Monstros, lugares sombrios e até a própria morte eram coisas instigantes para Vincent e aos poucos ele descobrira que Abigail também tinha seu lado mórbido. Mesmo que nunca houvesse acontecido um beijo, apenas várias trocas de palavras bonitas e carinhosas, eles decidiram que morariam juntos em um castelo com morcegos e aranhas.

Visitaram França, Alemanha, Itália, Noruega, Espanha, Brasil, Peru, País das Maravilhas, Nárnia, Hogsmeade, Asgard, Terra Média... Certa tarde, depois de verem o pôr do sol ao lado de Aslan, Mufasa e o pequeno Simba, embarcaram num navio rumo á suas respectivas casas.

— Tu estás magnifica! — Exclamou Vincent encarando-a.

Abigail usava um vestido preto e roxo, com um chapéu exageradamente grande, meio torto e também preto. Seus pés descalços e um guarda-chuva completavam á imagem. Uma pintura. Isso que ela era para Vincent, a mais bela obra de arte.

— Tu também estás excepcional — Respondeu com um sorriso. Acendeu o isqueiro e aproximou-o dos lábios de Vincent, que prendiam um cigarro.

Vincent era dono de uma classe e uma postura inconfundíveis. Usava um terno preto. Seus olhos estavam fundos e inchados, parecia que não dormia á dias — Vincent sempre parece que está sem dormir. — E seu cabelo terrivelmente bagunçado.

Havia muitas pessoas ali, desciam aos poucos e o navio continuava indo de porto em porto. O desembarque de Abigail estava próximo e, como de costume, Vincent a acompanhara até fora do navio.

— Não deverias andar com gente desta laia, Colegard — Disse uma garota com aquela odiosa cor de cabelo. Loiro. — Uma pobre, feia e de pele escura.

— Você deve ter se confundido, sou Vincent Allen, não Colegard — Respondeu num sussurro e continuou caminhando para fora do ônibus escolar.

— O que ela disse? — Perguntou Abigail.

— Que vem chuva aí — Respondeu tragando um cigarro.

Ficaram alguns segundos em silêncio observando o céu nublado. Ambos sabiam o que a garota dissera na verdade. Todos tinham preconceito por Abigail ser pobre e ter conseguido entrar na escola sem pagar. Sempre a excluem. Assim como fazem com Vincent, por ele ser estranho.

— Tchau, meu Vincent — Disse a jovem Abigail com seu uniforme surrado indo em direção á trilha que levava á casa dela.

— Tchau, minha dama da noite.

Quando Abigail deu as costas o ambiente inteiro sumiu. As árvores da primavera, floridas e cheias de vida, deram lugar á árvores mortas. Um passaro que observava em silêncio em um galho transformou-se em um grande corvo e o pássaro que montava seu ninho transformou-se num grande corvo. A jovem Abigail virou uma mulher. Em uma de suas mãos segurava o guarda-chuva aberto e um grande anel com a forma de um morcego entalhado na joia. A outra mão se perdia no vestido preto. Ele a observou até perdê-la de vista.

Fez-se ouvir a buzina do ônibus, mas ao virar-se Vincent encontrou o navio. Embarcou sendo coberto de xingamentos por aquele capitão que estranhamente parecia-se com o Edward, mãos de tesoura. Só que bêbado.

Ele tomou uma súbita coragem e desceu do navio.

— Hoje vou ficar por aqui Jack — Disse acenando para o capitão.

— Capitão Jack Sparrow! — Corrigiu o pirata aos berros.

E correu na direção de Abigail deixando um motorista confuso para trás que berrava para o garoto voltar. As primeiras gotas de chuva caíam como balas de canhão no chão e Vincent corria.

Correu por vales, montanhas, bosques. Quase caiu de um precipício.

— Nossa...

Vincent estava boquiaberto. Estava a cruzar uma ponte preta enfeitada com ossos e rubis. Linda.

— Cuidado garoto — Disse um homem que também passava pela ponte. — Ela já não é tão firme como antigamente.

Vincent não entendeu o que aquele estranho homem com uma corcunda que mais se parecia com casco de tartaruga quis dizer, ele apenas continuou andando com suas passadas fortes.

E a velha ponte rangia.

