O Herdeiro da terra

1 CAPÍTULO 1 — O VISITANTE


1 — UM MUNDO DESCONHECIDO

Muito além do céu que os seres humanos conheciam, existia um planeta chamado Aelthar.

Um mundo antigo.

Um mundo onde a magia fazia parte da própria existência.

Quatro grandes reinos dividiam suas terras.

Valtheria.

Elyndor.

Drakoryn.

Sylvaris.

E, além das regiões conhecidas, existia uma terra cercada por mistérios.

Azhara.

Uma região envolta por uma gigantesca névoa dourada, onde poucos haviam entrado e ainda menos haviam retornado.

No coração de Valtheria erguia-se um enorme palácio.

E naquele palácio vivia o homem que governava o reino havia mais de oitocentos anos.

Aren Valtherion.

Rei de Valtheria.

Aren era um Elythariano.

Sua aparência era semelhante à humana, mas havia diferenças sutis.

Seus olhos carregavam uma intensidade incomum.

Seu corpo possuía uma resistência muito superior à dos humanos.

E dentro dele existia uma quantidade extraordinária de energia mágica.

Mas, apesar de todo o poder e de todos os séculos de experiência, Aren possuía uma preocupação.

Seu único filho.

Kael Valtherion.

Desde criança, Kael demonstrava uma capacidade mágica extraordinária.

Aren acreditava que um dia seu filho seria um grande rei.

Mas Kael queria outra coisa.

Ele queria conhecer o universo.

Queria descobrir o que existia além de Aelthar.

Queria conhecer outros povos.

Outros mundos.

Outras civilizações.

Por isso, ainda jovem, começou a viajar entre planetas.

Foi durante uma dessas viagens que encontrou um pequeno planeta azul.

A Terra.



2 — A CHEGADA

Era o ano de 1874.

Naquela época, a humanidade ainda estava muito distante de compreender a verdadeira dimensão do universo.

As pessoas olhavam para o céu durante a noite e viam estrelas.

Para elas, aquelas luzes eram distantes.

Inalcançáveis.

Mas naquela noite, algo atravessou o céu.

Uma luz surgiu entre as estrelas.

Não era um meteoro.

Não era uma estrela cadente.

Era uma pequena nave.

Seu formato era elegante, completamente diferente de qualquer aeronave existente na Terra.

A nave atravessou as nuvens silenciosamente.

Nenhum motor conhecido poderia produzir aquele movimento.

Nenhum homem daquela época poderia explicar aquilo.

Dentro dela estava Kael.

Ele observava o planeta através de uma pequena janela.

Oceanos.

Montanhas.

Florestas.

Grandes áreas de terra.

Kael ficou em silêncio.

— Então este é o mundo humano...

A nave começou a descer.

Kael pousou em uma região afastada.

A porta se abriu.

Ele saiu.

O ar da Terra tocou seu rosto.

Kael respirou profundamente.

Era diferente de Aelthar.

Mas não era desagradável.

Ele caminhou por alguns minutos.

Até encontrar uma estrada.

Foi então que ouviu uma voz.

— Você está perdido?

Kael virou-se.

Uma jovem estava parada alguns metros atrás dele.

Ela usava roupas simples.

Seus cabelos estavam levemente bagunçados pelo vento.

Era Eleanor Whitmore.

Kael ficou alguns segundos sem responder.

Não porque não soubesse falar.

Mas porque, pela primeira vez em muito tempo, algo havia despertado sua curiosidade de uma maneira diferente.

— Talvez — respondeu ele.

Eleanor franziu a testa.

— Talvez?

Kael sorriu.

— É complicado.

Ela se aproximou.

— Você não é daqui, não é?

Kael olhou para ela.

Por um instante, pensou em contar a verdade.

Mas percebeu que aquilo poderia colocar Eleanor em perigo.

— Não exatamente.

Eleanor riu.

— Eu sabia.

Kael sorriu.

— Como?

— Porque eu conheço quase todo mundo daqui.

Ela apontou para ele.

— E nunca vi você antes.

Kael olhou para a mão dela.

