância teria como saber o motivo de sua jornada. Ele é convidado para um chá e uma conversa amistosa, afinal ainda precisava recuperar os ânimos para poder prosseguir. Em uma despedida coberta de desejos de boa sorte e uma nova amizade construída a partida de volta a jornada se faz.

Não havia sinal de civilização ao redor além da própria estrada, o chão branco do descampado só dava espaço à estrada construída com perdas de cheiro estranho que se mantinham relativamente úmidas. A caminhada já se estendia por horas, quando repentinamente o cão para, suas orelhas se erguem em estado de alerta. Nosso protagonista mal tem tempo de dirigir a palavra ao animal, de repente da neve se ergue uma criatura grande, facilmente tendo o dobro de sua altura, corpo visivelmente musculoso que o golpeia certeiramente com o braço, o jogando ao chão fora da estrada. A dor do impacto era tremenda, mas não lhe tinha causado grandes ferimentos, pela primeira vez o frio fora seu aliado, a neve amorteceu o impacto no chão. Sua mente entra rapidamente em estado de sobrevivência, o coração acelera e brevemente seus sentidos se alteram, não havia mais frio ou dor, só um impulso: lutar ou correr. A sorte lhe sorrira, sua bolsa de óleo de lampião havia caído fora da mochila. A carregava com grande quantidade, atirou-a sobre o inimigo acertando em cheio seu rosto, estava cego momentaneamente, mas não seria o suficiente para lhe permitir a fuga. Rápido e certeiro pega em sua mochila um pano ao qual ateia fogo com sua pederneira e o lança sobre a criatura que o ameaçava. O incêndio é instantâneo e contínuo. O monstro se deita no chão e rola de um lado a outro na esperança de apagar o fogo dando a brecha para a fuga do rapaz que mal sabia, mas havia condenado a criatura, cujo corpo era da mesma composição que cogumelos e bolores, fogo não se extinguiria, pois seu corpo já havia absorvido o óleo e o incêndio se espalhado em seu interior, o transformando em uma fornalha viva, sem qualquer chance de salvação ou alívio de sua dor.

Logo após a luta a dor novamente era sentida em seu tronco, ao fim da agitação da batalha as consequências eram sentidas, estava tremulo, dolorido e mal conseguia respirar após a corrida. Mas avistava algo que lhe traria finalmente conforto, finalmente chegava a outra vila como o oráculo o havia dito. A noite se aproximava e a única coisa de que sentia necessidade de um teto sobre a cabeça. Mais uma estalagem adentrava desta vez com calma, em seu diálogo com o dono, uma parte se ressalta sobre as demais.

— Rapaz, você me é familiar, parece muito com alguém que meu irmão descreveu em sua carta, por acaso esteve na vila a noroeste daqui?

—Sim.

—Ah, então deve ser o rapaz, o Incomodo das Neves.

Uma figura desce a escada e em tom de ironia:

—Incomodo das Neves é um título que combina bem com você seu trouxa.

—Edu???

— Já teve gente me contando do seu problema Incomodo das Neves, o oráculo me mandou uma carta, estranho vir endereçado ao mago biladeiro. Vamos logo você vai precisar de coisas do meu Weapon Room, mas não poderei seguir com você, não sei o porque, mas o oráculo disse que não era pra eu ir. No entanto tenho um mapa que pode te ajudar._ Edu pega o mapa e aponta uma marcação em vermelho e prossegue._ O Boss ta lá.

Na manhã seguinte, o Incomodo das Neves e Edu se dirigem ao Weapon Room. De lá são levados um arco e apenas uma flecha e uma pá. Ambos os objetos aparentemente de pouca utilidade, no entanto de grande poder mágico. O rapaz se dirige a saída da vila com um cavalo branco o qual comprara com muito custo e negociação e partiu a toda na direção apontada no mapa. O vento frio e a neve não faziam frente ao poder do equino, que parecia capaz de carregar um mundo nas costas. O ponto marcava o fim de um grande penhasco, lá era visível uma torre negra, cinco andares separavam o teto do chão.

Guardas não eram visíveis, nenhum sinal de vida ao redor, tudo estava silencioso, o incomodo das neves adentra pela janela à esquerda. Lá nada havia, três andares apenas escadas e paredes. A entrada do quarto andar uma figura ofegante, era a esposa de nosso protagonista, exausta. Ele corre a seu encontro e ela diz enquanto cai exausta em seus braços:

—Bem, você não vai acreditar no que me aconteceu, foi uma loucura. Mas o importante é que eu to bem, e tem um monte de malucos desmaiados lá em cima.

—Caramba, como é bom ter uma mulher forte e independente.

—É meu amor, porque se dependesse de você eu já tinha virado sacrifício._dizia isto rindo.

—Poxa, passei por tanta coisa até chegar aqui._responde o Incomodo das Neves com tristeza.

—Fica assim não amor, sem você acho que não conseguiria voltar para casa.

Eles trocam olhares carinhosos e lentamente se beijam.

FIM!

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!