No fim de tarde de uma quarta-feira Vincent fez mais uma vez algo que deixava sua mãe furiosa, ele gostava disso. Mesmo com a pouca idade seu intelecto levemente avançado lhe permitia dizer sem sombras de dúvidas que Clarice era uma péssima mãe e era capaz de ser uma esposa pior ainda. Tinha desgosto dela e pena do pai. Na saída da escola ele conseguiu sair pela mata no fundo para que o motorista de sua família não pudesse vê-lo, ele sabia que o homem estava muito ocupado paquerando uma professora chamada Zita Jones. Já era uma senhora, mas Vincent ouviu dizer coisas surpreendentes sobre ela. Coisas que ele achou melhor guardar para si mesmo por conta de sua pouca idade.

Agora ele era um andarilho, não um qualquer... Mas sim um mago. Caminhava por um bosque procurando um meio de achar o lar dos elfos. A lenda diz que no centro da cidade dos elfos, nos esgotos, havia um tesouro escondido deixado por trolls numa fuga desesperada para salvarem suas próprias vidas. Elfos odiavam trolls, "mas obviamente gostam de magos" — Pensava ele.

Continuou caminhando bosque á dentro, até que avistou um pequeno vilarejo. Ficou a observar de longe, o único som que se ouvia era o do constante bate-papo das pessoas. Pareciam preocupadas.

Vincent Allen estava gostando daquele silêncio. Observava tudo ao redor. Ele notou desde o pequeno macaco que o observava do topo de uma árvore, até a menor aranha que havia por ali. Ele gostava de aranhas.

Um rosnado fez a espinha do mago gelar. Ele olhou lentamente para trás e preparou seu cajado. Era um Murgaror, um enorme cão de duas cabeças. A situação ficou mais séria quando ele viu que havia uma dama ali, uma linda camponesa de pele negra. A dama da noite.

— Fuja daí! — Berrou — É um Murgaror, ele vai te matar.

— O que você está dizendo, garoto? — Perguntou a menina que não era nada parecida com o que ele estava a imaginar, mas sim uma simples menina que vivia ali naquele pequeno conjunto de casas pobres — O que faz com esse pedaço de pau na mão?

— Não é um pedaço de pau, é meu cajado!

— E o que você está tentando fazer apontando ele pro meu cachorro?

O grande Murgaror na verdade era um pequeno vira-lata com um latido fino e nada ameaçador.

— É um Murgaror! Venha ver — Disse estendendo a mão.

A garota segurou a mão de Vincent e seu corpo inteiro foi coberto por um arrepio estranho. O garoto guiou-a até que ficasse frente á frente com o cachorro. Com os dedos, ele fechou os olhos dela e sussurrou:

— Feche seus olhos e abra sua mente.

— Sim — Respondeu respirando pausadamente.

— Respire normalmente... Isso... Agora abra os olhos e veja o Murgaror.

Ela soltou um grito abafado. O que estava á sua frente não era mais seu cachorrinho e sim um grande Murgaror de duas cabeças.

— Vamos Vincent Allen, temos que fugir daqui — Vociferou a garota puxando-o pela mão.

Vincent ergueu seu cajado e soltou uma nuvem de fumaça fedida no ar e passou a correr.

— Vamos Abigail Swin, precisamos ser rápidos.

— Como você soube meu nome? — Perguntou ela curiosa enquanto corria.

— Como você soube o meu? — Perguntou Vincent de volta.

Os dois sorriram e de mãos dadas continuaram a correr, o pequeno vira-lata se divertia seguindo-os enquanto a noite chegava depressa.

Vincent e Abigail lutaram contra o Murgaror e contra dois trolls aquele dia até que policiais encontraram o garoto e levaram-no á força, ele partiu com a promessa que regressaria para sua Abigail. Aqueles dois monstros gigantes não iriam impedi-lo.

— Ele estava na comunidade ribeirinha Sra. Colegard — Disse o policial quando o entregou para sua mãe.

— Muito obrigado Sr. Policial... Não sei o que eu faria sem o meu bebê — Disse Clarice fingindo um choro.

Mas agora o policial já havia ido embora. O teatro acabara e o que restara? O corpo do menino dolorido da surra que levou enquanto o pai assistia tudo calado.

— Na comunidade? — Perguntava sua mãe — O que diabos você queria lá? É uma gente sem classe, sem dinheiro e sujos, mal deveriam chama-los de humanos. Se você for para aqueles lados novamente, eu juro Vincent... Eu juro que faço aquele lugar arder em chamas.

Vincent passou os seis anos seguintes sem ir até á comunidade. Certo dia até tentou, mas antes que pudesse chegar um guarda o avistou e disse que era melhor ele obedecer a sua mãe. Ele sabia que era verdade, sabia que sua mãe era doida o suficiente e tinha dinheiro para fazer com que o fato fosse esquecido. Então ele continuou vivendo. Muito mais triste do que antes, desde o dia em que encontrara com Abigail ele nunca mais conseguiu entrar em seu mundo. Ele precisava dela.

Já com quatorze anos, na escola, ele sente algo em seu peito. Era como se uma batida forte tivesse feito seu mundo mudar. Tudo parou no tempo, exceto ele. Havia algo errado. Seu uniforme fora substituído por um traje preto, seu corpo crescera e agora tinha uma barba rala, estava na casa dos vinte e tantos anos. Correu para fora da sala, seguiu pelo corredor da direita e deu de cara com um vampiro. Dentes afiados e sujos de sangue, olhos vermelhos e pele pálida.

— Me dê o dinheiro do lanche — Disse o vampiro para uma mulher, uma linda negra de cabelos ondulados.

Vincent a reconheceu no mesmo instante. Era Abigail. Então ele sacou suas adagas e passou a lutar contra o monstro. O vampiro conseguiu deslocar o nariz de Vincent, mas logo o homem conseguiu fazer sua força sobrepor a do monstro.

— Vincent Allen — Disse Abigail correndo para abraça-lo — Isso foi incrível! — Disse olhando para o valentão caído no chão gemendo de dor. Ela pegou um lenço e limpou o sangue que escorria do nariz de Vincent — Obrigada — Acrescentou.

— Eu senti sua falta, doce Abigail.

— Tu me abandonaste!

Nesse momento eles não estavam mais na escola. Encontravam-se nas ruínas de uma pequena cidade. Era noite e o lugar estava coberto por uma bruma intensa emprestando um ar medonho ao lugar.

— Não diga tal besteira, dama da noite. Eu não sei muito do amor, mas em tudo que sei tem você. Não houve uma noite sequer desde aquele dia em que nos conhecemos que eu não sonhei em reencontrar essa boca que carrega algo que é mais poesia do que sorriso.

— Meu belo, sou tua.

Vincent abriu os olhos e seus lábios instintivamente se aproximavam dos de Abigail. Ele corou tanto que ficou rosa enquanto a menina lhe olhava com um sorriso bobo.

— Hm... É... Então, você agora estuda aqui?

Ela fez que sim.

— Você devia ter voltado para me ver...

— Eu tentei... Eu quis... Mas a bruxa ameaçou-me. Eu não poderia coloca-la em perigo.

De repente do meio da bruma surge à silhueta de um homem.

— Ei! Vocês dois, já pra sala — Disse o zelador.

Deste dia em diante Vincent e Abigail fariam parte da vida um do outro para todo o sempre.