Avistou Abigail entrar em uma das casas que agregavam um ar sinistro á aquela rua. Estava chovendo fraco, mas Vincent já estava quase todo molhado. A casa era alta e fina. "Só pode conseguir ficar assim devido ao uso de magia" — Pensava Vincent Allen.

Ele segurou firme um crânio que havia no centro da porta e puxou fazendo-o subir, em seguida descer e bater na porta fazendo um barulho alto.

— Posso ajudar? — Perguntou um gremlin que abriu a porta.

— Vim ver Abigail — Respondeu.

O pequeno monstro bateu a porta no longo nariz de Vincent, tornando a abrir segundos depois. Mas quem estava á porta não era mais o gremlin, era um homem alto, forte, barba bem feita e cabelos ondulados. O sr. Swin.

— Vamos, garoto. Entre! — Disse gesticulando para dentro. — Você deve ser o Colegard, aqui ouvimos falar muito de você.

— Pai! — Disse a voz de Abigail.

— Vou fazer um chá para esquenta-lo, senhorzinho Colegard — Disse a sra. Swin. Era como uma cópia mais velha de Abigail. Simplesmente linda.

— Uísque, por favor — Disse Vincent — E é Allen, não Colegard.

— Desculpe A-l-l-e-n — Corrigiu com aquele sorriso que o deixava bobo e ele pensava que jamais o veria em outra pessoa além de Abigail. — Vamos, sente-se — Completou apontando o sofá.

Havia uma grande televisão ali, tão grande que Vincent julgava ser uma daquelas modernas televisões de vinte e nove polegadas. Uma estante de livros, enfeites, quadros e muitas outras coisas atrativas aos olhos do garoto.

Mas o que realmente lhe chamou a atenção foi uma armadura postada logo ao lado da mesa do jantar.

Comeram algo tão refinado que Vincent não sabia o que era. Então subiram até o quarto de Abigail.

— Desculpe pela simplicidade... Não temos dinheiro, mas você é recebido com muito carinho.

— Do que estais a falar, dama da noite? Eu admirei todos os detalhes da sua família... De seu mundo — Ele subiu uma escada do quarto e deu em uma torre de observação do céu. — Contento-me em fazer parte.

Ele puxava com carinho e ela o seguia como numa dança e, mesmo sem saber, ela já era o mundo dele.

— Olhe — Disse Vincent entregando uma luneta para Abigail.

— Vincent, isso é um pedaço de...

— Abra sua mente — Disse interrompendo-a.

Então o pequeno Vincent ao seu lado logo se tornou o grande Vincent Allen. Fumava seu cigarro sob um céu mais estrelado do que ela jamais vira.

— Eu te amo — Abigail encarava-o com um brilho intenso nos olhos.

Vincent corou sentado ao lado de sua amada. Aos poucos sua mão percorria a cama velha e quebrada em direção á mão de Abigail. Ele segurou com força e aos poucos aproximou seu rosto do rosto dela e então... O maldito gremlin subiu as escadas e surpreendeu-os sentados na mureta do terraço.

— Daniel! — Berrou Abigail. — Desculpe-me pelo meu irmão.

— Tudo bem — Respondeu sorrindo.

"Maldito gremlin!".

— Tem certeza que não quer que eu o leve? — Perguntou o sr. Swin. — Tudo bem então... Não vou insistir, estou com muita dor.

— O senhor parece muito bem sr. Swin — Disse-lhe Vincent sorrindo.

— É bem vindo quando quiser voltar. Nós somos simples, mas serás sempre tratado com respeito — Ponderou a sra. Swin.

— Esse é o lugar mais encantador que eu já vi — Vincent dizia enquanto olhava tudo ao redor em frente á casa dos Swin e gesticulava com os braços longos e finos. — Vocês são as pessoas de beleza inquestionável e exuberância gigante. Já que sou bem-vindo, voltarei em breve — Completou fazendo uma leve reverência.

— Deixe eles se despedirem, mulher — Disse o Sr. Swin abafando uma risada.

Deram um forte abraço e assim ficaram por vários segundos. Minutos. Horas. Dias. Anos... Não importava. Vincent encontrou, pela primeira vez, algo que se assemelhava com aquela tal vida feliz cuja qual ele tanto queria conhecer. Acendeu um cigarro e pôs-se a caminhar sozinho na noite com seu sobretudo negro e cantarolando marcha fúnebre de Frederic Chopin.