O Imaginário de Vincent Allen
4 Dia das Bruxas
— Onde você estava Vincent Colegard? — Gritava a bruxa para ele.
— Já disse, eu estava caçando fadas carnívoras — Repetiu o garoto pela décima vez. — Que custa acreditar?
— Você não é Vincent Allen, você é Vincent Colegard! — Berrava a bruxa descontrolada — Já está na hora de você amadurecer, estudar para assumir os negócios de seu pai e deixar essa bobagem de escrever e desenhar para trás.
Olhou para o pai, que no momento era apenas um pedaço de pedra. Imóvel. Inerte. Inútil. Odiava aquilo. Não sabia o porquê de seus pais serem tão feios e ruins enquanto os pais de Abigail... Tão belos e carinhosos. Nada daquilo lhe encantava. As jóias de sua mãe eram como sucata. A prataria, os móveis... Ele os enxergava como velhos e surrados. Ele não conseguia achar beleza em nada daquilo. Não é possível achar beleza onde não se é feliz.
Nem mesmo a surra que levou de sua mãe pôde diminuir a felicidade que ele sentia naquele dia. Logo Abigail estaria em seus braços e viveriam juntos até envelhecerem, mas a vida traça seus próprios planos sem se sequer dar a mínima atenção aos nossos. E nem sempre ela é boa conosco.
— Hoje é o dia dela! — Vociferou enquanto mexia em papéis. Era dia das bruxas.
— Não fale assim de sua mãe — Disse Abigail com sua voz serena.
— Mal conseguimos nos ver por causa dela — Andou até uma maca. Havia algo ali em baixo de um lençol fino. — Nós temos uma missão á cumprir, esqueceu?
— Não... Não esqueci — Respondeu enquanto observava curiosa. — O tesouro élfico... Mas vem cá, o que você está fazendo?
— Esta é a noite das bruxas, vou preparar algo que essa cidade jamais viu!
— E o que seria?
— Vou dar vida á um corpo inerte, morto.
— Um zumbi? Zumbi é muito clichê, esperava mais...
— Não vai ser um simples zumbi, ele se chamará Alfredo.
— Alfredo? Um zumbi chamado Alfredo — Disse pondo-se a rir. — Alfredo é nome de mordomo.
— Em nosso castelo precisaremos de um.
Ela sorriu. Vincent era estranho e meio sombrio, mesmo assim conseguia ser fofo.
Ele puxou uma alavanca e o teto se abriu. Estava com o cabelo mais bagunçado do que de costume e seus olhos estavam ainda mais fundos e escuros. A lua acabara de sobrepor o sol e banhar o zumbi-mordomo com o seu brilho, uma corrente elétrica percorrera todo o aposento por fios e foi direcionada para o cérebro de Alfredo. Nada aconteceu.
— Talvez tenha usado pouca eletricidade.
— Talvez...
Saíram juntos do porão da escola e de mãos dadas, um quarteto de alunos vestidos com capas pretas os observava com olhares maldosos. Ninguém sabia, mas tudo estava prestes a mudar. Não é só o natal que tem magia, o Halloween também tem seu poder. E a noite estava propicia para algo impossível acontecer e impossível era a palavra que Vincent mais gostava.
— Cuidado — Sussurrou Vincent quando chegaram numa curva. Estavam numa escola semidestruída e abarrotada de monstros.
— São Erica e Tiffany — Respondeu observando as garotas vestidas como princesas sombrias.
— Essas duas são os piores monstros que já vi — Disse Vincent lembrando-se das coisas maldosas que elas diziam sobre Abigail.
Foram até o pátio da escola e deram de cara com um homem perneta e de um olho só — O outro era apenas uma órbita vazia. — Ele sacou uma espada e começou a atacar enquanto gargalhava feito um louco. Vincent Allen também sacou sua espada e defendia-se do monstrengo com maestria.
— Meninos — Disse Abigail num tom autoritário. — Chega, né? Vamos perder a festa de dia das bruxas.
Na verdade o monstrengo era Victor MonteClaro, mas isso não o fazia menos estranho do que o monstro que Vincent imaginara. O garoto andava mancando, usava um tapa-olho e tinha os dentes bem sujos. Ele completava o trio, pois também era um rejeitado, pois, apesar de ser rico, a humildade prevalecia em seu caráter.
Vincent deu-lhe a mão para ajudar Victor a levantar. Sorriram e se cumprimentaram.
— Vamos á festa — Disse Victor com animação.
O perneta com o tapa-olho correu para o meio dos monstros que dançavam ao som de uma música estúpida para os ouvidos de Vincent, mesmo assim o garoto o seguiu. Sem soltar a mão de Abigail, claro.
Vincent estava vestido normalmente, suas roupas combinavam bem com a data festiva. Usava uma bota, uma calça nem apertada nem folgada e seu novo sobretudo que finalmente pôde tirar de sua imaginação e compra-lo depois de muito esforço, pois não queria o dinheiro dos pais. Sua aparência mórbida fazia-o parecer um morto-vivo.
Abigail usava um all-star surrado, uma calça apertada e um espartilho preto e vermelho — O qual Vincent comprara junto com seu sobretudo. — Victor estava menos sombrio e mais engraçado, usava um sapato de época de um marrom quase preto, uma meia que subia até sua canela, um short marrom que mal chegava aos joelhos com um suspensório e uma camisa branca por baixo e um chapéu no estilo Robin Hood.
De repente a bruxa loira invade a festa.
— Vá com Abigail até a entrada do caminho dos elfos, tenho algo a lhes contar — Disse para Victor. — Vão! Eu tenho que manter ela longe — Completou apontando para a bruxa-mãe que o procurava com fogo nos olhos.
Vincent correu até sua mãe, ela tramava algo. Estava conversando com aqueles mesmos quatro seres com capas pretas que lhe olharam feio mais cedo e a bruxa lhes entregara um saco.
— Olá — Disse sorrindo para a mãe. — O que fazes aqui, mulher?
— Não sou mulher, Vincent. Sou tua mãe! — A bruxa estava numa fúria acima da normalidade. — Soube que tu ainda estás a andar com aquela menina pobre de pele escura. Hoje essa história toda vai ter um fim.
— O que pretendes, bruxa?
Ela ergueu a mão e serviu-o um tabefe no rosto, deixando a marca da palma de sua mão.
— Garoto estúpido! Você não irá manchar o nome da nossa família — vociferou sobrepondo a música alta — Se você não tira ela da sua vida por bem, eu arrancarei á força.
E saiu com passos pesados.
Vincent teve medo e naquele momento mais do que nunca ele era Vincent Colegard, um menino fraco. Mas Vincent Allen era necessário agora, ele precisava salvar sua amada.
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