Caso eu estivesse na Inglaterra e um inglês olhasse pra mim, diria que eu perdi minhas castanhas. O que significa que eu perdi a minha cabeça.

Essa nem Freud explicaria. Ou tentaria explicar, dizendo que eu estaria sofrendo um processo de regressão, um retorno a um modo de expressão mais infantil, um desenvolvimento anterior. Uma forma de aliviar a minha ansiedade, escapando da realidade e voltando ao meu comportamento de anos passados.

Não encarando a realidade ou tornando-a aceitável, fantasiando pensamentos que te agradaram no passado.

Minhas bolas de gude.

A infância de qualquer ser humano é uma fortaleza, onde a sua única responsabilidade era a prova de matemática daquela professora brava que tinha nome de boneca russa. Minha realidade invisível me forçava a apoiar em algo que pudesse me reerguer.

Lembro-me que, quando criança, eu brincava nos intervalos das aulas com bolas de gude, apostava minhas jóias que cuidava com todo o cuidado. Talvez nessa época eu sentisse uma confiança que há muito não sinto.

Havia acontecido muita coisa. O frio que eu nem vi chegar já estava indo embora.

Decidi que precisava dar um rumo na minha vida solitária. Conviver com a perda não estava sendo fácil, por isso me indicaram um psicanalista que inventava de perguntar sobre a minha infância toda maldita vez que eu aparecia por lá.

Eu dizia algumas coisas e inventei outras, ele mexia a cabeça, “sim, sim”, e anotava algo que eu acreditava que fosse sobre mim — deixava o cheque na mão dele após a sessão e voltava pra minha casa.

- Pelo menos está fazendo algo — diziam meus amigos sem indagar se aquilo tudo me faria bem.

Voltei a prestar atenção nas coisas que aconteciam ao meu redor, nas estrelas e na Lua, na brisa que despenteava o meu cabelo.

A falta que eu sentia de Angelina foi substituída por uma grande sensação de frustração e ódio, afinal ela fazia parte das minhas roupas, dos aromas, dos sons, estava embaixo da minha pele.

Agora só me restavam as bolas de gude.