— Kael.

— Eleanor.

Os dois apertaram as mãos.

E naquele momento começou uma história que mudaria o destino de dois mundos.



3 — KAEL E ELEANOR

Nos dias seguintes, Kael começou a permanecer perto de Eleanor.

Inicialmente, dizia a si mesmo que era apenas curiosidade.

Ele queria conhecer a humanidade.

Queria entender como aquele povo vivia.

Queria observar seus costumes.

Mas quanto mais tempo passava ao lado dela, mais difícil ficava manter aquela justificativa.

Eleanor mostrou a Kael coisas simples.

A cidade.

As casas.

As pessoas.

As feiras.

Os rios.

As montanhas.

Para Kael, tudo aquilo era fascinante.

Não porque fosse tecnologicamente avançado.

Muito pelo contrário.

A humanidade ainda estava começando a descobrir muitas das coisas que em Aelthar existiam havia séculos.

Mas Kael percebeu algo que nunca havia considerado.

Mesmo sem magia.

Mesmo sem conhecer outros mundos.

Os humanos possuíam algo especial.

Eles construíam.

Criavam.

Amavam.

Perdiam.

Continuavam.

E Eleanor era a melhor representação disso.

Certa tarde, os dois estavam sentados próximos a uma colina.

O sol estava desaparecendo no horizonte.

Eleanor olhou para Kael.

— Você nunca fala sobre sua família.

Kael ficou em silêncio.

— É complicado.

— Você sempre diz isso.

Ele riu.

— Porque realmente é.

Eleanor apoiou os braços sobre os joelhos.

— Então me conte alguma coisa que não seja complicada.

Kael pensou.

— Tenho um pai.

— E ele é como você?

Kael olhou para o céu.

— Muito mais poderoso.

Eleanor sorriu.

— Então você veio de uma família importante?

Kael demorou alguns segundos.

— Sim.

— Quanto?

Kael sorriu.

— Digamos que bastante.

Eleanor percebeu que havia algo escondido.

Mas não insistiu.

Ainda.

O relacionamento entre os dois cresceu lentamente.

Primeiro vieram as conversas.

Depois os passeios.

Depois os momentos em silêncio.

Até que Kael percebeu algo que nunca havia esperado.

Ele não queria mais partir.

Ele queria permanecer.

Com Eleanor.

Na Terra.



4 — UMA NOVA FAMÍLIA

Kael começou uma vida ao lado de Eleanor.

Para o mundo, ele era apenas um homem misterioso que havia aparecido naquela região.

Ninguém conhecia sua verdadeira origem.

Ninguém sabia que ele era um príncipe.

Ninguém sabia que, muito além das estrelas, existia um reino chamado Valtheria.

Eleanor também não sabia toda a verdade.

Mas sabia que Kael a amava.

E isso era suficiente.

No mesmo ano, nasceu Thomas.

O primeiro filho dos dois.

Kael segurou o menino nos braços.

Durante alguns segundos, não disse nada.

Seus olhos permaneceram fixos na criança.

Eleanor sorriu.

— Você está com medo?

Kael olhou para ela.

— Sim.

Ela riu.

— Você?

— Nunca tive algo tão importante para proteger.

Eleanor tocou delicadamente o rosto do filho.

— Ele vai ter uma vida boa.

Kael observou Thomas.

— Eu farei tudo para que tenha.

Mas Kael percebeu algo.

Algo que Eleanor ainda não podia perceber.

Havia energia dentro daquele pequeno corpo.

Uma energia diferente.

Thomas possuía sangue humano.

Mas também possuía sangue Elythariano.

Kael sabia que aquilo poderia mudar tudo.

Por isso tomou uma decisão.

Thomas não aprenderia magia.

Não enquanto fosse criança.

Kael queria que seu filho tivesse algo que ele próprio nunca tivera.

Uma infância normal.



5 — A INFÂNCIA DE THOMAS

Os anos passaram.

Thomas cresceu correndo pela casa.

Brincando.

Caindo.

Rindo.

Aprendendo.

Para ele, seu pai era apenas seu pai.

Ele não sabia que Kael havia viajado entre planetas.

Não sabia que existia outro mundo.

Não sabia que carregava sangue de uma raça mágica.

Kael observava tudo em silêncio.

Certa noite, Thomas dormia profundamente.

Eleanor também havia adormecido.

Kael estava sentado em uma cadeira próxima à janela.

Então ouviu um pequeno ruído.

Olhou para a mesa.

Um pequeno brinquedo de madeira estava sobre ela.

O objeto tremeu.

Kael ficou imóvel.

O brinquedo subiu alguns centímetros.

Flutuou.

Depois caiu.

Thomas continuou dormindo.

Kael lentamente se levantou.

Seus olhos ficaram sérios.

— Então começou...

Ele sabia o significado.

Thomas possuía magia.

Mas Kael não sabia que aquela pequena manifestação seria apenas o primeiro sinal de algo que atravessaria gerações.



6 — OS INVASORES

Naquele mesmo período, algo se aproximava da Terra.

Muito acima das nuvens.

Uma nave diferente da de Kael atravessava o espaço.

Dentro dela estavam os Varkhan.

Uma raça guerreira.

Durante anos, haviam viajado de planeta em planeta.

Seu mundo original havia sido perdido após conflitos com as forças de Aren Valtherion.

Agora procuravam um novo lar.

Quando encontraram a Terra, seus sensores analisaram o planeta.

Atmosfera adequada.

Gravidade adequada.

Oceanos.

Florestas.

Montanhas.

Tudo lembrava o mundo que haviam perdido.

Um dos Varkhan observou o planeta.

— É perfeito.

Outro respondeu:

— Então tomaremos.

A Terra não seria um lugar onde viveriam ao lado dos humanos.

Seria deles.



7 — KAEL SENTE A PRESENÇA

Na Terra, Kael estava em casa quando parou repentinamente.

Eleanor percebeu.

— O que aconteceu?

Kael olhou para o céu.

Algo havia mudado.

Ele conseguia sentir.

Energia.

Presenças.

Muitas.

— Eleanor...

Ela se aproximou.

— O quê?

Kael respirou fundo.

— Preciso que faça uma coisa.

— O quê?

— Fique com Thomas.

— Kael?

Ele olhou para ela.

Havia algo diferente em seus olhos.

— Não importa o que aconteça. Não saia daqui.

Eleanor segurou seu braço.

— Você está me assustando.

Kael sorriu levemente.

— Eu volto.

Então saiu.



8 — O CAMPO DE BATALHA

Kael chegou a uma região afastada.

O céu estava escuro.

Uma enorme nave Varkhan pairava acima do terreno.

As portas se abriram.

Os primeiros invasores desceram.

Kael permaneceu sozinho.

Um deles caminhou à frente.

— Você é humano?

Kael não respondeu.

Outro Varkhan percebeu a energia ao redor dele.

— Não.

Kael ergueu os olhos.

— Vocês não pertencem a este mundo.

O Varkhan sorriu.

— Agora pertencemos.

Kael fechou os punhos.

— Não.

O primeiro ataque veio sem aviso.

Uma rajada de energia atravessou o campo.

Kael levantou uma das mãos.

Uma barreira azul surgiu diante dele.

BOOOOM!

A explosão iluminou a região.

A barreira resistiu.

Kael desapareceu.

No instante seguinte, surgiu diante do primeiro Varkhan.

Seu punho atingiu o inimigo.

O impacto lançou o guerreiro vários metros para trás.

Outros avançaram.

Kael ergueu a mão.

O chão tremeu.

A terra se levantou.

Grandes blocos de pedra surgiram do solo e atingiram os invasores.

Mas os Varkhan eram guerreiros experientes.

Eles desviaram.

Um deles concentrou energia no braço.

Uma lâmina surgiu.

Kael desviou do golpe.

A lâmina passou a poucos centímetros de seu rosto.

Ele respondeu com uma descarga elétrica.

CRAAACK!

O raio atingiu o inimigo.

O Varkhan caiu.

Outro veio por trás.

Kael girou.

Criou uma barreira.

CLANG!

A lâmina de energia bateu contra o escudo.

Kael empurrou.

A explosão de energia lançou o guerreiro longe.

Mas eram muitos.

Kael percebeu que aquela batalha não terminaria rapidamente.



9 — O NÚCLEO DO VAZIO

Os Varkhan começaram a cercá-lo.

A energia deles aumentou.

Kael percebeu imediatamente.

— O que vocês estão fazendo?

Todos os guerreiros começaram a concentrar energia.

O espaço ao redor deles pareceu ficar mais pesado.

As luzes desapareceram.

O som diminuiu.

Uma esfera escura começou a se formar.

O Núcleo do Vazio.

Kael arregalou os olhos.

— Essa técnica...

Ele sabia que precisava impedir aquilo.

Os Varkhan lançaram o ataque.

Uma gigantesca onda de energia negra avançou.

Kael ergueu as duas mãos.

Uma barreira azul surgiu.

O impacto foi monstruoso.

BOOOOOOOM!

A barreira começou a rachar.

Kael foi empurrado para trás.

Seus pés abriram sulcos no chão.

Sangue começou a escorrer de seu rosto.

Ele apertou os dentes.

— Ainda não...

A barreira quebrou.

Kael foi lançado contra uma formação de pedras.

Seu corpo caiu.

Por alguns segundos, não se moveu.

Então levantou.

Devagar.

Ferido.

Mas ainda de pé.

Ele olhou para o céu.

Nuvens começaram a se formar.

Uma após outra.

O vento aumentou.

Os Varkhan olharam para cima.

Kael abriu os braços.

A energia mágica ao redor dele aumentou.

CÉU PARTILHADO.

O céu escureceu completamente.

Relâmpagos começaram a cair.

KRAAAAAK!

Um.

Dois.

Dez.

Dezenas.

A tempestade tomou conta do campo.

Os relâmpagos atingiam o chão ao redor dos Varkhan.

Kael reuniu toda a energia restante.

Uma lâmina azul surgiu em sua mão.

Ele avançou.



10 — A ÚLTIMA BATALHA

Kael atravessou o campo como um raio.

Um Varkhan tentou bloqueá-lo.

A lâmina de Kael cortou sua arma de energia.

Outro atacou.

Kael girou e atingiu seu peito.

Outro lançou uma rajada.

Kael desviou.

A energia explodiu atrás dele.

Ele avançou novamente.

Cada movimento exigia mais energia.

Cada ataque aumentava seus ferimentos.

Mas Kael continuava.

Porque sabia o que aconteceria se perdesse.

A Terra seria conquistada.

Eleanor e Thomas estariam entre os primeiros mortos.

Um último grupo de Varkhan concentrou o Núcleo do Vazio.

Kael respirou profundamente.

Seu corpo estava quase no limite.

Mas ainda havia energia.

Ele ergueu a lâmina.

O céu respondeu.

Um enorme relâmpago caiu sobre ele.

A energia percorreu seu corpo.

Kael avançou.

Os dois ataques colidiram.

BOOOOOOOOOOOM!

A explosão iluminou o céu.

O espaço ao redor deles pareceu se deformar.

A terra rachou.

Pedras foram lançadas para todos os lados.

As ondas de energia atravessaram a região.

Então...

Silêncio.

A poeira começou a baixar.

Kael estava de pé.

Os Varkhan haviam sido derrotados.

A Terra estava salva.

Mas Kael também havia perdido.

Seu corpo estava gravemente ferido.

A batalha havia ultrapassado todos os limites que seu corpo poderia suportar.

Ele caiu de joelhos.

A lâmina desapareceu.

Kael olhou para o céu.

Depois começou a caminhar.

Para casa.



11 — O ÚLTIMO RETORNO

Quando Kael chegou, Eleanor percebeu imediatamente.

Ela correu até ele.

— Kael!

Ele tentou sorrir.

— Eu voltei.

Eleanor segurou seu corpo.

— O que aconteceu?

Kael não respondeu.

Ela viu o sangue.

— Você está ferido!

— Eu sei.

— Precisamos de um médico!

Kael segurou sua mão.

— Eleanor...

Ela olhou para ele.

E naquele momento entendeu.

Não havia apenas dor em seu rosto.

Havia despedida.

— Não.

Kael respirou lentamente.

— Eu sinto muito.

— Não diga isso.

— Eu queria ter tido mais tempo.

Eleanor começou a chorar.

— Você disse que voltaria.

Kael olhou para ela.

— E voltei.

Ela o abraçou.

Kael fechou os olhos por alguns segundos.

Depois perguntou:

— Onde está Thomas?

— Dormindo.

Kael sorriu.

— Deixe-o dormir.

— Kael...

— Ele é tudo que temos.

Eleanor segurou seu rosto.

— Você não pode me deixar.

Kael respondeu quase em um sussurro:

— Eu nunca vou deixar vocês.



12 — A DESPEDIDA

Thomas era apenas uma criança.

Kael não teve coragem de acordá-lo.

Não queria que o último momento de seu filho com ele fosse uma despedida.

Queria que Thomas continuasse acreditando que seu pai estaria ali quando acordasse.

Kael ficou ao lado da cama durante alguns minutos.

Observou o filho dormir.

Passou a mão sobre seus cabelos.

— Viva uma vida feliz, Thomas.

Uma pequena lágrima caiu do rosto de Kael.

— Não precisa carregar o meu mundo.

Thomas se mexeu durante o sono.

Kael sorriu.

Então voltou para Eleanor.

Ela segurava sua mão.

Os dois ficaram juntos em silêncio.

Até que a respiração de Kael ficou mais fraca.

Eleanor apertou sua mão.

— Kael?

Ele abriu os olhos uma última vez.

Olhou para ela.

— Eu te amo.

Eleanor chorou.

— Eu também amo você.

Kael fechou os olhos.

E nunca mais os abriu.

O príncipe de Valtheria havia morrido.

Não de velhice.

Não por doença.

Mas pelas feridas recebidas defendendo um mundo que originalmente nem sequer era seu lar.

A Terra.

Eleanor.

Thomas.



13 — O LEGADO

Thomas cresceu.

A vida continuou.

Ele nunca conheceu toda a verdade sobre seu pai.

Mais tarde, casou-se.

Teve filhos.

Seus filhos tiveram filhos.

E seus descendentes continuaram vivendo na Terra.

Com o passar das gerações, a história de Kael foi se tornando apenas uma lembrança distante.

Depois, uma história.

Depois, quase nada.

O nome Valtherion desapareceu.

Aelthar tornou-se desconhecido.

A existência dos Elytharianos foi esquecida.

Mas o sangue permaneceu.

Por gerações.

Até chegar ao ano de 2004.



14 — A FAMÍLIA WHITMORE

Naquele ano, uma família comum vivia na Terra.

Daniel Whitmore.

Sua esposa, Helena.

E seus quatro filhos.

Isabella, de dezoito anos.

Nathan, de quatorze.

Ethan, de dez.

E Lucas.

Seis anos.

Lucas era o mais novo.

Um garoto curioso.

Cheio de energia.

Gostava de brincar.

Gostava de correr.

Fazia perguntas demais.

E frequentemente acabava se metendo em pequenas confusões.

Para ele, sua família era simplesmente sua família.

Nada de reis.

Nada de outros planetas.

Nada de magia.

Nada de destino.

Até aquela noite.



15 — A NAVE

Daniel estava em casa quando percebeu uma luz pela janela.

— Helena...

Ela se aproximou.

— O que foi?

Daniel apontou para o céu.

Uma enorme nave atravessava as nuvens.

Não havia som de motores.

Nenhum avião daquela época poderia se mover daquela maneira.

A nave desceu lentamente.

Lucas correu até a janela.

— Uau!

Isabella apareceu atrás dele.

Nathan também.

Ethan segurou a mão da mãe.

A nave pousou próxima à casa.

Uma porta se abriu.

Um homem saiu.

Alto.

Imponente.

Vestido com roupas diferentes de qualquer coisa que aquela família já havia visto.

Ele caminhou até a casa.

Daniel abriu a porta.

— Quem é você?

O homem respondeu:

— Aren Valtherion.

Daniel franziu a testa.

— Eu não conheço você.

Aren olhou para ele.

— Mas eu conheço sua família.

Silêncio.

Helena apareceu.

— O que o senhor quer?

Aren olhou para as crianças.

Seus olhos pararam em Lucas.

Por alguns segundos, não disse nada.

Então falou:

— Eu encontrei vocês.

Daniel ficou confuso.

— Encontrou?

— Sim.

Aren respirou profundamente.

— Vocês são descendentes de Kael Valtherion.

O nome não significava nada para eles.

Daniel balançou a cabeça.

— Não conheço nenhum Kael.

— Eu sei.

Aren entrou lentamente.

— Porque sua família esqueceu.



16 — A VERDADE

Aren contou tudo.

Contou sobre Aelthar.

Sobre os Elytharianos.

Sobre Valtheria.

Sobre Kael.

Sobre a Terra.

Sobre Thomas.

Daniel ficou em silêncio.

Helena não sabia o que pensar.

Isabella achava aquilo impossível.

Nathan estava fascinado.

Ethan parecia assustado.

Lucas apenas observava Aren.

— Então meu... tataravô veio de outro planeta?

Aren olhou para ele.

— Sim.

Lucas arregalou os olhos.

— Sério?

Aren sorriu.

— Muito sério.

Daniel ainda não acreditava.

— Isso é impossível.

Aren ergueu uma das mãos.

A energia começou a se formar.

Uma luz azul surgiu no centro da sala.

Daniel deu um passo para trás.

A luz aumentou.

Formando um círculo.

Um portal.

A família inteira ficou em silêncio.

Aren olhou para eles.

— Agora vocês podem decidir se querem continuar acreditando que é impossível.



17 — O HERDEIRO

Mas Aren tinha outra razão para ter procurado aquela família.

Ele precisava de um herdeiro.

Kael havia sido seu único filho.

E aquela família era sua única ligação viva com sua linhagem.

Aren observou cada uma das crianças.

Isabella.

Nathan.

Ethan.

Lucas.

Seu olhar permaneceu no mais novo.

Lucas tinha apenas seis anos.

Isso significava que havia mais tempo para treiná-lo.

Mas havia algo além disso.

A energia dentro dele.

Era diferente.

Muito maior do que a dos irmãos.

Aren percebeu imediatamente.

Lucas possuía o maior potencial mágico entre as quatro crianças.

Ele se aproximou.

Lucas levantou os olhos.

— Sim?

Aren ficou em silêncio por alguns segundos.

Então falou:

— Lucas.

O menino esperou.

— Você será preparado para se tornar o próximo herdeiro de Valtheria.

Lucas piscou.

— Herdeiro?

Aren assentiu.

Lucas olhou para os pais.

Depois para os irmãos.

Ele ainda não entendia o tamanho daquela decisão.

Não sabia o que era Valtheria.

Não conhecia Aelthar.

Não sabia o que significava ser príncipe.

Não sabia que seu sangue carregava a herança de Kael.

Não sabia que seu destino havia começado muito antes de seu nascimento.

Aren estendeu a mão.

Atrás dele, o portal azul continuava aberto.

Do outro lado estava Aelthar.

Um mundo de magia.

Reinos.

Criaturas desconhecidas.

Duas luas.

E segredos que haviam permanecido escondidos durante séculos.

Lucas segurou a mão de sua mãe.

Então olhou para o portal.

Pela primeira vez, sentiu que sua vida estava prestes a mudar.

A criança que havia crescido na Terra estava prestes a descobrir que seu mundo era muito maior do que imaginava.

E, sem saber, carregava dentro de si o legado de um príncipe que havia morrido protegendo a humanidade.

O legado de Kael Valtherion.

E o início da história do verdadeiro...

HERDEIRO DA TERRA.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.